Eleições na América Latina em 2014: Implicações para o Brasil

Bruna Moreira Silva Coelho

Resumo

Neste ano de 2014, sete países na América Latina tiveram eleições presidenciais e apenas um desses sete, o Uruguai, aguarda ainda o resultado de um segundo turno a ser realizado no dia 30 de Novembro. El Salvador e Costa Rica tiveram suas eleições em fevereiro, Panamá e Colômbia em maio e Bolívia, Brasil e Uruguai em outubro. Este artigo pretende analisar os efeitos dos resultados dessas eleições para a política externa do Brasil na região da América Latina.  

As Eleições

Em El Salvador, o vice-presidente, Salvador Sánchez Séren venceu a eleição, após 4 dias de votações, com 50,11% dos votos. Ele é um candidato do partido Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional (FMNL), partido que chegou ao poder em 2009 com uma campanha que foi comandada pelo marqueteiro da atual presidente do Brasil, Dilma Rousseff, João Santana. Séren é o primeiro ex-guerrilheiro a assumir a presidência nesse país, e o quarto na América Latina depois de Daniel Ortega na Nicaragua, José Mujica no Uruguai e Dilma Rousseff no Brasil. A eleição de Séren não foi bem recebida pelo partido da oposição que acusou o seu partido de fraude nas eleições, pedindo a recontagem dos votos (EL SALVADOR CONFIRMA…, 2014).

Já na Costa Rica, Luis Guillermo Solís venceu o segundo turno com a maior quantidade de votos na história da Costa Rica; com 94% das mesas apuradas ele já tinha 77,88% dos votos. Ele baseou sua campanha em uma promessa de maior união nacional e maior justiça social.  É a primeira vez que o seu Partido de Acción Ciudadana (PAC) irá governar a Costa Rica. O seu adversário, Johnny Araya, do Partido Libertación Nacional (PLN) abandonou sua campanha eleitoral um mês antes do segundo turno, facilitando a vitória de Solís.  A campanha de Solís se baseia em promessas de reativação do setor agropecuário, erradicação da pobreza e fortalecimento de áreas como saúde e educação (LUIS GUILLHERMO SOLÌS…, 2014).

Ao contrário de El Salvador, onde o mesmo partido se manteve no poder, no Panamá o candidato opositor, Juan Carlos Varela, venceu as eleições.  “Ele teve cerca de 40% dos votos, com mais de 60% dos votos apurados, e será o presidente entre 2014 e 2019” (VICE=PRESIDENTE E CANDIDATO…, 2014). Surpreendentemente, Juan Carlos Varela era o vice-presidente do país, mas não recebeu o apoio do presidente Ricardo Martinelli, se juntando então ao partido de centro-direita da oposição, o PP. Ele assumiu o crédito pelas políticas do ex-presidente e prometeu um governo limpo, com a redução da pobreza e da corrupção. Ele ajudou Martinelli a ser eleito em 2009, mas as relações entre os dois foram cortadas após alguns desentendimentos em 2011. Vale ressaltar que Varela revelou em entrevista que recebeu a ligação de felicitação de alguns líderes da região, incluindo o presidente da Venezuela Nicolás Maduro, acrescentando que o restabelecimento das relações com a Venezuela será uma prioridade em seu governo (VICE-PRESIDENTE E CANDIDATO…, 2014).

Na Colômbia, Juan Manuel Santos foi reeleito, com 50,9%, dos votos no segundo turno, em uma disputa contra Óscar Iván Zuluaga. A disputa foi acirrada uma vez que Zuluaga obteve o primeiro lugar no primeiro turno. Ambos candidatos são de direita, mas a principal diferença entre eles é a posição em relação às negociações para alcançar um acordo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Santos utilizou esse acordo de paz como base de sua campanha, principalmente após o primeiro turno, e iniciou conversas com representantes das FARC em Havana há um ano e meio (JUAN MANUEL SANTOS, 2014).

