A disponibilidade dos recursos hídricos no contexto do conflito entre Palestina e Israel

Thales Leonardo de Carvalho

Resumo

Ao longo da história, percebe-se o conflito entre a Autoridade Nacional Palestina e o Estado de Israel, no que diz respeito ao território que, hoje, é considerado parte de Israel. Entre as mais diversas causas que estão em volta do conflito, pouco se discute sobre o que poderia ser um dos motivos principais de sua continuidade, bem como poderia ser usado como arma: a água.

Introdução 

Em 1948, três anos após o fim da Segunda Guerra Mundial e do surgimento da Organização das Nações Unidas (ONU), tal organização divide o território onde se localiza o atual do Estado de Israel entre israelenses e palestinos. Vale ressaltar que o território pertencia, antes, ao Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte, que na impossibilidade de se envolver em qualquer outro conflito no contexto do pós-guerra, passou o controle de tal situação para a ONU (CHEMERIS, 2002). À época, a população era formada por aproximadamente 700 mil judeus, entre cerca de um milhão e meio de árabes (YAZBEK apud CHEMERIS, 2002). Neste contexto, eclode uma guerra entre árabes e israelenses, que dura até 1949 e leva os judeus a tomarem mais uma porção do território palestino (75%), com cerca de 900 mil refugiados árabes resultando desta tomada (MASSOLIÉ apud CHEMERIS, 2002).

Desde então, palestinos e israelenses vivem em constante guerra, que foi acumulando vários motivos ao longo do tempo, passando de um conflito territorial a um conflito religioso, ideológico e que tem envolvido cada vez mais a comunidade internacional, perdurando já por 55 anos. Uma das causas que tem sido citadas nesse contexto é a água e sua disponibilidade ao longo do território em questão, bem como sua divisão territorial, e sua utilização como arma dentro do conflito. Nesse sentido, passar-se-á, aqui, a uma contextualização geográfica do território, para que seja possível analisar a questão, tendo em vista a disponibilidade dos recursos hídricos.

A geografia e geopolítica local

Para analisar-se aqui a água como uma das causas do conflito será feita, primeiro, uma observação sobre a disponibilidade hídrica no território israelense e nas áreas palestinas da Faixa de Gaza e Cisjordânia. Logo após, comparar-se-á a disponibilidade israelense, considerado um país muito pobre, com um país considerado rico em tal recurso (o Brasil), segundo análise de  Otávio Branco (2013).

Tomando-se em primeiro lugar o território israelense como referência, vê-se uma área de 2,250 km² de área irrigada, frente aos 54 mil km² brasileiros, com 1.78 km³ de recursos hídricos renováveis (água consumível) israelenses, frente a 54 mil km³ do Brasil. Israel tem um consumo de água per capita de 282,4 m³ anuais, enquanto o Brasil consome 306 m³ per capita. Tudo isso em um território de 20.770 km², frente aos 8,5 milhões de km² brasileiros (CIA, 2013). Em paralelo a isso, Cisjordânia e Faixa de Gaza, somadas, possuem 240 km² de área irrigada, em um território de 5.860 km². Os demais dados apresentados para Israel (consumo per capita e recursos hídricos renováveis) estão indisponíveis (CIA, 2013). Ressalta-se principalmente o fato de a região da Cisjordânia ter acesso ao rio Jordão, que possui grande potencial de recursos hídricos na região. Parte do rio passa também por 3% do território israelense proporcionando, porém, 60% das necessidades israelenses (BROECK, 2013). Outra porção do rio encontra-se no território da Cisjordânia o que, em tese, bloquearia o acesso israelense à agua.

Podem ser vistas, juntamente aos dados apresentados, ações geoestratégicas israelenses que visam obter regiões que possuem acesso à água ou facilitam tal acesso, como a própria anexação da Cisjordânia, aumentando sua área de contato com o rio Jordão, a construção de um muro em 2002 que acabou por viabilizar o controle do Aquífero Basin por parte dos israelenses, importante ferramenta de fornecimento local, entre outras iniciativas (ECHEVENGUÁ, 2011). A anexação das Colinas de Golan, objetivando o controle dos afluentes do rio Jordão, também é parte da estratégia israelense visando o controle dos suprimentos de água locais (ECHEVENGUÁ, 2009). No entanto, os conflitos por Golan são relacionados à República Árabe da Síria, e não à Autoridade Nacional Palestina e, portanto, não serão tratados aqui. Ademais, sua situação tornou-se mais delicada em função dos conflitos internos que a Síria enfrenta desde 2011 (ONU QUER MAIOR…, 2013).

