Escalada do conflito na península coreana: Como a Coreia do Sul está formulando sua segurança frente à ameaça norte coreana

Júlia Duca Reis Norberto

Sabrina Santos Pinto

Resumo

Em 12 de fevereiro de 2017, a Coreia do Norte realizou o lançamento de projéteis em direção ao mar do Japão, segundo o Estado Maior Conjunto de Seul (JCS). Essa ação norte coreana ativou os acordos, principalmente militares, entre os Estados Unidos e a Coreia do Sul, mas ao mesmo tempo enrijeceu a relação estadunidense com outros países asiáticos, como a China. Tendo este evento como base, este artigo objetiva analisar a postura dos principais atores envolvidos: Coreia do Norte, Coreia do Sul e Estados Unidos e, também, o efeito deste lançamento de projéteis em outros países asiáticos, especialmente na China.

A história da relação entre Coréia e Estados Unidos

No final do século XIX, na tentativa de colocar um fim às agressões japonesas, a Coréia firmou um acordo com o Japão, o que possibilitou a abertura para novos tratados. Objetivando maior estabilidade para a península, a Coréia, em 1882, estabeleceu o Tratado de Paz, Amizade, Comércio e Navegação com os Estados Unidos, que se expandia e industrializava (LEW, 2000). Ratificado em 1883, o acordo garantia que navios estadunidenses em situação de risco ou  necessitando abastecer poderiam entrar em qualquer porto coreano. Além disso, previa que cidadãos americanos em território coreano receberiam proteção das autoridades locais. A relação entre os dois países se deu de forma pacífica e amigável até 1905, quando o Japão passou a exercer domínio colonial sobre a Coréia e assumiu a direção dos seus assuntos internacionais até 1945. Com a rendição japonesa após a Segunda Guerra Mundial, duas potências vencedoras, Estados Unidos e União Soviética, dividiram a península coreana em duas zonas de influência, sendo a região norte protetorado soviético e a região sul, estadunidense (U.S. RELATIONS WITH THE… 2017).

O estado americano passou a apoiar a república do sul de forma ostensiva em questões militares, econômicas e políticas. Esse suporte foi consolidado pelo Tratado de Defesa Mútua entre Estados Unidos e Coreia do Sul. Ratificado em 1954, o acordo prevê a colaboração entre os países em casos de ataques armados externos, sendo este base de uma aliança que segue forte até hoje. Devido ao seu caráter militar, a convenção evidencia a ideia de complexo de segurança[1] entre EUA e Coreia do Sul, baseada na lógica de proteção e de interesses compartilhados, ideia explicitada na essência do tratado. Analisado como um problema recente, ambos os países trabalham em aliança contra o programa nuclear da Coreia do Norte (U.S. RELATIONS WITH THE… 2017).

Posição Estadunidense

O Secretário de Defesa dos EUA, James Mattis, realizou, em 2 de fevereiro de 2017, uma visita à Coreia do Sul para tratar da instalação do sistema antimísseis Terminal de Defesa Aérea de Alta Altitude (THAAD[1]). Fornecido pelos Estados Unidos, tal sistema tem o objetivo de levar mais proteção e segurança para o país em relação às ameaças norte coreanas. Entretanto, os opositores ao THAAD alegam que ele não seria suficiente para abranger todos os mísseis que a Coreia do Norte detém atualmente, uma vez que o sistema tem a capacidade de interceptar cerca de 240 mísseis. O fato é que não se sabe ao certo quantos projéteis a Coreia do Norte detém, gerando maior incerteza advinda de uma assimetria de informações entre os principais atores envolvidos (OPINIÃO: THAAD NA COREIA DO SUL… 2017).

A posição inicialmente indefinida do presidente estadunidense Donald Trump sobre o lançamento de projéteis norte-coreanos, em 12 de fevereiro de 2017, foi surpreendente, já que desde sua eleição Trump tem tomado atitudes incisivas. Esse posicionamento  não combina com o pronunciamento posterior de que os Estados Unidos estão preparados para retaliar o país norte coreano e que se colocam ao lado da Coréia do Sul devido às suas relações econômicas, políticas e diplomáticas: ambos trabalham juntos no combate a ameaças regionais e globais (U.S. RELATIONS WITH THE… 2017).

