A “virada de jogo” nas eleições presidenciais do Peru

Marília Garcia Pereira Castro 

Resumo

No dia 9 de junho de 2016, foi declarada a vitória de Pedro Paulo Kuczinsky nas eleições presidenciais do Peru. A eleição foi bastante acirrada, com uma estreita diferença de 0,24% de votos entre ele e a outra candidata, Keiko Fujimori. Esta, por sua vez, havia estado à frente nas pesquisas durante boa parte do segundo turno e apresentou uma queda na semana anterior às eleições. O presente artigo busca analisar essa “virada de jogo” de Kuczinsky, bem como compreender a conjuntura das eleições peruanas de forma mais ampla e as possíveis consequências do novo governo.

Eleições Presidenciais no Peru

O primeiro turno das eleições presidenciais peruanas ocorreu no dia 10 de abril de 2016, com um total de dez candidatos. Os quatro candidatos com maior chance de seguir para o segundo turno eram, então, Keiko Fujimori do partido de direita “Força Popular”, Pedro Paulo Kuczinsky do partido de centro-direita “Peruanos pela Mudança”, Veronika Mendez da coalização de esquerda “Frente Ampla” e Alfredo Barnechea, do partido de centro “Ação Popular” (CUE; FOWKS, 2016). Nessa ocasião, Fujimori alcançou o maior número de votos, obtendo um total de 39,86%, enquanto Kuczinsky foi o escolhido para disputar o segundo turno com ela, com 21,05% dos votos (ONPE, 2016). Assim, percebe-se a alta popularidade de Fujimori nesse momento, que alcançou quase o dobro de votos do segundo colocado.

O Peru, após um momento de grande crescimento econômico, atualmente passa por uma queda no desempenho da economia. No período de 2003 a 2013, o país apresentou uma incrível média anual de crescimento superior a 6%, resultado em grande medida da exportação de minérios. Entretanto, após 2014 essa média caiu para 2,4%, devido ao recuo dos preços de cobre e ouro e as previsões para o futuro da economia do país não são favoráveis (GERCHMANN, 2016). O aumento do apoio à Keiko Fujimori está ligado justamente a isso, visto que a candidata demonstrou em sua campanha a realidade econômica do país.

No dia 5 de junho de 2016, a população peruana foi às urnas para votar no segundo turno das eleições. Após quatro dias, os resultados demonstraram que o candidato eleito foi Kuczinsky, com 50,12% dos votos, em uma disputa extremamente acirrada (BADCOCK, 2016). A vitória se deu em grande medida devido à forte oposição a Fujimori por parte dos movimentos sociais, artistas e intelectuais, principalmente por causa da ligação da candidata com o governo ditatorial de seu pai, Alberto Fujimori (1990-2000), que atualmente se encontra preso por crimes contra os direitos humanos e por corrupção (COLOMBO, 2016). Entretanto, é importante notar que o plano político dos dois candidatos era bem parecido, na medida em que ambos estão ligados à direita e defendem um modelo econômico neoliberal.

Fujimori, que liderou as pesquisas durante grande parte das eleições, conduziu uma campanha agressiva, em que expunha opiniões polêmicas como a oposição ao aborto e ao casamento gay e que ganhou grande apoio da classe conservadora. A campanha de Kuczinsky, por outro lado, esteve fortemente pautada no apoio de grupos de esquerda e centro-esquerda que eram contrários ao fujimorismo (AGENCIA BRASIL, 2016). Assim, o resultado das eleições demonstra mais a escolha do povo peruano em dizer “não” ao fujimorismo do que propriamente um apoio às ideias de Kuczinsky.

Oposição à Keiko Fujimori e “Virada de Jogo” de Kuczinsky

O principal argumento contrário à Keiko Fujimori diz respeito à associação com o governo ditatorial de Alberto Fujimori. Os opositores temem que Keiko, se fosse eleita, promoveria o indulto de seu pai. No ano de 1992, ele liderou um autogolpe militar, fechando o Congresso Nacional, prendendo senadores e promovendo o fechamento de uma série de meios de comunicação. Ao seu governo são creditadas perseguições extremamente brutais não apenas ao grupo marxista guerrilheiro Sendero Luminoso, mas à esquerda de forma geral (CHARLEAUX, 2016). Assim, o autoritarismo voltou a ser debatido no país, na medida em que havia um temor de que Keiko retomasse o fujimorismo.

Além disso, os opositores enfatizavam o desrespeito da candidata aos movimentos sociais. As minorias políticas, como as mulheres e os homossexuais, temiam que seus direitos não seriam atendidos caso Fujimori obtivesse a vitória. Isso fica explícito ao se observar as manifestações contra Keiko, que contaram com a presença de milhares de pessoas em diversas cidades do país, como Lima, Trujillo, Chiclayo, Arequipa, Puno, dentre outras (REDACCION, 2016).