Percebe-se, neste contexto, que o território israelense possui de fato, geograficamente, pouquíssima água disponível, bem como as áreas de Gaza e Cisjordânia. Vale lembrar, também, que dentre tais áreas existem terrenos desérticos, o que prejudica ainda mais o fornecimento de água do local. Concluindo-se a baixa disponibilidade hídrica local, passa-se agora a uma avaliação dos esforços locais para obtenção de água e, posteriormente, sua utilização como arma ou retaliação por quaisquer problemas.

Os esforços locais para obtenção de água

Tendo convivido por tanto tempo com problemas relacionados aos recursos hídricos, a população israelense que, em paralelo a isso, possui grande disponibilidade de recursos financeiros, investiu na incorporação de tecnologias para pelo menos amenizarem a ausência de água em seu território. Neste contexto, observou-se que o território em questão não dispõe de grande quantidade de água doce, mas é banhado por água salgada (advinda do mar mediterrâneo e do mar morto), imprópria para consumo. A saída encontrada estaria na utilização desta água, tornando-a própria para o consumo humano ao reduzir ou retirar seu teor de sal.

No entanto, a água dessalinizada ainda acabaria por possuir sal, o que traria prejuízos à saúde humana. A saída encontrada para aumentar a disponibilidade de água potável foi o reaproveitamento da água já utilizada, solução essa que obteve sucesso. Nos dias atuais, 75% da água é reutilizada (RAZUK, 2013) o que, somado às importações de água, conseguem atender a população em sua totalidade. Para se ter ideia do nível de atendimento, uma embalagem com 6 garrafas de água mineral de 1,5 litros custa, em média, 12 a 17 shekels, o que daria 6 a 8,5 reais, levando-se em conta o câmbio de 2012 (VIVENDO EM…, 2013). No Brasil, o custo é próximo a tal valor, ou chega a ser até mesmo mais caro.

Percebe-se, nesta rápida abordagem, que os israelenses conseguiram resolver, em parte, sua deficiência de recursos hídricos, empreendendo parte de suas vantagens financeiras para amenizar tal problema. Os palestinos, porém, não dispõem de tais recursos e ainda sofrem com retaliações de Israel. A água, em muitos momentos, é vista como objeto para alterar o equilíbrio nos conflitos em determinados momentos, como será visto na próxima sessão.

A água como objeto de retaliação nas disputas locais

Além de ser escassa na região e possível motivo de acentuação do conflito, a água poderia ser vista como objeto de retaliação em tal contexto, tendo em vista as várias formas de uso possíveis da mesma enquanto ferramenta para prejudicar os oponentes.

Como exemplo disso, pode-se ver que Israel acaba por prejudicar os palestinos em diversas situações, como as já citadas na sessão que tratou sobre a geografia e, somado a isso, o fato de retirar quantidades elevadas de água de canais que comanda (ISRAEL IMPEDE…, 2009), deixando palestinos com sede e, consequentemente, menos condições de atuar no conflito. Desta forma, Israel demonstra que, ao deter os canais, aquíferos e etc., detém o poder (aqui tratado na concepção weberiana de ser a capacidade de conduzir outro ator a um rumo que se pretende) a partir do momento que têm como reduzir as condições de luta e diálogo palestinas, e pode utilizar-se de tais artifícios neste contexto.

Não obstante, parte da água que chega aos palestinos é contaminada, possuindo resíduos e/ou dejetos israelenses; a porcentagem de água contaminada chegou a 95% na Faixa de Gaza, em maio de 2013 (PEREZ, 2013). Juntamente ao fato de Israel reduzir o já escasso acesso à água dos palestinos ou contaminá-la afetando as condições biológicas de tais povos, e acaba por transformá-la em, se não arma, objeto de retaliação e meio de obtenção de vantagens, onde seu detentor estaria em melhor posição no conflito.

