Terror no Oriente Médio: quem é e o que quer o Estado Islâmico?

João Víctor Martins Saraiva

Resumo

As conquistas obtidas pelo grupo terrorista ISIS na região do Iraque e da Síria criam alerta sobre a força que uma organização terrorista pode obter. Além disso, os diferentes métodos de dispersão do terror utilizados pelo grupo criam uma inquietação sobre as novas possiblidades desses grupos se projetarem internacionalmente, facilitando a obtenção de seus ganhos políticos. Desse modo, o artigo se dedicará a fazer uma retomada histórica crítica do ISIS, relatar as ações recentes do grupo e as perspectivas futuras  da região.

Das origens à ascensão do grupo 

Para entender a conjuntura conflituosa que se encontra hoje entre Iraque e Síria, deve-se tratar do grupo chamado ISIS, ISIL ou Estado Islâmico (EI), deve-se ter em mente que o processo para se chegar ao que hoje é identificado como “Estado Islâmico” não foi extenso, mas intenso, sendo marcado por alianças e dissenções e, por isso, por consequentes mudanças de nome. O grupo iniciou-se em 1999 com o nome de “Organização pelo Monoteísmo e pela Jihad”[i] fundada pelo hoje falecido fundamentalista[ii] Abu Musab al-Zarqawi, que, sendo um dos principais personagens do jihadismo muçulmano sunita, liderou diversas incursões contra xiitas e contra o ocidente.

A primeira mudança de nome do grupo se deu após a aliança de fidelidade em 2004 feita por al-Zarqawi com a Al-Qaeda[iii], por intermédio do líder Osama Bin Laden, que acordaram em alterar para “The Organization of Jihad’s Base in the Country of the Two Rivers, que ficou conhecida como Al-Qaeda no Iraque (AQI). O grupo foi liderado por al-Zarqawi até sua morte em junho de 2006, quando foi assassinado em ataque aéreo americano direcionado a atingi-lo. Ele foi substituído por Abu Ayyub al-Masri, um membro  de forte engajamento dentro do grupo. (COUNCIL ON FOREIGN RELATIONS, 2014) (NBC NEWS, 2004) (WEAVER, 2006).

Quando da Guerra no Iraque, o AQI passou a agir junto de diversos outros grupos sunitas para resistir à incursão, de forma a fortalecer e dar unidade à luta dessa vertente muçulmana na região. Exemplo concreto disso é a pelo AQI a criação do Mujahideen Shura Council (MSC), uma umbrella organization – organização guarda-chuva-[iv], que buscaria unificar a luta sunita insurgente no Iraque e recrutar mais muçulmanos sunitas para a causa. A criação do MSC, entretanto, foi falha devido ao recurso à violência em demasia pretendido pela organização que  afastava novos adeptos, mas não deixou de atrair tribos sunitas que concordavam com os métodos pretendidos. Em outubro de 2006, o MSC institucionalizou o grupo Islamic State of Iraq (ISI), tendo como seu emir[v] Abu Omar al-Baghdadi, que passou a agir em coalizão com as demais tribos e grupos sunitas resistentes a presença americana no Iraque. (WEAVER, 2006)

A organização, permeada por um sentimento antiocidental, posicionava-se de maneira assertiva contra a investida estadunidense através de sequestros de personagens representantes dos interesses ocidentais; ataques a bases militares americanas; ataques suicidas a hotéis; dentre outras estratégias características de grupos terroristas. As tropas iraquianas, julgadas como defensoras dos interesses americanos, não conseguiram se firmar frente as ameaças da grande coalização sunita, necessitando de constante auxílio das tropas estadunidenses na região. Apesar desse apoio, a força dos grupos terroristas não parou de se substantivar, de forma a começar a aventar  a criação de um Estado Islâmico desde aquele momento, sentimento que motivou a luta até os dias atuais (RICKS, 2007).

