Especial 100 anos da I Guerra Mundial: O Egito como ponto de apoio inglês na Primeira Guerra Mundial

Fabiana Kent Paiva

Vivian Silva Trindade

Resumo

Neste artigo procura-se detalhar a conjuntura política do Egito durante a Primeira Guerra Mundial. Após a construção do Canal de Suez houve grande aumento da influência inglesa e francesa sobre o território. No início da Primeira Guerra a declaração do Império Turco Otomano de apoio à Alemanha fez com que a Inglaterra agisse, transformando o Egito em seu protetorado, de forma a dominar o Canal de Suez, impedindo que países inimigos navegassem pelo Mar Vermelho. Relacionar-se-á, enfim, esta manobra inglesa com o aumento do surgimento de movimentos nacionalistas no Egito, que levaram à assinatura de uma declaração pelo governo britânico que concedeu independência condicional ao país em 1922.

Construção do Canal de Suez

O Canal de Suez teve sua construção iniciada em meados do século XIX, mais precisamente no ano de 1854, poucos anos antes dos turcos perderem o controle do território do Egito. O então rei, Said Pascha, assinou neste mesmo ano uma licença que permitia a construção do canal entre os mares Vermelho e Mediterrâneo, o que teve grande importância estratégica na época. Além de facilitar as navegações de embarcações da Europa à Ásia e eliminar a necessidade de contornar a África através do Cabo da Boa Esperança, sua construção também influenciou o desenvolvimento do comércio global (SOBRAL, 2014).

A construção do Canal pode ser identificada dentro das muitas estratégias de políticas imperialistas, uma vez que envolvia a participação e o interesse de outras nações, como a Inglaterra e a França, que na época já ocupavam alguns territórios da África. Desta forma, o uso do Canal foi feito sob uma legislação especial e engendrou novas situações de conflito devido às disputas coloniais que costumavam ocorrer. Um destes desdobramentos foi o aumento da dominação inglesa no Egito – antes sob dominação do Império Turco – através de sua política de expansão, focada em níveis marítimo e comercial. Já em processo de decadência, o Império Turco Otomano foi perdendo espaço para as potências europeias que tinham como objetivo dominar regiões do Oriente Médio (SUEZ…, 2014).

No período correspondente à construção do Canal, França e Egito detinham o poder sobre a obra, porém o Egito adquiriu uma enorme dívida com sua construção. No ano de 1875, os britânicos compraram a parte egípcia da empreitada, garantindo sua rota para as Índias e controlando praticamente toda a economia egípcia. Em 1882, tropas britânicas passaram a proteger o Canal de Suez (SOBRAL, 2014).

Luta pela Independência do Egito – A Revolução Orabi (1879 – 1882)

O controle exercido pelos britânicos e franceses no território Egípcio engendrou processos de lutas revolucionárias com o objetivo de garantir sua independência. O levante nacionalista mais conhecido como Revolução Orabi foi liderado pelo coronel Orabi Pacha, com o principal objetivo de dar fim à intervenção e influência britânica e francesa no país. Através de uma marcha direcionada ao palácio real, Orabi lutava contra a submissão do rei aos bancos europeus e exigia ainda a instituição de um modelo parlamentarista de governo (THE EGYPT…, 2014).

O levante foi contido no ano de 1882, quando tropas britânicas desembarcaram em Alexandria após um bombardeio acionado pela esquadra real, de maneira a conter a violência e desordem nas ruas, que muitos acreditavam ter sido causada pelo próprio Orabi. A intervenção britânica no país ocorreu de maneira a conter várias outras revoltas espalhadas pelo Egito. Existia o temor, por parte das autoridades britânicas, de que o revolucionário poderia deter o controle do Canal de Suez. Sentindo seus interesses ameaçados, os britânicos frustraram a Revolução: Orabi e seus oficiais foram condenados e posteriormente enviados para o Ceilão, dando continuidade à ocupação britânica no território egípcio (THE EGYPT…, 2014).

Egito como protetorado Inglês

Apesar de em 1914 o Egito ainda se encontrar debaixo da soberania do Império Turco Otomano, havia intensa ocupação do território africano por tropas inglesas, que prezavam pelo controle do Canal de Suez. Assim, o território egípcio fazia parte do Império Turco, porém era, em verdade, governado por autoridades britânicas (HILLS, 2013). A dominação britânica em questão se dava através do modelo colonial de Indirect Rule, ou governo indireto. O Egito tinha como representante o mesmo Quediva (vice-rei) egípcio de antes da ocupação, porém quem detinha o poder de decisão no território eram os Altos Comissários Britânicos (HILLS, 2013).

