Especial 100 anos da I Guerra Mundial: A Unidade Territorial Alemã – Do Império à Segunda Guerra

Caroline Silva Rocha

Pedro Barbabela de Mello Vilela

Resumo

O objetivo deste artigo é apresentar as principais alterações da unidade alemã antes e depois da Grande Guerra (1914-1918) e como estas desencadearam a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). O artigo não tem como objetivo analisar de forma profunda as causas ou implicações do conflito de forma geral, mas oferecer esclarecimentos e dados acerca de seus impactos na unidade alemã. A formação e expansão da unidade Alemã podem ser apontadas como uma das mudanças que mais impactaram o cenário europeu e mundial. Além disso, a maneira como os fatos foram se desenrolando contribuiu de forma fundamental para organização do Estado nazista.

A formação do Império

Após três guerras: Guerra dos Ducados (1864: Prússia e Áustria X Dinamarca a fim de impedir a anexação de três ducados pelo imperador dinamarquês); Guerra Austro-Prussiana (1866: ocorre a expulsão da Áustria da Confederação Germânica e aquisição de novos territórios ao norte) e Franco-Prussiana em 1870[i], no dia 18 de Janeiro de 1871, era declarado, na Galeria dos Espelhos em Versalhes, a constituição do Império alemão. Graças à “incompetência francesa”[ii], como Duroselle (1976, p. 36) descreve, Bismarck completou a unidade alemã, anexando a Alsácia e parte da Lorena, que adicionadas ao então território, constituíam o Império.

Ao lado de Guilherme I, Bismarck foi nomeado primeiro ministro e ministro dos Negócios Estrangeiros. Bismark foi fundamental para a manutenção da unidade territorial, adepto da Realpolitik[iii]  utilizou de  estratégias diplomáticas eficientes. Permaneceu como estadista durante 20 anos, conservando suas conquistas em termos geopolíticos e se tornando uma figura central de ligação do império com o resto do continente europeu. Este personagem marca tão profunda a história a ponto de Renouvin (apud Duroselle, 1976, p.37) descreveria o período como sendo “Europa Bismarckiana”.

De forma geral, sua diplomacia buscava a estabilidade como meio de garantir o império alemão (LESSA, 2005). Contudo, após a morte de Guilherme I (1888) e Frederico III (1888), Guilherme III é coroado e dispensa o chanceler. O novo imperador, ao contrário de seus antecessores, priorizava a expansão territorial e o aumento da influência do Estado no cenário internacional em detrimento do equilíbrio e, portanto, adotava uma política externa agressiva (a Weltpolitik) gerando uma escalada de tensão que culminaria na Primeira Grande Guerra. É evidente que somente esta nova direção da política alemã não é suficiente como única explicação para o desencadeamento do conflito. Hobsbawm (1995) defende que em 1914, de uma forma ou de outra todos os Estados europeus anularam a paz – existiam tensões e rivalidades entre quase todos. É inegável, porém, o peso que a política alemã exerceu, sendo definida pelo autor como o elemento muito importante para o desencadear da guerra.

Breve contextualização do conflito

O período antecedente a guerra era marcado por tensões entre os Estados europeus. O Império Austro-Húngaro, por exemplo, sofria com as agitações internas fomentadas pela causa eslava, ao mesmo tempo que temia as ambições expansionistas da Sérvia (a vencedora da Primeira Guerra dos Bálcãs desejava a criação de um grande Estado) que também preocupava  a Alemanha devido ao apoio da Rússia à causa pan-eslavista. Os russos pretendiam dominar a região do mar Negro ao mar Egeu, controlar os estreitos de Bósforo e Dardanelos, passando pelos Bálcãs, apresentando-se como protetora e incentivadora da independência das minorias nacionais. Nesse contexto de extrema instabilidade e tensão, marcado por rivalidades fortes, Francisco Ferdinando, então arquiduque do Império Austro-húngaro, surge como uma séria ameaça às ambições sérvias, na medida em que ansiava pela criação de uma monarquia tríplice Austro-Húngara-Eslava:

O federalismo não era uma característica das políticas austríacas, contudo, Ferdinando elevou à proeminência, considerando a implementação de uma federação tripartidária, na qual existiriam a Áustria, a Hungria e uma ou duas unidades eslavas unidas em um Império – uma ideia visionaria para a época. (ZIVANOV, 2000, tradução nossa.)[iv]

Os sérvios temiam que os croatas aceitassem tal proposta, mas assim como a Hungria, viveriam como um Estado dentro de outro Estado. Assim abria-se espaço para o estopim do conflito.