Em 2010, as investidas militares iraquianas com apoio das tropas estadunidenses, conseguiram matar Abu Ayyub al-Masri, então líder da AQI, e Abu Omar al-Baghdadi, líder da MSC. Por serem mortes estratégicas, poderia se supor que os grupos sentiram-se afetados, de forma a esboçar uma possível debilidade da resistência sunita. Mas isso não aconteceu. As atividades do grupo não cessaram e sua influência e repercussão foi retomada a partir da Guerra Civil na Síria no ano de 2011, agora sob a forte influência do novo líder Abu Bakr al-Baghdadi, antigo integrante de outras facções islâmicas (Al JAZEERA, 2014)

Com motivação contrária ao governo de Bashar al-Assad, os integrantes da incursão sunita infiltraram-se no conflito e conseguiram tomar o controle de algumas regiões do país, um controle não só militar, mas também político, pois o grupo já começou a aplicar a sharia nos territórios tomados, implantando o que viria a ser o poderoso Estado Islâmico. (ZELIN; THE WALL STREET JOURNAL, 2014). É importante colocar que esse ciclo favorável à coalizão coincide com a retirada das tropas norte-americanas do Iraque, dando fim a investida iniciada em 2003 que, como já exposto, motivou a emergência de grupos como a Al-Qaeda no Iraque, o MSC, dentre diversos outros que passaram a ter um papel relevante na região que ainda estava em reconstrução com o auxílio da Missão das Nações Unidas para o Iraque (UNAMI, 2014).

Abu Bakr al-Baghdadi mostrou-se um líder promissor para o AQI, dando organização e planejamento ao grupo. A dinamicidade da gestão de al-Baghdadi tem proporcionado conquistas políticas e territoriais imprescindíveis para o que é pretendido por eles na região. A grande incursão para a Síria se deu em 2013 e o líder Abu Bakr al-Baghdadi cristalizou a união dos grupos insurgentes sunitas na criação do Islamic State of Iraq and the Levant – (ISIL) Estado Islâmico do Iraque e do Levante-, também chamado de Islamic State of Iraq and Syria – Estado Islâmico do Iraque e da Síria – (ISIS), e promovendo a “Frente al-Nusra”, uma coalizão jihadista sunita que se opõe ao governo de al-Assad. (COCKBURN, 2014) (ZELIN, 2014) (BBC, 2014) (MANFREDA, 2014).

O semestre de terror no Iraque

Desde dezembro de 2013, os integrantes do ISIS desempenhavam sucessivas incursões contra a gestão xiita do primeiro-ministro iraquiano Nouri al-Maliki. Foram inúmeras as investidas contestando os princípios do regime que não satisfaziam os anseios sunitas, logo, gerando a grande movimentação violenta  do ISIS com o objetivo de mudanças (AL-ALI, 2014).

A estratégia de violência adotada pelo ISIS, entretanto, foi vista com rejeição por diversos líderes de tribos sunitas que acabaram opondo-se ao grupo, pois não reconheciam esses jihadistas como representantes dos princípios da vertente. Essa oposição deu legitimidade ao primeiro-ministro Nouri al-Maliki para se posicionar militarmente contra o grupo. No entanto, por meio de uma incursão mal direcionada à província de Anbar – região fronteiriça com a Síria e de maioria sunita – o político falhou quanto a possibilidade de agir contra o ISIS, acabando por atingir muitos civis e ganhar atenção internacional negativa devido a brutalidade dos ataques. Dessa maneira, o ISIS encontrou terreno fértil para sustentar suas ações violentas em reação ao governo que se mostrou repressor, invertendo um quadro antes desfavorável. (CARNEGIE ENDOWMENT FOR INTERNATIONAL PEACE, 2014).

A geopolítica de Anbar, principalmente nas regiões de Falluja e Ramadi, se tornou, por cerca de seis meses, o centro da luta armada iraquiana. Durante esse período, os grupos sunitas e a força armada iraquiana mantiveram-se em combate, alternando o controle da região sucessivamente, esboçando uma paridade entre as duas forças. Porém, no início de junho, o grupo ISIS lançou mais uma ofensiva que desestruturou o equilíbrio que parecia perdurar (CARNEGIE ENDOWMENT FOR INTERNATIONAL PEACE, 2014) (BBC,2014).

