As eleições paraguaias e o retorno do Partido Colorado ao poder

Pedro Casas Vilela Magalhães Arantes

Resumo

Aproximadamente dez meses após o golpe que destituiu Fernando Lugo da presidência paraguaia, a vitória de Horacio Cartes nas eleições presidenciais de 21 de abril de 2013 marca o retorno do Partido Colorado ao poder e evidencia a fragmentação da esquerda paraguaia. O novo presidente terá pela frente um país com fortes problemas econômicos e terá o desafio de reinserir o país no MERCOSUL e na UNASUL.

Introdução

Atualmente, quase dez meses após o golpe que tirou o presidente Lugo do poder, o Paraguai segue lutando por sua reincorporação ao Mercosul[i] e à UNASUL. Nesse conturbado período da história paraguaia, vários países se mostraram contra o rápido e controverso impeachment[ii] que, em menos de 24 horas, já tinha destituído o presidente. O processo, tido como inconstitucional e contra os valores democráticos, culminou na expulsão do Paraguai dessas organizações, e nesse ínterim, com a entrada da Venezuela no Mercosul, muito se discutiu sobre a legalidade de tais medidas. Com o processo, o vice-presidente Federico Franco, que havia rompido com Lugo um ano antes do golpe, assumiu a presidência do Paraguai, cargo que ocupará até agosto de 2013. O sucessor de Franco foi definido nas eleições gerais[iii] ocorridas no dia 21 de abril de 2013, data que marcaria o retorno ao poder da Asociación Nacional Republicana (ANR), conhecida também como Partido Colorado.

As eleições e seus desdobramentos

 A vitória de Horacio Cartes nas eleições marca a volta do Partido Colorado ao poder, que teve seu domínio político de mais 60 anos interrompido em 2008, com a eleição de Fernando Lugo.

Cartes, antes de ser oficializado como o candidato do Partido Colorado, sofreu certa resistência interna. Para poder se candidatar, ele precisou alterar o estatuto interno do partido, sendo que, até 2008, para poder concorrer ao cargo, o candidato deveria ter pelo menos dez anos de militância no movimento. Devido a essa manobra, o último presidente eleito pelo partido, Nicanor Duarte Frutos, chegou a chamar Cartes de bandido, e levantou a hipótese de quem faz política por dinheiro poderá trair por dinheiro, causando um desgaste dentro do partido, mas o que não impediu o sucesso nas eleições (HORACIO CARTES É…, 2013).

O pleito ficou praticamente polarizado pelos candidatos Horacio Cartes e por Efraín Alegre, do PLRA (Partido Liberal Radical Autêntico), que alcançaram respectivamente 46% e 37% dos votos (HORACIO CARTES É…, 2013).

Cartes, que era considerado favorito para a eleição, é um empresário milionário do setor tabagista, proprietário de mais de 20 empresas e presidente do clube de futebol Libertad. Em sua campanha, afirmava que utilizaria as medidas e práticas de suas empresas no governo, prometendo, por exemplo, capacitar os paraguaios como faz com seus funcionários, repetindo a estratégia do partido que foi utilizada para eleger Juan Carlos Wasmosy, em 1993. Já Efraín Alegre, político tradicional e conhecido no Paraguai, foi ministro de Obras Públicas durante o governo de Fernando Lugo e em sua campanha pregava ética na política paraguaia. Punha-se como um candidato “sem manchas no currículo”, ao contrário de seu oponente, que já foi preso na década de 1980 por evasão de divisas e foi investigado por contrabando de cigarros e vínculos com o narcotráfico (HORACIO CARTES É…, 2013; PARAGUAIOS ESCOLHEM ENTRE…, 2013).

Horacio Cartes investiu muito esforço e dinheiro na reestruturação do Partido Colorado, e ao cooptar algumas lideranças dentro do partido e enfrentar personagens históricos, despontou como uma novidade no cenário político. Em sua campanha, não prometeu grandes reformas político-sociais, mas apontou como objetivos a melhoria da gestão dos recursos públicos e a implantação de medidas em favor do mercado, discurso que ganhou forte apoio principalmente das elites rurais paraguaias (em grande parte, os “brasiguaios”). Vale reforçar que no interior do país, o Partido Colorado manteve-se com muita influência, principalmente tendo em vista suas já conhecidas práticas clientelistas (ESPÓSITO NETO, 2013).

