Estado Islâmico: terrorismo ou religião?

João Víctor Martins Saraiva

Resumo

A repercussão das ações terroristas do grupo – de referência plurinominal – ISIS, ISIL ou Estado Islâmico na região do Oriente Médio (principalmente na Síria e no Iraque) recupera o debate sobre temas como o extremismo, a religião e o terrorismo. Dado isso, o artigo apresentará os principais aspectos do ISIS à luz da abordagem de terrorismo de Brenda e James Lutz e discutirá a real influência da religião dentro do grupo, de modo a desmistificar impressões sobre a relação do Islamismo e da violência política.

A motivação e os intuitos do Estado Islâmico: perto ou longe da religião?

O chamado grupo ISIS (Islamic State of Iraq and Syria), ISIL (Islamic State of Iraq and Levant[i]), agora também (a partir de junho/2014) chamado de Estado Islâmico é um grupo muçulmano sunita jihadista, que tem como intuito instaurar o califado[ii] (BBC, 2014). O califa do Estado Islâmico é Abu Bakr al-Baghdadi, (the invisible sheikh[iii]), e é ele a representação político-administrativa do grupo (CNN,2014; LEWIS, 2003).

A crença que permeia o ISIS é que “todos os meios justificam o fim último que é o reestabelecimento do Califado através da umma – comunidade islâmica -, onde se aplicará a lei islâmica (sharia) na sua interpretação mais pura.” (ALVES, p. 50, 2010). É importante colocar que, além da motivação religiosa de se criar o Califado, a oposição ao ocidente, fruto de uma influência que interfere decisivamente na conjuntura do Oriente Médio e prejudica a unidade do mundo árabe, faz com que o apelo à violência política seja uma das únicas formas de manifestação efetiva na região.

Governar a partir da sharia, em seu sentido estrito, é reger as relações sociais de forma que o que não for condizente com a lei, é duramente sancionado, como por exemplo, consumir bebidas alcóolicas. Como o intuito do grupo é criação de uma comunidade islâmica, as minorias políticas como os cristãos e os yazids e todos os outros não-muçulmanos, têm sofrido perseguição violenta, envolvendo atos que vão da tortura à morte (BBC, 2014; UNAMI, 2014).

A expansão da fé islâmica no caso do ISIS, como em outros grupos religiosos, é justificada a partir da intepretação dessas organizações do nebuloso conceito de jihad. Ele está baseado no princípio do Alcorão de que os muçulmanos devem se esforçar e defender sua religião, isso não necessariamente inclui o recurso à violência, no entanto, a multiplicidade de interpretações do termo pelos diferentes grupos islâmicos acaba dando margem às visões distorcidas. O termo jihad é muito evocado por alguns desses grupos muçulmanos mais ortodoxos e pela mídia internacional tratando desse fenômeno político como uma possível “Guerra Santa”, que, apesar de grandes críticas a esse tipo de abordagem, ainda constitui-se um grande debate sobre essa utilização (ALVES, 2010, LEWIS, 2003).

Quanto à aversão ao ocidente, grande marca de grupos extremistas islâmicos, a justificativa se dá devido ao fato do histórico obstáculo colocado pelos países ocidentais para a unidade do mundo árabe e para a retomada do califado. Desde a derrocada do Império Otomano pelas nações europeias na Primeira Guerra, fato que culminou em uma ocidentalização das estruturas políticas do Oriente Médio, cresce a dificuldade de se estabelecer a grande comunidade islâmica, a grande missão colocada por Alá. Com isso, torna-se mais difícil manter um convívio pacífico dos radicais islâmicos com a influência ocidental, que se manifesta de maneira cada vez mais forte na região (LEWIS, 2003).

Os EUA surgem como grande rival desses grupos por ser o maior protagonista do mundo ocidental, mas principalmente por se colocarem contra os princípios muçulmanos e impedirem a difusão deles. Dessa forma, os interesses de ambas as partes se chocam e se aprofundam na medida em que os EUA tentam expandir seus ideais na região dando suporte a inúmeros atos políticos e a governos que favoreçam a expansão estadunidense no Oriente Médio (LEWIS, 2003).

Dessa maneira, atesta-se que são múltiplas as ressalvas que devem ser feitas antes de afirmar categoricamente que os atos dos grupos extremistas islâmicos baseiam-se na irracionalidade e em uma “fé cega”. Diversos fatores tendem a agravar quadros sociopolíticos e culturais quanto a esses grupos e, por isso, não devem ser desprezados quando se busca entender manifestações como o terrorismo.

