O papel histórico e os rumos da Irmandade Muçulmana no Egito

Felipe Madureira Simoni

Marilia Aquino Ferreira

Resumo

As disputas pelo poder no Egito se fazem cada vez mais intrincadas. Após o início das revoluções populares no Oriente Médio, que no país em questão foi denominada Revolução de Lótus, os egípcios se dividem entre deixar o poder nas mãos do exército ou confiá-lo à Irmandade Muçulmana. O jogo de poder, que chegou a pender a favor da Irmandade, culminou na condenação à morte de 528 integrantes do grupo no final do mês de março de 2014.
A Irmandade Muçulmana
O aumento da influência ocidental sobre o Oriente Médio, principalmente após a queda do Império Otomano durante a Primeira Guerra, gerou uma série de mudanças nos costumes e na política de alguns países da região. Em resposta a essa ocidentalização, assim como ao controle britânico no Oriente Médio, surgiu a Irmandade Muçulmana. (O NASCIMENTO DA…,2011). A Irmandade é um movimento social islâmico fundamentalista que luta para estabelecer a Sharia[i] como base de governo nos países com população muçulmana. Criada em 1928, no Egito, a Irmandade possui milhões de membros em diversos países e tem como fundamentos “a renovação espiritual e a promoção do Islã enquanto princípio organizador de todas as esferas da vida social”. (PIRES apud MITCHELL, p. 24). Além disso, a caridade também faz parte das ações do grupo, que presta atendimentos médicos gratuitos, distribui alimentos, dentre outras ações. O grupo cresceu e se tornou um dos mais organizados e populosos do Egito. Estruturado em bases hierárquicas agrega médicos, advogados, empresários, pessoas de diversas profissões que contribuem com seu trabalho e dinheiro para o crescimento do movimento. Toda essa estrutura organizacional permitiu a sobrevivência do grupo mesmo após serem banidos[ii] do Egito, em 1954. (CONHEÇA A HISTÓRIA…, 2013).

Durante toda a segunda metade do século XX, mesmo na clandestinidade, os membros da Irmandade continuaram a atuar na política. Evidenciando sempre uma postura fundamentalista, o grupo esteve envolvido em diversos episódios de violência. Somente em 2000 o grupo voltou a participar abertamente da política do país, concorrendo com candidatos para as eleições parlamentares. Essa abertura à participação da Irmandade se deu em parte devido ao entendimento de que o grupo tinha se tornado mais moderado. Em 2005 seus candidatos obtiveram um quinto das cadeiras do Parlamento egípcio. Quando da queda do ditador Hosni Mubarak, que governou o país durante os anos 1981 a 2011, o governo suspendeu as proibições à Irmandade, que pôde fundar o Partido Liberdade e Justiça (PLJ), liderado por Mohamed Mursi. A plataforma política do partido convocava o país a se tornar mais democrático, no entanto as novas leis não poderiam contradizer a Sharia.(CONHEÇA A HISTÓRIA…, 2013).

O pêndulo do poder na Revolução de Lótus

Inspirado no que vinha acontecendo na Tunísia[iii] o povo egípcio foi às ruas e reivindicou, em fevereiro de 2011, a saída do ditador Mubarak e a eleição de um novo governante[iv]. Desde que a Irmandade Muçulmana se mostrou um dos grupos de oposição mais bem organizados, sofreu represálias na forma de prisões de integrantes chave ainda nos meses finais do governo de Mubarak. Conforme o conflito se desenvolveu, esta organização passou a ser uma opção mais interessante para o governo dos Estados Unidos, gerando declarações da secretária de Estado  Hillary Clinton dizendo “não se opor“ à subida da Irmandade ao poder (EGITO…, 2012).

As grandes manifestações na Praça Tahrir foram símbolo da Revolução de Lótus, e conseguiram a retirada de Mubarak em menos de um mês após seu início. Ao deixar o governo o presidente Hosni Mubarak encarregou o Conselho Supremo das Forças Armadas de cuidar das questões do Estado (EGITO COMEMORA UM…,2012; MUBARAK É DEPOSTO…, 2011). Cabe ressaltar que Mubarak deixou o país em situação econômica complicada, com uma grande dívida externa, graves problemas internos de inflação, desemprego e corrupção política, variáveis que, juntas, estimularam a revolta popular.

Como resultado das manifestações, foram convocadas eleições nos moldes democráticos, para as quais concorreram Mohamed Mursi e Ahmed Shafiq, ex-primeiro ministro de Mubarak.  A votação popular, ocorrida em 2012, elegeu Mohamed Mursi, candidato do PLJ, com 51,73% dos votos (MOHAMED MURSI TOMA…, 2012). O fato foi considerado uma grande vitória política para a Irmandade.

