Mídia e Terrorismo: uma análise acerca do papel da mídia no pós-11 de setembro

Maria Paula Rezende

Resumo

Este artigo se propõe a fazer uma breve análise da mídia estadunidense dentro do período pós-11 de setembro e destacar sua influência na aceitação da “Guerra ao Terror” por parte dos cidadãos também estadunidenses. Com base em alguns teóricos construtivistas, como Skinner, Austin, Adler e Onuf, a mídia se mostra como um instrumento para que sejam moldadas as opiniões dos cidadãos, levando em consideração que algumas emissoras de televisão do país eram favoráveis às atitudes de George W. Bush.

Histórico

Em 11 de setembro de 2001, os atentados às torres do World Trade Center e ao Pentágono mudaram o futuro da nação estadunidense. A partir desta data a palavra “terrorismo” passou a fazer parte do vocabulário de todos os cidadãos norte-americanos, dando um alvo à chamada “Guerra ao Terror”, iniciada por George W. Bush quase um mês depois dos acontecimentos.

O sentimento nacional, tão comum entre os estadunidenses (DORNELES,2003), se fez presente depois dos atentados. E até em outros lugares do mundo a solidariedade contagiou as pessoas (PECEQUILO, 2013). Segundo Cristina S. Pecequilo, “foi aberta uma nova era de ameaças aos Estados Unidos e ao mundo com foco no terrorismo e na necessidade de combatê-lo em nível global.” (PECEQUILO, 2013, p.21) E por consequência, o medo deixou as pessoas mais suscetíveis às opiniões vindas da mídia (NACOS, 2007). Esta, como se verá ao longo deste artigo, não deixou de utilizar o sentimento nacional em seu favor.

Mas o que poucos sabiam era que o maior interesse no atentado, bem como o de todos os ataques terroristas, era ter sua mensagem exibida na mídia (SCHMID e DE GRAAF apud NACOS, 2007, p. 26). Segundo Brigitte Nacos, os intuitos principais dos atentados são

Primeiramente, os terroristas querem a atenção das audiências tanto internas quanto externas à sua sociedade alvo […] Segundo, terroristas querem o reconhecimento de seus motivos […] Terceiro, terroristas pretendem atingir o respeito e a simpatia daqueles pelos quais eles alegam representar […] Quarto, terroristas querem o status de quase legitimação e o mesmo ou similar tratamento que os atores políticos recebem da mídia. (NACOS, p. 20, 2007, tradução minha)

E o que o mundo todo assistiu foi exatamente o que eles desejavam: a mensagem de que o “império americano” não era inatingível foi transmitida pelas imagens dos aviões e pelo discurso de Osama Bin Laden (NACOS, 2007, p.46).

Bin Laden passou a ser o nome mais falado nas redes de notícias, e o inimigo número um dos americanos. A própria mídia contribuiu preparando os espectadores para uma possível guerra e motivando a população ao patriotismo (DORNELES, 2003). Assim, quando em 7 de outubro de 2001, Bush anuncia a invasão do Afeganistão, ninguém se surpreende, afinal, o discurso midiático já tinha declarado que não havia outra solução senão a guerra (NACOS, 2007).

A mídia teve grande papel na “Guerra ao Terror”, tornando-se o ponto de encontro entre o que o governo queria que a população soubesse e a opinião pública. Assim, os índices de aprovação de Bush após o 11 de setembro aumentaram drasticamente, já que no início do mês ele tinha a aprovação de 51% dos cidadãos estadunidenses, enquanto no final de setembro, essa porcentagem sobe para 86% (PEW RESEARCH CENTER). Os programas de televisão em outras ocasiões sempre passaram a imagem heroica dos Estados Unidos resgatando outros países em suas guerras, levando a democracia a eles, e no caso do pós-11 de setembro não foi diferente (DORNELES, 2003). Programas de grande audiência de algumas emissoras mostravam às pessoas apenas o que convinha ao governo, que não queria causar novamente o “efeito Vietnã”[i], de modo que as imagens mostravam poucos mortos e poucos bombardeamentos. (DORNELES, 2003).

