Conflito entre Rússia e Ucrânia – Novas alternativas e articulações políticas na importação de gás para a Europa

Vívian Silva Trindade

Resumo

A relação entre Rússia e Ucrânia, atualmente abalada pela anexação da Criméia ao território russo, colocou em xeque a relação da União Europeia com a Rússia no que concerne à importação de gás do país ao continente, uma vez que seu transporte passa pela Ucrânia antes de chegar aos países do bloco. Tais acontecimentos levaram a União Europeia a repensar sua relação de dependência com a Rússia.

Considerações Iniciais

A crise na península da Crimeia, na Ucrânia, e sua posterior anexação à Federação Russa através da assinatura de um tratado pelo presidente Vladimir Putin, ocasionou diversos desdobramentos políticos em meio a tal crise. Dentre eles, a aplicação de sanções econômicas e comerciais ao governo russo por parte da Europa e dos Estados Unidos ameaça a exportação do gás russo aos países da União Europeia. Cerca de 1/3 do gás consumido na U.E. provém do país e antes de chegar ao seu destino final grande parte do fornecimento passa por dutos ucranianos[i]. (A EUROPA CONSEGUIRIA…, 2014)

A dependência do bloco com relação à importação de gás russo denota uma fragilidade em seu setor energético, passível de explicar que a aplicação de sanções econômicas à Rússia poderia abalar o fornecimento do gás à União Europeia, visto que Putin pode responder com uma possível ação de corte do fornecimento. Uma situação semelhante já ocorreu em duas ocasiões anteriores e a atual crise entre Ucrânia e Criméia agrava os perigos que a aplicação de tais sanções poderia acarretar (CRISE NA UCRÂNIA…, 2014).

No tocante aos cortes de fornecimento do gás já ocorridos anteriormente, tais ações se deram em meio a divergências financeiras entre Rússia e Ucrânia. No ano de 2009, a empresa responsável pelo gás russo Gazprom, realizou a ação de corte alegando que a Ucrânia teria roubado cerca de 65,3 milhões de metros cúbicos do gás russo, e ainda devia US$ 600 milhões em contas para a empresa provedora do gás. Diante de tais fatores, os países não chegaram a um acordo sobre o preço do gás a ser exportado na época, iniciando uma crise que abala constantemente o fornecimento energético à Ucrânia, e consequentemente aos países da U.E. (A EUROPA CONSEGUIRIA…, 2014). Como a atual crise na Criméia agrava uma relação já abalada entre os dois países, a União Europeia trabalha para ser menos dependente do gás russo.

Possíveis soluções à crise – Novas alternativas de provimento de gás

Dentre as novas alternativas que podem diminuir a dependência energética do bloco europeu, destaca-se o provimento de gás de xisto dos Estados Unidos. O presidente Barack Obama incentivou tal alternativa, oferecendo ao bloco a assinatura de um possível tratado comercial para permitir a exportação. (A EUROPA CONSEGUIRIA…, 2014) A adoção do gás de xisto diminuiria custos relacionados a fatores energéticos, uma vez que o gás na Europa custa três vezes mais que nos Estados Unidos. Porém, sua técnica de produção sofre críticas de ambientalistas, já que utiliza de produtos químicos para sua extração das rochas, o que afeta o subsolo. Além disso, na tecnologia necessária para sua extração, é necessária a utilização de uma enorme quantidade de água, e durante este processo também pode ocorrer vazamento de gás metano (CRISE NA UCRANIA…, 2014).

Mais além, o provimento de novas energias como a eólica e a nuclear ainda sofrem problemas no que concerne a sua produção. A energia eólica abarca 8% da eletricidade na Europa, mas só desenvolve-se como fonte de energia elétrica. A energia nuclear encontra problemas desde o desastre em Fukushima, no ano de 2011, com o fechamento de diversos reatores devido aos perigos de sua produção e, além disso, o bloco europeu ainda dependeria largamente da Rússia nesse sentido, pois o país é o principal fornecedor de urânio enriquecido – matéria-prima fundamental na produção de energia nuclear – para o continente europeu (A EUROPA CONSEGUIRIA…, 2014)

O Acordo entre Rússia e Áustria e novas discussões sobre o fornecimento de gás natural

Um acordo de compromisso entre Rússia e Áustria foi assinado no último dia 29 de abril, para que se inicie a construção de um gasoduto na parte austríaca, com o objetivo de abastecimento de gás natural à Europa, sem que o mesmo passe pela Ucrânia (AUSTRIA, RUSSIA SIGN…, 2014). O documento, assinado por executivos da OMV, empresa austríaca, e da Gazprom, empresa russa, tem relação com o gasoduto South Stream[ii], que transportará gás natural da Rússia através do Mar Negro, Sérvia e Hungria, distribuindo-o a partir da Áustria para outros países do continente europeu (AUSTRIA, RUSSIA SIGN…, 2014).

Além do acordo entre Rússia e Áustria, autoridades da Rússia, Ucrânia e União Européia se reuniram no dia 02/05 na cidade de Varsóvia, em um encontro proposto pelo presidente Vladimir Putin, para discutir a respeito do fornecimento de gás russo para os países do bloco e para o território ucraniano. Tal encontro ocorreu com o objetivo de garantir a entrega do gás e organizar negociações que incluem a Ucrânia para futuramente garantir a resolução da divergência entre Moscou, principal fornecedor de gás para a Ucrânia, e Kiev, no que concerne ao pagamento da dívida energética do país (A EUROPA VAI DEBATER…, 2014).