O cenário a partir de junho e perspectivas futuras sobre a região

Em junho, no primeiro dia do Ramadã, comemoração religiosa árabe, o porta-voz do então chamado ISIS, declarou a fundação do novo Califado, alterando o nome do grupo para Estado Islâmico. Ainda na declaração, ele conclamou todos os muçulmanos para se juntarem a eles, afirmando que todos poderiam se sentir confortáveis para serem representados pelo grupo e assumirem Abu Bakr al-Baghdadi como califa (ISLAMIC STATE, 2014). Em vários momentos o porta-voz exalta uma suposta “vitória”  sob a crença de que, de fato, eles teriam retomado o califado. Dessa forma eles apresentam à comunidade internacional a força que o grupo tem adquirido e como sua luta tende a se engrandecer (ISLAMIC STATE, 2014; LEWIS, 2003).

A partir de então, a conjuntura do entorno das cidades de Síria e Iraque se alterou drasticamente. O fortalecimento do ISIS e a declaração do novo califado tem desencadeado um novo olhar sob a região. Além disso, o Estado Islâmico ganhou uma faceta ainda maior pela nova modalidade de terrorismo que passou a desempenhar. Para se fazer ouvir, o  grupo passou a fazer uso corriqueiro das redes sociais para enviar mensagens provocativas e atemorizantes.

Nessa perspectiva, encontra-se um dos acontecimentos mais repercutidos na mídia sobre o Estado Islâmico: a decapitação. Motivado por uma incursão aérea realizada pelo exército norte-americano na região com apoio de países europeus, o EI enviou um vídeo decapitando alguns  cidadãos americanos e ingleses, que haviam sido sequestrados pelo grupo. Junto às brutalidades seguem mensagens que ordenam que o ocidente encerre as incursões militares no Oriente Médio e que parem de combate-los, reiterando uma mensagem usual de grupos extremistas islâmicos de que a influência ocidental é maléfica para a unidade do mundo árabe (JIHADIST NEWS, 2014; LEWIS, 2003).

Considerações Finais

O avanço e fortalecimento do Estado Islâmico levantam indagações até mesmo sobre a possibilidade de o grupo fundar um verdadeiro califado, como pretendido por eles. O ISIS apresenta para o mundo uma modalidade de terrorismo diferente do usual e, devido a isso, desperta um “medo da imprevisibilidade”, característico dos grupos terroristas em geral, e, ao mesmo tempo, um “medo do desconhecido” e do que esse “desconhecido” pode fazer. As medidas que têm sido e serão tomadas para contenção do grupo devem levar em conta esses fatores, de forma que, mesmo com o caráter emergencial eminente, os estrategistas e tomadores de decisão deverão ter cautela ao agir.

Como visto, só com o acesso a historicidade da organização é possível se entender a conjuntura atual. Ao se considerar o contexto da  Guerra do Iraque, momento de fortalecimento do grupo, evidencia-se que o erro estratégico estadunidense de assumir o conflito foi grande, de forma a despertar e motivar movimentações terroristas adormecidos na região. Essa retomada alerta também para os efeitos da globalização e do efeito conflitante do contato de múltiplas culturas, como defendido por Samuel Huntington em “Choque das Civilizações” (1996), de forma que é apresentado que não se pode desprezar as disparidades culturais e as influências políticas e sociais que uma intervenção em uma região pode trazer.

O ISIS não se trata, portanto, de um grupo que ganhou força de repente. Sua criação data de mais de uma década e sucessivos erros na contenção de suas investidas e do seu crescimento são responsáveis pela fortaleza da organização. Nesse sentido, cabe principalmente aos EUA e aos seus países aliados de dentro e de fora do Oriente Médio, um posicionamento assertivo, mas, ao mesmo tempo cauteloso quanto ao Estado Islâmico, pois, as conquistas estratégicas e ganhos contínuos que têm sido obtidos pelo grupo evidenciam que esse  fortalecimento tende a não cessar com facilidade.

