A derrota da recente onda da extrema-direita política na Europa

Marcello Moreira Santiago

Resumo

As eleições ocorridas na Holanda, em 15 de março de 2017, tiveram como resultado a derrota do candidato da extrema direita, Geert Wilders, do Partido pela Liberdade (PVV, sigla em holandês). Com a apuração dos votos, o partido vencedor do candidato reeleito, Mark Rutte, do Partido Popular para a Liberdade e Democracia (VVD, sigla em holandês), obteve o direito a 33 cadeiras no Parlamento, enquanto a oposição de extrema direita ficou com 20 cadeiras. Já na França, no segundo turno da eleição presidencial, o candidato Emmanuel Macron, de centro direita, venceu por ampla margem (65,9% a 34,1%)  a candidata de extrema direita, Marine Le Pen (Elabe/BFM TV, 2017). Com base nos recentes acontecimentos, este artigo tem como objetivo analisar  as razões da derrota da  extrema direita europeia, na Holanda e na França.

Eleição na Holanda

Com um forte discurso contra a imigração, o partido de Wilders (PVV) obteve um significativo aumento de popularidade quando comparado à última eleição, em 2012, ganhando mais cinco cadeiras para se opor ao governo eleito. Levando em consideração que são 150 cadeiras para constituir o Parlamento, para se conseguir uma boa governança em seu segundo mandato, o primeiro ministro Mark Rutte do partido VVD deve tentar se coligar a outros partidos, visando obter a maioria simples, ou seja, 76 cadeiras (DUTCH ELECTION RESULTS, 2017). Desse modo, o dia seguinte às apurações foi marcado por conversas entre o VVD e os partidos Green Left, Democratas 66 e Democracia Cristã, que conseguiriam, juntos, alcançar 85 cadeiras para compor a coalizão governativa. Porém, observou-se, também, o crescimento da oposição de extrema direita, que obteve um total de 20 cadeiras e tenderá a ser mais ativa e importante do que no último governo. Esse crescimento da extrema-direita pode ser relacionado ao medo da população em relação aos atos de terrorismo no continente e às políticas rígidas propostas pelo partido, como, principalmente a imigração. (DUTCH ELECTIONS: RUTTE STARTS…, 2017).

O país possui uma taxa de 1.9 migrantes por 1000 habitantes, sendo a 50ª maior no mundo, e apesar de um número não muito expressivo, se comparado com outros países europeus, as pesquisas apontavam o candidato da extrema direita na liderança durante dezembro de 2016 até fevereiro de 2017. Esse aumento de adeptos ao projeto de anti-imigração e apoio à extrema direita pode ser associado ao recente movimento de cunho nacionalista, não só na Europa como nos Estados Unidos com a eleição de Donald Trump e seu discurso anti-imigração (NET MIGRATION RATE…,2016). A ampliação dessa corrente de pensamento no país tem como fundamento uma complexa rede de acontecimentos, desde atentados terroristas em solo europeu, promovidos por grupos extremistas, como os ocorridos na França, Inglaterra e Bélgica, até a crescente taxa de desempregados na Holanda. A combinação utilizada pela extrema direita pode ter sido um fator crucial para o avanço do chamado ceticismo europeu[i], uma vez que a taxa de desemprego alcançou, em 2014, o maior índice desde 1995, com 6.9% da força de trabalho fora do mercado (UNEMPLOYMENT, TOTAL… 2014).

Porém, com a proximidade da votação, as pesquisas registraram uma mudança nas intenções de voto, apontando a vitória do então primeiro ministro Mark Rutte. Essa tendência se concretizou no dia da eleição: com uma porcentagem de participação de 80% da população, a derrota da extrema direita ocorreu com uma diferença de 8% dos votos (DUTCH ELECTION: HIGH TURNOUT…,2017). A queda do número de eleitores de Wilders, no final da campanha, não possui uma causa certa, mas o argumento que relaciona tanto o terrorismo, quanto o desemprego, à imigração se torna infundado com os números divulgados de imigração no país. Segundo os dados, desde 2004 a taxa vem decrescendo anualmente, passando de 2.9 migrantes a cada 1000 habitantes (2004) a 1.9 (2014). Além disso, outra razão pela qual houve  reversão no movimento ascendente da extrema direita pode estar ligada ao fato de que não houve nenhum atentado no território holandês nos últimos anos (CITIZENSHIP AND IMMIGRANT…, 2014).

