As consequências da crise financeira no Chipre: uma possibilidade de reunificação?

Barbara A. Magellan Teixeira

Resumo

Em 25 de março de 2013, foi concedido ao Chipre, pelos parceiros do Eurogrupo[i], um resgate financeiro de 10 bilhões de euros, juntamente com um pacote de austeridades nunca antes usadas. As consequências dessas medidas severas têm causado mudanças nas vidas dos cipriotas do sul, enquanto seus vizinhos do norte, ocupados pela Turquia, vivem uma fase de progresso. Seria essa a oportunidade para a reunificação do país?

Histórico

A Ilha do Chipre se tornou protetorado do Império Britânico em 1915, após longos anos sob o domínio do Império Otomano. Entretanto, em 1955, começaram as revoltas dos gregos cipriotas pela libertação do país do governo da Coroa Britânica, e por uma união com a Grécia (BBC, 2013). A independência só foi conquistada em 1960, quando os cipriotas gregos e turcos concordaram com uma constituição unificada. Apesar do acordo, a tensão entre os dois grupos escalou, o que levou a um cenário de violência, principalmente na capital da ilha, Nicósia (CIA, 2013).

Mesmo com a chegada das tropas da missão de paz da Organização das Nações Unidas (ONU) em 1964, ainda houve surtos de violência no país e os cidadãos turcos foram recuados a certas áreas de enclave. Quase dez anos após a situação de tensão no país, a Grécia organizou uma missão para tentar tomar o poder no Chipre, mas foi surpreendida por uma intervenção militar da Turquia que ocupou mais de um terço do norte da ilha. A região se autodeclarou um país independente, a República Turca do Norte do Chipre – somente reconhecida pelos turcos (CIA, 2013)[ii]. Nesse cenário, foi criada uma linha que divide o país, chamada de “Linha Verde”, que separa o Chipre turco do Chipre grego, e, assim, os dois lados seguiram suas vidas políticas (BBC, 2013).

Com a possibilidade de o Chipre ser inserido na União Europeia, no final dos anos 1990, as tensões entre os dois lados voltaram a aumentar, uma vez que a Turquia ameaçava uma intervenção militar na parte grega da ilha se a essa fosse concedido um lugar no grupo. Diante dessa atitude, em 2004, foi proposto pelo então Secretário-Geral da ONU, Kofi Annan, um plano para a unificação do Chipre. O Plano Annan, assim chamado, tinha a intenção de criar a República Unida do Chipre, uma federação constituída por dois estados – o grego cipriota e o turco cipriota (ONU, 2004). Entretanto, apesar do otimismo dos dois lados, somente 24% dos gregos cipriotas votaram a favor da reunificação, enquanto que 65% dos turcos cipriotas disseram sim. A alegação do lado grego para a não aceitação do plano foi a de temer pela sua segurança, uma vez que a Turquia teria direito a manter tropas militares na ilha, enquanto que a Guarda Nacional seria dissolvida (LORDOS, 2006). Ao longo do tempo, várias tentativas de negociação partiram tanto do lado turco cipriota, quanto da ONU, mas sem nenhum sucesso.

A crise financeira internacional[iii] de 2008 abalou seriamente a porção sul do Chipre, que investia pesadamente na Grécia, seu principal parceiro europeu, e foi obrigado a pedir um resgate para o Eurogrupo. Primeiramente, o resgate só foi concedido pelo grupo europeu devido à eleição do novo presidente grego cipriota, Anastasiades, que tinha como intenção restabelecer o crédito da ilha em relação ao continente, e estava aberto a negociações relacionadas ao conflito turco-grego cipriota – o último no território da Europa. Nesse cenário, 10 bilhões de euros foram concedidos para o Chipre, para que ele fosse capaz de evitar sua falência bancária que não só afetaria a ele próprio, como também aos outros membros da zona do euro.

Entretanto, as condições dos países europeus para fazer o empréstimo para o Chipre eram altamente severas, visto que esses países não sentiam credibilidade na fiscalização dos bancos da ilha na origem do dinheiro neles investidos, o que fazia com que os membros do Eurogrupo desconfiassem que o Chipre fosse utilizado como paraíso fiscal, principalmente devido à quantidade de capital russo presente nos mesmos.

As consequências

As condições para o resgate financeiro do Chipre cedido pelo Eurogrupo ditavam que os bancos nacionais deveriam se recapitalizar, utilizando-se dos fundos dos próprios correntistas dos bancos, que teriam perdas parciais visando à reestruturação dos mesmos. As consequências da crise e do resgate podem ser vistas na diminuição do nível da vida da população na parte sul da ilha desde então. A taxa de desemprego subiu para 15% e várias famílias grego-cipriotas agora passam a receber ajuda tanto da Cruz Vermelha, quanto da Igreja, uma vez que sua renda – que anteriormente era de 16.765 euros, dois mil euros a mais que a média europeia – caiu drasticamente. O aumento dos impostos chega a 600 milhões de euros, o salário dos funcionários públicos ficará congelado até 2016, a aposentadoria começa com os 65 anos de idade agora, com uma diminuição considerável da pensão. O PIB do país caiu 12% esse ano e grandes privatizações e vendas de reservas de ouro por parte do Estado foram feitas (COUBERT, 2013).