Após o assassinato do arquiduque herdeiro do império austríaco e sua esposa em Sarajevo, deu-se início a guerra. A Áustria, que ansiava atacar a Servia, agora tinha o apoio alemão para tal ato. A Alemanha retrucava, em 31 de julho, com um duplo ultimato, à Rússia e à França, seguido, em 1° de agosto, por uma declaração de guerra à França.  Mal se instalou o conflito, a Tríplice Aliança (Alemanha, Áustria e Itália) desuniu-se, ao mesmo tempo em que a Tríplice Entente se afirmava. A Itália invocou o caráter puramente defensivo da Tríplice Aliança para permanecer neutra. (PERRAULT, 1999)

O plano alemão era lançar-se sobre a França com quase todas as suas forças, colocá-la rapidamente fora de combate e em seguida virar-se contra a Rússia. Inicialmente a vitória alemã garantiu-lhe a conquista do território belga e a invasão da França. Porém a França conseguira conter o avanço alemão, com a Vitória do Marne(1914), forçando-os a um recuo. A guerra se transformou numa guerra de trincheiras. Mas também, de ambos os lados, houve o aperfeiçoamento dos meios ofensivos, assim como um esforço para descobrir armas capazes de produzir um efeito surpresa fulminante. Para fabricar esse imenso material bélico, foi preciso multiplicar as indústrias de guerra: a guerra assumiu cada vez mais um caráter cientifico e industrial.  (PERRAULT, 1999)

Apesar de suas conquistas a Alemanha encontrava-se esgotada pelo bloqueio imposto aos seus portos pela Inglaterra. Nesse mesmo ano(1917) eclodiu a Revolução Russa, levando os alemães a acharem que estavam salvos pela revolução. A saída da Rússia da guerra se torna oficial com a assinatura de um armistício(O Tratado de Brest-Litovski, 1918) entre a Rússia e a Alemanha. A Alemanha parecia ter ganho a partida a Leste e com isso, decide mais uma vez concentrar todas as suas forças no front ocidental, para desferir um golpe decisivo antes da entrada em cena dos estadunidenses. A ofensiva alemã consegue grandes sucessos táticos, mas não uma vitória decisiva. Os EUA aceleraram o envio de tropas e a França pôs a funcionar novos métodos ofensivos barrando o avanço alemão. A partir de 1918, tem início a reviravolta da batalha, início também, da vitória dos aliados. (PERRAULT, 1999)

A desintegração

A derrota alemã foi consolidada no Armistício de Compiègne; o tratado assinado pelo império e os aliados em 1918 (RUDIN, 1944) encerrava oficialmente os conflitos e incluía a retirada das tropas alemãs, troca de prisioneiros, reparações e outras condições impostas (35 no total) aos derrotados. De toda forma, apesar do cessar-fogo ter sido acordado através de tal tratado, só após 6 meses de negociações o Tratado de Versalhes era imposto ao lado perdedor.

Os alemães retornavam à sala dos espelhos em Versalhes, 48 anos após a guerra Franco-Prussiana. Ao contrário do que propunham os 14 pontos de Wilson[v], isto é, alcançar a paz justa que inibisse as causas de novas guerras, o tratado final favoreceu as visões de Georges Clemenceau. O primeiro ministro francês exibia uma postura revanchista, fortemente contrária a um acordo pacífico,  desejava destruir a força alemã a qualquer custo.

Como exposto por Rodrigues (1994), o resultado foi extremamente duro para os alemães. A paz imposta incluía cláusulas como: indenizações exorbitantes, renúncia de todas as colônias, redução do exército e entrega de parte da frota de guerra. No que diz respeito às questões geográficas, as determinações impostas acabaram por alterar drasticamente a configuração territorial alemã, enterrando parte da conquista de Bismarck. Elas incluíam: 1) devolução da Alsácia Lorena à França 2) Eupen e Malmedy à Bélgica 3) Schlewig à Dinamarca 4) Parte da Posnânia e Prússia Ocidental à Polônia 5) Ceder as minas de carvão do Sarre e o direito de exploração das mesmas à França por um período de 15 anos 6) Separação da Prússia Oriental e o resto da Alemanha pelo “corredor polonês”.

De Versalhes à Segunda Guerra: o revanchismo alemão

A Alemanha fora obrigada a acatar o tratado e assumir total responsabilidade pela guerra, porém o cumprimento de algumas cláusulas era difícil de acontecer e as consequências do não cumprimento não eram bem estabelecidas. A situação de limitação e submissão em que o Estado alemão se encontrava só fez aumentar o seu desejo de revanche contra as demais nações. Vale ressaltar o fato de que a nação alemã permaneceu unida, mesmo que por razões lamentáveis.

A primeira vista, o fim da Grande Guerra representou a vitória dos ideais democráticos. Todavia, não tardou até a realidade se fazer sentir: os países inicialmente possuíam formas institucionais da democracia liberal, mas as bases para a formação de tal regime, como uma burguesia consolidada e identidade nacional eram ausentes. Aos poucos, regimes democráticos foram sendo substituídos por regimes autoritários (RODRIGUES, 1994).