Eleição na França

O resultado das eleições presidenciais francesas confirmou a vitória do candidato de centro direita Emmanuel Macron, com 65,9% dos votos, contra 34,1% dos votos da candidata da extrema direita, Marine Le Pen. Após o primeiro turno, ambos os candidatos venceram importantes políticos como François Fillon do tradicional partido francês Republican e o candidato Benoît Hamon, do Partido Socialista. O presidente eleito governará pelos próximos cinco anos. No entanto a eleição legislativa de junho será importante para a governabilidade do país. (Centrista Emmanuel Macron…,2017).

O mais votado, Emmanuel Macron, do partido recém-criado En Marche, propõe a permanência do país na União Europeia, bem como uma estatização do seguro desemprego, além da criação de aproximadamente cinco mil cargos docentes. Já a adversária, Marine Le Pen, que deixou, durante as eleições, a liderança do partido Frente Nacional no dia 24 de abril, focou sua proposta na tentativa de solucionar a crise migratória europeia, dificultando a regularização do imigrante e limitando o saldo anual de imigrantes a 10 mil. Outro tema que provocou divergência entre os candidatos é o do bloco europeu, uma vez que se eleita, Le Pen convocaria um plebiscito sobre a possibilidade da saída do país da União Europeia (Macron e Le Pen: Dois…., 2017).

Em meio a uma crise migratória na Europa, a desunião dos países e políticas divergentes podem selar o destino da União Europeia. Desde o Brexit, essa onda de descrença no bloco europeu persiste, o que pode influenciar as decisões de outros Estados parte. Consequência que seria devastadora para países-membros, como a Eslovênia, que exportou para outros países da União Europeia 22 milhões de euros em bens, quanto para economias maiores, como Alemanha e a própria França, que possuem cerca de 60% de suas exportações de bens negociadas dentro do bloco (INTERNATIONAL TRADE IN GOODS…, 2016).

O movimento de ceticismo europeu francês ganhou popularidade e promoveu o crescimento da extrema direita, em um ambiente de baixo crescimento econômico que, em 2016, atingiu uma taxa de 0,6%, resultando em uma baixa aprovação do governo de François Hollande, do partido Socialista. Além disso, o medo da população causado pelos atentados em seu território, na sede do jornal Charlie Hebdo e na casa de show Bataclan, em 2015, e na cidade de Nice, em 2016, pode ter contribuído para esse cenário (FRANCE GDP GROWTH RATE, 2017).

Dessa forma, a esquerda política no país perdeu popularidade. A desistência de uma reeleição pelo atual presidente François Hollande permitiu que outro candidato do partido socialista, Benoît Hamon, disputasse a presidência. Porém, a ascensão da direita política no país proporcionou uma conversa entre o candidato Benoît Hamon e o candidato do partido Comunista Jean-Luc Mélenchon, visando unir a esquerda política da França, disputando com apenas uma campanha. Entretanto, as conversas não avançaram e com 6,3% e 19,6% de votos respectivamente, tais candidatos não disputaram o segundo turno (FRENCH PRESIDENTIAL ELECTION, 2017).

No entanto, a definição da eleição francesa, no segundo turno, resultou dos votos que no primeiro turno foram conferidos aos candidatos Fillón e Hamon, devido à posição política dos candidatos, que afirmaram apoio ao candidato do partido de centro direita. Tal apoio foi evidenciado a partir da análise de que as principais discordâncias entre Le Pen e Macron são em torno da imigração e das medidas econômicas. A postura do candidato do partido denominado En Marche, Emmanuel Macron, em tais aspectos, se aproxima mais dos aliados no segundo turno, do que Le Pen, principalmente em relação à imigração (MACRON AND LE PEN CLASH… , 2017).

Enfraquecendo ainda mais a relação entre imigração e terrorismo, como é marcante na perpetuação do ideal da extrema direita, a França possui uma taxa de migração de 1,1 imigrantes a cada 1000 habitantes, sendo, portanto, menor do que a da Holanda (NET MIGRATION RATE…,2016). Entretanto, ocorreram atos de terrorismo na França, diferentemente do país de Mark Rutte. Além disso, a maior taxa de desemprego francesa, que em 2017 chegou a 10%, também desqualifica a relação de emprego e imigração, uma vez que o nível de desemprego no país é maior entre os imigrantes, chegando a 17,4% (FRANCE UNEMPLOYMENT RATE, 2017) .

