Kenneth Waltz – Parte I: as produções teóricas até a década de 1980

Bruna Moreira Silva Coelho

Gustavo dos Santos de Miranda

Com que será parecido um mundo povoado por um grande número de Estados nucleares? […] Eu encontrei muitas razões para acreditar que com mais Estados nucleares o mundo terá um futuro promissor. (WALTZ, 1981, p.54, tradução nossa[i])[ii]

Resumo

Waltz deixou uma importante contribuição ao campo das relações internacionais e dentre suas principais obras pode-se destacar: “O Homem, O Estado e a Guerra” (1959), sua primeira tentativa de responder às causas da guerra através de três níveis de análise em uma crítica ao realismo clássico, e “Teoria da Política Internacional” (1979), onde ele delineia uma teoria sistêmica, que ficou conhecida como Neorrealismo (ou Realismo Estrutural).

Introdução

Kenneth Neal Waltz, considerado um dos maiores teóricos da área de Relações Internacionais do último século, faleceu no dia 12 de maio de 2013. Nascido em Junho de 1924 na cidade de Ann Arbor[i], quando adulto, serviu no Exército americano durante a Segunda Guerra mundial e também na Guerra da Coreia, presenciando assim, o ‘horror’ da guerra – motivo que o levou a escrever sobre o assunto. Após formar-se em Economia pelo Oberlin College, em Ohio, ele continuou os seus estudos na Columbia University, se especializando na área de Ciência Política[ii] (MARTIN, 2013). E foi nesse contexto que ele escreveu suas principais obras – dentre as quais se destacam O Homem, o Estado e a Guerra[iii] (1959) e Teoria de Política Internacional (1979).

Segundo Leslie H. Gelb, presidente do conselho de relações estrangeiras[iv], Waltz pode ser considerado um dos cinco “gigantes” que moldaram a disciplina de relações internacionais[v] (MARTIN, 2013). Considerado o maior autor realista de sua geração, Waltz era admirado por professores e estudantes que tiveram o prazer de conviver com ele, considerado um professor inspirador por seus alunos. Um importante aspecto de suas obras é a facilidade de compreendê-las, já que ele acreditava que o autor deveria procurar facilitar a leitura para o leitor e fazia o mesmo ao escrever (WALT, 2013). Desta forma, o objetivo do presente artigo é apresentar brevemente as principais produções teóricas do autor até a década de 1980 e, assim, abordar de maneira sucinta os principais temas das mesmas.

O Homem, O Estado e a Guerra

Waltz se tornou famoso com a sua tese de doutorado, que foi publicada em 1959 com o título O Homem, O Estado e a Guerra. Neste livro, Waltz parte do pressuposto de que para se alcançar a paz é preciso determinar as causas das guerras e assim, o autor afirma que as causas podem ser explicadas por três níveis diferentes de análise. A cada um destes níveis ele atribuiu uma imagem, a saber: a natureza ou o comportamento humano, a organização interna dos Estados e a anarquia internacional.

A primeira imagem atribui à natureza ou ao comportamento humano a responsabilidade pelas guerras. Nesse primeiro nível de análise, Waltz (1959) discute ambas as visões, positivas e negativas, da natureza humana, partindo de diversas prescrições (pessimistas e otimistas) acerca desta e chega à conclusão de que, para que se tenha um mundo mais pacífico, é necessária uma mudança psicossocial do homem. Neste sentido, a maldade do homem levaria à guerra e a sua bondade poderia conduzi-lo à paz. Ele argumenta, no entanto que essa análise psicológica não é o suficiente para entender as causas de guerra, sendo necessária também uma observação política (WALTZ, 1959).

Quando se trata da segunda imagem, Waltz (1959) atribui a causa das guerras à estrutura interna dos Estados, de modo que seriam os defeitos do Estado que provocariam a guerra entre eles. Tais defeitos incluem um governo ruim, restrições impostas a um governo com grandes capacidades e privações geográficas e econômicas. Desta forma, para corrigir esses defeitos, ele sugere uma reforma do Estado, em busca da promoção da paz. Ao longo desse capítulo, Waltz (1959) discute a visão de vários autores que criticam a estrutura interna do Estado, passando por várias perspectivas teóricas, entre eles Karl Marx, Emmanuel Kant e Woodrow Wilson (WALTZ, 1959).