Considerações finais

Percebe-se, após a leitura, a grande influência que a água possui sobre o conflito árabe-israelense, tendo em vista sua escassez no local, que acaba acentuando conflitos e sendo utilizada como meio para se obter melhor posição em tal contexto. Acentua conflitos, pois o ser humano necessita da água para viver e, caso tal recurso falte (como falta na região), o indivíduo acaba por ir à busca incessante por ele, entrando até mesmo em conflito com outros indivíduos. Privilegia a posição de seu detentor dentro do contexto do conflito, pois ele poderia utilizá-la para induzir ou retaliar seu oponente, à medida que tal recurso seja importante para todas as partes envolvidas e, não somente, poderia ser usada como meio de disseminação de elementos que enfraqueceriam os adversários.

Ademais, analisando-se tais observações, conclui-se que qualquer acordo de cessar fogo ou um acordo de paz envolvendo o conflito árabe-israelense deve passar pela questão geográfica e hidrográfica, visando eliminar uma das causas pelas quais o conflito perdura até os dias atuais. Concluindo-se a água como peça de destaque em meio ao conflito, qualquer resolução que se deseje adotar deve levá-la em conta, bem como os meios para alcançá-la, caso contrário, os conflitos perdurarão até se resolver tal questão.

REFERÊNCIAS 

 BERTOLLI, Emília. Falta de recursos naturais deu lugar à tecnologia em Israel. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u86596.shtml. Acesso em 12 de maio de 2013.

BRANCO, Otávio E. A. Avaliação da disponibilidade hídrica- conceitos e aplicabilidade. Disponível em: http://www.ufjf.br/engsanitariaeambiental/files/2012/04/Disponibilidade-H%C3%ADdrica.pdf. Acesso em 12 de maio de 2013.

BROECK, Fabrício V. D. As guerras pelos recursos naturais. Disponível em: http://www.rejuma.org.br/index.php?option=com_zoo&task=item&item_id=1512&Itemid=662. Acesso em 13 de maio de 2013.

CHEMERIS, Henry G. S. Os principais motivos que geraram os conflitos entre israelenses e árabes na Palestina (1897- 1948). Disponível em: http://www.pucrs.br/ffch/neroi/mono_revista.pdf. Acesso em 12 de maio de 2013.

ECHEVENGUÁ, Ana. A água como guerra. In: Observatório Eco, 10 de setembro de 2011. Disponível em: http://www.observatorioeco.com.br/a-agua-como-arma-de-guerra/. Acesso em 28 de maio de 2013.

ECHEVENGUÁ, Ana. A água (que ninguém vê) na guerra. In: Carta Maior, 11 de janeiro de 2009. Disponível em: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm? materia_id=15476. Acesso em 14 de junho de 2013.

ENTENDA A DISPUTA sobre as Colinas de Golan. In: Estadão, 2 de abril de 2009. Disponível em: http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,entenda-a-disputa-sobre-as-colinas-de-golan,348846,0.htm. Acesso em 16 de junho de 2013.

ISRAEL IMPEDE Palestina de obter água, acusa anistia. In: Estadão, 27 de outubro de 2009. Disponível em: http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,israel-impede-palestina-de-obter-agua-acusa-anistia,457177,0.htm. Acesso em 28 de maio de 2013.

ONU QUER MAIOR proteção para tropas de paz nas Colinas de Golã. In: G1, 12 de junho de 2013. Disponível em: http://g1.globo.com/revolta-arabe/noticia/2013/06/onu-quer-maior-protecao-para-tropas-de-paz-nas-colinas-de-gola.html. Acesso em 14 de junho de 2013.

RAZUK, Paulo César. Um brinde ao futuro. Disponível em: http://www.jcnet.com.br/editorias_noticias.php?codigo=228796. Acesso em 13 de maio de 2013.

VIVENDO EM ISRAEL. Disponível em: http://vivendoemisrael.blogspot.com.br/2012/08/agua-em-israel.html. Acesso em 13 de maio de 2013.

 

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