Para além das quatro linhas: a Guerra do Pacífico (1879-1884) e a histórica rivalidade entre Bolívia e Chile

Guilherme Felipe Jordão

Pedro Diniz Rocha

Resumo

A denúncia por parte da Federação Boliviana de Futebol (FBF), em setembro de 2016, relativa a cantos da torcida chilena fazendo apologia a Guerra do Pacífico (1979-1884) em jogo entre as duas seleções pelas eliminatórias sul-americanas da Copa do Mundo Rússia 2018 foi pretexto para acalentar uma vez mais a rivalidade entre os dois países. Assim, tendo como pano de fundo o fato exposto, o objetivo deste artigo é analisar a rivalidade chileno-boliviana e sua repercussão no futebol.

 

A Guerra do Pacífico e a rivalidade entre Bolívia e Chile

No dia oito de setembro de 2016, a Federação Boliviana de Futebol (FBF) denunciou a seleção Chilena à FIFA – órgão máximo do futebol mundial.  Segundo o próprio presidente da FBF, Rolando López, a torcida chilena cometeu aquilo que o código disciplinar denomina “condutas inapropriadas” em jogo válido pelas eliminatórias sul-americanas da Copa do Mundo Rússia 2018 entre Chile e Bolívia em Santiago, levando o caso à Comissão de Disciplina Desportiva avaliar e julgar qual a punição cabível à situação. A ação indevida viera da torcida chilena, que além de insultar diretamente o goleiro boliviano Carlos Lampe pela sua atuação em campo, insultou também toda a nação boliviana com o coro “olé, olé, olá, quem não pula não tem mar”, fazendo alusão à perda de acesso ao mar pelos bolivianos na Guerra do Pacífico. O presidente boliviano Evo Morales pronunciou-se o mais rápido possível invocando a Conmebol e a FIFA para tratar da situação(CORREO, 2016; BOLÍVIA DENUNCIA…, 2016).

A Guerra do Pacífico envolveu ambos os países no entrave de posse da região do Atacama entre 1879 e 1884, aonde, antes da guerra, compunha sem contestações o território boliviano. Desde meados da década de 1850 o Chile passa a apresentar interesse na região de Antofagasta (Bolívia) e Tarapacá, o que envolveu também o Perú na guerra devido a sua posse a este território. O motivo principal do interesse chileno fora a larga quantidade de guano[i] e salitre[ii]encontrados nas região. Sendo assim, o Estado chileno criou comissões militares que avançaram em direção ao território boliviano para aproveitar a falta de administração e interesse da Bolívia em explorar a região e os seus recursos. (CAIVANO, 1904; CHARÃO;FILIPPI, 2015).

Dois anos depois, em 1842, o Chile declarou posse dos depósitos de guano localizados nas costas do deserto e anexou a região de Antofagasta, denominada agora província de Atacama. As duas décadas seguintes foram marcadas por protestos e duras declarações pela parte boliviana que resultaram no Tratado de 1866 e, posteriormente, de 1874. No que tange a este último, o artigo quarto se põe relevante na medida em que seu suposto não cumprimento por parte do governo boliviano foi o motivo inicial da escalada dos conflitos (CAIVANO, 1904; CHARÃO;FILIPPI, 2015).

O artigo quatro declarava que a exportação de salitre e guapo realizada por empresas chilenas na Bolívia (e vice-versa) não poderia ser taxada em uma quota maior que a em tempos de firma do tratado. Entretanto, em fevereiro de 1878 o congresso boliviano dita uma elevação de 10 centavos o imposto por tonelada de Salitre exportado e o conflito entre Bolívia e Chile acaba por escalar. Como resultado, em fevereiro de 1879, o Chile declara nulo o tratado de 74, rompe as relações diplomáticas com a Bolívia e invade Antofagasta (CAIVANO, 1904; CHARÃO;FILIPPI, 2015; ORTEGA, 2006).