Já a terceira imagem trata especificamente da anarquia internacional, pois Waltz (1959) acredita que os Estados são soberanos e convivem em um ambiente no qual não existe um sistema jurídico que possa ser imposto a eles. Ele enfatiza a figura do Estado como ator unitário e afirma que este age por estar em um ambiente anárquico, atribuindo a tal ambiente a influência sobre o comportamento do mesmo. Acredita-se, portanto, que os Estados usarão a força para alcançar suas metas e se proteger em um ambiente que dificulta a cooperação. A anarquia, neste sentido, geraria um ambiente de incerteza no qual os Estados deveriam estar preparados para utilizar a força em qualquer momento, caso necessário, para se proteger. Dessa forma, devido à ausência de uma força superior para orientar a ação dos Estados, a guerra é considerada, portanto, inevitável (WALTZ, 1959). Assim, através de uma análise que incorpora as ideias de vários outros autores Waltz (1959) expõe nesse livro as causas da guerra.

Teoria da Política Internacional

No final da década de 1970 e ainda no contexto da Guerra Fria, Waltz lança o seu segundo livro, Teoria da Política Internacional (1979), no qual ele elabora uma teoria sistêmica, comumente conhecida como Neorrealismo ou Realismo Estrutural. Esse livro pode ser considerado um marco nas Relações Internacionais e se tornou referência no âmbito acadêmico.

Waltz analisa a estrutura do sistema a partir de três aspectos: I) o princípio de ordenação, II) a especificação das funções das unidades do sistema e III) a distribuição de recursos (capabilities) entre as unidades do sistema. No que diz respeito ao princípio de ordenação, pode-se citar o princípio de subordinação que implica em um sistema hierárquico e o princípio de coordenação que implica em um sistema anárquico. Já a especificação das funções das unidades do sistema depende das diferentes atividades desenvolvidas pelos atores desse sistema, as quais determinam se um sistema é pouco ou muito especializado. A distribuição das capacidades (capabilities) entre as unidades do sistema inclui a distribuição dos recursos entre os Estados. Neste sentido, o autor se refere a recursos como “tamanho da população e território, recursos naturais, capacidade econômica, força militar, estabilidade política e competência” (WALTZ, 1979, p.131).

Ao analisar a estrutura do sistema internacional, de acordo com o seus princípios, Waltz (1979) chega à conclusão que ela é anárquica e que cada unidade pode, portanto, contar apenas consigo mesma – a lógica da autoajuda (WALTZ, 1979). Assim, o estado natural entre os Estados é considerado a guerra, pois a violência está sempre presente na anarquia. Através do monopólio legítimo do uso da força, os Estados buscariam garantir seus objetivos por meio da autoajuda, dificultando a cooperação entre os Estados. Devido a essa estrutura anárquica na qual um Estado não pode depender do outro, o sistema internacional pode ser caracterizado por unidades funcionalmente similares e independentes entre si.

Em tal sistema anárquico, a única forma de diferenciação entre os Estados é através da distribuição de capabilities, que influencia as interações entre os Estados fazendo surgir, por exemplo, grandes potências. Os Estados buscam manter a paz no sistema internacional através da balança de poder, na qual eles promovem a manutenção de sua posição relativa através da presença de um equilíbrio no sistema internacional. Como os Estados buscam a sobrevivência, a preocupação central, de acordo com Waltz, é se defender e não necessariamente maximizar o poder (WALTZ, 1979).

