A importância de Kaesong para a Península Coreana

Vinícius Diniz Ladeira

Resumo

Após um início de ano conturbado entre as duas Coreias, surge a possibilidade de esses dois países retomarem as relações diplomáticas através de uma eventual reabertura do Complexo Industrial de Kaesong.  Esta reabertura poderia resolver algumas das desavenças no processo de barganha politica entre os dois países. 

Introdução

A Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945) gerou grandes dificuldades para ambas as Coreias. Em 1945 na Conferência de Potsdami a Coreia foi dividida em duas áreas onde a  área   sul sofreria influência dos Estados Unidos (EUA) e outra  área estaria sob a tutela da União Soviética (URSS). O resultado dessa divisão foi a constituição de dois Estados, a República Democrática Popular da Coreia ou Coreia do Norte – Socialista – e República da Coreia do Sul – Capitalista – divididos pelo paralelo 38°ii (MANNARINO; DOURADO, 2011).

A Guerra da Coreia foi desencadeada em 25 de junho de 1950, com a invasão da Coréia do Sul pela Coréia  do Norte que ultrapassou o paralelo 38°. Naquela ocasião os norte-coreanos, em conjunto com a URSS no governo de Stalin desejavam a reunificação das Coreias. No início da guerra, a Coreia do Norte teve diversas vitórias, tendo o apoio coadjuvante da China de Mao Zedongiii. Entretanto, dois dias após o início da invasão, os EUA apoiados pela ONU (Organização das Nações Unidas), passaram a atuar em quase todas as frentes de defesas, que foram travadas majoritariamente no paralelo 38°. A principal razão para os EUA retornarem à península coreana, apoiando os sul coreanos, era o receio de um avanço Soviético na Ásia, (MANNARINO; DOURADO, 2011).

O Pós-Guerra e os Diferentes Rumos

A Guerra da Coreia durou 3 anos e teve o catastrófico resultado de “3 milhões de coreanos mortos, 5 milhões de refugiados, 10 milhões de famílias separadas, 55 mil americanos mortos, 100 mil chineses mortos” (MASIERO apud OLIVEIRA, 2009).

O conflito teve fim em 1953 com a assinatura de um armistícioiv pelos governos Chinês e norte-coreano na antiga capital Kaesong, quando as Coreias ainda eram unificadas durante a Dinastia Goryeo (918-1392) (GUBIN, 2013). Contudo, nenhum dos países é signatário de um tratado de paz permanente, o que pode ser considerado um dos motivos das tensões  permanentes(SHAH, 2013).

Com relação ao desenvolvimento econômico, podemos observar a diferença entre as Coreias e o reflexo disso nos dias atuais. A Coreia do Norte teve suporte da URSS –principalmente suporte militar – e da China, Porém, no final da década de 80 perdeu o apoio do governo soviético, que se encontrava em crise (SHAH, 2013). Já a Coreia do Sul após 1960, devido especialmente aos investimentos norte-americanos, apresentou um crescimento econômico acentuado. Crescimento esse contando sempre com pesados investimentos na educação, reformas macroeconômicas, apoio à industrialização e exportação, o que levou a Coreia do Sul a um desenvolvimento mais significativo. Exemplo disso é a taxa de crescimento do PNBv da Coreia do Sul, que em 1960 era de 1,1%, e teve crescimento positivo recorde em 1969, alcançando a marca de 13,8%. O único problema aconteceu em 1998, quando o PNB sofreu uma queda acentuada, na qual a Coreia do sul passou por problemas de estagnação do crescimento e desaceleração econômica, alcançando um recorde negativo do PNB de -6,7%, mas que durou apenas um ano. Os anos seguintes foram de estabilidade para o país (MILTONS; MICHELON, 2007).

