A crise grega e a atuação do Syriza: a incerteza acerca do futuro da Grécia

Letícia Maria Antunes do Carmo

Resumo

O partido de esquerda Syriza venceu as eleições parlamentares gregas em 25 de janeiro de 2015, com promessas de renegociação da dívida e medidas de antiausteridade. Quase quatro meses após a chegada do partido ao governo, as negociações com a União Europeia, com o Banco Central e com o FMI pouco avançaram, e o governo se encontra pressionado tanto pela população do país, quanto pelos credores internacionais. A situação tornou-se ainda mais complicada quando o Ministro do Interior da Grécia anunciou, em 24 de maio do mesmo ano, que o país não tem o dinheiro necessário para o pagamento que deveria ser realizado ao FMI no mês de junho, reacendendo as discussões acerca da possibilidade da saída da Grécia da Zona do Euro.

A vitória e as promessas do Syriza

A Coalizão da Esquerda Radical da Grécia, mais conhecida como Syriza, foi criada em 2004 como uma coalizão entre treze partidos e grupos políticos, possuindo, porém, pouca força eleitoral até o ano de 2012. Em seus primeiros oito anos de existência, o partido nunca chegou a alcançar mais de 5% dos votos do eleitorado grego. Apesar disso, a popularidade do partido foi crescendo significativamente a partir da crise de 2008 e da desfavorável situação econômica em que o país tem se encontrado desde então.(COS’È SYRIZA…, 2015).

Desde 2010, a Grécia vem implementando medidas de austeridade, como o aumento de impostos e o corte de gastos públicos, exigências da União Europeia, do Banco Central Europeu (BCE) e do Fundo Monetário Internacional (FMI) para que o país recebesse um pacote de resgate para a sua economia. As consequências da crise econômica, nos últimos cinco anos, incluem o aumento da pobreza e do desemprego no país, que atualmente atinge 25% dos trabalhadores, chegando aos 50% entre a população jovem, entre 25 e 35 anos. (PETER, 2015).

O Syriza se elegeu com uma plataforma de combate às medidas de austeridade impostas à Grécia, vistas por parte da população grega como expressão da arrogância de banqueiros dos países europeus do norte e uma humilhação para o país. As promessas de campanha do partido incluíam, ainda, o aumento do salário mínimo e a reversão de cortes no orçamento público. Dessa forma, o aumento da popularidade do partido esteve mais relacionado a uma insatisfação popular com as políticas do governo anterior que estava no poder do que a uma questão de alinhamento ideológico propriamente dito, representando um voto pela mudança imediata (MARDELL, 2015; KALLÁS, 2015).

Em 25 de janeiro de 2015, o Syriza venceu as eleições, conquistando 150 das 300 cadeiras do Parlamento Grego, uma a menos do que a quantidade necessária para possuir a maioria do mesmo. Um dia após as eleições o partido anunciou uma coalizão com o grupo de direita Gregos Independentes[i] que, apesar das divergências ideológicas, também é contrário às políticas de austeridade. Alguns dias depois, Alexis Tsipras, líder do partido e eleito primeiro-ministro, assegurou mais uma vez à população o compromisso com a renegociação da dívida grega (SYRIZA HA VINTO…, 2015).

A vitória do partido foi vista como a possibilidade de um novo fôlego para outros partidos europeus de esquerda, que também cresceram e ganharam relevância nos anos posteriores à crise. Ao mesmo tempo, alguns dirigentes europeus alertaram o Syriza do dever do partido de cumprir os compromissos firmados pelo governo anterior, reafirmando a obrigação que a Grécia possuía com seus credores internacionais e mencionando uma possível saída do país da Zona do Euro (KALLÁS, 2015).

As negociações com os credores

Logo após as eleições gregas, o novo governo iniciou as tentativas de renegociação dos termos do resgate econômico recebido pelo país, a fim de satisfazer as demandas dos credores internacionais e ao mesmo tempo manter suas promessas pré-eleitorais. O objetivo inicial não era estender o programa nem receber novos pagamentos no programa já existente, que tinha o término previsto para 20 de fevereiro. Algumas das opções que poderiam aliviar a situação da Grécia seriam diminuir taxas de juros e aumentar o prazo de reembolso. O governo grego apresentou aos Ministros das Finanças da Zona do Euro um amplo plano de propostas, que incluía medidas orçamentárias menos rigorosas e um novo conjunto de reformas econômicas, que deveriam ser discutidas com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). (WALKER; COLEMAN, 2015).