A Difusão de Armas Nucleares: mais pode ser melhor

Na década de 1980, no livro A Difusão de Armas nucleares: mais pode ser melhor, Waltz tornou-se um defensor da ideia de que uma quantidade maior de armas nucleares no mundo traria mais equilíbrio de poder entre os Estados e a paz global[i] – ou seja, as armas nucleares poderiam ser usadas como fonte de poder ‘dissuasor’ e de paz. Em seu livro, o autor tenta responder à questão sobre como a difusão de armas nucleares poderia trazer benefícios ao mundo (WALTZ, 1981) e para isso, o autor faz algumas distinções importantes sobre a ordem sistêmica e as lógicas de dissuasão, para entender como se daria a difusão de armas nucleares no mundo e o porquê dos Estados poderem obter armas nucleares. Assim, em primeiro lugar, o autor trabalha as distinções sobre a ordem sistêmica (multipolaridade e bipolaridade)

No mundo multipolar, seria difícil para Estados definirem claramente entre aqueles que são aliados e adversários. Isso faria com que os laços de amizade e rivalidade fossem fluidos, tornando incertos os cálculos de alianças presentes e futuras (WALTZ, 1981). Como consequência disso, as ações de qualquer Estado poderiam ameaçar a segurança dos outros – já que eles dependeriam uns dos outros e qualquer um poderia ser uma ameaça. Além disso, no mundo multipolar, segundo o autor, quem lidaria com essas ameaças também seria uma incerteza. Assim, as características principais de um sistema multipolar seriam as ameaças difusas, as responsabilidades incertas, as definições de interesses vitais obscuros, a interdependência das partes e as respostas confusas.

O que difere esse cenário do mundo bipolar, onde as duas grandes potências balanceariam o sistema, é o grau de clareza sobre quem são amigos ou inimigos – ou seja, as ameaças são bem definidas. Isso tornaria possível a perpetuação da paz, pois nesse sistema os Estados teriam mais facilidades de fazer cálculos sobre a força das alianças opostas, principalmente pela clareza e certeza de quem seria ou não um adversário[ii]. Em outras palavras, as principais características no mundo bipolar seriam a auto dependência de ambas as partes, clareza das ameaças e a certeza de quem ameaça quem. Assim, no mundo bipolar a paz seria mais provável do que no mundo multipolar. O autor conclui essa distinção mostrando que as armas nucleares presentes nos jogos políticos das grandes potências seriam uma segunda força a trazer a paz (já que a primeira é o próprio ordenamento do sistema) – pois os custos da guerra nuclear seriam tão altos que não valeria a pena usá-las (WALTZ, 1981).

No que diz respeito às estratégias de dissuasão através da força presentes no sistema de autoajuda[iii], o autor aponta quatro principais: i) força ofensiva; ii) força por defesa; iii) força por deterrência[iv] e iv) força por coerção. A força ofensiva, segundo o autor, poderia ser usada para conquistar ou para defender-se e ela poderia ser empregada de duas maneiras (ou combinadas), preventivamente[v] ou preemptivamente[vi] (WALTZ, 1981). Dessa maneira, um Estado poderia dissuadir outro Estado a não atacar ou construindo uma defesa que pareça extremamente poderosa, ou por meio da deterrência.

A dissuasão pela defesa consistiria, portanto, em inibir um ataque de um determinado Estado beligerante a partir da construção de uma defesa extremamente intransponível que o levasse a desistir de seu ataque. O que é o oposto da dissuasão por deterrência, que consistiria numa inibição de um movimento agressivo de um determinado Estado, através da ameaça de uma futura[vii] punição se tal movimento fosse feito. Em outras palavras, a mensagem por trás dessa lógica é: mesmo que um determinado Estado não tenha uma defesa formidável ou uma força de ataque abrasadora, ele irá punir o Estado beligerante de uma forma em que o seu prejuízo seja tão alto que venha a cancelar os ganhos. A força nuclear, segundo Waltz (1981), serviria exatamente a este tipo de estratégia.

Por fim, resta a dissuasão por imposição ou por coerção. Segundo Waltz (1981), a dissuasão por coerção se daria numa situação em que “um Estado talvez ameace prejudicar outro Estado não para dissuadi-lo de tomar uma determinada ação, mas para obrigar a uma” (WALTZ, 1981, p. 9[viii]). Dessa forma, as armas nucleares poderiam ou não otimizar os efeitos dessas estratégias: se a força ofensiva de ataque de um Estado e as chantagens fossem mais efetivas, então elas aumentariam o risco da guerra. Entretanto, se a dissuasão (deterrência e defesa) através das armas nucleares fosse mais efetiva, então as chances da resolução do conflito sem guerra aumentaria[ix]. Além disso, o autor faz algumas observações a respeito dos efeitos que as armas nucleares podem gerar.

