Relações Bilaterais no cenário contemporâneo: De Baku a Brasília


Gabriel Campos Fernandino

Resumo

A interdependência advinda do processo de globalização é certamente uma das características mais emblemáticas da cena internacional contemporânea. Neste inegável cenário ressalta-se a importância de se refletir não somente acerca de relações interestatais já consolidadas e consagradas, como também sobre aquelas ainda tímidas e crescentes. Nesse sentido, o presente texto busca expor algumas nuances da relação bilateral entre Brasil e Azerbaijão.

Relações interestatais inseridas no cenário internacional contemporâneo

Em um cenário no qual a interdependência figura como estandarte da dita modernidade globalizada, Estados das mais variadas culturas e localizações no globo tendem a se articular multi ou bilateralmente, de sorte a promoverem ganhos para e através da coletividade. Assim, aquilo que se inicia como uma estratégia voluntária se torna um ostensivo – e praticamente mandatório – curso de ação. Neste ensejo vê-se uma profusão de articulações das mais variadas naturezas – desde aquelas convencionalmente travadas de Estado para Estado, até as tendências emergentes de projeção de unidade subnacionais, por exemplo. Instituições de respaldo, como a própria Organização das Nações Unidas, indicam um substantivo aumento do número de blocos e articulações interestatais, com projeções e estimativas de aumento exponencial. A articulação e integração no plano internacional são, portanto, máximas advindas do crescente nível de interdependência.

Do Cáucaso à América Latina a situação não é desviante. Sopram nesse contexto também os ventos da integração. Nas palavras do diplomata brasileiro Sergio Arruda, Azerbaijão e Brasil, ambos colocados por ele como líderes econômicos em suas respectivas regiões, sinalizam esforços crescentes para o fortalecimento da relação bilateral e da cooperação internacional.

O Azerbaijão, tido como um Estado transcontinental, abrange em sua geografia ricas reservas petrolíferas, variados climas e, por consequência, grande potencial agrícola. A pauta de exportações do país é concentrada e, segundo estimativas da Economist Intelligence Unit e do Fundo Monetário Internacional, o Azerbaijão é hoje a 66ª economia do mundo. O Estado membro do Conselho da Europa desde 2001 é fronteiriço a cinco outros países – Rússia, Geórgia, Armênia, Turquia e Irã.  A chamada Azerbaijan Is Rich. Now It Wants to Be Famous[1] de uma recente reportagem do jornal americano The New York Times, é de fato um adequado resumo da atual conjuntura do país. As linhas da chamada versam a respeito de sensíveis mudanças que vêm ocorrendo no Estado.

Reflexão acerca de algumas facetas do relacionamento bilateral entre Azerbaijão e Brasil

Chanceladas em 1993, as relações diplomáticas entre Brasil e Azerbaijão, vêm projetando e anunciando substanciais benefícios mútuos. Tais relações são travadas entre dois Estrados que, quando pensados comparativamente, são essencialmente diferentes entre si. No que concerne a essas diferenças, pode-se dizer que o espectro das assimetrias internas varia desde a dessemelhança verbal entre o Azeri[2] e o Português, passando pelos sistemas de governo, e atingindo até mesmo quantificações dimensionais – como o fato do Azerbaijão ser aproximadamente três vezes menor, por exemplo, que o Estado federativo do Piauí no Brasil. Todavia, apesar das diferenças, Azerbaijão e Brasil se conscientizam gradativamente da necessidade de uma articulação em bases cosmopolitas, relendo suas discrepâncias internas como potências quando aplicadas no coletivo.

 A despeito das ainda tímidas trocas de pauta comercial, constata-se clara expansão e otimistas projeções. O aumento do fluxo do intercâmbio comercial é confirmado por levantamentos estatísticos, como o último relatório de Dados básicos e principais indicadores econômico-comerciais do Azerbaijão (2013), divulgado pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil. Segundo o relatório, entre os anos de 2008 e 2012 o intercâmbio comercial entre os dois Estados aumentou em 20%. Cabe elucidar que tal expansão ocorreu entremeios a turbulenta conjuntura internacional da Crise Econômica de 2008. Nem mesmo os generalizados déficits econômicos e suas nefastas consequências deflagradas pela crise, impediram que a evolução desse histórico fosse bastante amistosa.

