Especial 100 anos da I Guerra Mundial: A estratégia brasileira de projeção internacional

Orion Siufi Noda

Resumo

Cem anos atrás iniciava-se a maior guerra até então ocorrida no mundo. A “Primeira Grande Guerra”, como ficou conhecida após a existência da segunda guerra mundial, durou 4 anos (1914-1918) e teve como palco o continente europeu. Uma pletora de artigos e volumes acerca de suas causas e efeitos pode ser encontrada e, devido a isto, tal assunto não será o escopo do presente artigo. Ao invés disso, o artigo em questão focará na participação do Brasil na guerra, identificando possíveis estratégias e motivos para tal. Apesar da participação restrita em termos técnicos, analisar-se-á as consequências que tal entrada no conflito acarretou para o país.

A Primeira Grande Guerra

Apesar do foco do artigo não ser as causas da guerra nem suas consequências em geral, para efeito de contextualização, uma breve recapitulação do ocorrido se faz necessária. A primeira guerra mundial envolvia, primeiramente, países europeus. As causas da guerra são até hoje profundamente debatidas e não há uma resposta consensual. Segundo Norman Lowe (2011),

“Alguns culpam a Áustra por iniciar a agressão ao declarar guerra à Sérvia; alguns culpam os russos porque foram os primeiros a ordernar a mobilização completa; há quem culpe a Alemanha por apoiar a Áustria e outros culpam a Grã-Bretanha, por não ter deixado claro que iria apoiar definitivamente a França” (LOWE, N. 2011, p. 28).

Contudo, a situação no continente europeu já denunciava que o fim do concerto europeu[i] era eminente. As guerras no Bálcãs e os conflitos na Sérvia já vinham apontando ao fim do período pacífico na Europa. O chamado estopim do conflito fora o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, da Áustria, em Sarajevo, atentado executado pelo grupo terrorista Mão Negra[ii] em 28 de junho de 1914. A tensão que pairava sobre o continente europeu desde o início do século, envolvendo Sérvia, Áustria-Húngria, Rússia, Alemanha, Grã-Bretanha e França evoluiu e desencadeou o conflito, iniciado pela declaração de guerra da Áustria à Sérvia, em julho de 1914 (LOWE, 2011).

Em uma redução brutal, a guerra envolveu dois polos distintos: a Tríplice Entente (ou aliados), formada por Grã-Bretanha, França e Rússia; e a Tríplice Aliança (ou países centrais), formada por Alemanha, Áustria-Hungria e Itália. Apesar de fazer parte da tríplice Aliança, a Itália, em dado momento, retirou-se da Aliança e lutou pela Tríplice Entente. No entanto, a guerra não se limitou a tais atores; eventualmente novos países adentraram à guerra, como fora o próprio caso da Itália, em 1915, lutando pelos aliados (LOWE, 2011).

Em 1917 o quadro da guerra muda com a saída da Rússia, devido a revoluções internas (mais especificamente a Revolução Socialista)[iii] e com a entrada dos Estados Unidos – o qual permanecera neutro até então – ao lado da Tríplice Entente. Tais mudanças geraram um desequilíbrio entre os dois polos até que em 11 de novembro de 1918 é realizado o Dia do Armistício, sendo o fim simbólico à guerra (LOWE, 2011).

O Brasil na Guerra

Desde o início da guerra, o Brasil se encontrava dividido. Havia quem era a favor do apoio brasileiro aos aliados (denominados aliadófilos), devido ao histórico de relações brasileiras com aqueles países; havia também os chamados “germanófilos”, que chamavam atenção à emergência súbita do império alemão e a importância que teria o apoio brasileiro àquela nação apó o fim do conflito; e havia também quem achasse que a guerra não dizia respeito ao Brasil e portanto este deveria se manter neutro. A posição de neutralidade, em respeito às Convenções de Haia[iv], foi priorizada a fim de que o Brasil pudesse manter relações comerciais com todos os países em guerra. No entanto, tal neutralidade sofreu pressões devido ao bloqueio naval instaurado pela Alemanha, em 1917, que afetava não só os navios dos países aliados, mas também aqueles dos países neutros. Após o ataque de submarinos alemães a uma frota brasileira, o então presidente Vencesláu Brás opta por declarar guerra contra os países centrais em 26 de outubro de 1917, tornando o Brasil o único país da América Latina a participar do conflito (DORATIOTO, 2014).

A participação de facto do Brasil na guerra é mais expressiva na patrulha naval, por meio da Divisão Naval de Operações de Guerra (DNOG). O Brasil também enviou tropas, que vieram a ser incorporadas às francesas nos campos de batalha, e auxílio técnico, com o envio de equipes médicas e de outros setores logísticos. (VERAS, 1920).

Tendo oficialmente participado da guerra, o Brasil ganhou espaço no cenário internacional ao participar efetivamente da Conferência de Paz de Paris, de 1919[v], enviando uma comitiva liderada pelo futuro presidente do Brasil Epitácio Pessoa. Foi a partir de então que o Brasil passou a construir uma melhor projeção do país no cenário externo (DORATIOTO, 2014).

Segundo Cervo e Bueno (2011), o Brasil não obteve ganho político algum com sua participação na guerra. Ganhou sim em termos econômicos, devido à diminuição de importações de uma Europa em guerra, mas em termos políticos, não conseguiu ter um resultado positivo, pois apesar de ter participado da fundação da Liga das Nações, não garantiu um assento permanente em seu Conselho de Segurança. Apesar disso, há uma vertente teórica oposta que aponta justamente os resultados políticos como cruciais para o Brasil pois permitiu maior visibilidade internacional para o país, segundo a qual, talvez o maior trunfo do Brasil proveniente de sua participação na guerra, no que diz respeito à sua estratégia de enaltecer sua projeção internacional, foi ser uma das nações fundadoras da Liga das Nações e manter uma participação ativa em suas reuniões (CERVO; BUENO, 2011).