Entendendo o Terrorismo

Um dos conceitos mais debatidos nas Relações Internacionais (RI) é o conceito de terrorismo. Por ser uma questão que envolve a percepção subjetiva dos indivíduos, o termo terrorismo dá margem para diferentes significados e, com isso, é compreendido de maneira diferente de acordo com o contexto e com o autor que a ele se refere. Dessa maneira, é importante, quando se esta  tratando desse fenômeno, se explicitar o que se está considerando como terrorismo.

Para seguir a discussão do artigo, será utilizada a definição de terrorismo cunhada por Brenda Lutz e James Lutz (2006), que definem essa atividade por alguns elementos básicos: “envolve o uso da violência ou ameaça de violência, por um grupo organizado visando fins políticos; a violência é direcionada a um alvo que existe atrás das vítimas imediatas, que são civis inocentes;”[iv]  além disso, o terrorismo é, necessariamente, realizado por algum ator que não o Estado, ator esse que utiliza desse meio por ser fraco (p.292).

Dentre os meios utilizados pelos terroristas para atingir seus objetivos, encontram–se práticas como: “[…] bombardeios, sequestros, ataques incluindo assassinatos, e tomadas de prédios, aviões e navios, normalmente, com reféns.”[v] (LUTZ e LUTZ, p. 293, 2006). Os atos praticados pelo grupo ISIS envolvem vários desses meios exemplificados pelos autores e estão se mostrando estratégias eficientes para o grupo, visto o grande avanço que já obtiveram.

O Terrorismo do Estado Islâmico.

Os tipos principais de terrorismo segundo Brenda e James Lutz (2006) são o religioso, o étnico,  o ideológico e o nacionalista. O tipo que mais se encontra no mundo desde o fim da Guerra Fria e que, coincidentemente, é a modalidade do terrorismo do EI, é o terrorismo religioso, o qual, mesmo tendo um suposto plano de fundo religioso, busca atingir fins políticos, no caso, a formação do Califado. Além disso, o ISIS pratica o chamado “terrorismo internacional”, que, segundo os autores, envolve a ação violenta em território estrangeiro ao grupo ou a ação violenta direcionada a estrangeiros em um país qualquer.

Um dos fatores que mais contribui para que o terrorismo emerja são as estruturas em que eles se estabelecem. O ISIS, por exemplo, se consolidou em uma conjuntura caracterizada pela precariedade do sistema policial e pela fraqueza institucional do Estado. No caso desse artigo e, segundo a interpretação de Brenda e James Lutz (2006), essa precariedade e essa fraqueza expõe a falta de controle do Estado sobre regiões do  seu território. Esses fatores críticos remetem à incursão equivocada à província de Anbar, na qual o Primeiro-Ministro ordenou um ataque repressivo aos sunitas da região que conseguiram resistir e passaram a se apresentar de maneira párea ao governo (MANFREDA, 2014).

Segundo os autores (2006), a globalização também  tem papel central para desencadear eventos terroristas. A rapidez nos fluxos de comunicação e de transporte favorecem o contato entre diferentes culturas, as  grandes redes, a dispersão do terror por outras vias e permitem, também, que os grupos possam ser financiados e sustentados com o material bélico necessários para eles.

Dentre essas perspectivas se tem o fato de que o EI exerce um marketing profissional, envolvendo aplicativos para telefone portáteis, uma revista – The Islamic State Report -, peças de vestuário, um acervo de vídeos e canções militares, além da presença em mídias sociais como o Facebook, o Twitter, o Youtube, que permitem, também, que eles espalhem o terror por outras fontes (JIHADIST NEWS, 2014). Todo esse terror, espalhado por diversas fontes exigiu uma movimentação internacional de  diversos Estados e organismos internacionais que expõem  sua insatisfações e buscam  apresentar  iniciativas concretas para tratar da causa.

As respostas domésticas e internacionais ao Terrorismo do Estado Islâmico

As estratégias de segurança frente às incursões terroristas podem ser exercidas de diversas maneiras, cada uma aplicada a um contexto diferente. Um dos artifícios possíveis para se combater alguma ameaça é se securitizar uma temática. Ao fazer isso, o Estado legitima o uso da força e permite  que ele se mobilize dedicando maiores recursos para conter a ameaça. A partir desse processo, o Estado ganha liberdade para justificar atos políticos excepcionais que podem envolver ações como a implantação do “estado de sítio”, o sigilo e a quebra de regras.

Um pedido para se instaurar o “estado de sítio” foi enviado para o parlamento pelo primeiro-ministro iraquiano al-Maliki, depois da tomada da cidade de Mosul pelo grupo (junho/2014). Essa atitude foi necessária pelo cenário que se formou e estava se formando na região, principalmente após a tomada dessa cidade que tem importância estratégica por conter jazidas de petróleo que, hoje, são uma das principais fontes de financiamento do grupo. No entanto, o pedido não foi aceito pelo parlamento iraquiano devido ao receio político das consequências da requerida suspensão constitucional (ABC NEWS, 2014).