Em primeiro lugar, os Estados só se arriscarão numa guerra nuclear se os ganhos forem altos o suficiente para isso, ou seja, quanto maior o ganho e mais próximo estiverem os Estados de conseguirem-no, eles se exporão aos riscos da autodestruição. Segundo, os Estados agirão com menos cautela quanto menores forem os riscos e com mais cautela quanto maior forem os riscos. Terceiro, o efeito ainda é mais negativo quando a dissuasão por deterrência através de armas nucleares contribui mais à segurança do Estado do que à conquista de territórios. Quarto, a dissuasão por deterrência depende tanto das capacidades quanto da vontade dos Estados de usá-las (WALTZ, 1981).

Para Waltz (1981) não importaria o número de atores com armas nucleares. O mundo seria mais tolerável se estes atores fossem capazes de transmitir a mensagem de que “é inútil tentar atacar, pois você será severamente punido”. O mundo seria mais tolerável se os atores conseguissem passar uma mensagem de uma defesa intransponível. Segundo Waltz,

As armas nucleares e uma doutrina apropriada para seu uso talvez torne possível aproximar o ideal de [dissuasão por] defesa e [dissuasão por] deterrência, uma condição que fariam com que as chances da guerra diminuíssem (WALTZ, 1981, p.13[x]).

Dessa forma, concentrar as atenções somente no poder destrutivo das armas nucleares teria escondido alguns importantes benefícios que elas trariam aos Estados se estes tentassem coexistir num mundo de autoajuda (com armas nucleares) (WALTZ, 1981). O autor também aponta outros benefícios, como diminuição das corridas armamentistas[xi], o desescalonamento de conflitos[xii], estabilidade regional[xiii], diminuição dos riscos de proliferação ou destas armas caírem em mãos dos terroristas[xiv]. E por fim, haveria também algumas razões para se desejar obter armas nucleares, tais como o balanceamento de outros Estados que possuem armas nucleares ou propósitos ofensivos. Dessa forma, a principal ideia que Waltz tenta transmitir é que há um consenso equivocado sobre ter armas nucleares, seus usos (meios e fins) e as consequências de tê-las.

Considerações Finais

Waltz deixou uma importante contribuição para o campo das Relações Internacionais e suas obras balizaram todas as outras produções posteriores no campo. Seus trabalhos, antes de serem a favor do imperialismo e da guerra, protestavam contra tais ambições e visavam, no fundo, a construção de um mundo melhor. O melhor exemplo disso é discussão contra a corrente que Waltz propõe sobre a aquisição de armas nucleares. Em todo momento ele tenta mostrar que as armas nucleares poderiam ajudar o mundo a equilibrar-se e alcançar a paz global. Segundo Freire (2013), junto a outros autores realistas, antes da invasão do Iraque em 2003, ele fez severas críticas a tal atitude dos Estados Unidos, afirmando que isso traria um desperdício enorme de vidas, de recursos públicos e exporia a segurança dos Estados Unidos.

Waltz foi mais que um teórico de Relações Internacionais, tendo sido, com certeza, um homem que contribuiu para o crescimento e a formação de muitos profissionais da área. Apesar da sua morte, a teoria do Realismo Estrutural de Waltz ainda permanecerá, já que o Realismo tem servido “como uma teoria fundamental” ao campo das Relações Internacionais. Mas, as teorias que ele criou não podem ser tomadas como verdades infalíveis e absolutas. Há muitas possibilidades em relação às suas teorias e suas futuras interpretações, o que abre espaço para novas discussões e possíveis reformulações.

Referências

FREIRE, Lucas G. Para Onde Caminham as Produções editoriais e Para Onde Caminham as Relações Internacionais Sem Waltz? In Síria: a lógica falha de uma guerra civil e as relações com o Líbano.