Todavia é válido reforçar que a relação bilateral Azerbaijão-Brasil não se restringe ou se esgota na esfera econômica. No que concerne à cooperação bilateral entre os dois países, que até o momento se restringia basicamente ao plano ideacional, percebe-se de ambas as partes a afirmação no grande potencial de expansão das relações. Como ilustrado abaixo, é crescente o número de visitas oficiais que tomem por pauta temas que não só aqueles de caráter econômico. O próprio fato da embaixada brasileira em Baku[3] ocupar o status de segunda representação latino-americana instalada enfatiza, em alguma medida, o pioneirismo de um relacionamento que aspira intercâmbios culturais, tecnológicos, humanos e econômicos.

As condutas azerbaijana e brasileira apontam que é justamente a fim de responder as demandas contemporâneas – caracterizadas pela interdependência e natureza multitemática – que os dois países vêm se articulando bilateralmente. Em suma é factual que, em termos concretos, pouco foi feito no âmbito da cooperação bilateral. Contudo, para além de uma leitura cética do momento, são emitidos sinais de interesse mútuo das representações oficiais e de alguns segmentos do setor privado de ambas as partes. Tais sinais provêm, sobretudo, de manifestações discursivas, que podem vir a ser oficializadas pelo estabelecimento de compromissos internacionais. Válido ressaltar a perspectiva de que o discurso em última medida legitima e configura a ação, ou seja, a própria manifestação verbal de interesse já atrai atenção de investidores privados, setores governamentais bem como da mídia. Nesse sentido, a atuação da mídia ao tornar pública a informação, pode vir a difundir o interesse na cooperação bilateral promovendo-o e legitimando-o.

É notório o esforço para a superação de dificuldades, inerentes a qualquer relacionamento bilateral, tanto da parte azerbaijana quanto da brasileira. A fim de ilustrar a assertiva, sugere-se como exemplo a atuação enfática do Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário azerbaijano no Brasil, Elnur Sultanov, no contexto brasileiro.  Na reunião do embaixador com o então Ministro-Chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos, Moreira Franco, em fevereiro deste ano, ambos os lados expressaram grande satisfação com o desenrolar das relações bilaterais, além de destacarem o extenso potencial de expansão da cooperação em várias esferas temáticas.

Em situação homônima, o embaixador encontrou o presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportação e Investimentos, Maurício Borges, tendo por pauta o desenvolvimento das trocas comerciais, o intercâmbio de contatos nos círculos de negócios – business to business – bem como a importância prima da organização de visitas e apresentações recíprocas.  No que diz respeito especificamente às colocações da parte azerbaijana, representadas e personificadas na pessoa de Sultanov, foram expostas questões a respeito do status quo do Azerbaijão, no sentido de demonstrar o interesse do Estado na diversificação econômica[4], na promoção de um ambiente de negócios favorável a investidores internacionais e na atuação do presidente do país, Ilham Aliyev, na realização de projetos regionais. Ainda no que concerne ao histórico desses simbólicos encontros, Sultanov se reuniu recentemente com personalidades como Ernani Argolo Checcucci Filho, subsecretário de Aduana e Relações Internacionais da Receita Federal; e Perpétua Almeida, primeira vice-presidente da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional.

Em virtude do relacionamento entre esses dois países clivados por profundas diferenças que vão além de questões étnico-linguísticas, é ostensiva a preocupação com o nivelamento de conhecimento acerca de cada realidade local. É manifesto o zelo para com a compreensão e tolerância na alteridade. A fim de se ilustrar a assertiva anterior, pode-se citar a recente publicação “O Azerbaijão, no centro da Eurásia” por parte das representações azerbaijanas, preparada pelo Centro de Estudos Estratégicos e veiculado em Português. Ainda no mesmo contexto cabe destaque à formidável iniciativa da Embaixada da República do Azerbaijão no Brasil e do Ministério da Juventude e do Esporte do Azerbaijão, no lançamento do concurso “O que eu sei sobre o Azerbaijão?”[5], que promove o interesse dos estudantes brasileiros, projetando a boa imagem do país e estreitando os laços com o Brasil.

