A alta do dólar e a economia brasileira: uma visão liberal

Luiza Bartoli C. Goulart

Resumo                                                       

Desde maio de 2013, presencia-se um cenário de desvalorização do real frente ao dólar alcançando o seu ponto crítico no dia 21 de agosto de 2013, quando se registrou uma taxa de câmbio equivalente à R$ 2,4512 por dólar – valor este recorde em cinco anos. Ao longo do mês de setembro, observou-se um decréscimo progressivo desta taxa, porém a mesma ainda se situa em patamares mais elevados do que aqueles encontrados no início do mês de maio. Este artigo tem como objetivo analisar as causas, assim como as possíveis consequências desta depreciação do real para a economia brasileira em uma perspectiva liberal.

Causas

A alta do dólar pode ser justificada através de fatores externos e internos ao Brasil. Sendo o primeiro deles causado tanto pela política econômica estadunidense quanto pela desaceleração econômica global. E o segundo pelas expectativas negativas em relação ao crescimento da própria economia brasileira.

Com o intuito de superar a crise de 2008, os Estados Unidos vem adotando, desde 2009, um programa conhecido como Quantitative Easing (“Relaxamento Quantitativo”, em tradução livre) ou apenas QE. Este é uma operação de mercado que funciona através da compra de ativos lastreados em hipoteca[i] e de títulos do Tesouro americano pelo banco central estadunidense conhecido por Federal Reserve System (Fed), injetando assim cerca de US$ 85 bilhões mensais na conomia norte-americana. Além de ajudar no combate à deflação e na criação de novos empregos nos EUA, o QE vem beneficiando também outros países. Na medida em que há um excedente de capital, investidores dos EUA buscam mercados com atrativas taxas de retorno para se investir. Portanto países como Brasil, Índia e Rússia, onde se encontram as mais elevadas taxas de juros, acabam captando maior volume de capital financeiro (BARRUCHO, 2013).

No final do mês de agosto, anunciou-se uma significativa recuperação da economia estadunidense, principalmente devido à alta das exportações (aumento de 8,6%). Com um crescimento de 2,5% do produto interno bruto, no segundo trimestre de 2013, superou-se a estimativa de expansão de 1,7% para o mesmo período (CASSELMAN e SHAH, 2013). Em meio a este cenário de recuperação, especula-se que o FED possa reduzir seus estímulos à economia, diminuindo assim a oferta de dólar e consequentemente, elevando a taxa de juros do país (prime rate). Essa expectativa afetou o mercado financeiro, diminuindo e alterando a direção dos investimentos, uma vez que, concretizando-se este novo contexto, os títulos dos EUA passarão a ser mais atraentes do que as aplicações de maiores riscos de países emergentes como o Brasil.

Em reunião ocorrida em agosto, o Federal Reserve System juntamente com o seu comitê responsável por supervisionar as operações de mercado aberto dos Estados Unidos da América, Federal Open Market Committee (Fomc), decidiram-se pela manutenção do QE, porém Ben Bernanke, atual presidente do FED, afirmou que o mesmo será reduzido gradualmente no fim deste ano de 2013. A previsão de prolongamento não foi suficiente para evitar a fuga de capital estrangeiro da América Latina e Ásia, ainda mais quando é notória a pressão de muitos especialistas para o fim do programa. Segundo Moore (2013), houve o esgotamento do Quantitative Easing, de forma a não beneficiar mais a economia estadunidense, além de não atingir o seu principal objetivo: criação de novos empregos.

Outro elemento que contribuiu para a valorização do dólar é a desaceleração da economia mundial. Com um menor crescimento, diminui-se a demanda por bens e serviços brasileiros, o que pode ser comprovado pela queda das exportações – cujas cotações são feitas em dólares. Comparando as médias da primeira semana de setembro de 2013 com a de setembro de 2012, percebe-se uma retração de 9,5% das exportações brasileiras, o que significa uma menor oferta da moeda americana na economia nacional. Apesar das expectativas de desaceleração da economia da China, o país continua sendo o maior parceiro comercial do Brasil, havendo inclusive uma alta na venda dos produtos brasileiros para os chineses neste ano. Logo, foram as exportações destinadas principalmente para a Europa e EUA que sofreram a maior queda (BARRUCHO, 2013; WATANABE, 2013).