Quanto às respostas ao terrorismo internacional, Brenda e Lutz (2006) colocam que os Estados podem cooperar estabelecendo redes e medidas contraterroristas. Segundo eles, a criação de órgãos de vigilância e a celebração de tratados que firmem o compromisso sobre a causa constrangem o comportamento dos países de forma a fazer com que eles se preocupem com as potenciais ameaças terroristas.

O cenário de horror instaurado na província de Anbar causou repercussão nas Nações Unidas. O Iraque já convivia com a presença constante da ONU por meio da United Nations Assistance Mission for Iraq (UNAMI), estabelecida desde 2003 pelo Conselho de Segurança da ONU (UNAMI, 2014). O órgão passou a emitir relatórios a respeito da crise humanitária de Anbar no período de janeiro a maio, relatando sobre as famílias desalojadas, a precariedade da região e evocando a necessidade de auxílio humanitário para suprir as demandas de água, alimentos e produtos de higiene pessoal. Ao todo, foram 26 relatórios em que foi exposto o monitoramento feito pela ONU para atenuar os problemas surgidos com o conflito da região, sendo fundamentais para a amenização dos ônus sociais do processo corrente. (UNAMI, 2014).

Uma das maiores ações  da ONU quanto ao ISIS foi a Resolução 2178 do Conselho de Segurança que tratou especificamente do grupo. Segundo a resolução, “mais de 13.000 combatentes estrangeiros de mais de 80 Estados Membros se juntaram ao ISIL e a Frente Al-Nusra[vi]. Essa resolução, aceita por unanimidade na organização, esboça a necessidade de um esforço conjunto para se combater o terrorismo ou, até mesmo, os ideais terroristas, que podem motivar as pessoas a tomarem partido da luta desses grupos e se juntarem à ação (MANFREDA, 2014).

Uma outra resposta internacional advém de grandes representantes do mundo islâmico, como Yad Ameen Madani, Secretário Geral da Organização de Cooperação Islâmica e dos líderes da Sociedade Islâmica da América do Norte (ISNA). Esses personagens, visando afastar essa imagem negativa sobre a fé islâmica, reprovaram os atos do grupo por meio de vídeos, e-mails e mensagens e enfatizaram o repúdio às atitudes da organização, afirmando que tais atos não condizem com a religião (GLOBAL RESEARCH CENTER, 2014).

O colunista Richard Glover (2014), do jornal The Sydney Morning Herald, nesse mesmo ensejo, tenta desfazer essa imagem do Estado Islâmico como um grupo que represente os muçulmanos. Quanto a grande adesão de indivíduos das mais diversas nacionalidades, ele argumenta que “o Estado Islâmico não passa de uma justificativa conveniente para os perdidos e enfurecidos”[vii], afirmando que os motivos que fazem com que essas pessoas se aliem a causa do Estado Islâmico não é a filosofia muçulmana, como a mídia alega, mas sim um cenário de desilusões psicológicas como o abuso de drogas, fracassos na carreira, dentre outros aspectos, distanciando os ideais muçulmanos dos atos terroristas praticado pelo ISIS.

Considerações Finais

As conclusões estabelecidas ao longo do artigo apresentam o vínculo do Estado Islâmico com o Islamismo em si, devido a motivação de se instaurar o califado, aplicar a sharia, dentre outros processos. Por outro lado, é sempre necessário se afastar grupos radicais islâmicos e seus métodos do Islamismo em si, de forma a não permitir que se atribua um  caráter violento a uma religião que zela pela paz e pela justiça.

Ao se tratar de terrorismo no Oriente Médio, é sempre importante alertar para o fato de que imagem do mundo árabe torna-se cada vez mais desgastada. A influência midiática negativa que permeia o mundo ocidental, relaciona a imagem do Oriente Médio somente a um ambiente de guerra, insurgências, instabilidade e irracionalidade, criando uma falsa imagem sobre o que é o mundo árabe.

Portanto, diversas precauções devem então ser tomadas, de modo a não cair no senso comum sobre a conjuntura sociopolítica do Oriente Médio. Antes de  afirmar que se trata de um grupo terrorista religioso é necessário manter em mente que o conceito de terrorismo, que está sendo abordado aqui, já engloba a obrigatoriedade de se desejar atingir fins políticos, ou seja, envolve um conjunto de atos que buscam mudar uma ordem política vigente, sendo esse o ponto-chave para se entender o Estado Islâmico. A religião é somente um dos alicerces no qual o grupo se apoia, assim como a oposição da organização à influência ocidental, que historicamente  conflitou com  o modo de vida muçulmano.