Conclusão

Os diálogos constantes entre os dois países demonstram, de fato, interesse em iniciativas que venham a expandir e sedimentar as relações bilaterais[6]. O atual momento da disposição da conjuntura internacional é singular e estratégico para a promoção de ganhos mútuos no relacionamento bilateral. Como anteriormente sugerido, ambos Estados têm muito a compartilhar e a aprender. A própria escolha dos dois Estados como países-sede de megaeventos – Olimpíadas e eventos oficiais da FIFA no caso do Brasil e os Jogos Europeus de 2015 e Copa do Mundo de Futebol Feminino Sub-17 de 2012 no lado azerbaijano – são fortes indicativos de experiências e expertises a serem cambiadas. As inegáveis carências e dificuldades internas[7] dos dois países enfatizam a necessidade de catalisar o bom momento. O processo de compreensão da realidade e do modus operandi alheio é paulatino, porém constante e crescente. Quanto mais um país entender, e se relacionar com o outro, mais benefícios mútuos serão obtidos.

Referências

APA.AZ . Azerbaijan’s Ambassador to Brazil meets President of Trade and Investment Promotion Agency. http://en.apa.az/news_azerbaijan___s_ambassador_to_brazil_meets__186580.html. Acessado em 21 de maio.

Embaixada da república do Azerbaijão no Brasil. APEX Brasil http://azembassy.org.br/agencia-brasileira-de-promocao-de-exportacoes-e-investimentos/. Acessado em 21 de maio.

Embaixada da república do Azerbaijão no Brasil. Reunião na receita Federal http://azembassy.org.br/reuniao-com-a-receita-federal/. Acessado em 21 de maio.

Fundo  Monetário internacional. Azerbaijan:Report for Selected Countries and Subjects. http://www.imf.org/external/index.htm. Acessado em 21 de maio

Ministério das Relações Exteriores do Brasil. Relatórios online: Dados básicos e principais indicadores econômico-comerciais do Azerbaijão. http://www.brasilglobalnet.gov.br/ARQUIVOS/IndicadoresEconomicos/INDAzerbaijao.pdf. Acessado em 21 de maio.

News.AZ . Azerbaijan and Brazil set to promote economic cooperation. http://news.az/articles/politics/75567. Acessado em 21 de maio.

NYT. Azerbaijan Is Rich. Now It Wants to Be Famous http://www.nytimes.com/2013/02/10/magazine/azerbaijan-is-rich-now-it-wants-to-be-famous.html?pagewanted=all&_r=0. Acessado em 21 de maio.

President of Azerbaijan. Documents. http://en.president.az/articles/3042. Acessado em 21 de maio.

Trend news. Brazil intends to expand cooperation with Azerbaijan in the near future http://en.trend.az/news/politics/2063091.html. Acessado em 21 de maio.

United Nations Statics Division. Trade Statistics Knowledgebase. http://unstats.un.org/unsd/tradekb/Knowledgebase/Brazil-SITS-Profile?Keywords=Brazil. Acessado em 30 de maio.

 

[1]Em tradução informal, Azerbaijão já é rico e agora quer ser famoso. http://www.nytimes.com/2013/02/10/magazine/azerbaijan-is-rich-now-it-wants-to-be-famous.html?pagewanted=all&_r=0

 [2] Língua oficial da República do Azerbaijão.

 [3] Baku, a capital azerbaijana, é detentora do título de maior capital do mar Cáspio e do Cáucaso. A cidade se projeta no Cáspio em duas partes principais, a “parte baixa” e a “cidade-velha”. A Cidade murada de Baku juntamente com o Palácio dos Shirvanshahs e a “Torre da Donzela”, foram classificados em 2000 como Patrimônios Mundiais da UNESCO.

 [4] Para mais informações sobre o desenvolvimento econômico azerbaijano acesse o texto “Diversificar para Desenvolver: o objetivo econômico do Azerbaijão”.

 [5] O concurso, aberto até março de 2013, foi direcionado para alunos entre 19 e 29 anos interessados em produzir redações sobre temas previamente definidos – que variaram desde a temática da relação bilateral com o Brasil até, por exemplo, a cultura local ou a situação do conflito com a Armênia. Dez das redações selecionadas pela comissão julgadora receberiam a premiação de uma viagem de uma semana para o Azerbaijão com programação cultural inclusa, bem como despesas pagas.

 [6] As próprias condolências do presidente Ilham Aliyev à presidenta Dilma – que podem ser encontradas dentre as cartas oficias do website do presidente – a respeito da tragédia de Santa Maria, denotam um esforço de diálogo e de integração.

 [7] Do lado azerbaijano enfatiza-se problemas advindos da baixa diversificação da indústria interna, utilização irracional de recursos naturais e instabilidade política da relação para com os países fronteiriços. Além disso, como no caso brasileiro, destaca-se os consideráveis índices de desigualdade social.

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