Considerações Finais

No tocante à dependência energética da União Europeia com relação à Rússia, é necessário que as ações para diminuir tal dependência sejam feitas considerando, primeiramente, os custos financeiros da aquisição de novas formas de importação energética. A proposta estadunidense, apesar de financeiramente mais barata, esbarra no seu processo de extração, degradante ao meio ambiente e que apresenta inúmeros perigos. Mais além, segue-se um problema ainda maior. Nas relações de compra e distribuição de gás, é necessária a existência de um gasoduto, e tal ação necessita de relativa quantidade de tempo para ocorrer devido à estrutura que sua construção demanda, além do enorme investimento financeiro. Com isso, Rússia e os países da União Europeia já dividem uma infraestrutura permanente e, portanto, o melhor caminho seria, de fato, evitar o fornecimento de gás onde se dependa exclusivamente dos dutos ucranianos.

A primeira ação relativa a esse problema já foi tomada. O acordo entre Áustria e Rússia evita os dutos ucranianos, e consequentemente as instabilidades políticas na Ucrânia, e ainda pode diminuir eventuais custos que a União Europeia teria ao iniciar um novo processo de construção de gasodutos com outros países. A construção do gasoduto South Stream, prevista no acordo Áustria-Rússia, já foi iniciada no ano de 2012 e a assinatura do acordo é uma maneira de dar continuidade ao processo, diminuindo os crescentes perigos existentes no corte do fornecimento do gás russo à Ucrânia, que se agravaram após a anexação da Criméia à Rússia. Além disso, a aplicação de sanções à Rússia realizadas através da Europa e dos Estados Unidos, não surtiu grande efeito. Vladimir Putin alega que as mesmas tem prejudicado a economia do país, mas o dano não é crítico (OBAMA AMEAÇA A…, 2014).

Tal fator reforça a necessidade de que o bloco não dependa da Ucrânia, visto que seu atual enredo político já se encontra abalado nas relações com a Rússia. A independência energética que a União Europeia procura pode ocorrer em planos futuros, mas, inicialmente, a assinatura do acordo entre Áustria e Rússia já é um alcance da independência energética com relação à Ucrânia, o que diminui imensamente as recorrentes ameaças de um possível corte do fluxo energético.

Referências

Austria, Russia Sign Agreement on Gas Pipeline. 29/04/2014. Disponível em: <http://abcnews.go.com/Business/wireStory/austria-russia-sign-agreement-gas-pipeline-23517937&gt; Acesso em: 30/04/2014

A Europa conseguiria viver sem o gás russo?. Disponível em: <http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/03/140328_alternativas_europa_gas_rb.shtml&gt; Acesso em: 28/04/2014

Crise na Ucrânia pode abrir mercado europeu para gás da Bolívia. Disponível em:

<http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/04/140415_bolivia_crise_ucrania_fn.shtml&gt; Acesso em: 30/04/2014

Disputa entre Rússia e Ucrânia ameaça gás europeu. Disponível em:<http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2009/01/090106_gasrussiaucrania_ba.shtml&gt; Acesso em: 29/04/2014

Europa vai debater fornecimento de gás russo. 29/04/2014. Disponível em: <http://www.afp.com/pt/node/2338692&gt; Acesso em: 30/04/2014

FERREIRA, Lurdes. Europa trabalha para ser menos dependente do gás russo e da Ucrânia.  16/03/2014. Disponível em: < http://www.publico.pt/mundo/noticia/europa-trabalha-para-ser-menos-dependente-do-gas-russo-e-da-ucrania-1628437&gt; Acesso em: 28/04/2014

Gazprom to receive Ukraine’s $1.5 bln gas debt payment Jan. 11.Disponível em: <http://en.ria.ru/russia/20090102/119335474.html&gt; Acesso em: 28/04/2014

Inaugurado primeiro gasoduto que liga a Rússia à Europa pelo Mar Báltico. 08/11/2011. <Disponível em: http://www.portugues.rfi.fr/europa/20111108-inaugurado-primeiro-gasoduto-que-liga-russia-europa-pelo-mar-baltico&gt; Acesso em: 29/04/2014

Obama ameaça novas sanções à Rússia; Putin responde. Disponível em: < http://migre.me/ji4N2&gt; Acesso em: 16/05/2014

Putin ameaça reduzir fornecimento de gás a Ucrânia e Europa. 10/04/2014. Disponível em: <http://oglobo.globo.com/mundo/putin-ameaca-reduzir-fornecimento-de-gas-ucrania-europa-12152817&gt; Acesso em: 28/04/2014

Russia fully cuts gas to Ukraine, ups supplies to Europe.Disponível em: <http://en.ria.ru/world/20090101/119302144.html&gt; Acesso em: 28/04/2014

UCHÔA, Marcos. Crise na Ucrânia mostra que Europa é muito dependente do gás russo. Disponível em: <http://g1.globo.com/jornal-da-globo/noticia/2014/04/crise-na-ucrania-mostra-que-europa-e-muito-dependente-do-gas-russo.html&gt; Acesso em: 15/05/2014

 

[i] No link abaixo é possível ver um mapa que demonstra que o caminho dos gasodutos responsáveis pelo fornecimento do gás russo à Eruopa ocorre, em sua grande maioria, através de dutos ucranianos. Disponível em: <http://migre.me/ji3g1&gt;

[ii] O South Stream é um gasoduto que já encontra-se em construção desde de 2012. Seu objetivo é transportar gás natural da Rússia para países como Bulgária, Sérvia, Hungria e Itália, através do Mar negro. O início de suas atividades está previsto para o ano de 2015. Disponível em: < http://migre.me/ji3hO&gt;

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