Quanto ao fator interno, este é caracterizado pelas perspectivas de baixo crescimento da economia brasileira, em que o Fundo Monetário Internacional (FMI) reduziu sua previsão de expansão de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil em 2013 para 2,5%. E em 2014, a projeção que era de 3,2% passou a ser de também de 2,5%. Uma das razões que contribui para este quadro é a elevação da taxa de juros brasileira (taxa Selic). No início de 2013, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), instrumento oficial utilizado para medir a inflação do país, se encontrava em patamares mais altos do que aqueles registrados em 2012 nos iguais meses de análise, de forma que o governo enfrentava um tradeoff [ii] entre crescimento econômico e inflação. Com o reajuste da taxa Selic, de 7,25% em janeiro de 2013 para 9,5% em outubro do mesmo ano, evidenciou-se uma escolha do Banco Central brasileiro (BACEN) pelo controle inflacionário. Esta decisão tem desestimulado os investimentos estrangeiros diretos uma vez que os tornam mais onerosos. Em junho de 2013 tais investimentos eram de aproximadamente US$ 7.170 milhões enquanto em agosto este número caiu para US$ 3.774 milhões (ARIAS, 2013; LAMUCCI, 2013).

Expectativas da política econômica estadunidense, desaceleração da economia mundial e perspectivas negativas quanto ao crescimento econômico do Brasil são problemas que convergem em um mesmo ponto: todos estes contribuem para a diminuição da demanda por investimentos brasileiros e consequentemente elevam os investimentos externos. Seguindo esta linha de raciocínio, há uma maior demanda interna por fundos de empréstimos para financiamento de investimentos no exterior, elevando assim a taxa de juros do Brasil e aumentando a oferta do real. É exatamente este aumento da oferta da moeda brasileira, juntamente com a diminuição da oferta da moeda americana, que é responsável pela depreciação da taxa de câmbio do Brasil (MANKIW, 2009).

Possíveis consequências

Em uma análise breve, a depreciação do real poderia significar um superávit na balança comercial brasileira, uma vez que torna as exportações mais baratas e as importações mais caras. Porém, tal otimismo não tem refletido a realidade. Uma parcela significativa das empresas exportadoras brasileiras depende de insumos importados, portanto uma alta do dólar não necessariamente aumentará a receita de tais empresas, uma vez que suas despesas e dívidas vinculadas à moeda estrangeira também se elevarão. Vide o setor agropecuário: o Brasil é o maior exportador mundial de carne bovina, frango, açúcar, soja, etanol e café, porém é extremamente dependente das importações de fertilizantes para o enriquecimento de suas terras agrícolas.  Além disso, o aumento das importações de combustíveis pela Petrobras vem contribuindo para o crescente déficit da balança comercial (BARRUCHO, 2013).

Outra consequência é o aumento da inflação. A dependência das indústrias brasileiras de itens importados faz com que se tenha uma elevação dos custos de produção (inflação de custos), sendo tal acréscimo repassado ao consumidor. Enquanto os níveis de preços ascendem, tem-se o movimento inverso dos rendimentos reais dos assalariados. Em um quadro caracterizado por uma inflação de custos, a demanda agregada é afetada negativamente, uma vez que há a retração da economia para um nível mais baixo de renda.

Por último, a valorização do dólar beneficia as reservas internacionais do Brasil. Esta é composta por ouro monetário, posição das reservas do FMI, ativos em divisas, além dos direitos especiais de saques – formados principalmente pelo dólar americano, totalizando um valor de aproximadamente US$ 375 bilhões no dia 19 de setembro de 2013. No entanto, é necessária cautela ao analisar tal situação. Da mesma forma que a apreciação do dólar implica em um aumento das reservas, essa é também responsável pela elevação da dívida externa que está atrelada à moeda estadunidense (total de aproximadamente US$ 311,5 bilhões em agosto de 2013). Além do mais, as reservas internacionais são inferiores ao estoque de investimentos estrangeiros no mercado brasileiro, ou seja: as mesmas não conseguiriam suprir uma saída brusca de capitais da economia do país (BECK, 2013; CARNEIRO, 2013).

