A posição do governo dos Estados Unidos frente à ameaça do Estado Islâmico

Orion Siufi Noda

Resumo

A recente emergência do grupo jihadista Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIS; também conhecido simplesmente por Estado Islâmico) atraiu a atenção do mundo todo, havendo coberturas midiáticas por praticamente todos os meios de comunicação. As ações do grupo, considerado terrorista pela ONU, apresentam uma ameaça ao Ocidente, forçando que as grandes potências ocidentais – em foco aqui os Estados Unidos – tomem as medidas necessárias para tratar de tal questão de segurança. Analisar-se-á neste artigo quais foram as medidas tomadas pelo governo estadunidense a fim de conter a ameaça do ISIS até o momento.

Contexto histórico do Estado Islâmico

O grupo jihadista conhecido como Estado Islâmico possui uma pletora de nomenclaturas, tanto atuais quanto anteriores, sendo originalmente fundado em 1999 por Abu Musab al-Zarqawi sob o nome de “Jamaat al-Tawhid wa-l-Jihad” – Grupo do Monoteísmo e Jihad (ZELIN, 2014).  Em 2003, durante a ingerência estadunidense no Iraque, o grupo Jamaat al-Tawhid wa-l-Jihad uniu forças com a Al-Qaeda, de Osama Bin Laden, no conflito contra a invasão. No final do ano seguinte, al-Zarqawi jurou aliança à Al-Qaeda renomeando seu próprio grupo para “Al-Qaeda no Iraque” (AQI) (ZELIN, 2014).

Apesar da união dos dois líderes – al Zarqawi e Bin Laden –, a diferença ideológica entre ambos era clara: enquanto o primeiro adotava uma postura mais radical, com abuso de atos de violência, Bin Laden se posicionava de forma estratégica, pensando no conflito a longo prazo (FISHMAN, 2008). O líder da Al-Qaeda, inclusive, mandara cartas a al-Zarqawi de modo a tentar persuadí-lo a mudar seus meios e ações (ZELIN, 2014). Por esta diferença ideológica presente entre os dois líderes e grupos, a fim de tentar se distanciar da Al-Qaeda, al-Zarqawi funde a AQI com outros grupos periféricos de mesmo cunho, formando uma organização denominada Majlis Shura al-Mujahedin (MSM), em 2006 (ZELIN, 2014).

No mesmo ano, o MSM declara o Estado Islâmico no Iraque (ISI), abarcando seis grandes regiões: Baghdad, Anbar, Diyala, Kirkuk, Salah al-Din e Ninawa (FISHMAN, 2008; ROGGIO, 2006). O propósito do ISI seria o de governar baseado na Sharia, servindo como uma égide ao povo e à religião (ROGGIO, 2006). No entanto, a AQI perdera muita força, incluindo o apoio popular que tinha, devido à preocupação excessiva referente à punições individuais derivadas de uma interpretação mais radical da Sharia (ZELIN, 2014), e também devido aos esforços das tropas estadunidenses, infiltrando agentes na própria AQI (ROGGIO, 2007). Phillips (2009), em um trabalho intitulado How Al-Qaeda Lost Iraq, cita extratos de cartas de membros da AQI nos quais é possível notar o declínio do grupo: “Os americanos e os infiéis lançaram suas campanhas contra nós e agora nos encontramos em um círculo sem poder nos mover, organizar ou conduzir nossas operações” (membro não-identificado da AQI, apud Phillips, 2009, p. 1).

Após a morte dos líderes da AQI e do MSM, em 2009 (BBC, 2010), a expectativa era a de que o grupo não sobreviveria, devido às perdas monumentais, contudo, as atividades não cessaram e Abu Bakr al-Baghdad fora apontado como o novo líder do ISI (ZELIN, 2014). Após o mencionado declínio do grupo, al-Baghdad se mostrou um líder capaz e, em 2013 – após a invasão na Síria –, ele conduz a união dos grupos sunitas, dando origem ao Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL), também conhecido como Estado Islâmico do Iraque e da Síria (ISIS).