A Guerra do Pacífico iniciada em 1879 após invasão de Antofagasta pelo Chile acaba por se estender pelos próximos cinco anos. Se dividindo em três partes – i)campanha naval, com a conquista por parte do exército chileno dos principais portos da região de Atacama e Tarapacá; ii) campanha terrestre, com avanço do Chile em direção aos fortes de Tacna e Atica; iii) cerco a Lima – a guerra termina  em fins de 1883 com a assinatura do Tratado de Ancón e dá origem a um novo status quo pró-Chile que terá grandes consequências para a política regional e, em especial, para a relação entre este e a Bolívia (ASCHIERO, 2013; CHARÃO;FILIPPI, 2015; RENAULT, 1922).

A demanda por um acesso ao Mar

Parafraseando Ortega (2006), os resultados da Guerra do Pacífico transcendem o espaço-tempo em todos os pontos de vista. Após 1884, é visível a mudança do status quo em benefício chileno na medida em que este quase triplica seu território ao incorporar a antes região peruana de Tarapacá e o Atacama boliviano (ou antiga província de La Mar e atual região de Antogafasta). Cabe destacar, ainda, a riqueza mineral presente no espaço agora chileno. Eram, na época, enormes as reservas de guapo, salitre e cobre. A perda de La Mar por parte da Bolívia é até hoje uma das maiores cicatrizes no imaginário do país. A região dava acesso ao oceano pacífico e sua perda significou, em consequência, a perda do acesso ao mar. A partir do pós-Guerra do Pacífico, como destaca Morizon (2005), a demanda por um acesso ao mar e a reivindicação pela posse dos territórios perdidos passará a fazer parte do imaginário coletivo e da identidade boliviana(MORIZON, 2005; ORTEGA, 2006).

A derrota da Bolívia e a perda do acesso ao mar podem ser entendidas como um marco para o país. Ela se torna uma frustração intrínseca ao imaginário de todo boliviano e, ao longo das gerações, a demanda pela retomada da região do Atacama sempre vai estar presente.  Desde 1910, quando se publica um importante memorando, o governo da Bolívia declara que fará sempre todo o possível para reverter a situação e obter um porto no oceano pacífico. Por outro lado, apesar de em vários momentos durante o século XX os governos terem se aproximado politicamente, o Chile sempre tendeu a não ceder às demandas bolivianas. Além disso, o assunto é ainda hoje delicado para o país. Por exemplo, entre 2003 e 2004, quando o ex-presidente venezuelano Hugo Chávez declarou suporte à Bolívia na questão, o governo chileno de pronto retirou seu embaixador de Caracas (MORIZON, 2005).

Desde que assumiu o governo Boliviano, Evo Morales sempre volta em seus discursos à questão do acesso ao mar, tendo em 2013 entrado com ação na Corte Internacional de Justiça. Assim, era de se esperar que o mandatário logo se pronunciasse no que tange aos cantos da “La Roja”, como é conhecida a torcida chilena, e apoiasse a decisão de Rolando López, presidente da Federação Boliviana de Futebol que denunciou o caso. Apesar de não ter escalado as relações ente os dois governos, é interessante notar o reflexo no futebol da rivalidade política entre Bolívia e Chile (TRIBUNAL DE…, 2013).

A repercussão da acusação boliviana à FIFA gera mal-estar entre os países e mais um episódio de conflito consequente do forte imaginário boliviano em retomar sua posse ao mar e da provocação por parte da população chilena por tê-la conquistado. A partir deste fato, é possível demonstrar o quanto a rivalidade entre os dois países é enraizada na população de ambos, visto que se atrelou às suas identidades nacionais. Quanto ao caso de intolerância, a denúncia da FBF não resultou em nenhuma penalidade à seleção chilena por parte da Conmebol, havendo absolvição da mesma – a seleção do Chile poderia perder até dois mandos de campo – apesar da ação não cabível no futebol e em qualquer aspecto da conjuntura internacional. Segundo Arturo Salah, não há como ter controle deste tipo de circunstância e tomar atitudes punitivas para cada situação em que houverem hinos desrespeitosos sendo pronunciados em cada partida de futebol(ARRIETA, 2016).

