A Aposta Brasileira e os Jogos Olímpicos de 2016: as expectativas e a realidade

Mikael Iago da Cunha Ferreira

Resumo

Em agosto de 2016, ocorrerá no Rio de Janeiro um dos maiores eventos esportivos do planeta, os Jogos Olímpicos. Este artigo pretender abordar os motivos que levaram o Brasil a se candidatar por meio do Rio de Janeiro, as expectativas geradas com a escolha pela cidade e a realidade encontrada na contagem regressiva para a realização do evento.

O soft power brasileiro

O conceito de soft power foi desenvolvido por Joseph Nye para explicar a demonstração de poder através da atração e não da coerção. Nesse sentido, o soft power é exercido através da cultura, ideias e das políticas adotadas. Na realidade, isso se transcreve das mais diversas formas, desde intercâmbios de alunos até a realização de diversos eventos (NYE apud GUERALDI, 2005).

Nessa lógica, o governo do ex-presidente Lula, utilizou a politica externa, conduzida pelo seu chanceler Celso Amorim, para  desenvolver um papel de liderança do Brasil no sistema internacional. Para que isso ocorresse, uma política externa “ativa e altiva”[i] foi realizada, costurando acordos comerciais e com potências em desenvolvimento, como China, India e África do Sul. Além disso, o governo de Lula exerceu com bastante avidez a ideia de soft power, pleiteando a sede dos maiores eventos esportivos do mundo em território brasileiro (GUERALDI, 2005).

Essas candidaturas resultaram na realização do Pan-Americano de 2007 no Rio de Janeiro. No entanto, foi derrotado em sua proposta de sediar as Olimpiadas de 2012, que acabaram ocorrendo em Londres. Todavia, o Brasil alcançou o posto de sede em 2009 para a realização da Copa do Mundo, em 2014, e para as Olimpiadas, em 2016 (GUERALDI, 2005). Nye defendeu a importância desses eventos para o fortalecimento do softpower evidenciando o caso dos países asiáticos que sediaram tais eventos (NYE, apud GUERALDI, 2005).

Isso pode ser observado na medida em que o prestigio internacional destes eventos foi utilizado diversas vezes com o objetivo de promover certos governos, como foi o caso da Alemanha, em 1936, e com a União Soviética, em 1980. Sendo assim, a relevância destes  não pode ser ignorada para o impacto na imagem brasileira no sistema internacional, visto que é uma clara tentativa da política externa brasileira desenvolvida ao longo do governo Lula para promover o soft power brasileiro e a imagem de sucesso do Brasil ao mundo (ALMEIDA, JUNIOR, 2014).

A escolha e o sonho olímpico

A realização de Jogos Olimpicos impõe sobre o país sede uma série de exigências e demandas que estão relacionadas a diversos fatores políticos econômicos e sociais. Os ganhos econômicos e sociais para os países sedes têm sido questionados nas últimas edições, visto que não se percebe tanto avanço quanto é prometido se comparados ao preço  de bilhões que são gastos somente pelo país sede, enquanto que este abre mão do controle do evento para o Comitê Olimpico Internacional (COI). Assim, o COI delega ao país sede o desenvolvimento da infraestrutura necessária para comportar o evento, além de estar sujeito à influência corporativa da mídia e dos patrocinadores do evento que se encontram reunidos através do próprio COI (OURIQUES, 2009).

Em meio a isso, o Brasil, no governo  do presidente Lula, em 2009, pleiteou sediar as Olimpíadas. Nesse sentido, Lula defendeu que a sede fosse na cidade do Rio de Janeiro. É necessário destacar também os discursos do presidente do Banco Central do Brasil na época, Henrique Meirelles, salientando a estável situação econômica brasileira e do governador do estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, afirmando que o estado passava por um novo momento de segurança (OURIQUES, 2009).

A vitória foi esmagadora do Rio de Janeiro superando  Madrid, Tokyo e Chigago com larga vantagem. O governo do Rio de Janeiro decretou feriado municipal  no dia da escolha. Muita expectativa foi desenvolvida em torno da escolha da cidade brasileira para o evento que seria pela primeira vez realizado na América do Sul (OURIQUES, 2009).

