Kenneth Waltz – Parte II: as produções teóricas pós década de 1980

Bruna Moreira Silva Coelho

Gustavo dos Santos de Miranda

Quando se trata de armas nucleares, tanto agora como sempre, mais pode ser melhor. (WALTZ, 2012, pág. 05)

Resumo

Na década de 2000, Waltz defendeu o Neorrealismo mostrando que, apesar das mudanças que ocorreram após o fim da Guerra Fria, o realismo ainda era uma teoria adequada para avaliar o sistema internacional. Ainda na década de 2000, defendeu, também, a ideia de que o Irã deveria obter a bomba nuclear, pois o balanceamento seria restaurado e traria, assim, o fim da crise e a tão esperada estabilidade ao Oriente Médio.

Introdução

Kenneth Neal Waltz, considerado um dos maiores teóricos da área de Relações Internacionais do último século, faleceu no dia 12 de maio de 2013. Consagrado no campo como criador do Neorrealismo, Waltz criou obras que se tornaram “pedras fundamentais” da disciplina e referências para outras importantes produções. Entretanto, após o fim da Guerra Fria, houve um aumento na produção de teorias que apostavam nas novas características do sistema (maior interdependência ente os Estados, aumento dos fluxos de informações, maior atuação das Organizações Internacionais, o uso da diplomacia para resolução de conflitos, fim do sistema bipolar) e que criticavam o realismo de Waltz por não ser mais capaz de explicar a nova configuração do sistema internacional. Entretanto, na década de 2000, Waltz escreve um artigo mostrando como o Realismo Estrutural ainda seria uma teoria adequada para se analisar o sistema internacional contemporâneo.

Além dessas discussões, Waltz continuou defendendo a ideia de que quanto maior fosse os número de Estados com armas nucleares, maior seria o equilíbrio e a paz global, pois os custos de uma guerra nuclear seriam tão altos que os Estados optariam por outros meios de resolução dos seus conflitos. Assim, em 2012, o autor publicou um artigo em que ele defendia a aquisição de armas nucleares pelo Irã, mostrando que isso traria mais estabilidade para o Oriente Médio, como também traria a resolução da crise causada pelo desenvolvimento do programa nuclear iraniano. Desta forma, o objetivo do presente artigo é apresentar brevemente as principais produções teóricas do autor após década de 1980 e assim, abordar de maneira sucinta os principais abordados pelo autor.

A Atualidade do Pensamento de Waltz

Na década de 2000, no artigo Realismo Estrutural após a Guerra Fria (2000), Waltz argumenta que apesar das mudanças que ocorreram, o realismo ainda continuaria sendo uma teoria adequada para avaliar o sistema internacional. Para que o realismo pudesse ser assim considerado, o sistema internacional deveria sofrer mudanças profundas – mudanças do sistema e não meramente no sistema. Ao longo do seu texto, Waltz (2000) discute as três principais mudanças no sistema internacional: a expansão da democracia, o aumento da interdependência e o papel das instituições.

Waltz cita autores como Immanuel Kant e John Owen ao tratar da Teoria da Paz Democrática, a qual sustenta que democracias não fazem guerra entre si. Ele diz, no entanto, que “a teoria da paz democrática só se aplica se as causas da guerra se encontram dentro dos Estados” (WALTZ, 2000, pág. 8, tradução nossa[i]); e as causas da guerra não surgem exclusivamente no interior dos Estados, pois, também, se encontram no sistema internacional.  Além disso, muitas vezes as próprias democracias promovem a guerra ao acreditarem que para manter a paz é preciso transformar Estados em democracias, frequentemente com o uso da força. Em relação à crescente interdependência no sistema internacional, Waltz argumenta que ela promove a paz ao aumentar o contato entre os Estados, mas ao aproximá-los, ela multiplica as ocasiões que podem gerar conflito. Os Estados mais fortes são aqueles que podem ser considerados relativamente independentes.