A resposta do governo estadunidense

A “ameaça” do ISIS afeta uma gama de Estados do sistema internacional, sendo os Estados Unidos um dos mais impactados. A luta do auto-intitulado Estado Islâmico contra o Ocidente – novamente, tendo os EUA como principal alvo – exerceu enorme pressão para que o presidente Barack Obama tomasse uma decisão e apresentasse sua estratégia para a contenção do ISIS. Entretanto, em agosto deste ano, quando perguntado justamente acerca das estratégias militares a serem usadas na luta contra a ameaça, o presidente dos EUA afirmou não ter nenhuma estratégia (até o momento). Tal fato foi pivotal para pesadas críticas, principalmente do partido republicano, o qual apontava a política externa de Obama como ineficaz no que diz respeito à contenção de ameaças terroristas (COHEN, 2014).

Duas semanas após o episódio, Obama proclama um discurso direcionado à população estadunidense no qual afirma ter uma estratégia para combater as ameaças terroristas. Em seu discurso, ele deslegitima as ações e propósitos do suposto Estado Islâmico ao ressaltar o fato de que este não constitui um Estado – e nem é reconhecido como tal por nenhum Estado –, e não é “islâmico”, pois nenhuma religião tolera o assassinato de inocentes (OBAMA, 2014).

No discurso em questão, também é frisado o fato de que o ISIS é não só um grupo terrorista, mas também um “câncer” que deve ser eliminado, pois seu modus operandi é considerado violento e inapropriado e principalmente devido ao fato de que tal ameaça pode chegar em território estadunidense. Desta forma, Obama explicita os quatro pontos de sua estratégia para combater a ameaça terrorista do ISIS, cujo objetivo é simples:

“Degradar e eventualmente destruir o ISIS por meio de uma extensa estratégia de contra-terrorismo […] Nós vamos caçar os terroristas que ameaçam nosso país onde quer que eles estejam. Isso significa que eu não hesitarei em agir contra o ISIS na Síria bem como no Iraque […] Se você ameaça os Estados Unidos, você não encontrará refúgio.” (OBAMA, 2014).

A estratégia estadunidense para conter a ameaça do ISIS consistiria no engajamento da força aérea norte-americana em ataques aéreos precisos a alvos predestinados; no envio de tropas estadunidense para treinamento das forças armadas iraquianas no combate terrestre – e neste ponto Obama reforçou o fato de que as tropas terrestres dos Estados Unidos não entrarão em combate; na utilização de serviços de inteligência a fim de prever ataques do ISIS; e na permanência de ações de ajuda humanitária aos civis que foram afetados pelo conflito (OBAMA, 2014).

Os bombardeios anunciados por Obama em seu discurso foram de fato executados e alega-se que sua taxa de sucesso fora alta, chegando a eliminar membros-chave do ISIS (LOGIURATO, 2014). No entanto, apesar dos resultados imediatos das ações, o presidente Obama afirmou que a luta contra o grupo será de longa duração (KAPLAN, 2014).

Contudo, os bombardeios acarretam, também, problemas referentes ao Direito Internacional, mais especificamente a questão da soberania dos países. Seguido de um ataque aéreo em setembro na Síria – o qual neutralizou um membro importante do grupo, o presidente do Irã Hassan Rouhani alegou que os Estados Unidos não tinham base legal para realizar o ataque, devido ao fato do mesmo não ter sido aprovado pela ONU, além da quebra de soberania síria.

Considerações finais

A ameaça do ISIS, apesar da atenção que recebeu ultimamente, não é recente como se pensa, sendo o ISIS um grupo que teve início há mais de uma década, mas que sofreu alterações até sua forma atual. Os Estados Unidos, condizente com sua política de Guerra ao Terror, fez frente ao grupo e apresentou sua estratégia de contenção da ameaça terrorista. No entanto, há questões levantadas a serem respondidas referentes às estratégias estadunidenses.

O principal dilema o qual os Estados Unidos devem contornar é justamente o da intervenção e engajamento no conflito. Primeiramente, ao afirmar que os Estados Unidos não hesitarão em agir em território sírio ou iraquiano, pode-se alegar que o desrespeito à soberania destes países se deu pois trata-se de uma questão de segurança dos Estados Unidos. Contudo, o envolvimento do país em excesso pode resultar em uma situação similar àquela da invasão dos EUA no Iraque, fato que o presidente Barack Obama se comprometeu a não permitir.

Tal estratégia de contra-terrorismo, denominada de uma “campanha de bombardeamento” (MERRY, 2014), pode vir a causar mais problemas do que soluções. Como Merry (2014) disserta, o ISIS é um grupo baseado no islamismo e deve ser combatido dentro do próprio islamismo, ou seja, a interferência de agentes externos – principalmente em ações militares de bombardeamento aéreo – pode ter o efeito contrário e resultar em mais aderências à causa do ISIS.