O fervor acerca da confirmação do Rio de Janeiro como sede das Olimpiadas, em 2016, gerou diversas promessas por parte do governo federal já que os bilhões seriam investidos e diversas melhorias poderiam ser desfrutadas pela população. A classe média carioca sonhava com os lucros e a expansão que teriam com o evento, enquanto o Estado já transmitia a ideia da potência olimpica brasileira para 2016, justificando os bilhões que seriam gastos para a realização do evento. Em apenas seis anos, a ideia era de que o Brasil se tornasse uma potência não só econômica, mas também esportiva, e as Olimpiadas serviriam para confirmar essa imagem ao mundo (OURIQUES, 2009). O problema é que, em meio às celebrações, todos esqueceram dos obstáculos que o Rio tinha que enfrentar.

A realidade

O projeto das Olimpiadas Rio 2016 abordava 27 projetos que deveriam compor o legado do evento para a cidade do Rio de Janeiro. O custo para estes projetos foi estimado em cerca de R$ 24 bilhões, sendo cerca de R$ 10 bilhões investidos pela iniciativa privada e o restante pelo governo. Destes 27 projetos, somente cinco impactam diretamente a população do Rio de Janeiro e não ficarão prontos até a realização das Olimpiadas, em agosto de 2016 (MAIORES LEGADOS…, 2015; PRINCIPAIS LEGADOS DOS…, 2015).

O principal deles, a despoluição da Baía de Guanabara, onde ocorrerá provas olímpicas, tinha como objetivo a despoluição de 80%, todavia, estima-se que alcançará no máximo 60%, ao final de 2016. Além disso, a despoluição do complexo da Barra da Tijuca não ficará pronto por um impasse entre órgãos estaduais e federais. Na questão de mobilidade urbana, o plano de Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), será entregue parcialmente até os jogos e a expansão da Linha 4 do metrô, também, será entregue sem a conclusão total das obras (MAIORES LEGADOS…, 2015).

Além dos problemas de atraso das obras, especialistas das Nações Unidas apontam para o prejuízo social dos grandes eventos no Brasil. A questão da expulsão de milhares de moradores próximas às obras das Olimpiadas expõem o lado obscuro do evento, que não chama a atenção dos holofotes. Geralmente, por serem habitações inadequadas e com habitantes de baixa renda e pouco acesso à informação, as expulsões ocorrem sem que as pessoas que lá habitam tenham conhecimentos dos seus direitos.

Outro problema que tem preocupado os comitês olímpicos e os órgãos de saúde, é o caso da epidemia do zika vírus também atinge o Brasil atualmente. Cogitou-se o cancelamento das Olímpiadas no Brasil, mas logo foi descartada pela confirmação de que seria uma bomba na já afetada imagem do Brasil no exterior. Ainda assim, a preocupação com as doenças transmitidas pelo Aedes aegypti[ii] é grande e pode causar diversos danos à imagem brasileira (CÔRREA 2016). Esses danos já podem ser analisados na medida em que diversos atletas se mostram relutantes de irem aos Jogos com a justificativa de temerem ser acometidos pelas doenças, como é o caso do astro do basquete americanp Carmelo Anthony, assim como a estrela tenista Serena Williams (GASOL 2016).

Por fim, há menos de 50 dias para a realização dos jogos, o governo do Estado do Rio de Janeiro decretou estado de calamidade pública devido às dificuldades financeiras enfrentadas pelo administração do estado. Como justificativa, o decreto inclui a dificuldade em honrar os compromissos com os Jogos e a chegada das delegações olímpicas em junho. A projeção do déficit de R$ 19 bilhões e a incapacidade de suprir as necessidades básicas nas áreas de saúde e segurança tornam a situação do Rio de Janeiro extremamente delicada, agravando a situação com a aproximação dos Jogos Olímpicos (BOECKEL, 2016).

Todos os problemas apresentados acabam ofuscando aquilo que deveria ser um espetáculo. A realização do evento seria uma forma de exibir a imagem da próspera democracia e economia brasileira ao mundo. Todavia, os acontecimentos recentes da política brasileira, da crise econômica e dos problemas com o mosquito Aedes aegypti ameaçam o principal objetivo do país quando pleiteou a sua candidatura.

