Especial 100 anos da I Guerra Mundial: A Rússia contemporânea – reflexos dos desdobramentos políticos pós Primeira Guerra Mundial

Daniela Aymorés Bianchin          

Elora Marconi de Souza

Helena Ribas Françozo

Resumo

A Primeira Guerra Mundial, exatos cem anos atrás, causou uma série de rupturas no cenário internacional. No caso da Rússia, que até então era um império governado por mais de 400 anos pelo sistema czarista, as mudanças possibilitadas pelo advento da guerra se incutiram no seio da sociedade russa, causando uma alteração radical no regime vigente. Os reflexos do fim do czarismo e do fim da União Soviética, por volta de 80 anos depois, acabaram por redesenhar os rumos da Rússia contemporânea.

A Primeira Guerra Mundial no contexto da Rússia imperial

Hobsbawm depreende, em A Era dos Impérios (1988), que a Primeira Guerra pode ser interpretada como a ruptura da belle époque no século XX – entendida como o longo período de prosperidade econômica e estabilidade político-social na Europa. A estabilidade característica do final do século XIX até a eclosão da Primeira Guerra, em 1914, decorria do Concerto Europeu[i], que ao garantir uma paz relativa, proporcionava o desenvolvimento interno dos Estados, além das relações interestatais através da solidificação da integração de mercados, aumento dos fluxos de investimentos e especialização produtiva que permitiram a revolução tecnológica e cultural na Europa. Entretanto, havia áreas que não gozavam deste progresso e viviam sob a iminência de conflitos, decorrentes de uma histórica instabilidade territorial e étnica, como no caso dos Bálcãs, e a incapacidade dos governos absolutistas em gerir de forma eficaz a administração de seu território e, desta forma, garantir os direitos básicos de sua população, como a situação russa.

Dada essa conjuntura internacional, a participação russa na Primeira Guerra esteve inicialmente associada a sua aliança com a Sérvia, que vinha sofrendo ameaças do Império Austro-Húngaro como forma de retaliação à morte do herdeiro do trono Habsburgo, Francisco Ferdinando, que buscava neutralizar o nacionalismo sérvio[ii]. Além disso, havia ainda o prenúncio de uma possível expansão territorial alemã, que culminou no choque de interesses imperialistas, tanto em suas colônias africanas como dentro da própria Europa, o que forçou o Império Russo a se posicionar contra os Impérios Alemão e Austro-Húngaro – que junto com o Império Otomano e a Itália[iii] constituiriam a Tríplice Aliança. Posto isso, a Rússia, buscando proteger sua integridade territorial, se aproxima da França e da Inglaterra, que formariam a Tríplice Entente. Este cenário de tensão impossibilitava a perpetuação do Concerto Europeu e mergulhava os Estados europeus em um clima de guerra (HOBSBAWM, 1988).

O Império Russo era um dos mais atrasados da Europa e ainda apresentava características sociais e econômicas semifeudais[iv]. Dessa forma, sua entrada na Primeira Guerra inflamou insatisfações populares acerca do regime czarista. Este era caracterizado por um governo monárquico-absolutista[v], sustentando pela Igreja Ortodoxa, no qual todos os poderes se concentravam na figura do czar, que impunha um regime de opressão, existente na Rússia desde 1547. Economicamente, o império se sustentava na agricultura latifundiária e a indústria, ainda embrionária, sofria duplamente: primeiro por não receber investimentos e, assim, não produzir de maneira eficaz e, segundo, pela inexistência de um mercado consumidor já que a população era predominantemente camponesa – mujiques – e, o restante eram trabalhadores industriais submetidos a condições extremas de pobreza (VOLIN, 1980).

Os longos anos de governo autocrático da dinastia Romanov[vi] aumentaram a descrença popular em relação ao czarismo e à sua administração estagnada, que pouco ou nada mudou a situação social dos russos. Esta inércia alimentava o anseio da população por uma mudança sistêmica que trouxesse benefícios concretos para maior mobilidade social através de direitos civis, trabalhistas, que retirassem a massa da situação de miséria em que se encontravam. A população sofria grave exploração nas lavouras e nas indústrias e era caracterizada por alto índice de analfabetismo e de inflação, além do desabastecimento alimentar. A entrada da Rússia na Primeira Guerra nada fez senão intensificar estes problemas, dado os elevados custos tanto financeiros quanto de efetivo militar (VOLIN, 1980). O exército russo não tinha condições de se sustentar em uma guerra de longa duração, devido a sua artilharia parca, à industrialização bélica rudimentar e ao contingente despreparado, faminto e cada vez menor. Tornou-se impossível para o governo coordenar os gastos com as tropas nos fronts e ao mesmo tempo assegurar a gestão interna, sendo o único país a não possuir um plano de recuperação e de organização para o período posterior à guerra (FERRO, 1967). A catastrófica participação russa na Primeira Guerra encerrou a possibilidade de manutenção do czarismo e uniu o que até então era uma população fragmentada em torno de novas ideologias (PASTERNAK, 1957).