Ação do governo brasileiro

O governo brasileiro vem adotando algumas medidas com o intuito de frear a valorização do dólar. A primeira delas ocorreu em junho deste ano, quando o Ministério da Fazenda zerou o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) relativas à compra e venda do dólar no mercado futuro, estimulando assim a entrada da moeda na economia brasileira (BARRUCHO, 2013).

Outra medida, realizada pelo Banco Central do Brasil (BACEN), consiste nas operações de swap cambial. Estas podem ser descritas como sendo uma troca entre o BACEN e investidores, sendo que o primeiro oferece ao segundo uma remuneração com uma taxa de juros pós-fixada em troca de uma remuneração em dólar. Dessa maneira, tenta-se também aumentar a oferta da moeda americana no país (BARRUCHO, 2013).

Considerações finais

Seja pelos novos anúncios do FED em que se mantém o compromisso de manutenção do programa de estímulo à economia americana, e ou, pela ação do governo brasileiro juntamente com o BACEN, o que se observa é uma redução da taxa cambial ao longo do mês de setembro. Porém não se deve ser tão otimista, uma vez que as previsões ao longo prazo são negativas. Segundo Pessôa (2013), as determinantes do câmbio ao longo prazo são: o passivo externo líquido[iii], os termos de troca[iv] e os ganhos de produtividade. Com as previsões de baixo crescimento brasileiro, juntamente com um maior déficit externo, tem-se uma elevação do passivo externo líquido. Este contribui para a desvalorização do real. Já os termos de troca devem se manter estáveis e, por último, não há boas expectativas quanto os ganhos de produtividade, reforçando assim, o cenário de depreciação cambial.

Outro elemento que direcionará o futuro do câmbio é a decisão do Congresso dos EUA com relação ao teto da sua dívida. Caso a mesma não seja elevada, especialistas preveem um menor crescimento, e para alguns inclusive uma recessão, da economia estadunidense, significando uma menor liquidez de dólares no mercado internacional.

Portanto, diante de uma previsão de contínua valorização da moeda estadunidense, o governo brasileiro certamente manterá os swaps cambiais assim como o fim do IOF. Mas até quando tais ações serão suficientes e eficazes para proteger a economia do Brasil contra os abalos cambiais? A solução pode estar na adoção de medidas que aumentem a competitividade das indústrias brasileiras, seja investindo na infraestrutura do país ou incentivando a diversificação da pauta das exportações. É necessária também uma maior clareza quanto às regulamentações legislativas de maneira a atrair maiores investimentos diretos. Estas são algumas maneiras de fortalecer a economia brasileira e evitar fuga de capitais, mas, por serem de longo prazo, provavelmente não serão colocadas em práticas até as próximas eleições.

REFERÊNCIAS

ARIAS, Juan. Brasil vuelve a tener los tipos de interés más altos del mundo. Disponível em: <http://economia.elpais.com/economia/2013/10/10/actualidad/1381428368_425947.html>. Acesso em: 10 outubro 2013.

BANCO CENTRAL DO BRASIL. Nota para a imprensa – 24.9.2013, Setor Externo. Disponível em: < http://www.bcb.gov.br/?ECOIMPEXT>. Acesso em: 26 setembro 2013.

BANCO CENTRAL DO BRASIL. Reservas Internacionais. Disponível em: < http://www.bcb.gov.br/?RP20130919>. Acesso em: 26 setembro 2013.

BANCO CENTRAL DO BRASIL.SGS – Sistema de Gerenciador de Séries Temporais – v2.1. Disponível em: < https://www3.bcb.gov.br/sgspub/consultarvalores/consultarValoresSeries.do?method=consultarSeries&series=2860&gt;. Acesso em: 10 outubro 2013.

BARRUCHO, Luís Guilherme. Alta do dólar: causas e consequências. Disponível em: <http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/08/130810_dolar_ causas_ reflexos_ lgb.shtml>. Acesso em: 07 setembro 2013.

BECK, Martha. Alta do dólar valoriza reservas e ajuda a reduzir dívida pública. Disponível: <http://oglobo.globo.com/economia/alta-do-dolar-valoriza-reservas-ajuda-reduzir-divida-publica-9877079#ixzz2ganpVTqT>. Acesso em: 17 setembro 2013.

