As ações do Boko Haram na Nigéria

Débora Mattar

Resumo

A população civil nigeriana vem sofrendo um grande pesadelo social em decorrência da ação do grupo terrorista Boko Haram. Esse grupo radical islâmico visa a implementação do islamismo radical na região, indo contra qualquer concepção ocidental, e ao mesmo tempo, disputam o poder político dentro da Nigéria. O presente artigo se dedica a apontar alguns ataques terroristas do grupo, a resposta do governo nigeriano a essa situação e as implicações regionais e mundiais acerca desses acontecimentos.

Boko Haram e seus ataques

O Boko Haram é um grupo radical fundamentalista[1] que atua na Nigéria desde a década de 1990. Em 2009, devido a um confronto com as forças militares da Nigéria, membros do grupo foram mortos, incluindo o próprio líder Muhammad Yusuf.  Esse acontecimento despertou as ações de liderança do grupo contra as influencias ocidentais na Nigéria, demonstrando dessa forma solidariedade à Al Qaeda, que declarou prover armas, treinamentos e outros tipos de apoio. Além disso, o grupo demonstrou insatisfação com muçulmanos que não seguem rigorosamente o Corão, com a educação atual nigeriana e com o sistema eleitoral do país, já que de acordo com o mesmo, são baseados em concepções ocidentais (NATIONAL COUNTERTERRORISM CENTER, 2015).

O nome oficial do grupo é Jama`atu Ahlis Sunna Lidda`awati wal-Jihad que significa “pessoas comprometidas com a propagação dos ensinamentos do Profeta e da Jihad”, e o apelido Boko Haram traduzido seria: “a educação ocidental é proibida” (CHOTHIA, 2014). Atualmente o grupo radical tem como líder Abudakar Shekau, considerado mais extremista e cruel do que o antecessor, e que segue fielmente as concepções islâmicas. Diante disso, o grupo vem ganhando destaque internacional pelas atitudes de terror na Nigéria, que incluem queima de ônibus e igrejas, sequestros de meninas, assassinatos, estupros e uso de crianças-bomba (BOKO…, 2015a). Os atos de crueldade do grupo se tornam evidentes, pelo fato do mesmo ter  como particularidade o uso de mulheres e crianças para realizar seus atentados, dessa forma, mesmo o grupo não assumindo todos os ataques ocorridos, suspeita-se da sua ação em alguns casos. Por exemplo, o ataque ocorrido no dia 25 de janeiro, na cidade de Maiduguri, teve uma menina-bomba com cerca de 10 anos que explodiu em um mercado de grande movimentação, matando cerca de 20 pessoas e deixando outras feridas (MENINA…, 2015).

Outro acontecimento que gerou grande repercussão foi a publicação de um vídeo mostrando a decapitação de dois homens acusados de serem espiões. Segundo o grupo que monitora as atividades terroristas na internet, SITE, o vídeo possui semelhança com as gravações apresentadas pelo Estado Islâmico[2], já que, momentos antes da decapitação, é possível ouvir o ruído das batidas do coração e a respiração esbaforida das vítimas (BOKO…, 2015).

O último episódio a ser relatado ocorreu no dia 7 de janeiro envolvendo a morte de cerca de dois mil civis, sendo considerado o maior ataque realizado pelo grupo. Os terroristas chegaram à região de Baga, no norte da Nigéria, atirando com metralhadoras e usando bombas contra as pessoas que tentavam fugir, matando principalmente crianças e idosos (ANISTIA…, 2015).

Como forma de expandir as ações terroristas e ganhar mais adeptos, o grupo começou a atacar as vilas obrigando os jovens a seguirem os mesmos atos extremistas, ou caso contrário, seriam mortos (BOKO…, 2015c). Os terroristas também realizam saques e sequestram meninas que acabam sendo usadas como objetos sexuais, muitas vezes sendo vendidas por poucos dólares (GRUPO…, 2014).