No caso alemão, frente a não possibilidade de cumprir as condições impostas pelo tratado de Versalhes, a então República de Weimar[vi], acabou comprometendo os vencedores que necessitavam do dinheiro germânico para pagar seus próprios débitos. O desemprego, a hiperinflação e o endividamento acabaram por conduzir a perda de confiança popular ao capitalismo, que por sua vez, era identificado com instituições democráticas (RODRIGUES, 1994).  Para além da questão financeira e social, havia um sentimento de desilusão generalizada quanto ao Império, que acabou levando a nação a ser seduzida pela ideia de uma grande Alemanha como revanche àqueles que tanto a prejudicaram.

O Nazismo se desenvolveu dentro da República de Weimar, juntamente com diversos partidos e facções políticas que fizeram pressão contra o novo poder instituído.

Considerações Finais

O desejo de reconstruir um novo império e recuperar os territórios perdidos, aliado a realidade econômica alemã abriram espaço para o surgimento de ideias radicais, que ocuparam o lugar dos princípios democráticos impostos ao fim da guerra.

Os regimes totalitários nacionalistas exploraram o ressentimento popular: O nacional-socialismo não provém da crise, como tampouco provém o fascismo. Mas a crise ampliou o fenômeno, carregando para o movimento os grandes batalhões indispensáveis à ascensão ao poder num regime de sufrágio universal” (RÉMOND, 1990, p. 71). A necessidade de superação da situação de crise e o sentimento revanchista foi algo extremamente presente durante o período entre guerras.

Conclui-se  portanto, que assim como proposto em seu programa, (AVALON, 2008) o nazismo surge como uma força para reconstruir o antigo império, recuperando a Grande Alemanha através da expansão territorial, terras e colônias, desejo este que acabaria por ultrapassar as frágeis barreiras de manutenção da paz estabelecidas através do Tratado de Versalhes.

Referências 

DUROSELLE, Jean-Baptiste. A Europa de 1815 aos nossos dias: vida política e relações internacionais. São Paulo: Pioneira, 1976

FERNANDES, Cláudio. Nazismo. Disponível em: <http://www.historiadomundo.com.br/idade-contemporanea/nazismo.htm&gt;. Acesso em: 10 set. 2014

HOBSBAWM, Eric. A Era dos Extremos: o breve século XX. São Paulo, Companhia das Letras, 1995. Disponível em: <http://www.educadores.diaadia.pr.gov.br/arquivos/File/20 10/sugestao_leitura/sociologia/era_extremos.pdf.> Acesso em: 27 Set 2013.

LESSA, Antônio Carlos. História das Relações Internacionais: A Pax Britânica e o mundo do século XIX. Petrópolis, RJ: Vozes, 2005.  (p. 87 a 156)

PERRAULT, Gilles. O Livro Negro do Capitalismo. Rio de Janeiro: Record, 1999. ( A Grande Guerra: 11.500 mortos e 13.000 feridos por dia ao longo de três anos e meio/ Jean-Pierre Fléchard – p. 67 a 89)

RÉMOND, René. O Século XX: de 1914 aos nossos dias. Introdução à História do Nosso Tempo. S. Paulo: Editora Cultrix, 1990.

RENOUVIN, Pierre; DUROSELLE, Jean. Introdução à história das relações internacionais, 1967.

RODRIGUES, Luis César B. A Primeira Guerra Mundial. São Paulo: Atual, 1988. (p. 57 a 84)

RUDIN, Harry. Armistice 1918. New Haven: Yale University Press. 1944.

The Avalon Project. Program of the National Socialist German Workers’ Party. Disponível em: <http://avalon.law.yale.edu/imt/nsdappro.asp&gt; Acesso em: 25 set 2014.

ŽIVANOV, Slavko. The Black Hand – Revisited. Disponível em: <http://www.ce-review.org/00/22/zivanov22.html&gt;. Acesso em: 27 Set 2013.

[i] Prússia X França – anexação do Hanovre

[ii] O autor cita o despreparo militar e político que possibilitaram a manipulação do governo francês por Bismarck

[iii] Concentuada por Henry Kissinger (1999) como “política exterior baseada em avaliações de poder e interesse nacional”

[iv] The federalism was not a hallmark of Austro-Hungarian politics, yet Ferdinand raised it to prominence by considering the implementation of a tripartite federation under which there would have existed an Austrian, an Hungarian, and one or two Slavic units within the Empire – a very forward-looking idea at the time.

[v] Presidente americano entre 1913 e 1921

[vi] A República de Weimar diz respeito ao período da história alemã que se inicia após a Primeira Guerra Mundial e que termina durante a instauração da Alemanha Nazista.

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