Tentativa de Desescalada

Os EUA e a Coreia do Sul mantêm exercícios militares que, a partir de uma visão estadunidense, estão associados com a proteção regional da Ásia em resposta à ameaça norte coreana. A China, em uma tentativa de mitigar o conflito, propôs que a Coreia do Norte cessasse o lançamento de mísseis e seu desenvolvimento nuclear e que os EUA e a Coreia do Sul interrompessem seus exercícios militares. Porém, os Estados Unidos rejeitaram a proposta chinesa com o argumento de que as duas ações, tanto os exercícios militares dos EUA e da Coreia do Sul, quanto a paralisação do lançamento de mísseis e do desenvolvimento nuclear norte coreano, não teriam ligação entre si e estariam sendo associados mesmo sendo ações para fins diferentes (EUA REJEITAM PROPOSTA CHINESA…,2017).

Japão e Coreia do Sul também foram contra: o embaixador sul-coreano declarou ser inapropriado relacionar provocação nuclear ilegal à atividade americana. A tentativa chinesa de interromper uma possível escalada de conflito, explicitada pela medida conciliatória, indica sua insatisfação com a situação que coloca em risco a segurança dos países do sul asiático (US REJECTS CHINA’S PROPOSAL… 2017).

Em relação à implantação do THAAD¹, Rússia e China declararam abertamente sua rejeição a esta proposta estadunidense, já que para estes Estados, tal sistema poderia ser utilizado para rastrear movimentações de todos os outros países na região. A China considerou o THAAD¹ como um possível espião de suas atividades, colocando em risco a sua segurança, já que informações sigilosas, ligadas em grande parte à área militar, poderiam ser facilmente descobertas (US REJECTS CHINA’S PROPOSAL… 2017).

Conclusão

A atual conjuntura do sul asiático deve ser tratada de maneira muito cautelosa, já que é influenciada por atores externos  a essa região, como os EUA. As ações e atitudes da Coreia do Sul, por mais que visem a segurança territorial, devem ser analisadas e compreendidas a partir de fatores históricos e atuais. É possível falar de um complexo de segurança sul asiático, já que os países levam em conta a segurança de seus vizinhos para pensar em sua própria.

A influência dos Estados Unidos na região analisada advém principalmente do Tratado de Mútua Defesa assinado com a Coreia do Sul, prevendo medidas que geram maior tensão na região como a instalação do THAAD. A proximidade geográfica entre as  Coreias, relacionada com a postura política contrária dos Estados Unidos à Coreia do Norte, bem como sua influência na península, provoca incerteza. O programa de desenvolvimento nuclear da Coreia do Norte está amedrontando e fazendo com que todos os estados da região se sintam ameaçados.

Assim, pode-se  concluir que a situação analisada mostra uma escalada da tensão na região asiática e também o quanto a posição dos EUA tornou-se necessária para pensar a relação de segurança entre os Estados sul asiáticos, principalmente na Península Coreana, que até os dias atuais não firmaram um acordo de paz entre si. Desta forma, a instalação de um sistema anti míssil na Coréia do Sul pode fazer com que os demais países envolvidos, principalmente a Coreia do Norte, entrem na situação do dilema de segurança[1], objetivando aumentar suas forças bélicas, o que implicaria em possível aumento de conflito na região.

O apoio estadunidense aos interesses e à segurança da Coreia do Sul demonstra o quanto os tratados podem ser duradouros. Para a China, esse tratado de mútua defesa e a instalação do  sistema THAAD, antimíssil, representam uma ameaça à sua segurança interna. Nesse sentido, os EUA poderiam ser considerados um ator interveniente na Ásia, já que as suas posições e atitudes, para com essa região, influenciam todos os outros atores envolvidos no sul asiático.

Referências

CHINA PROPÕE À COREIA DO NORTE ‘COMPROMISSO DE MÍSSEIS’. Sputnik, 08 mar. 2017. Disponível em: <http://sptnkne.ws/dJmX&gt;. Acesso em: 08 mar. 2017.