Com o apoio que a população estava dando à guerra, acreditando que esta tinha motivos suficientes para acontecer e que estava sendo eficiente, a mídia não deu importância ao fato de que o inimigo número um, Bin Laden, não tinha sido capturado, caso contrário, a eficiência da guerra iria diminuir perante os olhos dos espectadores. Dessa forma, no início de fevereiro de 2002, Bush anuncia em seu discurso que o inimigo agora não seria mais apenas Bin Laden, mas sim o terrorismo como um todo. A propagação desta declaração pelas redes de notícia fez com que a população continuasse a apoiar as atitudes cada vez mais bélicas de seu governo, já que agora o inimigo se tornara ainda maior e mais difícil de ser derrotado (NACOS, 2007).

Após a intervenção no Iraque, ficou comprovado que as informações sobre armas de destruição em massa divulgadas antes da invasão não eram verdadeiras (NACOS, 2007). Porém, antes mesmo do início do conflito, quando não se tinha certeza sobre a veracidade destas informações, a mídia já as dava como certas, já que o apoio da população não estaria tão presente caso não houvesse motivos suficientes para a invasão. No Iraque se instalou um regime favorável aos Estados Unidos, após eleições realizadas em 2005 (DORNELES, 2003), mas as tropas americanas continuaram no país até 2011.

Enquanto isso, outros atentados terroristas ocorreram, mas nenhum com a mesma magnitude e impacto na mídia que o ataque às torres gêmeas. Em 2004, explosões em linhas de trens mataram 191 pessoas em Madri. Acredita-se que este atentado tenha ligação com o 11 de setembro e a Al-Qaeda, e foi bastante exposto pelas redes de notícia, como uma forma de manter o apoio da opinião pública à guerra, que ainda era uma realidade na vida dos estadunidenses. Já em 2005, o ataque foi em Londres. Três estações de metrô explodiram, com 56 mortos, e rapidamente o acontecimento também foi associado à Al-Qaeda (ALTMAN, 2012).

O papel da mídia

Em transcrições de alguns programas da televisão estadunidense, é possível evidenciar a existência clara de uma inclinação de algumas emissoras a apoiar o governo de George W. Bush. Como foi dito anteriormente, esse apoio da mídia é imprescindível para que a população em massa resolva apoiar as decisões bélicas tomadas pelo presidente.

Pode-se citar, por exemplo, o programa Anderson Cooper 360º, que em todo o mês de setembro de 2003 relembra a seus espectadores o quanto é necessário o apoio de tropas de outras nações para que os Estados Unidos consigam levar o Iraque a uma democracia legítima, e que claramente não se pode ser neutro neste tipo de conflito. Isso fica evidente quando é exibida uma parte do discurso de Bush: “Essa Guerra é difícil e gera muitos custos, mas ainda sim vale a pena para o nosso país e para nossa segurança” (CNN, 2003, p.1, tradução minha). A situação no Iraque é ainda descrita como “uma briga entre civilização e caos” (CNN, 2003, P.1, tradução minha). Assim, o apresentador repete por várias vezes que a população deve apoiar o governo em suas atitudes, afirmando que existe a possibilidade eminente de um novo ataque terrorista mais devastador que o do World Trade Center (CNN, 2003)[i].

Logo, os espectadores deste e de vários outros programas, ouvindo essas “evidências” de que a guerra do Iraque era realmente necessária, acabam esquecendo todos os outros fatos que mostram que houve outras motivações que não eram as de levar democracia e paz a alguns países do Oriente Médio.

O Construtivismo e a mídia

Ao longo do tempo, o termo terrorismo vem adquirindo novos significados, mudando a percepção que se tem destes atos. Durante o século XVIII, uma definição original era “ações violentas que provêm do Estado” (NACOS, 2007, p.22, tradução minha). Já no século XIX, esta definição se expande para incluir também violência vinda de classes subalternas ao governo, como crimes praticados por anarquistas e policiais. No século XX esta se modifica novamente, e passa a significar principalmente violência política realizada por atores que não fossem os Estados (NACOS, 2007).

Porém, no final do século XX e início do século XXI, esse conceito passa a ter como ponto principal a existência do mass-mediated terrorism, “uma violência política contra não combatentes/inocentes que é cometida com a intenção de promover o ato para obter publicidade e consequentemente atenção pública e do governo” (NACOS, 2007, p.22, tradução minha). Assim, terrorismo passa a ser ligado diretamente com a existência da mídia. O que antes eram apenas crimes políticos passa a ser definido como um modo de conseguir atenção de outros para uma determinada causa, usando como estratégia ataques com vítimas.