Conclusão

 Em muitos sentidos é possível se afirmar que o futebol é mais do que só um jogo e que reflete em sua dinâmica a sociedade e o mundo em que vivemos.  Além disso, pode ser um potencial e importante palco para o aflorar tanto de disputas políticas, quanto para consolidar identidades nacionais. Defende-se aqui que esse é o caso quando tratamos da rivalidade entre Chile e Bolívia.

Como tentou-se demonstrar durante o texto, os confrontos entre as duas seleções nacionais tendem a ser recheados de disputa e tensão e, constantemente, mesmo após cerca de 125 da Guerra do Pacífico,  ambos os lados voltam-se para elas e para as suas consequências. É comum as referências nas músicas da “la roja”, como é chamada a torcida chilena, em jogos contra a Bolívia à conquista do Atacama, o que agrava a tensão e a repercussão da contenda dada a presença da demanda por um acesso ao mar nos corações e no imaginário coletivo da população boliviana.

Nesse sentido, o que poderia ser considerado apenas um cântico de estádio ou um simples jogo, muda de figura. Pode-se observar isso na postura de Evo Morales que, após a partida em começos de setembro deste ano, logo se pronunciou acerca do ocorrido, cobrando ação da Conmebol e da FIFA. Mesmo que em última instância o Chile tenha sido absolvido e, assim, não perderá os dois mandos de campo presentes no regulamento da competição, é possível a partir deste caso refletir acerca da íntima intersecção entre o futebol, a política e a sociedade.

Referências

ARRIETA, Daniel. Conmebol respaldó Chile y a Salahtras denuncia boliviana. CDF. Disponível em: <http://www.cdf.cl/cdf/site/artic/20160914/pags/20160914182122.html>. Acesso em: 24 nov. 2016

ASCHIERO, Ana María. Guerra Sudamericanadel Pacífico: 1979-1883. Revista Digital Universitaria, año 11, n.32, s/p, 2013

BOLÍVIA DENUNCIA Chile na Fifa por cantos da torcida sobre acesso ao mar. Globoesporte. Disponível em: <http://globoesporte.globo.com/futebol/copa-do-mundo/eliminatorias-america-do-sul/noticia/2016/09/bolivia-denuncia-chile-na-fifa-por-cantos-da-torcida-sobre-acesso-ao-mar.html?utm_source=Twitter&utm_medium=Social&utm_content=Esporte&utm_campaign=globoesportecom>. Acesso em: 24 nov. 2016

CAIVANO, Thomas. Historia de la guerra de America entre Chile, Perú y Bolívia. Florencia: Tipografia Dell’arte Della Stampa, 1904

CHARÃO, Carla; FILIPPI, Eduardo. Chile e Bolívia e o conflito para alcançar o oceano. Guerra do Pacífico e mudanças nas relações entre os dois países. Revista Conjuntura Austral, v.6, n.28, p.54-75 2015

CORREO. Evo Morales censura cantos discriminatórios deChile contra Bolívia. 2016. Disponível em: <http://diariocorreo.pe/deportes/evo-morales-censura-cantos-discriminatorios-de-chile-contra-bolivia-696610/>. Acesso em 24 Nov. 2016

MORIZON, Maina. La demande d’unaccès à lamer de laBolivie. Monografia – 77p. Institut d’Etudes Politiques de Lyon, 2006

ORTEGA, Luis. En torno a los orígenes de la Guerra del Pacífico: una visión desde la historia económica y social. AsianJournal of Latin American Studies, v.19, n.4, p. 27-58,2006

RENAULT, Francis. La Guerre du Pacifique (1979-1883): EtudeHistorique et Philatélique. Paris: Le Papier, 1922

TRIBUNAL DE Haiadiz que demanda boliviana contra Chile é “impecável. Opera Mundi. 2013.Disponívelem: <http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/28641/tribunal+de+haia+diz+que+demanda+boliviana+contra+chile+e+impecavel.shtml >. Acessoem 07 de dezembro de 2016

[i] Composto mineral produzido pelo acumulo de fezes de aves e morcegos utilizado na produção de fertilizantes.

[ii] Mineral composto por nitrato de sódio e nitrato de potássio, com ampla utilização em especial no que tange a produção de fertilizantes

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