Em suma as duas Coreias passaram por diferentes circunstâncias de crescimento   econômico, social e político após a Guerra da Coreia. Nos dias atuais, a Coreia do Sul já colhe os frutos de uma significativa administração, “premiada” em 1996 com sua admissão na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômicovi (OCDE), além de receber o título de “Tigre Asiático”vii (MILTONS; MICHELON, 2007). Diferente da Coréia do Norte, que enfrenta diversos problemas socioeconômicos, e depende muito do suporte chinês. Entretanto, mesmo após a Guerra e com algumas desavenças, houve uma parceria entre as Coreias que teve como consequência a construção do Complexo Industrial em Kaesong, que extrapola a temática econômica e que pode ser considerado o único laço realmente vivo entre os governos norte e sul-coreanos.

Kaesong em Questão

O Complexo Industrial de Kaesong (CIK) está situado na Coreia do Norte a aproximadamente 10 km ao norte da Zona Desmilitarizada coreanaviii. O projeto de construção do CIK veio de uma iniciativa diplomática sul-coreana , que foi colocada  em prática entre  1998 e 2008, chamada de “Diplomacia do Raio de Sol”, com o objetivo de aproximar os dois Estados que haviam cortado relações desde a Guerra da Coreia. No momento presente, estão instaladas em torno de 123 empresas provenientes da Coreia do Sul, voltadas para a área têxtil, eletrônica e química. Mais de 53 mil norte-coreanos estão empregados atualmente, sob supervisão de 900 sul coreanos (CONHEÇA O COMPLEXO…, 2013). A construção e financiamento do complexo foi uma parceria entre o governo sul-coreano e a Hyundai Asan Firmix, que deram início às atividades no final de 2004, funcionando por 8 anos de maneira ininterrupta até abril de 2013. Em suma o CIK é um peculiar enclave capitalista na Coreia do Norte (GRAHAM, 2013).

A situação do Complexo Industrial de Kaesong vem sendo tratada de maneira muito delicada desde o início de 2013, devido às tensões vividas entre Seul (Coréia do Sul) e Pyongyang (Coréia do Norte). No dia 08 de abril, a Coreia do Norte suspendeu de maneira unilateral as atividades industriais para todos os trabalhadores em Kaesong. Naquela ocasião, a Coreia do Norte foi acusada de estar realizando testes nucleares, fato que desagradou a Coreia do Sul e proporcionou impacto internacional. Naquele cenário, no momento que as relações políticas entre as duas Coreias estavam chegando a uma situação de grande tensão, levantou-se a possibilidade de um possível fechamento permanente do CIK, com a inviabilidade de criação de outras iniciativas diplomáticas futuras, como a Diplomacia do raio de Sol ocorrida em 1998 (LANKOV, 2013). Contudo, de julho a agosto, vários encontros foram realizados entre representantes dos governos norte e sul-coreanos e com alguns empresários responsáveis pelo complexo, o que resultou na assinatura de um acordo, no dia 14 de agosto, que propunha a reabertura de Kaesong, além de protege-lo futuramente de ser fechado. As consequências do fechamento causaram um prejuízo em torno de US$ 900 milhões para as empresas sul-coreanas, enquanto a Coreia do Norte deixou de arrecadar milhões de dólares em impostos (COREIAS ALCANÇAM ACORDO…, 2013).

Mas quais seriam as vantagens para as Coreias com a reativação do CIK? A princípio, o CIK é um jogo de soma positivax, em que ambas as Coreias ganham com o funcionamento do complexo, sejam esses ganhos econômicos ou sociais. Para a Coreia do Sul, os lucros já começam pela grande oferta de mão –de -obra barata norte-coreana, dado que a Coreia do Norte sofre com problemas de desemprego. Outra questão a ser analisada é o ganho das empresas sul-coreanas em Kaesong, contra as empresas concorrentes da China, que também utilizam mão de obra barata. Outra vantagem para os sul-coreanos, estaria relacionada ao arrendamento de terras na Coreia do Norte, que possui preços relativamente inferiores se comparados com a Coreia do Sul, havendo contudo, um limite de área estipulado pelo governo norte-coreano. A proximidade com Seul, que seria de apenas uma hora de carro ou trem, também facilitaria o transporte de mercadorias (LEE, 2006). Já a Coreia do Norte ganha investimento em infraestrutura industrial. Ademais, o CIK seria uma das únicas formas de entrada de divisas estrangeiras e impostos no regime da Coreia do Norte. Além disso, os funcionários norte-coreanos  recebem treinamento e um salário mensal, que gira em torno de US$144,00 (CONHEÇA O COMPLEXO…, 2013).