O governo nigeriano

A Nigéria é considerada o país mais populoso do continente africano, tendo como principais atividades econômicas a extração do petróleo e a agricultura. Devido à concentração de riquezas e ao baixo investimento em outras atividades econômicas e áreas sociais, a Nigéria possui um quadro de desigualdade social e elevada pobreza. Sendo assim, acredita-se que o Boko Haram tenha facilidade de acumular adeptos em decorrência da condição social que vivem os nigerianos (o grupo é composto por cidadãos diferentemente intencionados: oportunistas, pessoas insatisfeitas com sua condição), e devido à existência de financiamentos para a ação desse grupo (Publico…, 2015).

Os radicais extremistas vem intensificando os ataques terroristas devido à proximidade das eleições, o que gera mais uma discordância: os extremistas islâmicos são contra as eleições, por as considerarem uma inovação proibida, de caráter ocidental. O atual presidente da Nigéria, Goodluck Jonathan, um cristão que enfrenta oposição de alguns muçulmanos, ao se candidatar para a reeleição quebrou o acordo existente dentro do Partido Popular Democrático, que concede a alternância do poder presidencial de oito em oito anos entre cristãos, que dominam o sul, e muçulmanos, que dominam o norte (PHAM, J. Peter, 2012).

Diante da atuação do Boko Haram, Goodluck Jonathan vem procurando providenciar ações rápidas e eficazes contra o grupo radical, contando não só com o exército do país, mas demostrando precisar também da assistência dos EUA, do Chade e da União Africana, que irá enviar cerca de 7.500 soldados para ajudar a combater o Boko Haram (UNIÃO…, 2015).

O exército nigeriano estabeleceu uma posição ofensiva em relação ao grupo radical islâmico e suas ações contribuíram para a morte de alguns membros do grupo radical e a detenção de outros. O problema é que existe uma série de questionamentos acerca das forças armadas da Nigéria, acusada de terem casos de corrupção e não possuírem recursos suficientes para combater os terroristas. Outra questão a ser levantada é que o exército vem sendo dividido para cumprir outras missões internas no país, o que colabora para a existência de um número menor de soldados hostilizando as ações dos radicais islâmicos (WHITEHEAD, 2015).

Implicações regionais e mundiais

Os ataques realizados pelo grupo Boko Haram contribuem para um cenário interno catastrófico na Nigéria, causando não só o medo na população, mas o caos no ambiente politico e econômico. No ambiente internacional as notícias dos atos terroristas do grupo, junto com o objetivo do mesmo de disputar o poder nigeriano, contribuem para um cenário de solidariedade, assistência e indignação internacional.

O grupo terrorista exerce influencia social, ideológica e econômica nas aldeias no norte da Nigéria, e, como consequência, a população civil nigeriana dessa região tenta se adaptar a real conjuntura do país. As crianças que são capturadas pelo Boko Haram são forçadas a se adequar aos parâmetros e concepções do grupo, dessa forma, muitas delas estão esquecendo sua identidade, por não terem mais contato com seus pais, com pessoas de suas comunidades e por não conseguirem mais assinalar seus laços familiares e comunitários (CRIANÇAS…, 2015).

Outra situação com que os cidadãos nigerianos estão lidando é o aumento das migrações do norte e do centro do país. Muitas pessoas estão saindo de suas aldeias e indo para outras cidades como Abuja, Kano, Kaduna (localizadas ao sul do país), ou buscam refúgio em países vizinhos, como Camarões e o Chade. De acordo com a OIM (Organização Internacional para Migrações), cerca de 900 mil pessoas que deixaram suas comunidades estão tentando fugir das ações do Boko Haram. (NÚMERO…, 2015).

O Brasil, a União Europeia e os Estados Unidos se manifestaram contra as ações do grupo terrorista islâmico, demonstrando preocupação e apoio a Nigéria. O Ministério das Relações Exteriores do Brasil manifestou seu auxilio a atual condição político-social que enfrenta a Nigéria, divulgando uma nota no dia 14 de janeiro. Neste documento o governo brasileiro demonstrou solidariedade ao povo nigeriano e ao governo – “solidariedade fraterna do povo brasileiro ao povo irmão e ao governo da Nigéria” (RODRIGUES; 2015), e condenou qualquer ato terrorista, destacando o repúdio ao episódio de Baga.