Nesse contexto, tem surgido, novamente, interesse por parte do governo turco cipriota na unificação. A parte norte da ilha, por viver isolada da comunidade internacional, não sentiu os abalos da crise, e mesmo que sua população seja quase três vezes menor que a da parte sul, sua taxa de crescimento é de 3,2% esse ano, e esperada de ser 4,2% no ano que vem. Em 2001, a porção turco-cipriota da ilha sofreu uma grande crise econômica, devido à quebra do mercado de ações da Turquia, e a população viveu épocas de grande desemprego e inflação (ÖZATAY, 2002). Contudo, hoje, a renda média de um cidadão turco cipriota do norte da ilha é de quase 16 mil dólares, realidade que não passava de cinco mil na época da crise.

Além disso, há a possibilidade da construção de um duto submarino que ligará o norte do Chipre à Turquia em 2014 – pelo qual passarão 75 milhões de metros cúbicos de água doce, necessária para o desenvolvimento da agricultura e da economia local, uma vez que a ilha sofre com grandes períodos de seca (COUBERT, 2013). Tudo isso somado ao fato de que dois anos atrás foram encontradas enormes reservas de gás natural no oceano do Chipre, e a construção da Linha de duto submarino do Leste do Mediterrâneo tange exatamente aos interesses turcos, uma vez que a passagem pelo seu território é inevitável, e a colaboração com a principal potência da região é desejável. Assim sendo, o Chipre se tornaria importante rota do gás natural que vem da Ásia, como também um notável exportador para a Europa, o que seria muito benéfico na reestruturação econômica do país (KANTER, 2013).

Considerações finais

É notável o número de benefícios a serem conquistados pela República do Chipre no caso de uma reunificação com a República Turca do Norte do Chipre. Nota-se o aumento do debate das partes no que concerne à unificação, mas o medo de outro fracasso nas negociações é alto, uma vez que o insucesso seria desastroso e muito mais difícil de reparar. Há a grande vontade do governo grego cipriota na unificação, visto que reconhecem a necessidade dos investimentos estrangeiros no país, e, mais do que isso, do reestabelecimento da credibilidade do Chipre tanto perante eles mesmos, quanto perante a comunidade internacional.

A vitória na reunificação traria vantagens não somente à ilha – através da reconstrução econômica e da possível posição de exportador de energia para a Europa para o Chipre grego. Além disso, traria o fim do isolamento do Chipre turco da comunidade internacional e o inseriria na União Europeia, trazendo vários benefícios para a população do norte da ilha. A Grécia se posiciona favorável à reunificação do Chipre, pois, uma vez que essa aconteça, o país poderá reestabelecer suas relações com a Turquia. Quem mais se beneficiaria com o fim da divisão da ilha seria também a própria Turquia, tendo em vista que sua entrada na União Europeia é muitas vezes contestada em razão de sua participação no conflito, pois é de grande interesse dos países europeus que este se resolva, visto que é o último desta natureza no continente.

Referências

BBC. Timeline: Cyprus, 2013. Disponível em:< http://news.bbc.co.uk/2/hi/europe/1021835.stm>

 

CIA. The World Factbook, 2013. Disponível em <https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/geos/cy.html>

COUBERT, David. A crise econômica cipriota, uma oportunidade para a paz? Le Monde Diplomatique Brasil, 2013. Disponível em:< http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1512>

EVRIPIDOU, Stefanos. Future without a solution is grim. The Cyprus Mail, 2013. Disponível em:< http://cyprus-mail.com/2013/10/11/future-without-a-solution-is-grim/>

KANTER, James. For Cyprus, a Sudden Need to Play Nice With Turkey. The New York Times, 2013. Disponível em:< http://www.nytimes.com/2013/03/28/business/global/for-cyprus-a-sudden-need-to-play-nice-with-turkey.html?pagewanted=all&_r=0>

LORDOS, Alexander. From Secret Diplomacy to Public Diplomacy, 2006. The Cyprus Polls. Disponível em:<www.cypruspolls.org/FromSecretDiplomacytoPublicDiplomacy>

ONU. The Annan Plan, 2013. Disponível em:<http://www.hri.org/docs/annan/Annan_Plan_April2004.pdf>

ÖZATAY, Fatih. The 2000-2001 Financial Crisis In Turkey. Central Bank of Turkey and Ankara University, 2002.

 

[i] Eurogrupo é uma instituição da União Europeia que reúne os ministros das finanças dos países cuja moeda seja o euro. Mais informações:<http://www.eurozone.europa.eu/eurogroup/>

[ii] A República Turca do Norte do Chipre se tornou o que se chama um Estado de facto, o que significa que é um Estado na prática.

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Uma resposta para As consequências da crise financeira no Chipre: uma possibilidade de reunificação?

  1. Margarete Teixeira disse:

    Muito boa a possibilidade de ir acompanhando o desenrolar da história.

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