Conclusão

A conjuntura europeia de uma crise econômica que aumenta o desemprego e a insatisfação da população possibilita a ascensão de um movimento com medidas rígidas principalmente sobre a imigração. Após a baixa aprovação do governo de Hollande, a extrema direita utilizou de uma crise migratória para promover um nacionalismo que esteve presente no discurso de cada candidato, buscando uma solução e, possivelmente, um culpado pelo momento difícil (THE REASON FRENCH…,2016).

A maior participação da população na eleição, como há muito não ocorria na Holanda, culminando com a  derrota da extrema direita, representa uma afirmação contrária a esses ideais, e  pode estar relacionada a um entendimento da conjuntura internacional. O cenário exposto pelos candidatos como Le Pen e Wilders contraria os dados, tanto de migração, quanto de desemprego, e se aproveita de uma crise econômica, que gera insatisfação, para se colocar como uma alternativa ao poder. Não obstante, a derrota no território holandês não foi um evento isolado: a resposta da população frente aos movimentos de extrema direita tem mostrado sinais de avanço, refletida na vitória francesa de Macron.

Desse modo, com um discurso que não encontra evidências na realidade, associando fatos não relacionados e utilizando, principalmente, do senso comum em julgamentos sobre a imigração de refugiados, a extrema direita política não tem demonstrado capacidade de convencimento para chegar ao poder. Portanto, a popularidade dos ideais xenofóbicos[ii] ainda se limita a um determinado grupo da sociedade, uma vez que, tanto na maior participação na eleição holandesa quanto no resultado da França, a extrema direita política não conquistou os cargos em disputa. Porém, ainda há importantes eleições no continente, como na Itália e na Alemanha, que podem recolocar na agenda o tema do enfraquecimento do bloco da União Europeia.

Referências

ARANTES, Érica Alves; CHAGAS, Pedro Pinheiro; HAASE, Vitor Geraldi. A Natureza e a Criação da Xenofobia: uma perspectiva da neurociência cognitiva social. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2009.

CENTRISTA EMMANUEL MACRON VENCE ELEIÇÕES NA FRANÇA. Folha de São Paulo. maio 7, 2017. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2017/05/1881903-centrista-emmanuel-macron-vence-eleicoes-na-franca.shtml&gt;. Acesso em 16 maio 2017.

CITIZENSHIP AND IMMIGRANT INTEGRATION IN THE NETHERLANDS. MAAS, Willem. Disponível em: <https://soc.kuleuven.be/web/files/11/72/W13-64.pdf&gt;. Acesso em 13 abr. 2017.

DUTCH ELECTION: HIGH TURNOUT IN KEY NATIONAL VOTE. Al Jazeera, 15 mar. 2017. Disponível em: <http://www.aljazeera.com/news/2017/03/dutch-election-high-turnout-key-national-vote-170315170755942.html&gt;. Acesso em 13 abr. 2017.

DUTCH ELECTION RESULTS. Economist, 16 mar. 2017. Disponível em: <http://www.economist.com/blogs/graphicdetail/2017/03/daily-chart-10&gt;. Acesso em 13 abr. 2017.

DUTCH ELECTIONS: RUTTE STARTS COALITION TALKS AFTER BEATING WILDERS INTO SECOND – AS IT HAPPENED. The Guardian, 16 mar. 2017. Disponível em: <https://www.theguardian.com/world/live/2017/mar/15/dutch-election-voters-go-to-the-polls-in-the-netherlands-live&gt;. Acesso em 13 abr. 2017.

ENGAGEMENTS PRÉSIDENTIELS. Marine Le Pen. 2017. Disponível em: <https://www.marine2017.fr/wp-content/uploads/2017/02/projet-presidentiel-marine-le-pen.pdf&gt;. Acesso em 13 abr. 2017.

