A Restauração da Economia Mexicana

Orion Siufi Noda

Resumo

Nas últimas décadas o México passou por uma história econômica turbulenta. Na década de 1980, cunhada de “Década Perdida”, o país, cujo status era de economia emergente com altos índices de crescimento, passou pela grande crise que resultou na moratória[i] da dívida externa mexicana. Trinta anos depois, os mexicanos revivem o status de potência emergente e voltam a mostrar grande potencial, acima daquele da América Latina. O seguinte artigo toma como objetivo analisar esse ressurgimento da economia mexicana comparando-a ao subcontinente latino-americano e ao período anterior de profunda crise no país.

O “Milagre Mexicano” e a “Década Perdida”

Na década de 1940, o México adotava um modelo de substituição de importações (MSI) a fim de alcançar superávit na balança comercial, reduzindo as importações e aumentando as exportações. O modelo consistia na produção interna de produtos anteriormente importados, fazendo com que a necessidade de importá-los caísse. Com o MSI, o México passou a alcançar um crescimento econômico que ultrapassava 6% ao ano, mantendo uma taxa anual de inflação a 3% (SANTAELLA, 1998), que se estendeu até 1981. Este período de exímio crescimento econômico ficou conhecido como o “milagre mexicano”; o país era visto pelos mais diversos analistas como uma das principais potências emergentes da época e era tido, também, como um modelo de Estado capitalista na América Latina (LA BOTZ, 2014).

Segundo Chasteen (2001), a crise de 1929 energizou os movimentos nacionalistas, gerando um efeito colateral positivo do MSI, ou seja, com a crise as exportações latinas despencaram. Em decorrência disso, a renda disponível para importações também caiu, resultando na necessidade dos fabricantes latinos de preencher esse vácuo de produtos importados. Isso vai contra a ideia do comercio ser sempre benéfico, já que a interrupção do mesmo teve efeito positivo na América Latina.

No final da década de 1970 e início da década de 1980, o então presidente mexicano José Lopez Portillo, ao descobrir uma reserva de petróleo, decidiu tomar diversos empréstimos a fim de dar continuidade ao extraordinário crescimento do país, projetando suas quitações com o lucro esperado da venda do combustível, especulado em torno de 100 bilhões de dólares (LA BOTZ, 2014). O capital tomado pelo governo mexicano e os investimentos externos injetados na economia do México se destinariam a programas sociais, industriais e de infraestrutura, melhorando as condições do país e concretizando sua posição como futura potência. No entanto, em 1982 os preços do petróleo, que até então estavam demasiadamente elevados devido à crise do petróleo de 1973, despencaram e, como consequência disso e da fuga de capitais da América Latina, o México adquiriu uma dívida externa enorme, avaliada em cerca de 85 bilhões de dólares. Não só este país como diversos outros da América Latina contraíram dívidas exorbitantes, o que ficou conhecido como a crise da dívida externa da América Latina, em meio à Década Perdida (LA BOTZ, 2014).

A enorme dívida contraída somada à repentina fuga de capitais desestabilizou a economia mexicana. Em agosto de 1982, o país declarou moratória da dívida e, objetivando conseguir um empréstimo do Fundo Monetário Internacional (FMI), foi coagido a fazer concessões, como redução drástica dos gastos públicos e serviços governamentais (I.M.F. to Loan…, 1982). A partir de então, o México passou por um período delicado, com a estagnação[ii] da economia nos anos 1980 e um lento processo de recuperação.

A economia mexicana, tida como uma das mais promissoras na década de 1970 e detentoras de um estável crescimento anual de cerca de 6,5% sofreu uma forte oscilação negativa em um curtíssimo espaço de tempo. Mergulhada na crise da dívida externa da América Latina, agregando um débito de cerca de 85 bilhões de dólares, o México, assim como os demais países latino-americanos, se viu na pior recessão desde a década de 1930. Nos anos 1990, o México assinou o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA) e passou a integrar um bloco econômico juntamente com os Estados Unidos e o Canadá. O país viu, na assinatura do tratado, uma forma de mitigar os efeitos da crise e estagnação que vivia, no entanto, por efeito contrário, sofreu forte desindustrialização e desestatização de setores do país, como os de telecomunicações e transportes. A década de 1990 não trouxe melhoras à situação mexicana; o NAFTA, de certa forma, contribuiu para a estagnação e crise econômica no país (SERGIE, 2014).

A Proeminência da Economia Mexicana nos anos 2000

Apesar desse período de recessão e estagnação pelo qual passou, o México parece tê-lo superado e já ocupa espaço dentre as promissoras economias emergentes. O país tem como principal parceiro econômico seu vizinho setentrional, os Estados Unidos. Ao se falar de crise econômica atualmente, é provável recordar primeiramente àquela que os estadunidenses (e, por sua condição de hegemonia, grande parte dos países) enfrentaram em 2008. Quatro anos depois, a economia estadunidense já começa a se reerguer e assim, às sombras dessa recuperação, o México embala seu próprio ressurgimento. Pelos laços entre ambos os países, uma recuperação dos Estados Unidos estaria atrelada a um incentivo à economia mexicana (Emergente ‘da vez’…, 2014).

Além da parceria comercial entre os dois países, outro fator que eleva o México ao status de “menina dos olhos dos analistas da América Latina” (Emergente ‘da vez’…, 2014) seria seu distanciamento da economia chinesa. Em comparação aos outros países latino-americanos, o México é o que menos se engaja em relações comerciais com a China. Outros países exportadores de matérias primas, como Peru, Chile e Colômbia também terão um crescimento relativamente alto, quando comparado ao da América Latina como um todo (cujo crescimento esperado gira em torno de 3 e 3,3% segundo o FMI). Já no caso destes países, há um grau maior de trocas comerciais com a China, que atualmente vive uma fase de desaceleração e esfriamento. Pode-se afirmar, dessa forma, que o México mantém relações comerciais com países que podem continuar impulsionando sua economia.