Em relação à Bolívia, Evo Morales, o atual presidente, com 60% dos votos irá para o seu terceiro mandato. Em seu discurso de vitória, Morales dedicou sua vitória ao cubano Fidel Castro e ao ex-presidente venezuelano Hugo Chávez. Morales é conhecido por ser anti-imperialista e socialista e durante o seu governo houve um aumento nas receitas de exportação da Bolívia e um crescimento econômico acima da média regional (EVO MORALES VENCE…, 2014).

O Brasil foi o último desses 6 países a decidir as eleições, no final do mês de outubro. A atual presidente, Dilma Rousseff, venceu as eleições com 51,64 % dos votos no segundo turno. Essa pode ser considerada a disputa mais acirrada pela presidência desde a redemocratização do país após o fim da ditadura militar. Essa é a terceira vez seguida que um presidente é reeleito no Brasil e com essa vitória o Partido dos Trabalhadores (PT) completará 16 anos no poder. Em seu discurso após a reeleição, a presidente afirma estar disposta a dialogar, negando a ideia de que o país saiu dividido das eleições (NA DISPUTA MAIS…, 2014).

Por fim, no Uruguai, a disputa pelo cargo da presidência ainda está ocorrendo e o segundo turno ocorrerá no dia 30 de novembro. Tabaré Vázquez, candidato do partido governante Frente Ampla enfrentará Luis Lacalle Pou, candidato do Partido Nacional. Como esperado, o partido Frente Ampla foi o favorito no primeiro turno com 45,5% dos votos, mas o que surpreendeu foi o crescimento do apoio popular ao Partido Nacional que subiu constantemente nas pesquisas, conquistando 31,7% dos votos (ELEIÇÂO NO URUGUAI…, 2014).

Preocupações do Brasil na Colômbia

A maior preocupação do Brasil, assim como outros vizinhos na América Latina, em relação às eleições na Colômbia foi a continuidade do diálogo de paz capaz de acabar com os conflitos com as FARC. O atual presidente, que foi reeleito, tem negociado há 18 meses um acordo de paz com as FARC em busca de uma política agrária que satisfaria ambos os lados, uma vez que a questão pode ser considerada o ponto central do conflito. A reeleição de Santos agrada o Itamaraty, que se mostrava a favor do diálogo de paz e evita a via militar para derrotar a guerrilha, tática que a oposição utilizaria caso chegasse ao poder. Outra preocupação em relação ao conflito seria o fato dele permitir a presença militar norte-americana na Colômbia, preocupando os países ao seu redor (JARDIM, 2014).

Outra preocupação inclui as relações da Colômbia e Venezuela, pois o ex-presidente colombiano, Álvaro Uribe, foi acusado de participar de planos para derrotar o governo de Nicolás Maduro após se reunir com Leopoldo López, líder dos radicais, em Bogotá antes do início dos protestos. A Colômbia, no entanto, junto com o Brasil e Equador, participa da União de Nações Sul-Americanas (UNASUL)[i], que busca um diálogo entre o governo Venezuelano e a coalizão opositora para solucionar a crise[ii]. Santos, no entanto, mantinha relações amigáveis com o governo de Hugo Chaves e, consequentemente, com o governo de Maduro (JARDIM, 2014).

Já na esfera econômica, o crescimento da Colômbia, é um fator que agrada vários investidores brasileiros. “Em 2012, os investimentos do Brasil no país foram de US$ 383 milhões, e em 2013, de US$ 271 milhões, de acordo com a Câmara Colombo-Brasileira (JARDIM, 2014)”. A sua política fiscal prudente e os seus investimentos em infraestrutura têm sido fatores que levam o país a receber diversos elogios de investidores. O principal empecilho, no entanto, a um melhor comércio bilateral entre os dois países é a floresta amazônica, que ocupa a fronteira entre os dois países, dificultando tal relação comercial. Ao Brasil, o que mais interessa, entretanto, são as questões geopolíticas citadas anteriormente como a UNASUL, união que se tornaria uma preocupação caso Santos tivesse perdido as eleições uma vez que Uribe se opõe a essa união (JARDIM, 2014).