E por fim, o realismo acredita que “as instituições internacionais são moldadas e limitadas pelos Estados que lhes fundaram e as sustentam e têm pouco efeito independente” (WALTZ, 2000, pág. 18, tradução nossa[ii]).  As instituições, de acordo com Waltz, promovem mais interesses nacionais do que internacionais e geralmente são controladas pelos Estados mais fortes. No final de seu artigo, Waltz discute o sistema internacional atual, que ele caracteriza como um sistema unipolar, devido à forte influência dos Estados Unidos. Há uma tendência ao surgimento de uma multipolaridade para balancear o poder dos Estados Unidos e tal multipolaridade, de acordo com Waltz, estaria surgindo na Ásia com o crescimento da China e do Japão. O realismo estrutural poderia, assim, ser aplicado claramente no contexto pós Guerra Fria, devido a esse dilema de balança de poder.

No seu artigo Porque o Irã deveria conseguir a bomba, Waltz (2012) trabalha a ideia de que a obtenção de armas nucleares pelo o Irã restauraria a estabilidade no Oriente Médio (WALTZ, 2012, pág. 01). Dessa forma, a ideia principal neste artigo é mostrar que seria vantajoso para todos[iii] se o Irã adquirisse armas nucleares, pois este balancearia o poder nuclear de Israel e traria estabilidade regional. Assim, o autor aponta três resultados de possíveis términos para a crise de obtenção de armas nucleares do Irã.

O primeiro resultado seria através da diplomacia e/ou de severas sanções para fazer o Irã desistir de desenvolver armas nucleares. Entretanto, segundo o autor, este resultado seria pouco provável, pois um país inclinado a obter armas nucleares dificilmente seria dissuadido a não fazê-lo, independentemente do uso de possíveis sanções.

O segundo possível resultado seria o de que o Irã desenvolvesse o que Waltz chamou de capacidade de fuga[iv]. Ou seja, o Irã seria capaz de ter um sofisticado programa nuclear sem construir uma bomba, satisfazendo as necessidades políticas internas dos governantes iranianos e assegurando aos radicais o usufruto de todos os benefícios de ter uma bomba (maior segurança), sem sofrer com os incentivos negativos, como o isolamento e condenação internacional (WALTZ, 2012, pág. 02). Entretanto, esta capacidade de fuga poderia ter problemas, pois se o Irã parasse com os testes de armas nucleares, talvez conseguisse apaziguar as tensões com as potenciais ocidentais (Estados Unidos e a comunidade europeia), mas deixaria Israel insatisfeito – já que a capacidade de enriquecimento de urânio seria uma ameaça em si.

O terceiro possível resultado do impasse seria que o Irã continuasse em seu curso atual e declarasse suas metas nucleares através de testes com armas. Entretanto, é neste ponto que reside os principais conflitos de interesses e o autor apresenta várias razões para mostrar como a aquisição de armas nucleares pelo Irã traria uma estabilidade e balanceamento de forças para a região. Assim, os Estados Unidos e Israel não aceitaram que o Irã se tornasse um Estado nuclear e declararam que isso seria “uma perspectiva exclusivamente aterrorizante, uma ameaça existencial” (WALTZ, 2012, pág. 02, tradução nossa[v]).

Segundo Waltz (2012), tal caracterização seria típica de grandes potências que historicamente irritam-se com nações que tentam adquirir armas nucleares. E no caso de Israel, o autor apontas algumas críticas severas sobre a sua oposição à obtenção de armas pelo Irã. Em primeiro lugar, o monopólio nuclear israelense tem gerado, há mais de quatro décadas, a instabilidade regional, ou seja, o que estaria contribuindo para crise atual não seria o desejo do Irã de obter armas nucleares, mas o arsenal israelense. Desta forma, segundo o autor, a comprovada capacidade de Israel em atacar seus possíveis rivais nucleares – sem punição alguma das potências ocidentais – teria aumentado, no curto prazo, a instabilidade e, no longo prazo, aumentado o desejo dos seus inimigos em obter armas nucleares. Para o autor, as tensões atuais não sinalizariam o início de uma crise causada pelo desejo iraniano de obter armas nucleares, mas sim, o estágio final de uma crise que vem se arrastando por décadas no Oriente Médio, por causa do desbalanceamento causado por Israel, suas armas nucleares e seu comportamento duvidoso[vi] (WALTZ, 2012).