A partir de sua posse, Mursi se lançou em uma série de manobras políticas para garantir sua permanência no poder, entre elas a demissão dos principais generais da oposição, nomeando outros que considerava leais e emitindo uma declaração constitucional que garantiu a eles poderes executivos e legislativos, inclusive no que tange à elaboração da Constituição. (TARGER; KIRALY; KLOSE; CALHOUN, 2012). Isso garantiu que a Irmandade mantivesse sua autoridade pelo período em que Mursi esteve no poder,[v] mas gerou grande insatisfação popular.

Apesar das manobras políticas que centralizavam o poder nas mãos de Mursi, em 01 de julho de 2013 a oposição tomou novamente a liderança do país quando o Comandante em chefe das Forças Armadas, General Abd-al-Fattah al-Sisi, apontou AldyMansour como presidente interino, após um golpe de Estado motivado por manifestações contra Mursi. Mansour ainda declarou que “a coisa mais gloriosa do 30 de Junho é que juntou todas as pessoas sem discriminação ou divisão” e atestou a necessidade de que a revolução prosseguisse para que tiranos não fossem mais produzidos[vi] (A IRMANDADE MUÇULMANA É…, 2013).

O golpe foi recebido bem por uma parcela da população, mas partidários da Irmandade Muçulmana ainda saíam às ruas para protestar. Um referendo para aprovar uma nova e polêmica Constituição (dita como beneficiária do exército às custas da população) foi realizado de forma também questionável. Quaisquer propagandas incentivando a negação da Constituição eram retiradas de circulação, assim como qualquer pessoa flagrada retirando propagandas a favor da Constituição poderia ser presa (TARGER; KIRALY; KLOSE; CALHOUN, 2012).

Protestos a favor do retorno de Mursi ocorreram durante todo o processo de mudança de governo, em muitos casos de forma violenta. Em Minya, no sul do Egito, a morte de um policial acabou gerando a prisão e, posteriormente, a condenação à morte de quinhentos e vinte e oito membros da Irmandade por protestar violentamente. Esta é a maior condenação do Egito moderno, mas os réus ainda podem recorrer a uma segunda instância, o que não deve surtir muito efeito, uma vez que o poder judiciário se alinha com o governo interino (EGYPT’S MUSLIM BROTERHOOD…,2014).

Conclusão

A disputa pelo poder no Egito parecia estar se estabilizando. Desde o início da Revolução de Lótus era possível ver uma maior abertura às manifestações. Mudanças no governo vêm ocorrendo através de referendos, manifestações populares e até mesmo golpes. Mas, ao que tudo indica, a preocupação principal do presidente interino AldyMansour é com uma legitimidade formal, uma legitimidade no método e no processo decisório, sem que se preocupe se este método reflete a vontade popular de fato. Como pode um Estado se reerguer de uma ditadura sem apoio popular? Como se pode ouvir e atender uma população tão dividida? Uma coesão entre os preceitos do islamismo e as formas democráticas de governo, atendendo ao que o povo pede nas ruas, é o que o governo precisa alcançar para se manter no poder.

Não é a primeira vez em sua história que a Irmandade sofre perseguição política por parte do governo vigente. Como dito anteriormente, a estrutura e a organização do grupo contribui para sua sobrevivência, mesmo com a morte das principais lideranças. Após ter conseguido o fato histórico de eleger um membro como presidente, o primeiro presidente civil da história do país, a Irmandade perdeu o poder para os militares. O futuro da Irmandade cruza com as escolhas políticas que o Egito irá tomar. Enquanto, se o governo adotar uma tática de contenção, o grupo pode continuar suas ações sociais e sua participação política, no caso de um recrudescimento das ações contra o movimento, este pode terminar por adotar táticas mais violentas, em confronto direto contra o Estado.  Talvez a solução para o governo interino não seja eliminar os opositores, como foi feito em anos anteriores, mas dar a eles algum espaço de representação.

O Egito pode se reorganizar politicamente com base, por exemplo, num modelo que separa cargos importantes para cada uma das diferentes parcelas da população, dando a cada qual sua participação na política doméstica de forma a garantir alguma inserção das minorias, garantindo uma representação proporcional. Qualquer que seja a abordagem adotada, ela deve ser capaz de levar esta disputa pelo controle do Egito para uma arena política. A mensagem passada pela condenação, juntamente com a organização do referendo sobre a Constituição, é de que não serão toleradas posições contrárias a Mansour. Nessa linha, o povo voltaria a ser governado pelo mesmo tipo de governo contra o qual lutou. O modo como o governo lidará com a sua oposição será decisivo para delinear a nova política egípcia.