Essa forte oposição a Fujimori pode ser vista ainda nas classes artísticas e intelectuais. Isso é percebido, por exemplo, a partir de declarações como a do poeta, Nobel de literatura, Mario Vargas Llosa, que afirma que com uma vitória da candidata, “a ditadura seria legitimada pelo eleitorado peruano” (MARIO VARGAS LLOSA…, 2016), ou da divulgação online do documentário “Seu nome é Fujimori” pelo diretor Fernando Vílchez, poucos dias antes da votação. O documentário é uma biografia não autorizada da família Fujimori, que busca demonstrar a influência negativa que esta possui nos rumos políticos do Peru (SU NOMBRE ES…, 2016).

A divulgação, a poucos dias das eleições, da informação de que Joaquin Ramírez Gamarra, congressista ligado à campanha de Fujimori e à “Força Popular”, estaria associado ao narcotráfico foi outro fator que contribuiu para a queda da candidata. Documentos da Drug Enforcement Administration (DEA) revelam esquemas de lavagem de dinheiro realizados pelo político e por seu tio, Fidel Ramírez Prado (CASTILLA; CRUZ, 2016). A associação do partido de Fujimori com o narcotráfico, enfatizada pelos opositores em diversos momentos, é um fator de extrema relevância para se compreender a ascensão de Kuczinsky no Peru.

A forte oposição a Fujimori, bem como o alinhamento de novas forças políticas, levaram o candidato Pedro Paulo Kuczinsky a subir nas pesquisas apenas uma semana antes da votação. Fujimori, que antes liderava as pesquisas com até 5 pontos percentuais à frente, se encontrou em um empate técnico com o outro candidato às vésperas do segundo turno das eleições (AQUINO, 2016). O fator essencial para essa ascensão de Kuczinsky foi o apoio recebido por membros de esquerda e centro-esquerda, incluindo Veronika Mendonza, a principal dirigente da esquerda no país, que preferem eleger um candidato de direita a correr o risco de uma volta do fujimorismo no Peru (CUE; FOWKS, 2016). Entretanto, muitos dos partidos que se alinharam a Kuczinsky afirmaram que serão oposição ao novo governo “desde o primeiro dia” (AGENCIA BRASIL, 2016).

Possíveis Consequências do Governo Kuczinsky

O novo presidente eleito do Peru afirmou que irá buscar, em seu governo, a participação de técnicos, mesmo de partidos de oposição como a Força Popular e a Frente Ampla (AGENCIA BRASIL, 2016). Entretanto, ainda restam dúvidas sobre como será o governo de Kuczinsky, visto que contará com oposição tanto por parte dos grupos de esquerda quanto por parte dos adeptos do fujimorismo. Há, ainda, o desafio de lidar com um Congresso de maioria fujimorista, que conseguiu 71 dos 93 assentos (CHARLEAUX, 2016). O partido de Kuczinsky, por outro lado, apresenta apenas 18 assentos no Congresso, o que pode gerar problemas em seu governo (ASSOCIATED PRESS, 2016). Assim, compreende-se a importância para o presidente de buscar mais alianças no momento.

O presidente deixou claro sua vontade de conseguir uma ligação com Keiko Fujimori, visto que possuem similaridades em seu plano político e apoiou a candidatura desta nas eleições de 2011, contra o atual presidente Ollanta Humala (ASSOCIATED PRESS, 2016). É importante notar que Kuczinsky, assim como Fujimori, apresenta um perfil liberal no plano econômico, defendendo políticas de livre mercado, e que atribui pouca atenção a questões relativas aos direitos humanos. Assim, muitos movimentos sociais apresentam desconfiança em relação ao novo governo, visto que o apoiaram simplesmente como uma maneira de conter o fujimorismo. Desta forma, qualquer um dos possíveis resultados iriam contrariar seus interesses (COLOMBO, 2016).

Dúvidas acerca do novo governo também surgem no que diz respeito a uma possível anistia de Alberto Fujimori, visto que Kuczinsky, durante as eleições e como uma estratégia política, apresentou um perfil mais flexível em relação a essa questão. Questionado acerca disso após eleito, o presidente afirmou que é contrário a uma anistia de Fujimori, mas não descarta uma possibilidade de cumprimento em prisão domiciliar, desde que seja pensada de maneira mais ampla (ASSOCIATED PRESS, 2016).

No que diz respeito à política externa, o presidente provavelmente manterá a valorização da integração regional, como a Aliança para o Pacífico, os acordos com o Mercosul e os acordos bilaterais de comércio com países da região. Embora haja uma baixa possibilidade de mudança significativa na política externa peruana com determinados países, deve-se levar em consideração a questão partidária e ideológica, visto que agora o Peru apresenta um governo de direita (AVANZA, 2016). Desta forma, algumas mudanças provavelmente serão notadas, como uma maior atenção à OEA em detrimento da UNASUL e na relação com a Venezuela, visto que Kuczinsky apresenta um posicionamento crítico frente ao chavismo. Além disso, espera-se uma intensificação das relações econômicas com os Estados Unidos e com a China (MARTÍNEZ-VARGAS, 2016).