Os Ministros das Finanças da Zona do Euro, porém, mostraram-se cautelosos com os desvios dos compromissos firmados com o governo anterior. Caso o governo não estendesse o pacote de resgate, o BCE poderia cortar os empréstimos disponibilizados aos bancos gregos, o que poderia levar à falência dos bancos e a uma severa crise financeira no país. Diante desse quadro, uma das opções propostas pelo Ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, seria um período de quatro meses durante o qual o BCE continuaria a apoiar os bancos gregos, enquanto as negociações para o desenvolvimento de um programa de reforma mais completo seriam desenvolvidas (WALKER; COLEMAN, 2015).

Apenas alguns dias antes do fim do programa, em 20 de fevereiro, o Eurogrupo[ii] chegou ao acordo de estender por quatro meses a ajuda financeira do programa de resgate econômico, sendo que em retorno aos empréstimos o governo grego deveria apresentar uma lista inicial de novas reformas, que precisaria ser aprovada pela Comissão Europeia e ratificada individualmente pelos países da Zona do Euro. Os quatro meses seriam um período para reforçar relações do país com a Europa e o FMI e para negociar um “novo acordo” (L’UE HA APPROVATO…, 2015).

Os principais pontos do conjunto de propostas apresentado pelo governo grego consistiram em: combate à evasão fiscal e corrupção; comprometimento de não reverter as privatizações já introduzidas, mas revisar as já implementadas; iniciar as negociações, mas não aumentar o salário mínimo imediatamente; combater a “crise humanitária”[iii] do país sem qualquer aumento global da despesa pública; e, por fim, reduzir o número de ministérios. No dia 26 de fevereiro as propostas de reforma foram aprovadas e no mesmo dia, exatamente um mês após a eleição do Syriza, manifestantes e polícia entraram em confronto em Atenas após uma marcha anti-governo, que acusava o partido de voltar atrás em promessas pré-eleitorais (L’UE HA APPROVATO…, 2015; GREEK PROTESTERS…, 2015).

Mesmo com a aprovação da extensão do programa de resgate, a Grécia ainda permanecia com inúmeras obrigações da dívida a serem cumpridas. O governo deveria detalhar o programa de reformas proposto até o mês de abril e demonstrar que as reformas estavam funcionando antes de receber a parcela final da ajuda, no valor de 7 bilhões de euros. Durante esse período, o país teria que pagar vários bilhões de euros em dívidas em vencimento, para o FMI, o BCE, entre outros. Neste sentido, mesmo com a insatisfação da população e da parte mais radical do Syriza, que achavam que o governo já havia cedido demais nas negociações, a pressão dos credores internacionais permaneceu intensa apesar do acordo. (MORRIS, 2015).

Pouco avanço foi feito nas negociações após a aprovação da extensão do programa de resgate. Houve uma insatisfação dos credores internacionais com a demora da Grécia em apresentar um verdadeiro detalhamento da reforma e com os discursos de ameaça de sair da Zona do Euro caso as propostas de renegociação da dívida fossem rejeitadas. O governo grego buscava apoio da União Europeia em novos termos de pagamentos de longo-prazo da dívida do país, para evitar uma possível falência e eventual saída da Zona do Euro. Um dos fatores que dificultou as negociações foi a posição ideológica do governo grego, contrária a muitas das políticas defendidas pela União Europeia. Sem avanços nas negociações, a situação da Grécia se tornou ainda mais preocupante, com o crescente risco do país não ser capaz de cumprir seus próximos pagamentos (GIOVANNINI, 2015).