Os desdobramentos internos da Rússia entre a IGM e a criação da URSS

No livro Doutor Jivago (1957), o autor russo Boris Pasternak retrata a transformação do quadro social e político pelo qual a Rússia passou ao longo das primeiras décadas do século XX.  O autor relata no romance a realidade da população russa e o seu sentimento para com a Primeira Guerra e as revoluções sufocadas internamente. Desde o início do século, já se viam movimentos de contestação à ordem vigente, como a realização de inúmeras greves e mobilizações sociais de cunhos diversos – liberal, anarquista, blanquista[vii] e marxista. Pasternak explicita o significado da Primeira Guerra em meio a esse cenário de revoltas:

“A guerra foi a pausa artificial da vida, como se a existência pudesse ser temporariamente adiada […]. A revolução avançou contra a guerra como um suspiro há muito tempo retido. Cada homem ressuscitou, nasceu de novo, todos em transformação, em reviravoltas.” (PASTERNAK, 1957, p. 210).

Neste contexto, nota-se que a Primeira Guerra, em parte, teve um papel de desvio na tentativa de congregar o povo sob um sentimento nacionalista que apoiasse a integridade russa, em detrimento das insatisfações sociais em relação ao governo do czar. Porém, a participação pífia da Rússia na guerra, com suas sucessivas derrotas, surtiu o efeito contrário, ou seja, a derrota trouxe à tona, violentamente, toda a cólera reprimida durante os mais de 400 anos de regime czarista (VOLIN, 1980). Pode-se, portanto, inferir que com o fracasso da Rússia na Primeira Guerra houve a possibilidade de finalmente derrubar o czarismo, em fevereiro de 1917, – levando à extinção toda a família Romanov – e estabelecer um governo provisório burguês (DUTRA, 2008).

Este governo provisório se provou incapaz, uma vez que não conseguiu desfazer os acordos diplomáticos que mantinham a Rússia na guerra, o que reiterou a revolta geral, inclusive dos efetivos em guerra. Diante deste quadro inflamado, o Partido Bolchevique[viii] apresentou um conjunto de reformas – as Teses de Abril de Lênin -, que propunham um fim à situação famélica, redistribuindo terras, estatizando indústrias e bancos e, por fim, estabelecendo a paz. Em outubro do mesmo ano, contando com apoio de grande parte dos operários, mujiques e do exército regular, os bolcheviques depuseram o Governo Provisório e implantaram um governo de caráter socialista. Lênin pôde, através da assinatura do Tratado de Paz de Brest-Litovsk com a Alemanha, retirar a Rússia da Primeira Guerra para dar continuidade ao seu programa e conduzir definitivamente a Rússia ao socialismo[ix] (DUTRA, 2008).

Deste momento até a estabilização do regime, Lênin fundou o comunismo de guerra frente à organização contrarrevolucionária dos russos brancos[x] e demais sublevações advindas das privações que impossibilitavam a afirmação imediata do comunismo. Assim, em 1921, Lênin criou a Nova Política Econômica – NEP- a fim de flexibilizar a condução russa ao comunismo, gerando condições favoráveis para sua implementação por meio do socialismo. A NEP teve êxito, uma vez que aumentou as rendas industriais e agrícolas e reinseriu a Rússia no cenário internacional por meio de acordos comerciais assinados com países europeus, além de reaproximá-la das regiões do antigo império czarista que, logo após se uniram, em 1922, para a formação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – URSS (DUTRA, 2008).

Considerações finais

A análise aqui proposta será realizada considerando o fim da URSS como um segundo momento, análogo ao período da ruína czarista, de falência das instituições governamentais da Rússia. Percebe-se uma série de semelhanças latentes entre os períodos, na medida em que ambos os regimes tinham caráter autoritário e repressivo, que por décadas sucumbiu à corrupção e à inércia da máquina estatal, sustentando-se através da repressão da liberdade individual, de forma a prolongar muitos dos problemas sociais.

Diante desta convergência de fatos, infere-se que durante séculos a população russa esteve submetida a uma contínua opressão, que, de certa forma, orientava a esfera supra individual e organizava as relações interpessoais dentro de padrões e comportamentos normatizados pelo Estado que configuravam a coesão social, mesmo que debilitada. No caso da derrocada do czarismo, a falência gradativa das instituições deu margem à incubação de novos ideais que assistiram o momento de ruptura e a consolidação do socialismo, fazendo com que a população desenvolvesse uma consciência de classe para si[xi]. Já ao fim da URSS, houve não somente um vácuo de poder como também a ausência de uma orientação quanto ao que se sucederia, de forma que a população se encontrava em uma espécie de limbo social.