Na própria conferência de Paris, o Brasil não permaneceu inativo; expressou suas queixas referentes às “casualidades” de guerra materiais que sofreu e obteve resultados, como indenizações das sacas de café brasileiras, sendo estas a carga dos navios afundados pela marinha alemã (DORATIOTO, 2014). Outro ponto importante da diplomacia brasileira dentro da própria Conferência de Paris foi relativo ao café. Nas vérsperas da guerra, o estado de São Paulo detinha café em portos da Alemanha como garantia de depósitos contraídos da Europa. Ao se iniciar o conflito, a decisão do governo brasileiro foi de vender o café localizado na Alemanha – a fim de evitar prejuízos – e depositar a receita da venda na casa bancária de Bleischroeder, em Berlim. Conforme acordado, o pagamento ao Brasil seria feito após o término da guerra.

No entanto, ao se dar início às negociações do pós-guerra, tal questão referente ao café fora considerada como um reparo de guerra, noção à qual a delegação brasileira não concordou. Após intensas negociações na Comissão Financeira da Conferência de Paris, Epitácio Pessoa obteve êxito em suas queixas e a Alemanha pagou uma quantia de 125 milhões de marcos ao estado de São Paulo em 1921 (CERVO; BUENO, 2011).

Para além dos ganhos políticos, os ganhos econômicos também foram expressivos ao Brasil no período da guerra. Segundo Cervo e Bueno (2011),

“[…] durante a Primeira Guerra e imediatamente após seu término, o saldo da balança comercial brasileira foi favorável. Ao mesmo tempo que o país importava menos, em razão da desorganização da produção europeia, aumentaram suas exportações, inclusive de produtos até então pouco expressivos nas vendas para o exterior…” (CERVO; BUENO, 2011, p. 229)

A partir de então, o Brasil passou a ser um ator que buscava mais sua integração ao cenário internacional, sendo um membro sempre presente das reuniões da Liga das Nações e participando de outros fóruns internacionais. Pode-se dizer que a participação do Brasil na primeira guerra mundial serviu como um primeiro passo para o prestígio internacional (CERVO; BUENO, 2011).

Desde então, mesmo que com graus oscilantes de prioridade, a projeção internacional sempre foi um assunto de suma importância nos planos de governo e na conjuntura atual, é possível observar os frutos de tal importância dada à área. Nos dias atuais, o Brasil ocupa um espaço considerável no cenário político internacional, sendo um ator de peso nas discussões e mesas de negociações. A diplomacia brasileira é referência, respeitada no mundo e a projeção internacional que o país detém está em ascensão, passando longe de um suposto nanismo diplomático.

Considerações Finais

A entrada do Brasil na guerra, de início, pode parecer insignificante. Pouco auxílio em termos logísticos e uma operação naval não fazem do Brasil um ator protagonista na primeira guerra mundial, contudo, o significado político de tal participação é de suma importância para o desenrolar da história da política exterior do Brasil.

Após a morte do Barão do Rio Branco – patrono da diplomacia brasileira –, esta sofreu um declínio em seu prestígio, cuja recuperação tornou-se um dos objetivo do governo brasileiro. A projeção internacional que o Brasil começa a esquematizar é um primeiro passo a tal plano. Há quem diga que o Brasil não teve nenhum ganho imediato em termos políticos com sua participação na guerra, no entanto, é notável os benefícios que tais sinais de crescimento da imagem brasileira causou naquele momento histórico.

REFERÊNCIAS 

CASTRO, A.H.F. O Brasil na 1ª Guerra Mundial e a DNOG. Disponível em:< http://www.grandesguerras.com.br/artigos/text01.php?art_id=68> Acesso em 30 ago 2014

CERVO, A.; BUENO, C. História da Política Exterior do Brasil, 2011.

DORATIOTO, F. O Brasil e a Primeira Guerra Mundial, 2014. Disponível em:< http://historia.fundacionmapfre.org/historia/es/blog/dossier-fm/o-brasil-e-a-primeira-guerra-mundial.jsp> Acesso em 01 set 2014

LOWE, N. História do Mundo Contemporâneo, 2011.

VERAS, F. D.N.O.G.: Contribuição da Marinha Brasileira na Grande Guerra, 1920.

WILLMOTT, H.P. World War I, 2008.

[i] Concerto europeu é o nome dado ao período de 1815 a 1914 no qual houve um equilíbrio de poder na Europa, resultando na ausência de grandes guerras durante tal período.

[ii] O grupo terrorista Mão Negra, ou Unificação ou Morte foi um grupo criado em 1901 na Sérvia com princípios pan-eslavistas de unificação da chamada “Grande Sérvia”.

[iii] A Revolução Vermelha ou Revolução de Outubro fora a segunda etapa do golpe de Estado dos bolcheviques, liderados por Lênin.

[iv] As Convenções de Haia foram uma série de tratados discutidos, primeiramente em 1899, e em seguida em 1907, acerca da temática da guerra, crimes de guerra e desarmamento.

[v] A Conferência de Paz de Paris foi a conferência que ocorreu após a guerra com a finalidade de apontar as consequências aos países perdedores

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