Foi divulgada no Conselho de Bruxelas, ocorrido no dia 9 de fevereiro de 2015, uma declaração em que a União Europeia destaca suas condolências a Nigéria, demonstrando total apoio ao país. Pontos importantes do documento destacam a necessidade de uma resposta imediata frente a esses acontecimentos, como a punição dos responsáveis pelo descumprimento do direito humanitário internacional e dos direitos humanos, destacando ainda, preocupação com as consequências humanitárias. A União Europeia compromete-se a atuar em um nível mais regional, alertando a necessidade de uma resposta não só nigeriana, mas coletiva para combater o terrorismo (CONSELHO EUROPEU, 2015).

Os Estados Unidos também condenaram ações do grupo islâmico radical, e se comprometeram a auxiliar a Nigéria e os países vizinhos.  Além disso, o general David Rodriguez, comandante das forças militares norte-americanas no continente africano, alertou para a necessidade de um esforço internacional para combater o grupo (DERROTAR…, 2015).

Considerações Finais

O continente africano é conhecido mundialmente pelas sérias questões de desigualdade, pobreza, fome e altos índices de doenças. Devido principalmente à inexistência de um governo eficaz, as estruturas econômicas e até mesmo questões históricas, essa região culturalmente rica, é considerada a mais pobre do mundo. Muitas tribos disputam o poder dentro da região, tendo muitas vezes acesso a armas e instrumentos de ataque mais efetivos do que o próprio governo, o que demonstra o quão complexa é a situação nesse continente.

Os atos desse grupo terrorista com ataques a pessoas inocentes, imunes a qualquer tipo de defesa, demonstram a necessidade de combate imediato a essa situação, caso contrário, o mesmo acumula mais poder, mais adeptos e mais reconhecimento internacional. O que se percebe é que os países demonstram sua solidariedade à Nigéria, destacando a necessidade de se combater o Boko Haram, sem propor de fato uma resposta ou ajuda imediata e eficiente à situação, como o envio de tropas para a região, ou qualquer outro tipo de auxílio para a população, mesmo os mais básicos, como comida e água.

O problema é que diante de um país que vivencia essas condições sociais atuais, e possui ainda baixa inserção econômica mundial, os países irão de fato prover ajuda para  hostilizar as ações desse grupo terrorista?

Referências

 ANISTIA Internacional: Ataque de Boko Haram teria matado 2 mil pessoas na Nigéria. Opera Mundi – Revista Samuel, São Paulo, 10 jan. 2015. Disponível em: < http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/39113/anistia+internacional+ataque+de+boko+haram+teria+matado+2+mil+pessoas+na+nigeria.shtml >. Acesso em: 03 abr. 2015.

BOKO Haram invade base militar e povoados de pescadores na Nigéria. RFI português, s.l., 04 jan. 2015. Disponível em:  < http://www.portugues.rfi.fr/mundo/20150104-boko-haram-toma-base-militar-e-povoados-de-pescadores-na-nigeria> . Acesso em: 03 abr. 2015c.

Atentado do Boko Haram mata nigeriano e deixa outros feridos em Camarões. Publico. pt, s.l., 05 fev. 2015. Disponível em: <http://publico.pt/mundooticia/atentado- mata nigerianos e deixa outros feridos  >. Acesso em: 03 abr. 2015.

CHOTHIA, F. Sequestro na Nigéria: saiba mais sobre o Boko Haram. BBC Brasil, São Paulo, 13 mai. 2014. Disponível em: < http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/05/140513_boko_haram.shtml>. Acesso em: 03 abr. 2015.