LEECH, Phil e CHACRA, Guga. O Debatedouro, Ano 11, Nº 02, Edição 83. Belo Horizonte, Brasil, agosto de 2013.

WALTZ, Kenneth N. O Homem, o Estado e a Guerra: uma análise teórica. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

WALTZ, Kenneth N. Theory of International Politics. New York: McGraw Hill, 1979.

WALTZ, Kenneth. The Spread of Nuclear Weapons: More May Better. Adelphi Papers, Number 171. London: International Institute for Strategic Studies, 1981. Disponível em: http://debatewise.org/debates/748-the-spread-of-nuclear-weapons-more-may-be-better/#yes1 Acesso em 17 de agosto de 2013.

Kenneth N. Waltz, 1924-2013. Disponível em: http://walt.foreignpolicy.com/posts/2013/05/13/kenneth_n_waltz_1924_2013 Acesso em 9 de junho de 2013.

Kenneth N. Waltz (1924 – 2013). Disponível em: http://www.siwps.com/people/kennethnwaltz.html Acesso em 20 de maio de 2013.

Kenneth Waltz: 1924-2013. Disponível em: http://thediplomat.com/flashpoints-blog/2013/05/15/kenneth-waltz-1924-2013/ Acesso em 15 de maio de 2013.

Kenneth Waltz, Foreign-Relations Expert, Dies at 88. Disponível em: http://www.nytimes.com/2013/05/19/us/kenneth-n-waltz-who-helped-shape-international-relations-as-a-discipline-dies-at-88.html?pagewanted=all&_r=0 Acesso em 9 de junho de 2013.

Kenneth Waltz is Not Crazy, But He Is Dangerous: Nuclear Weapons in the Middle East. Diponível em: http://www.foreignpolicyjournal.com/2012/07/07/kenneth-waltz-is-not-crazy-but-he-is-dangerous-nuclear-weapons-in-the-middle-east/ Acesso em 28 de maio de 2013.

Kenneth Waltz: O homem que defende a bomba nuclear do Irã. Disponível em: http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/kenneth-waltz-o-homem-que-defende-a-bomba-nuclear-do-ira.html Acesso em 14 de agosto de 2013.

Morre Kenneth Waltz, teórico do neorrealismo. Disponível em: http://www.cartacapital.com.br/internacional/morr Acesso em 14 de maio de 2013.


[i] Os custos de uma guerra nuclear seriam tão altos aos Estados, que estes optariam por outros meios de resolução dos seus conflitos

[ii] Essa discursão está embasada na ideia de que os Estados geralmente são propensos a subestimar seus pontos fortes e subestimar a força e confiança de outros Estados ou alianças de Estados opostos. Em vez de fazerem cálculos corretos e precisos, eles fariam cálculos equivocados e a afastariam a possibilidade da paz – ou seja, a incerteza e os cálculos equivocados levariam à guerra. (WALTZ, 1981, pág. 04)

[iii] A autoajuda seria o princípio de ação no sistema anárquico e a melhor forma de os Estados obtê-la seria melhorando sua própria segurança – levando em consideração os fins pelos quais estes usariam a força, as suas estratégias e as armas empregadas para garantir a paz (WALTZ, 1981). As chances de paz seriam mais possíveis à medida em que os Estados não recorressem ao uso da força – nesse sentido os custos da guerra aumentariam à medida em que os ganhos diminuíssem (WALTZ, 1981).

Waltz (1981) aponta que uma estratégia baseada numa lógica de dissuasão por força seria melhor, pois o uso da força não seria recorrente (Waltz, 1981).

[iv] No texto, a palavra deterrent será traduzida por deterrência e terá a seguinte conotação: Deterrência pode ser sinônimo de constrangimento. É um termo usado no campo de estudos estratégicos e ciências militares e tem a ver com uma lógica de dissuasão, onde um Estado ‘A’ constrange um Estado ‘B’, inibindo assim seus movimentos agressivos através de uma ameaça de que se o Estado ‘B’ fizer aquele movimento, será inaceitável e ele será punido. Deterrência significa literalmente impedir, através do constrangimento, algum determinado Estado de fazer algo por assustá-lo.