Mesmo com a acentuação das dificuldades para cumprir os prazos de pagamento das dívidas e um enorme senso de urgência permeando as negociações, até meados de maio nenhum acordo foi estabelecido acerca do conjunto das políticas econômicas a serem implementadas pelo governo grego. A urgência é decorrente também do prazo do dia 05 de junho para o pagamento de 1.5 bilhão de euros ao FMI, que o governo afirmou não ser capaz de pagar sem que um acordo fosse realizado dentro de um curto período de tempo. Além disso, o governo também afirmou que daria prioridade ao pagamento de salários e pensões em detrimento do pagamento ao FMI (LYNAM, 2015).

O Ministro do Interior da Grécia, Nikos Voutsis, anunciou, dia 24 de maio, que o país não realizará o pagamento de junho ao FMI, pois não possui recursos suficientes, enquanto o Ministro das Finanças afirmou que a Grécia realizou grandes esforços para cumprir sua parte do acordo com os credores e que chegou o momento das instituições internacionais fazerem sua parte. Apesar destas declarações, um porta-voz oficial do governo disse que a Grécia tem a intenção de continuar com os pagamentos de suas dívidas e que irá mantê-los pelo maior tempo possível. Ele também afirmou que a intenção do governo é estabelecer um acordo mutuamente benéfico para o governo e os credores internacionais até o fim de maio ou início de junho (LA GRECIA…, 2015).

Considerações finais

O governo grego encontra-se em uma difícil posição, pressionado tanto pela população do país, para que cumpra as promessas pré-eleitorais, quanto pelos credores internacionais, para que implemente medidas de corte de gastos e aumento de impostos, completamente opostas à bandeira antiausteridade sob a qual o partido se elegeu. As negociações das próximas semanas serão decisivas, quando a Grécia e seus credores devem chegar a um acordo para que o país receba a parcela final do empréstimo e seja capaz de honrar os prazos de pagamento de suas dívidas.

Caso isto não ocorra, aumentam as chances da saída do país da Zona do Euro, acontecimento com grandes consequências não apenas para a economia da Grécia, mas, também, da Europa como um todo. Para o país, sair da Zona do Euro levaria à uma grande desvalorização da nova moeda, inflação, retirada dos depósitos por parte dos investidores estrangeiros, aumento do desemprego e fechamento de empresas gregas, o que poderia gerar um quadro de falência nacional. Para a Zona do Euro, há a possibilidade dos investidores retirarem os depósitos nos países mais vulneráveis e considerados em risco de saída, o que demandaria do BCE uma ação rápida para proteger a economia destes, como seria o caso de Portugal e da Espanha (KIRBY, 2015).

É difícil imaginar que a Grécia consiga realmente pagar toda a sua dívida nas condições atuais em que se encontra a sua economia. Porém uma postura mais flexível da Europa para com o país poderia aumentar a demanda de demais Estados com dívidas altas, criando um precedente indesejável. É importante ressaltar ainda que, uma vez que o Syriza foi o primeiro partido antiausteridade a chegar ao poder na Zona do Euro depois da crise de 2008, os desdobramentos da situação grega serão relevantes para os demais partidos de esquerda da Europa. As eleições espanholas, por exemplo, serão realizadas no fim do ano, e o partido Podemos[iv], também de esquerda, poderá se beneficiar caso a Grécia consiga contornar esta situação, ou ser prejudicado caso o contrário ocorra.

Referências

COS’È SYRIZA, il partito che ha vinto le elezioni greche. Internazionale, [S.l.],26 jan. 2015. Disponível em: <http://www.internazionale.it/notizie/2015/01/26/cos-e-syriza-il-partito-che-ha-vinto-le-elezioni-greche&gt;. Acesso em: 22 mai. 2015.

GIOVANNINI, Roberto. Le due promesse mantenute dal governo Tsipras. Internazionale, [S.l.],11 mai. 2015. Disponível em: <http://www.internazionale.it/opinione/roberto-giovannini/2015/05/11/grecia-eurogruppo-televisione-pubblica&gt;. Acesso em: 25 mai. 2015.

GREEK PROTESTERS clashwithpolice over austerity. Al Jazeera, [S.l.], 27 fev. 2015.Disponível em: <http://www.aljazeera.com/news/2015/02/greek-protesters-clash-police-backlash-syriza-150226234501572.html/&gt;. Acesso em: 22 mai. 2015.