Preocupações do Brasil na Bolívia

As relações entre o Brasil e a Bolívia tem se tornado mais distantes depois do fim do mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Apesar de Dilma Rousseff não ter visitado a Bolívia em seu primeiro mandato, Evo Morales afirma que as relações entre os dois países são distantes mas de confiança. Caso Aécio Neves, candidato do PSDB, tivesse vencido as eleições no Brasil, a relação entre os dois países poderia ter sofrido algum abalo já que ele afirmou que poderia rever as relações com esse país devido à entrada de drogas produzidas na Bolívia dentro do Brasil. Embora essa situação preocupe o governo de Dilma, Aécio provavelmente adotaria uma postura mais agressiva em relação ao tráfico de drogas (CARMO, 2014).

O comércio bilateral entre os dois países também é um fator relevante, visto que o Brasil é o principal parceiro comercial da Bolívia. A economia do governo Evo tem apresentando as taxas de crescimento, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), mais robustas da América Latina, em torno de 5,2% ao ano. Apesar desse crescimento e da diminuição da pobreza na região, os empregos oferecidos ainda são muito precários (CARMO, 2014).

O gás natural boliviano representa um dos principais interesses do Brasil na região, pois “de acordo com cálculos realizados pelo analista energético boliviano, Carlos Alberto López, o gás natural que o Brasil importa da Bolívia representa hoje cerca de 27,8% deste consumo interno brasileiro (CARMO, 2014).” Esse gás é essencial para o setor industrial brasileiro e, com as eleições de Evo, não se espera nenhuma mudança em relação ao comércio desse produto, embora em 2006 Evo Morales tenha nacionalizado o setor, gerando uma crise entre os dois países (CARMO, 2014).

A vitória de Dilma: Implicações para o Brasil

Com a vitória de Dilma Rousseff no segundo turno, acredita-se que o Brasil continuará com políticas alternativas ao neoliberalismo na América Latina. No governo de Lula, a política externa brasileira resgatou sua independência e autonomia, adotando diversas iniciativas no campo das relações internacionais. Dilma manteve essas inciativas, dando continuidade às suas políticas, sobretudo para as relações Sul-Sul e a integração do continente americano. Além disso, Dilma fortaleceu coalizões internacionais como a UNASUL e os BRICS com, por exemplo, a criação de um Banco de Desenvolvimento em julho desse ano[iii] (JAKOBSEN, 2014).

Outros acontecimentos que ocorreram durante esse governo incluem o apoio do Brasil ao ingresso da Venezuela como membro permanente do Mercosul e a realização da Conferência “Rio + 20” sobre o Desenvolvimento Sustentável que ocorreu no Rio de Janeiro em junho de 2012. Dilma deverá continuar com o fortalecimento das relações Sul-Sul, com coalizões cada vez mais atuantes no plano global para aumentar a influência do Brasil no cenário mundial (JAKOBSEN, 2014).

Considerações Finais

Apesar das diversas eleições que ocorreram no ano de 2014 na América Latina, a tendência das relações nessa região é de continuação das políticas já existentes. Em cinco dos seis países onde já ocorreram as eleições não houve grande alternância de poder. Com isso, é possível concluir que a maioria desses países tenderá a buscar uma maior integração com os países da América do Sul, buscando, na integração regional, avanços econômicos e uma maior influência na política internacional. Vale ressaltar o caso do Brasil que, com a reeleição de Dilma Rousseff, tenderá a estreitar os laços com os países latino-americanos, almejando fortalecer a cooperação sul-sul e o papel do país na região.

REFERÊNCIAS

BREDA, Tadeu. Eleições marcadas para 2014 na América Latina não devem mudar conjuntura da região. São Paulo, 2014. Disponível em: <http://www.redebrasilatual.com.br/mundo/2014/01/eleicoes-na-america-latina-marcadas-para-2014-nao-devem-mudar-conjuntura-da-regiao-1342.html.&gt; Acesso em: 26 out. 2014.