COMO É O SISTEMA ANTIMÍSSEIS QUE OS EUA ESTÃO INSTALANDO NA COREIA DO SUL – E POR QUE É TÃO POLÊMICO. – BBC, 08 mar. 2017. Disponível em: <http://www.bbc.com/portuguese/internacional-39207356&gt;. Acesso em: 09 mar. 2017.

EUA ESTÃO SE PREPARANDO PARA QUALQUER CENÁRIO COM COREIA DO NORTE. Sputnik, 08 mar. 2017. Disponível em: <http://sptnkne.ws/dJ2A&gt;. Acesso em: 09 mar. 2017.

EUA REJEITAM PROPOSTA CHINESA PARA COMPROMISSO DE MÍSSEIS COM COREIA DO NORTE. Sputnik,

JAPÃO EMITE DOCUMENTO CONTRA LANÇAMENTOS DE MÍSSEIS POR COREIA DO NORTE. Sputnik, 08 mar. 2017. Disponível em: <http://sptnkne.ws/dJpa&gt;. Acesso em: 09 mar. 2017.

LEW, Young Iek. Brief History of Korea: a Bird’s-Eye view. New York: The Korea Society, 2000.

MÍSSEIS DA COREIA DO NORTE CHEGAM CADA VEZ MAIS PERTO DO JAPÃO. Sputnik, 09 mar. 2017. Disponível em: <http://sptnkne.ws/dJKt&gt;. Acesso em: 11 mar. 2017.

OPINIÃO: COREIA DO NORTE DÁ MAIS UM PASSO PARA ULTRAPASSAR THAAD NORTE-AMERICANO. Sputnik, 09 mar. 2017. Disponível em: <http://sptnkne.ws/dJRN&gt;. Acesso em: 10 mar. 2017.

OPINIÃO: THAAD NA COREIA DO SUL APROXIMA GUERRA NUCLEAR. Sputnik, 06 fev. 2017. Disponível em: <http://sptnkne.ws/d3rv&gt;. Acesso em: 08 mar. 2017.

PESSOA, Emmanuelle. A perspectiva Estratégico Nuclear Norte-Americana para a Coreia do Norte: A questão do armamento nuclear.2013. 37 f. Dissertação (Trabalho de Conclusão de Curso). Centro de Ciências Biológicas e Sociais Aplicadas, Universidade Estadual da Paraíba, Paraíba.

PRESIDENT OBAMA remarks by President Obama and President Park of South Korea in a Joint Press Conference. East Room, 07 maio 2013. Disponível em:<https://obamawhitehouse.archives.gov/the-press-office/2013/05/07/remarks-president-obama-and-president-park-south-korea-joint-press-confe&gt;. Acesso em: 29 mar. 2017.

PYONGYANG CONFIRMA: OBJETIVO DO LANÇAMENTO FORAM BASES AMERICANAS NO JAPÃO. Sputnik, 07 mar. 2017. Disponível em: <http://sptnkne.ws/dHJR&gt;. Acesso em: 08 mar. 2017.

SCHELLING, Thomas. The Strategy of Conflict. 2ª edição. Cambridge (Mass.), Harvard University Press, 2003.

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TOMÉ, Luís. Segurança e Complexo de Segurança: Conceitos Operacionais.  e-journal of International Relations,Lisboa, outono 2010. Disponivel em: <http://observare.ual.pt/janus.net/images/stories/PDF/vol1/portuguese/pt_vol1_n1_art3.pdf>. Acesso em: 27 Mar 2017

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US AND NORTH KOREA SET FOR ‘HEAD-ON COLLISION’, CHINA WARNS. CNN, 08 mar. 2017. Disponível em: <http://edition.cnn.com/2017/03/08/asia/china-north-korea-wang-yi/index.html&gt;. Acesso em: 09 mar. 2017.

[1]                     Dilema de segurança: em um sistema de anarquia internacional o Estado procura se armar para garantir sua segurança, vendo esse Estado como mais forte, os outros vão buscar o mesmo caminho para se sentirem protegidos, propagando o ciclo.

[1]                     THAAD, sigla para Terminal de Defesa Aérea de Alta Altitude,  é o sistema de defesa antimísseis estadunidense.

[1]                       Complexos de segurança são gerados quando a percepção de segurança de um Estado não pode ser feita individualmente, e sim juntamente da análise da situação de seus países vizinhos em conjunto.

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