Quando a Primeira Guerra eclodiu, em 28 de Julho de 1914, após o assassinato do príncipe Francisco Ferdinando do Império Austro-Húngaro, o Império Turco Otomano declarou seu apoio à Alemanha (BERTONHA, 2011). Apesar das relações entre os países terem sido sempre muito dinâmicas e fluidas, com muitas idas e vindas, a escolha pelo apoio à Alemanha foi lógica, uma vez que mantinham relações bilaterais desde o fim do século XIX e por se oporem a inimigos comuns (os futuros Aliados: Estados Unidos, Reino Unido e União Soviética) (BERTONHA, 2011).

A Inglaterra, sentindo-se ameaçada pela declaração do Império Turco Otomano, utilizou-se de sua influência no Egito, conseguida através da ocupação militar do território após a compra de parte do Canal de Suez, para transformá-lo em um sultanato independente, sob a proteção do Império Britânico (HILLS, 2013). O Egito se tornou, portanto, um protetorado inglês, sendo governado ativamente pela Inglaterra, e tendo seu território defendido militarmente pela potência europeia (PROTECTORATE, 2014).

O domínio inglês era combatido pelos países vizinhos ao Egito, que se opunham à dominação cristã de um território pertencente ao Império muçulmano, porém a dominação inglesa era possível graças ao apoio de uma camada social egípcia. Os latifundiários plantadores de algodão no Egito lucravam com o comércio com a potência europeia, portanto apoiavam a presença inglesa na região (FAHMY, 2007).

Desta forma, a Inglaterra pôde utilizar-se do território egípcio como um ponto de apoio de seus interesses na região. A partir deste momento, a Inglaterra passou a impedir, contando com o apoio massivo de navios ingleses e indianos (que à época eram parte do Império Britânico), que navios provenientes ou com direção a países associados ao Eixo (Itália, Alemanha e Japão) utilizassem o Canal de Suez (HILLS, 2013).

Movimentos nacionalistas no Egito

A maioria da população egípcia da época era muçulmana, apesar de existirem algumas minorias católicas no território (ainda hoje apenas 10% da população egípcia é católica) (BBC, 2011). Portanto, a maioria da população, acostumada à soberania Turco Otomana no Egito, demonstrava estar descontente, e se opunha à dominação inglesa (e consequentemente cristã) do território. Esperava-se que após o término da Primeira Guerra, a Inglaterra desocupasse o território e concedesse a independência ao Egito (HILLS, 2013).

Porém, o acordo secreto de Sykes-Picot entre França e Reino Unido, em 1916, que determinava as zonas de influência das duas potências na região do Oriente Médio após o fim da Primeira Guerra, deixou claro que as potências europeias não sairiam de bom grado da região (HILLS, 2013). As medidas tomadas pelas potências geraram debates entre a população civil, que não demorou a declarar como ilegais tais providências (HERNANDEZ, 2005).

Assim, após o fim da Guerra, movimentos nacionalistas começam a se organizar de modo a pressionar as potências europeias para conceder independência ao território egípcio. É fundado assim o partido Wafd, liderado por Zaghlul, adepto da filosofia pan-islamista (MUNSON, 2001). Após a assinatura do Armistício entre os Aliados e as Potências Centrais, Zaghlul pressionou as autoridades britânicas para que estas determinassem o fim da ocupação egípcia pelas tropas britânicas. (MUNSON, 2001)

Os nacionalistas egípcios se baseavam no quinto ponto dos Quatorze Pontos de Wilson[i], que encorajava a autodeterminação dos povos colonizados (MANELA, 2001). Tais movimentos não agradaram as autoridades inglesas, que responderam com violência às demandas do Wafd, capturando e exilando Zaghlul e seus companheiros (ANDRUKAITIS, 2007). A truculência britânica acabou por incitar uma revolução que uniu diferentes setores da população egípcia contra o domínio europeu e cristão, dando início a uma série de ataques contra os soldados ingleses e contra os estabelecimentos ingleses no Egito e região (HERNANDEZ, 2005)

Para conter as revoltas, o Império Britânico enviou ao Egito uma comitiva a fim de chegar a um acordo com o Wafd. Porém, como não tinha qualquer intenção de deixar o território, a Inglaterra concedeu ao Egito apenas uma mudança de nomenclatura, e não uma mudança de sua condição, verdadeiramente (EGYPT…, 1917). Como resultado das negociações, o Egito deixou de ser protetorado inglês e passou a ter sua independência condicional a partir de 1922, com a elevação de Ahmad Fuad I ao trono. O Egito passou a ser uma monarquia colaboracionista: manteve-se, portanto, a fachada da autodeterminação, mas, na prática, o Egito continuou sendo dominado por forças britânicas (EGYPT…,1917).