EXTREMA-DIREITA AGITA CRISE DE IDENTIDADE NA HOLANDA EM ELEIÇÕES DECISIVAS. Euronews. 13 mar. 2017. Disponível em: <http://pt.euronews.com/2017/03/13/extrema-direita-agita-crise-de-identidade-na-holanda-em-eleices-decisivas&gt;. Acesso em 13 abr. 2017.

FOREIGN-BORN UNEMPLOYMENT. OECD. 2015. Disponível em: <https://data.oecd.org/migration/foreign-born-unemployment.htm&gt;. Acesso em maio 4, 2017.

FRANCE GDP GROWTH RATE. Trading economics. 2017. Disponível em <http://www.tradingeconomics.com/france/gdp-growth&gt;. Acesso em 13 abr. 2017.

FRANCE UNEMPLOYMENT RATE. Trading economics. 2017. Disponível em: <http://www.tradingeconomics.com/france/unemployment-rate&gt;. Acesso em maio 4, 2017.

FRENCH PRESIDENTIAL ELECTION: POLL TRACKER AND ODDS. KIRK, Ashley; SCOTT, Patrick. 12 abr. 2017. Disponível em: <http://www.telegraph.co.uk/news/0/french-presidential-election-poll-tracker-odds/&gt;. Acesso em 13 abr. 2017.

INTERNATIONAL TRADE IN GOODS IN A NUTSHELL. EUROSTAT. 2016. Disponível em:<http://ec.europa.eu/eurostat/web/international-trade-in-goods/statistics-illustrated&gt;. Acesso em 13 abr. 2017.

Le Pen faces Macron in final round of French presidential election. CNN. 2017. Abril 24 2017. Disponível em: <http://edition.cnn.com/2017/04/23/europe/french-presidential-election-results/&gt;. Acesso em maio 4, 2017.

MACRON AND LE PEN CLASH IN PRESIDENTIAL DEBATE. Al Jazeera. 21 mar. 2017. Disponível em: <http://www.aljazeera.com/news/2017/03/macron-le-pen-france-presidential-debate-170321004856853.html&gt;. Acesso em 13 abr. 2017.

MACRON E LE PEN: DOIS CANDIDATOS, DUAS FRANÇAS OPOSTAS. O Globo. abril 24, 2017.Disponível em: <https://oglobo.globo.com/mundo/macron-le-pen-dois-candidatos-duas-francas-opostas-21246810&gt; Acesso em maio 4, 2017

NET MIGRATION RATE COMPARES THE DIFFERENCE BETWEEN THE NUMBER OF PERSONS ENTERING AND LEAVING A COUNTRY DURING THE YEAR PER 1,000 PERSONS (BASED ON MIDYEAR POPULATION). CIA, 2016. Disponível em <https://www.cia.gov/library/publications/the-world factbook/rankorder/2112rank.html#nl>. Acesso em 13 abr. 2017.

O QUE É ‘BREXIT’ – E COMO PODE AFETAR O REINO UNIDO E A UNIÃO EUROPEIA?. BBC, [S.l.], 17 jun. 2016. Disponível em: <http://www.bbc.com/portuguese/internacional-36555376> Acesso em 13 abr. 2017.

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PRESIDENCIAIS FRANÇA: MARINE LE PEN DEIXA LIDERANÇA DO PARTIDO FRENTE NACIONAL PARA SER “PRESIDENTE DE TODOS OS FRANCESES”. Euronews, abr. 24 2017. Disponível em: <http://pt.euronews.com/2017/04/24/presidenciais-franca-marine-le-pen-deixa-lideranca-do-partido-frente-nacional-para-ser-presidente-de-todos-os-franceses> Acesso em maio 4 2017.

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UNEMPLOYMENT, TOTAL (%OF TOTAL LABOR FORCE) (MODELED ILO ESTIMATE). International Labour Organization, 2014. Disponível em: <http://data.worldbank.org/indicator/SL.UEM.TOTL.ZS?end=2014&locations=NL&start=1991&gt;. Acesso em 13 abr. 2017.

[i] ceticismo europeu: descrença no funcionamento do bloco europeu.

[ii] xenofobia: aversão ao desconhecido, ao estrangeiro. Genericamente se apresenta através de comportamento discriminatório, incômodo, desgostoso e antipático de um grupo em relação a outro (Haase, Chagas e Arantes, 2009).

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