Contudo, isso se torna um problema para Estados Unidos, pois como, segundo Obama, o ISIS representa de fato uma ameaça para o país, não se pode permanecer imobilizado esperando que a questão seja resolvida por terceiros. Estados prezam, acima de tudo, por sua própria sobrevivência e com base em tal pressuposto, uma ingerência militar, tanto aérea quanto terrestre seria não só uma possibilidade, como também uma opção vantajosa.

Referências

BBC, US Says 80% of Al-Qaeda Leaders in Iraq Removed, 2010. Disponível em: <http://www.bbc.co.uk/news/10243585> Acesso em 02 nov 2014

CARTER, C; LABOTT, E. & SCIUTTO, J. ‘The Turk’ is dead: Al-Qaeda-linked terror group says leader died in Syria airstrikes, BBC, 2014. Disponível em: <http://edition.cnn.com/2014/09/23/world/meast/isis-airstrikes/> Acesso em 10 nov 2014

COHEN, T. Obama’s No ‘Strategy Yet’ Comment on ISIS in Syria Sparks a Political Uproar, CNN, 2014. Disponível em: <http://edition.cnn.com/2014/08/29/politics/obama-isis-strategy/index.html> Acesso em 02 nov 2014

FISHMAN, B. Using the Mistakes of al Qaeda’s Franchises to Undermine Its Strategies, 2008 à completar.

KAPLAN, F. Obama’s Quagmire, Slate, 2014. Disponível em: <http://www.slate.com/articles/news_and_politics/war_stories/2014/10/president_obama_s_campaign_against_isis_lacks_a_strategy_the_united_states.html> Acesso em 02 nov 2014

KAPLAN, R. Obama Says Fight Agains ISIS Will Be a “Long-Term” Campaign, CBS, 2014. Disponível em: <http://www.cbsnews.com/news/obama-says-fight-against-isis-will-be-a-long-term-campaign/> Acesso em 02 nov 2014

LOGIURATO, B. US Airstrikes Just Destroyed An ISIS ‘Command Node’ In Syria, Business Insider, 2014. Disponível em: <http://www.businessinsider.com/us-airstrikes-isis-command-node-syria-kobani-2014-10> Acesso em 02 nov 2014

MERRY, R. Obama’s ISIS Strategy: Doomed for Failure, The National Interest, 2014. Disponível em: <http://nationalinterest.org/feature/obamas-isis-strategy-doomed-failure-11585> Acesso em 02 nov 2014

OBAMA, B. Discurso à nação americana referente à ameaça do ISIS, 2014. Disponível em: <http://politicslive.cnn.com/Event/President_Obamas_speech_on_ISIS> Acesso em 02 nov 2014

PHILLIPS, A. How Al-Qaeda Lost Iraq, The Australian Journal of International Affairs, v.63, n.1, 2009. Disponível em: <http://www.polsis.uq.edu.au/docs/PHILLIPSHowAlQaedaLostIraq.pdf> Acesso em 02 nov 2014

ROGGIO, B. Targeting al-Qaeda in Iraq’s Network, The Weekly Standard, 2007. Disponível em: <http://www.weeklystandard.com/weblogs/TWSFP/2007/11/targeting_al_qaeda_in_iraqs_ne.asp&gt; Acesso em 02 nov 2014

ROGGIO, B. The Rump Islamic Emirate of Iraq, The Long War Journal, 2006. Disponível em: <http://www.longwarjournal.org/archives/2006/10/the_rump_islamic_emi.php#> Acesso em 02 nov 2014

The Guardian. US Bombs ISIS Positions in Syria and Iraq, 2014. Disponível em: <http://www.theguardian.com/world/2014/nov/01/us-bombs-isis-positions-syria-iraq> Acesso em 02 nov 2014

ZELIN, A. Abu Bakr al-Baghdadi: Islamic State’s driving force, BBC, 2014. Disponível em: <http://www.bbc.com/news/world-middle-east-28560449&gt; Acesso em 02 nov 2014

ZELIN, A. The War between ISIS and al-Qaeda for Supremacy of the Global Jihadist Movement, The Washington Institute For Near East Polict, 2014. Disponível em: <http://www.washingtoninstitute.org/uploads/Documents/pubs/ResearchNote_20_Zelin.pdf> Acesso em 30 out 2014

 

 

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