Waltz (2012) mostra que alguns temores sobre um “Irã nuclear” são infundados. Primeiramente, o autor critica a preocupação de que o Irã era um regime intrinsecamente irracional e que, por isso, se o Irã conseguisse as armas nucleares, ele não hesitaria em usá-las. O autor afirma que o Irã não é governado por mullahs malucos e que os seus governantes (os ayatollahs) seriam perfeitamente sãos e que estes, assim como qualquer outro líder, desejariam sobreviver – e não se autodestruir[vii].

Em segundo lugar, o autor critica a preocupação de muitos pensadores e políticos que, mesmo aceitando o Irã como um Estado racional, ainda temiam que a aquisição de armas nucleares fosse encorajá-lo a agir mais agressivamente e aumentasse o suporte destas armas a terroristas. O autor afirma que, historicamente o efeito da obtenção de armas nucleares no comportamento dos Estados seria o oposto, pois estes sentir-se-iam mais vulneráveis e tornar-se-iam mais conscientes de que eles eram alvos das grandes potências[viii]. E no que diz respeito ao risco das armas caírem nas mãos dos terroristas, Waltz (2012) afirma que nenhum Estado disponibilizaria armas nucleares a terroristas sem serem descobertos pelos Estados Unidos e, além disso, os custos de se produzir armas nucleares seriam muito altos para serem entregues a esses grupos. Uma vez que o Irã obtivesse as armas, eles manteriam um controle rigoroso sobre elas para evitar que elas fossem usadas por terroristas (WALTZ, 2012).

E, por fim, o autor critica a preocupação de que a obtenção da bomba nuclear pelo Irã poderia desencadear uma corrida armamentista nuclear na região, além de aumentar os riscos de uma guerra nuclear. O autor afirma que historicamente isso nunca aconteceu. Nos quase 70 anos da “era nuclear” os temores da proliferação de armas nucleares se mostraram infundados, pois a proliferação ocorre de maneira rápida e descontrolada e isso nunca foi visto. O autor mostra, também, que se fosse pra ter acontecido uma corrida armamentista nuclear na região, esta teria acontecido quando Israel, em guerra com seus vizinho, obteve seu arsenal e não agora com o atual programa nuclear iraniano, que é bem menor e menos perigoso que o programa nuclear israelense[ix]. (WALTZ, 2012).

Segundo Waltz (2012) nenhum outro país da região teria algum incentivo para obter armas nucleares e o balanceamento seria restaurado, trazendo assim, o fim da crise atual e a tão esperada estabilidade ao oriente médio. E o autor encerra seu texto afirmando que os políticos e pensadores deveriam ficar tranquilos, pois a emergência de capacidades nucleares sempre trouxera consigo a estabilidade e talvez fosse melhor um maior número de Estados nucleares.

Considerações Finais

As produções de Waltz após a década de 1980 não se limitam às obras brevemente apresentadas neste artigo (existem várias publicações do autor) e sua teoria, ao contrário do que é pensado por muitos, não é pró guerra ou pró imperialismo. Na verdade, pode-se dizer que junto com autores como Morgenthau e Mearsheimer, ele protestou contra os ideais imperialistas de construir um mundo melhor através do uso da força (FREIRE 2013). O caso do Irã, abordado pelo autor, mostra claramente a sua posição de apoio ao país quanto a obtenção de armas nucleares. Em outras palavras, ele escreve um texto que vai contra os desejos dos Estados Unidos, Israel e da Comunidade Europeia, deixando claro que, ao contrário do que todos pensavam, foi o arsenal de Israel que gerou instabilidade no Oriente Médio e não o programa iraniano. Entretanto, sua posição foi muito criticada por vários pensadores na comunidade acadêmica (em alguns casos sendo taxado de autor perigoso)[i].