Considerações Finais

É possível observar que os problemas enfrentados para a realização dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro contrastam com a expectativa gerada na escolha da sede. A aposta brasileira de sediar dois grandes eventos mundiais, a Copa do Mundo e as Olímpiadas, foi válida para a situação brasileira na época. Todavia, os inúmeros problemas políticos e econômicos, apareceram em um momento chave para o desfecho da realização destes eventos.

A realização dos Jogos Olímpicos é uma tarefa mais árdua que a da Copa do Mundo: alcançar sucesso em meio aos problemas políticos, econômicos e sociais não só do Rio de Janeiro, mas de todo o Brasil. Além disso, o próprio desinteresse brasileiro pelo evento e o surto do zika vírus chamam a atenção e preocupam as delegações olímpicas e as autoridades de saúde.

A aposta brasileira, em 2009, cheia de promessas e celebrações foi válida. Todavia, os custos para esta aposta foram muito altos, e os retornos não aparentam estar a altura do investimento. O Brasil estará mais uma vez no centro dos holofotes da imprensa mundial, e se o Brasil conseguirá ultrapassar toda a turbulência e mostrar que ainda consegue fazer um belo show, só o tempo dirá.

Referências

ALMEIDA, Bárbara Schautesck de; JÚNIOR, Wanderley Marchi. O BRASIL E OS MEGAEVENTOS ESPORTIVOS: os subsídios da política externa. Motrivivência, v.26, n42, p. 13-26, 2014.

BOECKEL, Cristina. et al. GOVERNO DO RIO DE JANEIRO DECRETA ESTADO DE CALAMIDADE PÚBLICA DEVIDO À CRISE. G1, Rio de Janeiro, 17 jun. 2016. Disponível em: <http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2016/06/governo-do-rj-decreta-estado-de-calamidade-publica-devido-crise.html&gt; Acesso em: 21 mar. 2016.

CÔRREA, Hudson. Et al. O ZIKA VAI ATRAPALHAR AS OLÍMPIADAS?. Exame, 02 fev. 2016. Disponível em: <http://epoca.globo.com/tempo/noticia/2016/02/o-zika-vai-atrapalhar-olimpiadas.html&gt; Acesso em: 21 jun. 2016.

FERNANDES, Angélica. Maiores legados dos Jogos de 2016 só serão totalmente concluídos após o evento. O DIA, 2015. Disponível em: <http://odia.ig.com.br/noticia/rio-de-janeiro/2015-05-03/maiores-legados-dos-jogos-de-2016-so-serao-totalmente-concluidos-apos-o-evento.html&gt; Acesso em: 13 jun. 2016.

GUERALDI, Ronaldo Guimarães. A Aplicação do Conceito de Poder Brando (soft power) na Política Externa Brasileira, 2005. Disponível em: <http://www.anpad.org.br/diversos/trabalhos/EnANPAD/enanpad_2005/APS/2005_APSB2081.pdf&gt; Acesso em: 10. Jun 2016.

OURIQUES, Nilson. Olímpiadas 2016: o desenvolvimento do subdesenvolvimento. Motrivivência. Nº32/33, p. 126-155, 2009.

PRINCIPAIS LEGADOS DOS JOGOS OLÍMPICOS 2016 PARA A CIDADE DO RIO. G1, 05 ago. 2015. Disponível em: <http://especiais.g1.globo.com/rio-de-janeiro/olimpiadas-rio-2016/principais-legados-dos-jogos-2016-para-a-cidade-do-rio/&gt; Acesso em: 20 jun. 2016.

GASOL, Paul. SONHO OLÍMPICO OU PESADELO SANITÁRIO. El País, 29 mai. 2016. Disponível em: <http://brasil.elpais.com/brasil/2016/05/29/deportes/1464539657_699143.html&gt; Acesso em: 20 jun. 2016.

[i] Política externa desenvolvida durante o governo do presidente Lula junto ao chanceler Celso Amorim, que consistia em uma política sem se submeter às decisões de grandes potências e ao assumir um protagonismo no sistema internacional.

[ii] Dengue, chikungunya e zika.

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