O CIK é um projeto binacional realmente importante. Ambas as Coreias se complementam seja com o dinheiro proveniente do sul ou com a mão-de-obra do norte, para que tudo funcione e gere bons resultados para ambas. Todavia, ainda existem vários obstáculos. O principal deles são as sanções impostas pelos EUA, que dificultam  a Coreia do Norte de adquirir materiais tecnológicos, como computadores. A partir disso o lucro que  seria enviado para a Coreia do Sul   acaba fortalecendo, em última instância, os EUA, partindo do pressuposto que o mesmo é aliado da Coreia do Sul. Essa questão seria colocada como um entrave para mais parcerias do tipo entre as Coreias (LEE, 2006).

Considerações Finais

A maneira com que a Coreia do Norte e a Coreia do Sul se desenvolveram social,   politica, economica e tecnologicamente é algo de extrema importância que se reflete no momento presente. A Coreia do Norte não possui muitas alternativas para se desenvolver e crescer industrialmente. Durante a crise na Península Coreana em 2013, foi justamente o interesse mútuo em Kaesong que fez com que, especialmente a Coreia do Norte, cedesse espaço para o diálogo.

O que se deve ter em mente é que o Complexo Industrial de Kaesong vai muito além de um simples interesse econômico, sendo tratado de maneira muito cautelosa e delicada pelos governos norte e sul-coreanos, pois caso o Complexo Industrial não tivesse sido criado ou não estivesse mais em funcionamento, as relações entre as duas Coreias poderiam ser mais complicadas. Kaesong abriu portas para o diálogo em 2013, as Coreias podem muito bem através de seus encontros abordar questões voltadas para a tensão nuclear ou desavenças antigas. No contexto da tensão nuclear, Kaesong foi a única “mesa” aberta que aproximou as Coreias para desenvolvimento de um difícil diálogo. O Complexo Industrial pode ser visto como uma mensagem positiva acerca do futuro das relações entre as Coreias, indicando que até “inimigos” podem fazer um jogo de soma positiva e cooperar .

Referências Bibliográficas

CONHEÇA O COMPLEXO industrial binacional coreano de Kaesong. G1, 2013. Disponível em: <http://g1.globo.com/mundo/noticia/2013/04/conheca-o-complexo-industrial-binacional-coreano-kaesong.html&gt;. Acesso em: 18 de Setembro de 2013.

COREIAS ALCANÇAM ACORDO para reabrir complexo conjunto de Kaesong. Gazeta do Povo, 2013. Disponível em: http://www.gazetadopovo.com.br/mundo/conteudo.phtml?id=1399507&tit=Coreias-alcancam-acordo-para-reabrir-complexo-conjunto-de-Kaesong<&gt;. Acesso em: 18 de Setembro de 2013.

GRAHAM, Edward M. The Matter of Kaesong Industrial Complex in The Korea-U.S. Free Trade Agreement Negotiations. Disponível em: <http://www.keia.org/sites/default/files/publications/07.Graham.pdf&gt; Acesso em: 18 de Setembro de 2013.

GUBIN, Anastasia. Coreia do Sul propõe diálogo ao Norte para normalizar Kaesong. Disponível em: <http://www.epochtimes.com.br/coreia-do-sul-propoe-dialogo-ao-norte-para-normalizar-kaesong/&gt;. Acesso em: 18 de Setembro de 2013.

LANKOV, Andrei. Seul e Pyongyang fazem renascer Kaesong. Disponível em: <http://www.iranews.com.br/noticia/10662/seul-e-pyongyang-fazem-renascer-kaesong&gt;. Acesso em: 18 de Setembro de 2013.