Referências 

AL-ALI, Zaid. How Maliki Ruined Iraq. Disponível em < http://www.foreignpolicy.com/articles/2014/06/19/how_maliki_ruined_iraq_armed_forces_isis&gt;. Acesso em: out, 2014

ALVES, José Belmiro. Desafios no Século XXI: Terrorismo Islâmico e Crime Organizado. Trabalho apresentado à Universidade Fernando Pessoa como parte dos requisitos para a obtenção do grau de mestre em Relações Internacionais com o Mundo Árabe e Islâmico. Porto, 2010.

CNN. Kerry assures Iraqis of U.S. support if they unite against militants. Disponível em: http://www.cnn.com/2014/06/23/world/meast/iraq-crisis/. Acesso em: out, 2014.

HUNTINGTON, Samuel. O Choque de Civilizações Disponível em: < http://cesarmangolin.files.wordpress.com/2010/02/samuel_huntington_-_o_choque_de_civilizacoes1.pdf&gt;. Acesso em: set, 2014

JIHADIST NEWS. ISIS Spokesman Declares Caliphate, Rebrands Group as “Islamic State”. Monitoring Service Jihadist Threat. Disponível em https://news.siteintelgroup.com/Jihadist-News/isis-spokesman-declares-caliphate-rebrands-group-as-islamic-state.html. Acesso em: out, 2014

LEWIS, Bernard. A Crise do Islã: Guerra Santa e Terror Profano. 2003. Jorge Zahar Editor.

PALAZZO, Carmen Lícia. A emergência do ISIS/ISIL e as ameaças ao equilíbrio de forças no Oriente Médio. Disponível em < http://mundorama.net/2014/06/28/a-emergencia-do-isisisil-e-as-ameacas-ao-equilibrio-de-forcas-no-oriente-medio-por-carmen-licia-palazzo&gt;. Acesso em: out, 2014

THE WALL STREET JOURNAL What is Islamic State. Disponível em:http://blogs.wsj.com/briefly/2014/06/12/islamic-state-of-iraq-and-al-sham-the-short-answer/. Acesso em setembro, 2014

UNAMI. Disponível em: http://www.uniraq.org/index.php?option=com_k2&view=item&layout=item&id=943&Itemid=637&lang=en. Acesso em out., 2014.

WEAVER, Mary Anne. The Short, Violent Life of Abu Musab al-Zarqawi. Disponível em http://www.theatlantic.com/magazine/archive/2006/07/the-short-violent-life-of-abu-musab-al-zarqawi/304983/&gt;. Acesso em set, 2014.

ZELIN, Aaron Y. Abu Bakr al-Baghdadi: Islamic State’s driving force. BBC News. Disponível em< http://www.bbc.com/news/world-middle-east-28560449&gt; Acesso em: out, 2014.

[i] The Organization of Monotheism and Jihad ou Jama’at al-Tawhid wa’al-Jihad

[ii]“Os fundamentalistas advogam a aplicação da “sharia” – Lei Islâmica – como único fundamento de organização da sociedade. […] Os radicais consideram que não há lugar para compromissos com a atual sociedade. Advogam por isso a ruptura política e introduzem o conceito de revolução”. PINTO, 2003.

[iii] Futuramente essa aliança foi quebrada devido a divergências de métodos entre o AQI e a Al-Qaeda.

[iv] Uma umbrella organization é “uma organização que controla ou organiza as atividades de diversas outras organizações que carregam propostas e objetivos similares.” (CAMBRIGE DICTIONARY, 2014)

[v] Emir é a referência de liderança política para diversas nações islâmicas.

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4 respostas para Terror no Oriente Médio: quem é e o que quer o Estado Islâmico?

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  3. Heitor Glauber disse:

    Muito Bom!

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