No entanto, percebe-se que uma das mudanças primordiais que possibilita o crescimento mexicano e alimenta esta expectativa do país é o pacote de reformas aprovado pelo presidente Enrique Pieña Nieto, em 2013 (Congresso Mexicano Aprova…, 2013). Entre elas, a entrada de investimento externo no setor energético do país injetará, segundo o banco JP Morgan, cerca de um bilhão de dólares por mês na economia mexicana (Emergente ‘da vez’…, 2014). Consequentemente, ocrescimento do PIB do país dobraria de 2% para 4% ao ano. A necessidade de reerguer o México é tremenda, a ponto de partidos políticos opostos firmarem um “Pacto pelo México” para aprovar as leis necessárias.

As especulações acerca do país são positivas e tudo indica o futuro desenvolvimento. No entanto, nem todos enxergam tal desenvolvimento com um viés de deslumbre. Segundo o Centro de Pesquisa Econômica e Política (CEPR), o México está simplesmente “tirando o atraso” (Emergente ‘da vez’…, 2014), compensando décadas de estagnação e crescimento esdrúxulo. Enquanto seus vizinhos cresciam a taxas maiores, a economia mexicana se encontrava em um período de crescimento inexpressivo; agora, no momento em que estes mesmos vizinhos desaceleram, o México é quem cresce a taxas notáveis.

Considerações Finais

O motivo da ascensão econômica do México é alvo de diversas especulações. No entanto, acreditar que o crescimento e desenvolvimento repentino do México se deu devido à adoção do modelo de livre comércio (reforçado pela assinatura do NAFTA), afirmando que o modelo funciona pode ser um equívoco. A assinatura do tratado acarretou em diversos problemas sociais negligenciados pelo Estado.

Segundo Laura Carlsen, diretora do CEPR, o México adota o modelo de livre comércio, visando o comércio internacional, mas sem dar ênfase às questões sociais, como bem-estar da população. O México já adotava o mesmo modelo desde a década de 1990, na qual o crescimento do país era insuficiente frente àquele dos demais países. Apesar disso, nunca foi dito nessa época que o motivo da estagnação econômica mexicana era o modelo de livre comércio.

O desenvolvimento econômico de um país não está necessariamente atrelado à melhoria das condições sociais, o que pode gerar um problema interno. Para que o crescimento do país se dê de forma realmente satisfatória é preciso atuação de políticas sociais que acompanhem a expansão econômica mexicana.

REFERÊNCIAS 

CHASTEEN, John Charles. América Latina: uma história de sangue e fogo. Rio de Janeiro: Campus, 2001

FARNSWORTH, Clyde H.. I.M.F. To Loan To Mexico, 1982, Washington, The New York Times. Disponível em:< http://www.nytimes.com/1982/12/24/business/imf-loan-to-mexico.html> Acesso em 05 mar 2014

INEGI. Estadísticas Históricas de México, 1998. Disponível em:< http://www.inegi.org.mx/prod_serv/contenidos/espanol/bvinegi/productos/integracion/pais/historicas/EHM%202.pdf> Acesso em 05 mar 2014

LA BOTZ, Dan. A Brief History of Mexico, UE International. Disponível em:< http://www.ueinternational.org/Mexico_info/Mexico_history3.php> Acesso em 05 mar 2014

MARTINEZ, Ana Isabel; BARRERA, Adriana. Congresso mexicano aprova abertura do setor de petróleo. 2013, Reuters, Cidade do México. Disponível em:< http://br.noticias.yahoo.com/congresso-mexicano-aprova-abertura-setor-petr%C3%B3leo-131447961–finance.html> Acesso em: 11 mar 2014

SANTAELLA, Júlio. Economic Growth in Mexico, 1998, Inter-American Development Bank. Disponível em: <http://www.iadb.org/regions/re2/santafin.pdf> Acesso em: 05 mar 2014

SERGIE, Mohammed Aly. NAFTA’s Economic Impact. Council on Foreign Relations, 2014. Disponível em:< http://www.cfr.org/trade/naftas-economic-impact/p15790#p5> Acesso em: 11 mar 2014

THE Mexican Crisis: No Mountain Too High?, 2001, International Monetary Fund. Disponível em:< https://www.imf.org/external/pubs/ft/history/2001/ch07.pdf> Acesso em 05 mar 2014

THE Mexican Economy: The Mexican Miracle, 1940-1970, Michigan, Michigan State University. Disponível em:< https://www.msu.edu/course/hst/384/MIRACLE.htm> Acesso em: 05 mar 2014

UCHOA, Pablo. Emergente ‘da vez’, México levanta debate sobre crescimento, 2014, Washington, BBC Brasil. Disponível em: < http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/02/140224_mexico_crescimento_pu.shtml> Acesso em:  05 mar 2014

VARDI, Nathan. The Mexican Miracle: Despite Drug Wars, Economy Is Booming, 2012, Forbes. Disponível em:< http://www.forbes.com/sites/nathanvardi/2012/10/15/the-mexican-mircale/> Acesso em 05 mar 2014

 

[i] Declaração de moratória é a declaração de um país de que este não poderá quitar suas dívidas.

[ii] A estagnação de uma economia representa sua inércia, caracterizada por baixas taxas de crescimento.

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