Com a evolução dos meios de comunicação e consequentemente com o crescimento do papel da mídia na vida cotidiana, os atos terroristas passaram a ter cada vez mais alcance. Assim, mais do que nunca, mídia e terrorismo estavam inseparáveis (NACOS, 2007).

Com base na teoria de Skinner e Austin, é possível ver a mudança que ocorre entre os significados dados à linguagem. Ambos ou autores fazem parte da chamada “virada linguística”, que tem como intuito passar a considerar a linguagem como “uma forma de ação, social e completa, isto é, um fato social datado e determinado.” (ENDEMANN; TOURINHO, 2007, p.208). Dessa forma, a linguagem atuaria sobre a realidade, constituindo-a (ENDEMANN; TOURINHO, 2007).

Segundo Skinner, ao utilizar-se da linguagem, tanto o mundo quanto o próprio homem são modificados pelas consequências de suas ações, de modo que a verdade seria para ele apenas “uma questão de interesses e práticas das comunidades verbais.” (SKINNER, 1954, p. 127). E esta verdade, de acordo com Austin, seria apenas a verdade esquemática, ou seja, moldada estrategicamente para determinados fins e para que sejam adequadas à funcionalidade do conjunto de práticas (ENDEMMAN; TOURINHO, 2007). Logo, esta existiria apenas de acordo com a eficácia que teria diante dos ouvintes, e não mais em comparação com a realidade (AUSTIN, 1990).

Além disso, para Austin, as palavras adquirem significado se comparadas ao contexto no qual são proferidas e também quando esta linguagem é interpretada é necessário uma análise do propósito do comportamento, ou seja, as condições são imprescindíveis para a compreensão dos significados da ação (SKINNER, 1992).

Considerações finais

Analisando o caso segundo o construtivismo, uma influência da mídia no comportamento dos cidadãos estadunidenses se torna mais evidente, visto que, como foi citado anteriormente, as palavras adquirem significados diferentes em contextos diferentes e uma ação, no caso o discurso midiático, proferido inúmeras vezes e mantido como verdade absoluta, leva o ouvinte a incorporar aquilo como comportamento, transmitindo o que foi dito em suas ações. Assim, a partir das mudanças que houve na aprovação da “Guerra ao Terror”, seria possível colocar a mídia como um dos fatores que possam ter causado essa diferenciação da opinião pública estadunidense.

Associando então a teoria de Onuf, Adler, Skinner e Austin, além de lembrar o papel que a mídia tem na propagação dos atos terroristas e suas motivações, esta se torna uma ferramenta central, tanto para que o governo estadunidense convença a população de que as guerras realizadas no Afeganistão e no Iraque eram legitimas, quanto para que os que realizaram os atentados manifestem os motivos e princípios de suas ações.

A partir desta importância que a mídia vai adquirindo no cenário da política internacional atualmente, além da possível utilização dela para que o governo manifeste de forma subentendida seus interesses, no caso citado neste artigo, seu papel se torna ainda mais relevante, visto que durante a “Guerra ao Terror”, ainda existia o medo por parte do governo estadunidense de que se repetisse o “Efeito Vietnã. Isso significa que tudo que seria transmitido teria que passar por uma seleção cuidadosa e foi justamente o que aconteceu. Por a população ter tido uma impressão bastante diferente do que estava ocorrendo durante as guerras, como foi evidenciado pelo trecho do programa Anderson Cooper 360º, e por ter sido convencida, principalmente pela mídia e pelos discursos presidenciais, de que os motivos para que os países fossem atacados eram legítimos, a opinião pública passou a apoiar tanto as intervenções quanto as atitudes de Bush.

Logo, pode-se evidenciar no pós-11 de setembro um aumento significativo da relevância que a mídia tem para as Relações Internacionais, em virtude principalmente do papel que esta desenvolveu como difusora tanto dos motivos dos atentados no World Trade Center quanto dos interesses do governo estadunidense.

REFERÊNCIAS

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[i] Durante a Guerra do Vietnam, acredita-se que a mídia de massa, principalmente os canais de televisão, ajudaram a colocar a opinião pública estadunidense contra o governo em relação a conflitos militares. Já que em vários canais eram transmitidas imagens de mortos e cidades destruídas (NACOS, 2007).

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