Considerando a Rússia atual como uma democracia não plena, vê-se que seu histórico – marcado por inúmeras rupturas políticas e ideológicas – inviabiliza a sustentação da democratização do Estado e do funcionamento efetivo de suas instituições. De acordo com Ziegler (2003), em decorrência da fragmentação social e política russa, verifica-se a existência de uma democracia pluricêntrica, em que as instituições políticas não funcionam de forma clara – dentro dos padrões democráticos -, transbordando essa nebulosidade para a esfera social. A anemia das instituições democráticas possibilita o surgimento de uma sociedade anômica pertencente a um Estado incapaz de moldar comportamentos e garantir uma sociedade coesa que, associada as suas vastas dimensões – tanto no que tange à questão territorial, ao contingente populacional e suas riquezas naturais -, apresenta-se como ameaça às democracias ocidentais.

Referências

DUTRA, Liliane Reis. Notas sobre o processo de industrialização na Rússia (1917 – 1945). Revista de Economia e Relações Internacionais, São Paulo, v. 6, n. 12, p. 129 – 148, 2008. Disponível em: <http://www.mbafaap.net/revista_faap/rel_internacionais/pdf/revista_economia_12.pdf#page=129&gt;. Acesso em: 01 set. 2014.

FERRO, Marc. A Revolução Russa de 1917. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1967.

HOBSBAWM, Eric J. A era dos Impérios (1875 – 1914). São Paulo: Paz e Terra, 2010.

PASTERNAK, Boris. Doutor Jivago. Rio de Janeiro: Edições BestBolso, 1957.

VOLIN. A revolução desconhecida: nascimento, crescimento e triunfo da revolução russa (1825 – 1917). São Paulo: Global Editora, v. 1, 1980.

ZIEGLER, Jean. Os senhores do crime: as novas máfias contra a democracia. Rio de Janeiro: Editora Record, 2003.

[i] Consenso entre os países europeus, no período pós-Napoleônico que buscava a preservação do status quo político e territorial. Disponível em: <http://global.britannica.com/EBchecked/topic/195884/Concert-of-Europe&gt;.

[ii] Movimento que constituía o Pan-eslavismo: anseio de unir todos os povos eslavos em um mesmo Estado (DUTRA, 2008).

[iii] Logo no início da Primeira Guerra, em 1915, a Itália se aliou à Tríplice Entente, por razões estratégicas (HOBSBAWM, 2010).

[iv] Durante o regime czarista russo o sistema era de caráter semifeudal devido a presença de aspectos ainda muito ligados ao feudalismo medieval, porém não havendo mais a relação de vassalagem (DUTRA, 2008).

[v] Monarquia absolutista é a forma de governo monárquico na qual o rei exerce poder absoluto (HOBSBAWM, 2010).

[vi] Romanov é a família nobre russa que detinha o poder do Império Russo desde o século XII até o fim do czarismo (FERRO, 1967).

[vii] “Os blanquistas negavam a luta de classes e acreditavam que a “humanidade se libertaria da escravatura assalariada não por meio da luta de classe do proletariado, mas graças à conspiração de uma pequena minoria de intelectuais”. Disponível em: <https://www.marxists.org/portugues/dicionario/verbetes/b/blanquismo.htm&gt;.

[viii] Bolchevique eram o grupo político russo formado por ex-integrantes do Partido Operário, os quais acreditavam que o governo deveria ser diretamente controlado pelos trabalhadores (DUTRA, 2008).

[ix] Lênin buscou satisfazer imediatamente as reivindicações populares  através da abolição da propriedade territorial, redistribuindo terras entre os mujiques e passando o controle das fábricas para os operários e, por fim, outorgou liberdade para as minorias nacionais (DUTRA, 2008).

[x] Russos brancos são os oficiais czaristas, latifundiários e banqueiros que constituiram o exército contrarrevolucionário (DUTRA, 2008).

[xi] Classe para si é um conceito de Marx em que a sociedade se percebe como tal e luta pelos seus interesses. Disponível em: <http://www.uff.br/trabalhonecessario/images/TN14LUIZCLAUDIO.pdf&gt;.

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2 respostas para Especial 100 anos da I Guerra Mundial: A Rússia contemporânea – reflexos dos desdobramentos políticos pós Primeira Guerra Mundial

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  2. Hugo Pollesel disse:

    Excelente texto! Parabéns!

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