Considerações Finais

 A presença de potências europeias no território egípcio já era realidade antes da eclosão da Primeira Guerra Mundial, decorrente da construção do Canal de Suez, que rendia lucros à França e à Inglaterra. Após o início dos conflitos, e do apoio Turco Otomano à Alemanha, o Egito se tornou um ponto de apoio para os interesses Aliados na região da África e do Oriente Médio.

O esforço inglês de manter sob suas rédeas o controle do canal e consequentemente da região acabou por insatisfazer a população local, que se revoltou pela dominação cristã de um território de população majoritariamente muçulmana. As revoltas de cunho nacionalista que aconteceram no Egito após o fim da Primeira Guerra Mundial foram reflexo desta insatisfação, porém não deram à população a tão sonhada independência. Pelo contrário, o acordo com as autoridades inglesas só mantiveram o status quo de dominação europeia na região, que se estenderia ainda por toda a Segunda Guerra Mundial.

Mesmo com esta relativa derrota, foi através destes desdobramentos que os movimentos nacionalistas egípcios foram constituídos, contando com o surgimento de partidos como o Wafd. Estes movimentos abriram as portas para a luta da população por um território livre para os egípcios.

Referências

ANDRUKAITIS, Jason. Egyptian and Israeli Nationalism: a view into the relationship between nationalism and violence, 2001. Disponível em <https://www.rivier.edu/journal/RCOAJ-Spring-2007/J84-Andrukaitis.pdf&gt; Acessado em 06 de Out de 2014

BBC, Guide: Christians in the Middle East. 2011. Disponível em: <http://www.bbc.com/news/world-middle-east-15239529&gt; Acessado em 06 de Out de 2014

BERTONHA, João Fábio. O Império otomano e a Primeira Guerra Mundial, 2011. Disponível em <http://www.historia.uff.br/tempo/site/wp-content/uploads/2013/01/v16n33a11.pdf&gt; Acessado em 01 de Set 2014

EGYPT: Recognition by the United States of the British Protectorate, Foreign Relations, 1917. Disponível em <http://images.library.wisc.edu/FRUS/EFacs/1919v02/reference/frus.frus1919v02.i0010.pdf&gt; Acessado em 06 de out de 2014

FAHMY, Ziad. Popularizing Egyptian Nationalism: Colloquial Culture and Media Capitalism, 1870-1919.2007. Disponível em: <http://arizona.openrepository.com/arizona/bitstream/10150/195746/1/azu_etd_2237_sip1_m.pdf&gt; Acessado em 06 de Out de 2014

HERNANDEZ, Leila Leite. A África na sala de Aula. 2005, Selo Negro, São Paulo.

HILLS, Claire Cookson.Historical Perspectives on Whole-of-Government Approaches: The 1882 British Occupation of Egypt. 2013, Canada. Disponível em <http://www.army-armee.forces.gc.ca/assets/ARMY_Internet/docs/en/canadian-army-journal/volume-15/caj-vol15-1-12-e.pdf&gt; Acessado em 06 de Out de 2014

MANELA, Erez. The Wilsonian Moment and the Rise of Anticolonial Nationalism: The Case of Egypt, 2001. Disponível em <http://isites.harvard.edu/fs/docs/icb.topic48665.files/Egypt_DS_12-01.pdf&gt; Acessado em 06 de Out de 2014

MUNSON, Ziad,Islamic Mobilization: Social Movement Theory and the Egyptian Muslim Brotherhood, 2001. Disponível em <http://www.lehigh.edu/~zim2/p487.pdf&gt; Acessado em 06 de Out de 2014

PROTECTORATE. Encyclopaedia Britannica. Disponível em <http://global.britannica.com/EBchecked/topic/479675/protectorate> Acessado em 01 de Set 2014.

SOBRAL, ELIANE. A Construção do Canal de Suez, 2014. Disponível em <http://guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia/construcao-canal-suez-772595.shtml&gt; Acessado em 01 de Set 2014

SUEZ Canal History. Suez Canal Authority. Disponível em <http://www.suezcanal.gov.eg/sc.aspx?show=8>Acessado em 29 de Set  2014

THE EGYPT war of 1882,National Archives, 2014.Disponível em <http://www.nationalarchives.gov.uk/battles/egypt/&gt; Acessado em 01 de Set 2014

[i] Para maiores informações sobre os 14 Pontos de Wilson, ver < http://web.ics.purdue.edu/~wggray/Teaching/His300/Handouts/Fourteen_Points.pdf&gt;

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