No que diz respeito à atualidade do pensamento de Waltz, um bom exemplo de contrabalanceamento[ii] pode ser visto tanto na aquisição de armas nucleares pelo Irã, quanto no caso do programa nuclear norte coreano – que já rendeu grandes preocupações aos Estados Unidos e aos países da Ásia. Ou seja, estes países buscariam obter as armas nucleares para contrabalancear as potências nucleares regionais e trazer um equilíbrio de poder. Entretanto, no caso da Coréia do Norte, as ações deste governo foram totalmente opostas às que Waltz defendia[iii]. Assim, a teoria do balanceamento ainda continua sendo uma importante fonte de explicação e interpretações da atual configuração do sistema internacional.

Com a morte do autor, grande defensor do Neorrealismo, talvez a teoria se torne mais aberta ao diálogo com outras abordagens. Waltz deixou uma contribuição valiosa para o campo das Relações Internacionais e sua teoria ainda continuará servindo de base para muitas obras e também para muitas críticas, pois como o próprio autor defendeu no seu artigo[iv], o Neorrealismo ainda continua sendo uma teoria adequada para analisar a política internacional.

BIBLIOGRAFIA

FREIRE, Lucas G. Para Onde Caminham as Produções editoriais e Para Onde Caminham as Relações Internacionais Sem Waltz? In Síria: a lógica falha de uma guerra civil e as relações com o Líbano.

LEECH, Phil e CHACRA, Guga. O Debatedouro, Ano 11, Nº 02, Edição 83. Belo Horizonte, Brasil, agosto de 2013.

Kenneth Waltz is Not Crazy, But He Is Dangerous: Nuclear Weapons in the Middle East. Diponível em: http://www.foreignpolicyjournal.com/2012/07/07/kenneth-waltz-is-not-crazy-but-he-is-dangerous-nuclear-weapons-in-the-middle-east/

WALTZ, Kenneth N. Structural Realism after the Cold War. International Security 25:1 (Summer, 2000), pp. 5-41.

WALTZ, Kenneth N. Why Iran Should Get the Bomb: Nuclear Balancing Would Mean Stability. Foreign Affairs, July/August 2012. Disponível em: http://www.advivo.com.br/sites/default/files/documentos/why_iran_should_get_the_bomb_kenneth_waltzjuly_2002.pdf Acesso em 15 de agosto de 2013


[i] The democratoc peace thesis will hold only if all the causes of war lie inside of states.

[ii] International institutuions are shaped and limited by the states that found and sustain them and have little independente effect.

[iii] Aqui o autor se refere aos Estados Unidos, Comunidade Europeia, Israel, Irã e o mundo árabe.

[iv] Que seria uma capacidade de construir e testar uma bomba rapidamente.

[v]   a uniquely terrifying prospect, even an existential threat.

[vi] Que para o autor só terminará quando o equilíbrio de poder for restaurado.

[vii] Para o autor, é mais provável que o Irã deseje obter armas nucleares para reforçar a sua segurança e não para aumentar suas capacidades destrutivas (WALTZ, 2012).

[viii] Isso desencorajaria estes Estados de agirem maneira ousada e agressiva.

[ix] Para além disso, autor afirma que nunca houve uma guerra em larga escala entre dois Estados com armas nucleares, pois os limites de ação de cada um estão claramente traçados, bem como suas forças e se o Irã passasse dos limites, a dissuasão por deterrência seria aplicada (WALTZ, 2012, pág. 04).

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