CARNEIRO, Mariana. Reservas internacionais brasileiras têm poder de fogo limitado, diz banco. Disponível em: < http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2013/08/1324629-reservas-internacionais-brasileiras-tem-poder-de-fogo-limitado-diz-banco.shtml> Acesso em: 18 setembro 2013.

CASSELMAN, Ben; SHAH, Neil. Expansão da economia dos EUA pode levar Fed a recuar. Disponível em: < http://online.wsj.com/article/SB10001424127887324009304579043452839896492.html>. Acesso em: 07 setembro 2013.

EXAME. Vale deve produzir potássio em Sergipe até 2017. Disponível em: < http://exame.abril.com.br/negocios/noticias/vale-deve-produzir-potassio-em-sergipe-ate-2017>. Acesso em: 10 outubro 2013.

FEDERAL RESERVE SYSTEM. Federal Open Market Committee. Disponível em: < http://www.federalreserve.gov/monetarypolicy/fomc.htm>. Acesso em: 10 outubro 2013.

INVESTOPEDIA. Mortgage-Backed Security (MBS). Disponível em: < http://www.investopedia.com/terms/m/mbs.asp>. Acesso em: 10 outubro 2013.

LAMUCCI, Sergio. FMI reduz mais uma vez projeções de crescimento global em 2013 e 2014. Disponível em: <http://www.valor.com.br/internacional/3297240/fmi-reduz-mais-uma-vez-projecoes-de-crescimento-global-em-2013-e-2014#ixzz2hcokNBhf>. Acesso em: 10 outubro 2013.

MANKIW, Gregory. Princípios de Macroeconomia. São Paulo: Cengage Learning, 2009.

MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO, INDÚSTRIA E COMÉRCIO EXTERIOR. BALANÇA COMERCIAL BRASILEIRA SETEMBRO 2013. Disponível em: < http://www.desenvolvimento.gov.br/sitio/interna/interna.php?area=5&menu=567>  Acesso em: 15 set. 2013.

MOORE, Heidi. Quantitative easing is past its due date. Disponível em: < http://www.theguardian.com/commentisfree/2013/sep/06/bad-economic-stimulus-quantitative-easing>. Acesso em: 07 setembro 2013.

PESSÔA, Samuel. O câmbio vai continuar a desvalorizar. Disponível em: < http://www1.folha.uol.com.br/colunas/samuelpessoa/2013/07/1317919-o-cambio-vai-continuar-a-se-desvalorizar.shtml> Acesso em: 23 setembro 2013.

PRATLEY, Nils. How will Federal Reserve’s exit from a grand monetary experiment play out? Disponível em: < http://www.theguardian.com/business/nils-pratley-on-finance/2013/aug/23/federal-reserve-exit-quantative-easing >. Acesso em: 07 setembro 2013.

SAFATLE, Claudia. Fed dá uma boa ajuda a Dilma. Disponível em: <http://www.valor.com.br/brasil/3277170/fed-da-uma-boa-ajuda-dilma#ixzz2gap4jsgg>. Acesso em: 22 setembro 2013.

UOL. Câmbio. Disponível em: < http://economia.uol.com.br/cotacoes/cambio/dolar-comercial-estados-unidos/>. Acesso em: 08 setembro 2013.

WATANABE, Marta. China supera União Europeia como maior mercado para exportações brasileiras. Disponível em: < http://www.valor.com.br/brasil/3268976/china-supera-uniao-europeia-como-maior-mercado-para-exportacoes-brasileiras>. Acesso em: 13 setembro 2013.

 


[i] Estão vinculados ao setor imobiliário, sendo utilizados para financiar a compra de imóveis residenciais e comerciais.

[ii] Em economia o termo é utilizado para indicar situações que envolvam escolhas conflitantes. Ou seja, a adoção de uma ação para a resolução de um conflito acarretará em outros problemas.

[iii] Entende-se como o passivo que um país tem contra o resto do mundo. Este passivo é composto pela dívida externa liquida mais o estoque de capital estrangeiro líquido investido no país.

[iv] Relação entre preço das exportações e importações.

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