Considerações Finais

Fica evidente a importância de se levar em conta o contexto histórico para se compreender o resultado das eleições peruanas de 2016. O governo autoritário e ditatorial promovido por Alberto Fujimori na década de 1990 e a participação de sua filha neste foram fundamentais para explicar a ascensão de Kuczinsky às vésperas das eleições. É também fundamental analisar o alinhamento de forças políticas contrárias a esse candidato para compreender seu fortalecimento. Entretanto, essas questões podem suscitar dúvidas em relação ao futuro do país, na medida em que agora o presidente pode encontrar algumas dificuldades para governar.

É importante notar, ainda, que qualquer um dos resultados levaria a uma vitória da direita no Peru, visto que o perfil político dos dois candidatos é muito similar. Essa questão está inserida em um contexto em que a direita ganha mais força no continente sul-americano de forma geral. Ou seja, é uma tendência que tem sido seguida por grande parte dos países do continente. Portanto, a análise do resultados das eleições presidenciais peruanas é necessária como uma forma de pensar o cenário regional de forma mais ampla.

A América Latina como um todo tem passado por um momento de forte divisão e disputa ideológica, entre a direita e a esquerda. No caso do Peru, essa polarização se deu diferentemente, na medida em que foi uma disputa entre a direita representada por Kuczinsky e a extrema direita representada por Fujimori. Entretanto, ainda assim foi muito acirrada e representou uma divisão do país. Os resultados das eleições, com mais uma vitória da direita no continente, são importantes ainda para se pensar os rumos das relações do Peru com outros países, visto que o perfil econômico neoliberal do novo presidente provavelmente também exercerá influência em sua política externa.

Referências 

AGENCIA BRASIL. Em votação acirrada, candidatos de direita disputam presidência do Peru. EBC. Brasília, 07 jun. 2016 Disponível em: < http://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2016-06/em-votacao-acirrada-candidatos-de-direita-disputam-presidencia-do-peru&gt; Acesso em: 10 jun. 2016

AGENCIA BRASIL. Presidente eleito do Peru quer governo formado por técnicos, inclusive de partidos da oposição. InfoMoney. 10 jun. 2016. Disponível em: < http://www.infomoney.com.br/mercados/politica/noticia/5129224/presidente-eleito-peru-quer-governo-formado-por-tecnicos-inclusive-partidos&gt; Acesso em: 11 jun. 2016

AQUINO, Marco. Disputa eleitoral fica acirrada às vésperas de votação no Peru. Reuters. 03 jun. 2016. Disponível em: < http://noticias.r7.com/internacional/disputa-eleitoral-fica-acirrada-as-vesperas-de-votacao-no-peru-03062016&gt; Acesso em: 11 jun. 2016

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AVANZA, Marcia. Eleição de Kuczinsky não deve trazer mudança na política externa. Jornal da USP. 10 jun. 2016. Disponível em: < http://jornal.usp.br/atualidades/eleicao-de-kuczynski-nao-deve-trazer-mudanca-na-politica-externa/&gt; Acesso em: 23 jun. 2016

BADCOCK, James. Former strongman’s daughter loses Cliff-hanger presidential election in Peru. The Telegraph. Madri, 10 jun. 2016. Disponível em: < http://www.telegraph.co.uk/news/2016/06/10/former-strongmans-daughter-loses-cliff-hanger-presidential-elect/&gt; Acesso em: 10 jun. 2016

CASTILLA, Oscar C.; CRUZ, Edmundo. Joaquín Ramírez en la mira de la DEA desde el 2012. La Republica. 03 jun. 2016. Disponível em: < http://larepublica.pe/impresa/politica/773488-joaquin-ramirez-en-la-mira-de-la-dea-desde-el-2012&gt; Acesso em: 23 jun. 2016

CHARLEAUX, João Paulo. O que é o fujimorismo e como ele pode voltar ao poder no Peru. Nexo. 02 jun. 2016 Disponível em: < https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/06/02/O-que-%C3%A9-o-fujimorismo-e-como-ele-pode-voltar-ao-poder-no-Peru&gt; Acesso em: 10 jun. 2016

CHARLEAUX, João Paulo. Quem é PPK, o presidente eleito na disputa acirrada do Peru. Nexo. 10 jun. 2016 Disponível em: < https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/06/09/Quem-%C3%A9-PPK-o-presidente-eleito-na-disputa-acirrada-do-Peru&gt; Acesso em: 11 jun. 2016

COLOMBO, Sylvia. Peruanas temem recuo de direitos da mulher com Keiko ou Kuczinsky. Folha de S. Paulo. Lima, 03 jun. 2016. Disponível em: < http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2016/06/1777757-peruanas-temem-recuo-de-direitos-da-mulher-com-keiko-ou-kuczynski.shtml&gt; Acesso em: 11 jun. 2016

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