REFERÊNCIAS

CONHEÇA A HISTÓRIA e a estrutura da Irmandade Muçulmana. Disponível em:<http://g1.globo.com/revolta-arabe/noticia/2013/07/conheca-historia-e-estrutura-da-irmandade-muculmana-egipcia.html>. Acesso em: 02 abr de 2014.

EGITO COMEMORA UM ano de revolução que derrubou Mubarak às vésperar de reais mudanças. Disponível em: <http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/19406/egito+comemora+um+ano+da+revolucao+que+derrubou+mubarak+a+espera+de+reais+mudancas.shtml>. Acesso em: 02 abr de 2014.

EGITO. Centro de Informações Estatal do Egito. Chronology: 2011 EgyptianRevolution: Timeline. Disponível em: http://www.sis.gov.eg/Newvr/reveulotion/ehtml/chronology.htm. Acesso em: Acesso em: 02 abr de 2014.

EGYPT’S MUSLIM BROTERHOOD. Disponível em: http://www.cfr.org/egypt/egypts-muslim-brotherhood/p23991. Acesso em 10 abri de 2014

http://www.cfr.org/egypt/egypts-muslim-brotherhood/p23991

PIRES, Guilherme Di Lorenzo. A Irmandade Muçulmana na Síria. Conjuntura Austral, Vol. 4, nº 20, nov. 2013. Disponível em: <http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:http://seer.ufrgs.br/ConjunturaAustral/article/viewFile/43388/27334>.

IRMANDADE MUÇULMANA É declarada grupo terrorista. Disponível em: <http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/12/131225_egito_irmandade_mm.shtml>. Acesso em:05 abr de 2014.

IRMANDADE MUÇULMANA VIVE o maior desafio de sua história, dizem analistas. Disponível em <http://noticias.terra.com.br/mundo/africa/irmandade-muculmana-vive-o-maior-desafio-de-sua-historia-dizem-analistas,7de817fa660bf310VgnVCM5000009ccceb0aRCRD.html>. Acesso em 03 abr de 2014.

MOHAMED MURSI TOMA posse como novo presidente egípcio. Disponível em: http://veja.abril.com.br/noticia/internacional/mohamed-mursi-toma-posse-como-novo-presidente-egipcio. Acesso em: 09 abr de 2014.

MUBARAK É DEPOSTO pelo povo, o Egito explode de alegria. Disponível em: <http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2011/02/11/mubarak-e-deposto-pelo-povo-o-egito-explode-de-alegria.jhtm>. Acesso em: 02 abr de 2014.

O NASCIMENTO DA Irmandade Muçulmana. Disponível em :<http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,o-nascimento-da-irmandade-muculmana,694480,0.htm>. Acesso em: 02 abr de 2014.

TRAGER, Eric; KIRALY, Katie; KLOSE, Cooper; CALHOUN, Eliot. Who’swho in egypt’smuslimbrotherhood. The Washington Institute dor NearEastPolicy. set. 2012. Disponível em:<https://www.washingtoninstitute.org/uploads/WhosWhoInMB.pdf>.Acesso em: 30 mar de 2014.

[i]Sistema legal baseado nas leis do Alcorão, códice do Islã.

[ii] Nas primeiras décadas de sua formação a Irmandade se envolveu em  assassinatos de governantes britânicos e de autoridades políticas, tendo sido banida do Egito pelo então presidente Gamal Abdel-Nasser, quando seus membros foram acusados de tentativa de assassinato contra ele. À época os líderes do grupo foram executados e milhares de membros presos e torturados.

[iii] Manifestações populares no início de 2011 deram início à Primavera Árabe, o estopim das revoltas populares contra os governos ditadoriais ocorreu na Tunísia, tendo se espalhado por diversos países do Oriente Médio.

[iv]Ver também: Casas, Pedro. A atual situação do Egito e as perspectivas para a reconstrução do país. Disponível em: http://www4.pucminas.br/imagedb/conjuntura/CNO_ARQ_NOTIC20110316115824.pdf.

[v] O governo de Mursi durou de junho de 2012 a julho de 2013, quando o presidente foi deposto pelos militares.

 

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Uma resposta para O papel histórico e os rumos da Irmandade Muçulmana no Egito

  1. thaismoretz disse:

    Claro, bem escrito e objetivo. Excelente para quem não é especialista no assunto.

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