[v] A lógica de uma guerra preventiva pode ser explicada da seguinte forma: um Estado nuclear “A” lança um ataque contra um Estado “B” mais fraco antes que este se torne forte demais para ser contido. Isto seria uma guerra preventiva (WALTZ, 1981, pág. 7).  Ou seja, um ataque preemptivo seria feito para eliminar ou reduzir drasticamente a capacidade do outro de retaliar.

[vi] A lógica de uma guerra preemptiva pode ser explicada da seguinte maneira: Não seguindo a lógica do balanceamento, um Estado “A” lança um ataque contra as forças ofensivas do Estado “B” para bloquear um ataque que ele presume que “está para ser feito”. Isto seria uma guerra preemptiva. (WALTZ, 1981, pág. 7). Ou seja, um ataque preventivo seria lançado para derrotar o adversário antes que este possa se desenvolver e aumentar seu poderio.

[vii] Nesse sentido, a dissuasão por deterrência é literalmente parar um movimento de outro Estado através do medo.

[viii] One state may threaten to harm another state not to deter it from taking a certain action but to compel one.

[ix] Mas, a paz internacional não dependeria somente das estratégias, mas de como as armas são empregadas e são mais ou menos seguras – o autor dá o exemplo de que se uma arma nuclear não for usada pro conquistar, então os Estados vizinhos terão paz de espírito (WALTZ, 1981, pág. 9).

[x] Nuclear weapons and an appropriate doctrine for their use may make it possible to approach the defensive-deterrent ideal, a condition that would cause the chances of war to dwindle.

[xi] Segundo o autor não haveria necessidade de uma corrida armamentista convencional, pois as armas nucleares balanceariam qualquer número de armas convencionais. Ou seja, não seria muito vantajoso ter vantagens nas armas convencionais quando existem as armas nucleares como último recurso. (WALTZ, 1981)

[xii] Segundo o autor, se a dissuasão por deterrência falhasse, os incentivos de continuar se engajando numa guerra nuclear seriam altos e o conflito tenderia ao desescalonamento (WALTZ, 1981).

[xiii] Segundo o autor, os Estados evitariam ameaçar os interesses vitais uns dos outros, pois numa guerra travada, nenhum Estado iria ameaçar os interesses vitais de um Estado nuclear levando-os, ao contrário, a criar um espaço pra recuar, o que significa levar o conflito às questões mais controversas. Ou seja, para Waltz (1981), ter armas nucleares, poderia ajudar a resolver os conflitos pacificamente (WALTZ, 1981).

[xiv] Para o autor, os custos de se produzir as armas seriam muito altos (e levariam um longo tempo para serem desenvolvidas); Estados instáveis não seriam capazes de construí-las e o retorno de tê-las só poderia chegar se elas fossem concluídas – o que não seria muito provável num Estado instável. Além disso, haveria o problema de que está no comando. Se fossem militares, eles não começariam o programa de desenvolvimento de armas nucleares, pois teriam de fazer muito investimento em Pesquisa e Desenvolvimento. E por fim, em qualquer conflito interno elas não poderiam ser usadas e isso diminuiria ainda mais a sua proliferação.

Sobre as armas caírem em mãos de terroristas, o autor faz duas considerações: i) quem para todos os custos de obter uma arma nuclear, não vai querer dividi-la com outrem; ii) os ditadores não dariam aos terroristas a posse de armas nucleares, pois o risco dos mesmos lançarem um ataque contra os seus patrocinadores é muito alto.

 

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4 respostas para Kenneth Waltz – Parte I: as produções teóricas até a década de 1980

  1. Rosangela disse:

    O texto foi muito bem elaborado com muitas informações de alguém que foi tão importante para o estudo das relações internacionais…parabéns aos escritores!!!!!

  2. Pingback: Kenneth Waltz – Parte I: as produções teóricas até a década de 1980 | Observatório de Relações Internacionais da UFOP

  3. Auxiliou muito para os meus estudos, tenho prova segunda. Hahaha.. Gracias!

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