CONSELHO EUROPEU. Conclusões do Conselho sobre a ameaça do Boko Haram. Disponível em: < http://www.consilium.europa.eu/pt/press/press-releases/2015/02/150209-council-conclusions-boko-haram-threat/ >.Acesso em: 03 abr. 2015.

CRIANÇAS sequestradas pelo Boko Haram ‘esqueceram suas identidades’. BBC Brasil, São Paulo, 10 mar. 2015. Disponível em: < http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/03/150310_bokoharam_meninas_nomes_pai>. Acesso em: 03 abr. 2015.

DERROTAR Boko Haram requer esforço internacional, diz chefe militar dos EUA. Agência Brasil, s.l., 28 jan. 2015. Disponível em: < http://www.ebc.com.br/noticias/internacional/2015/01/derrotar-boko-haram-requer-esforco-internacional-diz-chefe-militar >. Acesso em: 04 abr. 2015.

GRUPO extremista sequestra mais de 200 meninas na Nigéria. R7 Notícias, s.l., 18 dez. 2014. Disponível em: < http://noticias.r7.com/internacional/grupo-extremista-sequestra-mais-de-200-meninas-na-nigeria-18122014>. Acesso em: 03 abr. 2015.

MENINA de dez anos que carregava bomba explode mercado e mata 20 pessoas. Correio Braziliense, Brasília, 10 jan. 2015. Disponível em: < http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/mundo/2015/01/10/interna_mundo,465661/menina-bomba-mata-ao-menos-20-pessoas-em-atentado-na-nigeria.shtml >. Acesso em: 03 abr. 2015.

NATIONAL COUNTERTERRORISM CENTER. Counter Terrorism Guide – Terrorist groups: Boko Haram. Disponível em: < http://www.nctc.gov/site/groups/boko_haram.html >. Acesso em: 03 abr. 2015.

NÚMERO de deslocados na Nigéria ultrapassa os 1,2 milhão. Notícias e Mídia Rádio ONU, s.l., 06 mar. 2015. Disponível em: < http://www.unmultimedia.org/radio/portuguese/2015/03/numero-de-deslocados-na-nigeria-ultrapassa-os-12-milhao/#.VR9e4vnF9qV&gt; . Acesso em: 04 abr. 2015.

PHAM, J. Peter. A Ameaça Crescente do Boko Haram. Centro de Estudos Estratégicos de África, nº 20, abril/2012, p.1-8.

RODRIGUES, Alex. Governo brasileiro condena ataques do Boko Haram na Nigéria. Agência Brasil, Brasília, 14 jan. 2015. Disponível em: < http://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2015-01/governo-brasileiro-condena-ataques-do-boko-haram-na-nigeria>. Acesso em: 04 abr. 2015.

UNIÃO Africana concorda em enviar 7.500 soldados para combater o Boko Haram. Paraná online, Curitiba, 31 jan. 2015. Disponível em: < http://www.parana-online.com.br/editoria/mundo/news/856649/?noticia=UNIAO+AFRICANA+CONCORDA+EM+ENVIAR+7500+SOLDADOS+PARA+COMBATER+O+BOKO+HARAM>. Acesso em: 03 abr. 2015.

WHITEHEAD, Eleanor. Corrupção e falta de recursos prejudicam Exército da Nigéria na luta contra Boko Haram. Africa in Fact, Abuja, 23 fev. 2015. Tradução Carolina de Assis. Disponível em: < http://operamundi.uol.com.br/conteudo/samuel/39572/corrupcao+e+falta+de+recursos+prejudicam+exercito+da+nigeria+na+luta+contra+boko+haram.shtml&gt; . Acesso em: 03 abr. 2015.

[1] Termo utilizado para fazer referência à crença na interpretação literal de livros sagrados. Fundamentalistas são encontrados entre religiosos e pregam que os dogmas de seus livros sagrados sejam seguidos à risca.

[2]  O Estado Islâmico se fundamenta na aplicação da lei religiosa islâmica. Artigos sobre esse assunto podem ser encontrados no blog do Conjuntura Internacional: www.pucminas.br/conjuntura/index_padrao.php

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