O radicalismo é um fator ao qual todas as religiões estão sujeitas, exemplo disso é o famoso grupo cristão Ku Klux Klan que, sendo autor de diversos atos terroristas contra os negros nos EUA, se distancia da tolerância e da doutrina do “amor ao próximo”, preceito-base do Cristianismo. Dessa maneira, é necessário se desvincular o Islamismo do extremismo e analisar o terrorismo de forma crítica, de modo a traçar as reais motivações e objetivos dos grupos terroristas.

REFERÊNCIAS 

ALVES, José Belmiro. Desafios no Século XXI: Terrorismo Islâmico e Crime Organizado. Trabalho apresentado à Universidade Fernando Pessoa como parte dos requisitos para a obtenção do grau de mestre em Relações Internacionais com o Mundo Árabe e Islâmico. Porto, 2010.

BBC, 2014. What is Islamic State? Disponível em:< http://www.bbc.com/news/world-middle-east-29052144&gt; Acesso em: out, 2014

GLOBAL RESEARCH. Muslim Leaders Worldwide Condems ISIS. Disponível em: < http://www.globalresearch.ca/muslim-leaders-worldwide-condemn-isis/5397364&gt;. Acesso em: out, 2014.

GLOVER, Richard. Islamic State? A better name would be na Unslamic State”. Disponível em: http://www.smh.com.au/comment/islamic-state-a-better-name-might-be-unislamic-state-20140930-10o0ok.html. Acesso em: set, 2014.

HUMAN RIGHTS WATCH. Iraq: ISIS Abducting, Killing, Expelling Minorities. Disponível em< http://www.hrw.org/news/2014/07/19/iraq-isis-abducting-killing-expelling-minorities&gt;. Acesso em out. 2014.

JIHADIST NEWS. ISIS Spokesman Declares Caliphate, Rebrands Group as “Islamic State”. Monitoring Service Jihadist Threat. Disponível em https://news.siteintelgroup.com/Jihadist-News/isis-spokesman-declares-caliphate-rebrands-group-as-islamic-state.html. Acesso em: out, 2014

LEWIS, Bernard. A Crise do Islã: Guerra Santa e Terror Profano. 2003. Jorge Zahar Editor.

LUTZ, Brenda; LUTZ, James. Terrorism. 2006

MANFREDA, Primoz. Al Qaeda in Syria: Al Nusra Front. Disponível em<http://middleeast.about.com/od/syria/tp/Al-Qaeda-In-Syria-Al-Nusra-Front.html&gt;. Acesso em: set, 2014.

PALAZZO, Carmen Lícia. A emergência do ISIS/ISIL e as ameaças ao equilíbrio de forças no Oriente Médio. Dsponível em < http://mundorama.net/2014/06/28/a-emergencia-do-isisisil-e-as-ameacas-ao-equilibrio-de-forcas-no-oriente-medio-por-carmen-licia-palazzo&gt;. Acesso em: out, 2014

UNAMI. Disponível em: http://www.uniraq.org/index.php?option=com_k2&view=item&layout=item&id=943&Itemid=637&lang=en. Acesso em out., 2014.

[i] Região que engloba os territórios da Síria, Líbano, Israel, Jordania, Chipre e Turquia.

[ii] Califado é um regime gerido pelo califa – “sucessor” -, que é um governante sucessor de Maomé.

[iii] Termo utilizado pelas mídias BBC, Irish Times, Express, dentre outras.

[iv]involves (1) the use of violence or threat of violence (2) by na organized group (3) to achieve political objectives. The violence (4) is directed agains a target audience that extends beyond the immediate victims, who are innocent civilians.”

[v] :“Bombings, kidnappings, assaults including assassinations, and takeovers of buildings or planes or ships, invariably with hostages.”

[vi] ” “more than 13,000 foreign fighters from more than 80 Member States had joined ISIL and the Al-Nusra Front”.

[vii] Islamic State is just a flag of convenience for the lost and enraged

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2 respostas para Estado Islâmico: terrorismo ou religião?

  1. Patrícia disse:

    Gostei muito deste artigo que é objetivo e esclarecedor. Em tempos que todos dão opiniões de senso comum, análises como as presentes no artigo são muito importantes.

  2. Patrícia disse:

    O artigo é muito esclarecedor e objetivo. Em tempos de opiniões senso comum no qual todos entendem de tudo e sobre tudo, as análises foram bem feitas de maneira simples e direta esclarecendo pontos obscuros que a mídia não mostra.

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