LEE, B.J. An Oasis of Capitalism. Newsweek, 2006. Disponível em: <http://web.archive.org/web/20060905224821/http://www.msnbc.msn.com/id/9285506/site/newsweek/from/RL.3/&gt;. Acesso em: 18 de Setembro de 2013.

MANNARINO, Giovanni; DOURADO, Lauter.  A China e a Guerra da Coréia (1950-1953). Universidade Federal Fluminense, 2011. Disponível em: <http://www.historia.uff.br/nec/sites/default/files/A_China_e_a_Guerra_da_Coreia_1950-1953.pdf&gt; Acesso em: 24 de agosto de 2013.

MILTONS, M. M.; MICHELLON, E. . Educação e Crescimento Econômico na Coréia do Sul. In: XI Encontro de Economia da Região Sul – ANPEC SUL, 2008, Curitiba. Anais do XI Encontro de Economia da Região Sul – ANPEC SUL. Curitiba: UFPR, 2008.

OLIVEIRA, H. A. A Península Coreana: proposições para mudanças. In: Juan José Ramírez Bonilla. (Org.). Transiciones Coreanas: permanencia y cambio en Corea del Sur en el início del siglo XXI. 1a.ed.México, DF: El Colegio de México, 2009, v. , p. 237-259.

SHAH, Druti. Parada no tempo, Coreia do Norte nunca esteve em paz. BBC. 2013. Disponível em: <http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/04/130410_coreia_guerra_permanente_bg.shtml#page-top&gt;. Acesso em: 18 de Setembro de 2013.

i Conferência que ocorreu no pós-segunda guerra mundial na cidade de Potsdam na Alemanha. Os integrantes da conferência forem os países que saíram vitoriosos da guerra, e tinham como objetivo principal determinar como seria o futuro controle da Alemanha, ordem pós-guerra e temas relativos a tratados de paz.

ii Linha de demarcação imaginária que divide a Coreia do Sul e da Coreia do Norte. O paralelo foi estipulado em 1945 em um acordo que envolvia os Estados Unidos e a União Soviética, na qual as Coreias passariam a ser zonas de influência destes dois Estados – a Coreia do Norte sob influência do Comunismo e a Coreia do Sul estaria sob influência do capitalismo. Atualmente seu objetivo é a divisão dos exércitos desses dois países.

iii Mao Zedong (ou Mao Tsé-Tung), foi um líder pró comunismo que instituiu e administrou a República Popular da China em 1949. Seu governo durou até 1976 com seu falecimento.

iv Armistício é um acordo de cessar-fogo, uma trégua entre dois Estados ou mais. O armistício é muito diferente de um tratado de paz. Nenhuma das duas Coreias são signatárias de tratados de paz.

v Produto Nacional Bruto (PNB) considera todos os valores que entram e saem de uma economia. Em suma o PNB considera as rendas recebidas e enviadas.

vi Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é uma organização internacional constituída em 1948, e composta por 34 Estados, que apresentam o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e o PIB per capita elevado. A grande maioria dos integrantes da OCDE são países desenvolvidos.

vii Os Tigres Asiáticos foram as economias que atingiram grandes taxas de crescimento e industrialização de 1960 até 1990. São eles: Hong Kong, Coreias do Sul, Singapura e Taiwan. O crescimento dos Tigres Asiáticos é baseado no modelo econômico exportador, e utilizam da vantagem da mão de obra barata para aumentar a produtividade.

viii Faixa de demarcação constituída em 1953, e que visa proteger o limite territorial entre as Coreias.

ix Hyundai Asan Firm   é uma empresa que faz parte da Hyundai Group. Seus principais projetos estão relacionados com a construção civil. É a principal empresa sul-coreana que investe na Coréia do Norte.

x Jogo de Soma Positiva faz parte da Teoria dos Jogos. É um jogo em que se constata um ganho mútuo. Diferente de um jogo de soma negativa, em que ambas as partes envolvidas perdem, e um jogo de soma nula, na qual o ganho de uma das partes

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