CARMO, Marcia. Por que as eleições na Bolívia interessam ao Brasil? BBC Brasil, Buenos Aires, 2014. Acesso em: <http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/10/141009_bolivia_eleicoes_mc&gt;. Disponível em: 27 out. 2014.

El SALVADOR CONFIRMA Vitória de Ex-Guerrilho em Eleições Presidenciais. Folha De São Paulo, São Paulo: 2014. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2014/03/1424892-el-salvador-confirma-vitoria-de-ex-guerrilheiro-em-eleicoes-presidenciais.shtml&gt;. Acesso em: 26 out. 2014.

ELEIÇÃO NO URUGUAI para 2° turno; 3° colocado apoia oposição. Globo.com, 2014. Disponível em: <http://g1.globo.com/mundo/noticia/2014/10/eleicao-no-uruguai-vai-para-o-2-turno-3-colocado-apoia-oposicao.html&gt;. Acesso em: 27 out. 2014.

EVO MORALES VENCE eleições e garante terceiro mandato na Bolívia. Último Segundo: 2014. Disponível em: <http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2014-10-13/evo-morales-vence-eleicoes-e-garante-terceiro-mandato-na-bolivia.html&gt;. Acesso em: 26 out. 2014.

FILHO, Roberto Stuckert. 7 eleições presidenciais cruciais na América Latina em 2014. Exame, 2014. Disponível em: <http://exame.abril.com.br/mundo/noticias/7-eleicoes-presidenciais-cruciais-na-america-latina-em-2014.&gt; Acesso em: 26 out. 2014.

JUAN MANUEL SANTOS é reeleito na Colômbia. O Globo, Buenos Aires: 2014. Disponível em: <http://oglobo.globo.com/mundo/juan-manuel-santos-reeleito-na-colombia-12865627&gt;. Acesso em: 26 out. 2014.

JAKOBSEN, Kjeld. A vitória de Dilma e o futuro da política externa. Carta Capital, 2014. Disponível em: <http://www.cartacapital.com.br/blogs/blog-do-grri/a-vitoria-da-dilma-e-o-futuro-da-politica-externa-3797.html&gt;. Acesso em: 28 out. 2014.

JARDIM, Claudia. Por que a eleição na Colômbia interessa ao Brasil? BBC Brasil, Caracas, 2014. Disponível em: <http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/05/140522_eleicao_colombia_mdb_cJ&gt;. Acesso em: 27 out. 2014.

LUIS GUILLHERMO SOLÍS é Eleito Presidente da Costa Rica. Globo.com. 2014. Disponível em: <http://g1.globo.com/mundo/noticia/2014/04/luis-guillermo-solis-e-eleito-presidente-da-costa-rica.html&gt;. Acesso em: 26 out. 2014.

NA DISPUTA MAIS acirrada da história, Dilma é reeleita presidente do Brasil. Folha de São Paulo, São Paulo: 2014. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/10/1537894-dilma-e-reeleita-presidente-do-brasil.shtml&gt;. Acesso em: 27 out. 2014.

VICE-PRESIDENTE E CANDIDATO da oposição vence eleições no Panamá. Globo.com, São Paulo: 2014. Disponível em: <http://g1.globo.com/mundo/noticia/2014/05/vice-presidente-e-candidato-da-oposicao-vence-eleicoes-no-panama.html&gt;. Acesso em: 26 out. 2014.

[i] Para mais informações, ver: http://www.itamaraty.gov.br/temas/america-do-sul-e-integracao-regional/unasul.

[ii] Para mais informações, ver: https://pucminasconjuntura.wordpress.com/2014/04/08/as-manifestacoes-na-venezuela-politica-polarizada-crise-financeira-e-inseguranca/.

[iii] Para mais informações, ver: https://pucminasconjuntura.wordpress.com/2014/11/05/o-novo-banco-de-desenvolvimento-do-brics-principios-caracteristicas-e-perspectivas/.

Anúncios
Esse post foi publicado em América e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s