KALLÁS, Fernando. Vitória da esquerda na Grécia desperta esperança e temor na Espanha. BBC Brasil, [S.l.], 27 jan. 2015. Disponível em: <http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/01/150126_eleicao_grecia_espanha_rm.shtml&gt;. Acesso em: 22 mai. 2015.

KIRBY, Paul. Is Greece close to the Grexit? BBC News, [S.I.], 10 jun. 2015. Disponível em: <http://www.bbc.com/news/world-europe-32332221&gt;. Acesso em: 11 jun. 2015.

L’UE HA APPROVATO il piano dellaGrecia.Il Post, [S.l.],  24 fev. 2015. Disponível em: <http://www.ilpost.it/2015/02/24/piano-riforme-estensione-debito-grecia/&gt;. Acesso em: 22 mai. 2015.

LA GRECIA ha finito i soldi?Il Post, [S.l.], 25 mai. 2015. Disponível em: <http://www.ilpost.it/2015/05/25/grecia-prossima-rata-fmi/&gt;. Acesso em: 25 mai. 2015.

LYNAM, Joe. Greece ‘cannotafford IMF repayment’ in June – minister. BBC News, [S.l.], 24 mai. 2015. Disponível em: <http://www.bbc.com/news/business-32864068&gt;. Acesso em: 25 mai. 2015.

MARDELL, Mark. CouldGreecepromptwholesalechange in Europe?BBC News, [S.l.], 29 jan. 2015. Disponível em: <http://www.bbc.com/news/world-europe-31011244&gt;. Acesso em: 22 mai. 2015.

MORRIS, Chris. Greekbailout: Eurozonepressureremainsdespitedeal. BBC News, [S.l.], 24 fev. 2015. Disponível em: <http://www.bbc.com/news/blogs-eu-31609209&gt;. Acesso em: 22 mai. 2015.

PETER, Laurence. Por que a Grécia volta a assustar a Europa? BBC Brasil, [S.l.], 04 jan. 2015. Disponível em: <http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/01/150102_grecia_crise_europa_lgb&gt;. Acesso em: 22 mai. 2015.

SYRIZA HA VINTO in Grecia. Il Post, [S.l.], 25 jan. 2015. Disponível em: <http://www.ilpost.it/2015/01/25/risultati-elezioni-grecia/&gt;. Acesso em: 22 mai. 2015.

WALKER, Andrew; COLEMAN, Jasmine. Greece’sdebtplans: Whatwillhappenifthere’s no deal?BBC News, [S.l.], 11 fev. 2015. Disponível em: <http://www.bbc.com/news/world-europe-31128356&gt;. Acesso em: 22 mai. 2015.

[i]Gregos Independentes é o nome de um partido de centro-direita da Grécia, antiausteridade, criado em 2014, a partir de uma dissidência do partido Nova Democracia.

[ii] O Eurogrupo é um centro de coordenação europeu que reúne, geralmente uma vez por mês, os Ministros da Economia e Finanças dos países-membros da Zona do Euro para discutir e supervisionar estratégias relativas à área da união monetária.

[iii] A expressão “crise humanitária” começou a ser utilizada para o caso grego em 2011 e diz respeito as estado crítico que as condições sociais do país alcançaram após a crise de 2008. O desemprego aumentou, assim com o número de famílias sobrevivendo abaixo do limiar da pobreza, as taxas de suicídios, casos de depressão e as dificuldades da saúde pública.

[iv]A Espanha, assim como a Grécia, ainda sofre com as consequências da crise de 2008 e quase um quarto de sua população está desempregada. O partido Podemos, de esquerda e contrário às medidas de austeridade, vem ganhando grande apoio popular, principalmente depois da crise, e a vitória de uma partido também de esquerda na Grécia deu esperança aos apoiadores do partido espanhol. Desde a crise de 2008, alguns partidos europeus de esquerda vem ganhando popularidade e adeptos, e o sucesso do Syriza em seu mandato pode ser benéfico para estes partidos, principalmente visto que a eleição em alguns destes países, como é o caso da Espanha, está próxima.

Anúncios
Esse post foi publicado em Europa e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s