A fragmentação da esquerda e o retorno do Partido Colorado

 Além desta eleição ter marcado, como já dito, o retorno do Partido Colorado e dos setores mais conservadores ao poder, ela também mostrou como a esquerda ficou fragmentada na eleição, prejudicando o desempenho eleitoral desse grupo no pleito de 21 de abril.

Nas eleições de 2008 no Paraguai, a coligação Aliança Patriótica para a Mudança reuniu além dos partidos de esquerda, o Partido Liberal Radical Autentico (PLRA), o segundo maior partido paraguaio, e elegeu Fernando Lugo e Federico Franco, como vice. No entanto, já no ano seguinte, as diferenças existentes na chapa fizeram com que os dois rompessem a aliança e, desde então, o governo se encontrou dividido, uma vez que o PLRA possuía maioria no congresso, fator determinante para o golpe de 2012. Já na eleição de 2013, mesmo que houvesse a intenção da esquerda de consolidar uma aliança para poder representar alguma força nas eleições, novamente as divergências internas impediram que isso acontecesse, culminando em um resultado extremamente negativo para o grupo. Somados, os candidatos da esquerda não alcançaram 10% do total dos votos (ESQUERDA, DO EX-PRESIDENTE…, 2013).

Ao mesmo tempo, a vitória do Partido Colorado nas eleições paraguaias representa a volta das velhas forças que comandaram o Paraguai por ininterruptos 60 anos, incluindo os 35 anos da ditadura do general Alfredo Stroessner. O período pós-ditadura evidenciou um sistema político altamente instável e corrupto (LÓPEZ, 2011). O presidente recém-eleito, que tomará posse no dia 15 de agosto, data prevista de acordo com a Constituição do Paraguai, trabalhará fortemente para a reinserção do país ao Mercosul e à UNASUL. Logo após a vitória, os presidentes José Mujica, do Uruguai, e Cristina Kirchner, da Argentina, já apontaram para uma possível volta, dado o caráter democrático da eleição (CARTES SINALIZA REAPROXIMAÇÃO…, 2013). Além disso, Cartes já se manifestou favorável à permanência da Venezuela no bloco “em troca de substanciais ‘incentivos’ materiais e projetos de cooperação para a redução das assimetrias econômicas” (ESPÓSITO NETO, 2013, s/p). A entrada da Venezuela no bloco esteve recentemente condicionada às resistências paraguaias. No entanto, com a morte de Hugo Chávez, essas pressões podem vir a esmorecer (ESPÓSITO NETO, 2013)

É importante ressaltar que a saída do Paraguai dessas organizações teve forte impacto na política do país.

O Paraguai sofreu um abalo após sua suspensão do Mercosul e da UNASUL. Muitos negócios e investimentos, muitos de empresas brasileiras, foram interrompidos até a “normalização” da vida política paraguaia, o que ocorrerá somente após as eleições de abril. Destaca-se que a maior parte desses investimentos é de empresas maquiladoras que visam utilizar as plantas em território paraguaio como plataforma de exportação de produtos para os países do Mercosul, em especial para o Brasil (ESPÓSITO NETO, 2013, s/p).

Conclusão

A vitória de Lugo em 2008 parecia abrir uma nova etapa no Paraguai. No entanto, o predomínio do Partido Colorado e do PLRA no sistema político paraguaio influenciou diretamente no golpe de Lugo e na recente retomada do poder. O golpe de junho de 2012 e seus desdobramentos, como a suspensão de organizações internacionais, além de causar sérios danos aos valores democráticos, tiveram forte impacto econômico no país. Em relação a essas organizações, a reinserção deve acontecer em breve, visto que vários líderes da região já reconheceram a vitória de Cartes e a importância do Paraguai para o continente. Já em relação às forças da esquerda, que continuam divididas, ao lançar cinco candidatos, potencializaram ainda mais a polarização dos candidatos conservadores. Isso fica evidente uma vez que, ao perceberem essa fragmentação e a pequena possibilidade de vitória, é preferível votar em um candidato que, na concepção do eleitor, teria a capacidade de vencer aquele candidato considerado pior, consolidando o voto útil.

REFERÊNCIAS

Cartes sinaliza reaproximação de Paraguai com Mercosul e critica gestão de Franco. Disponível em: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/28510/cartes+sinaliza+reaproximacao+de+paraguai+com+Mercosul+e+critica+gestao+de+franco.shtml. Acesso: em 24 de abril de 2013

CONSTITUCION DE LA REPUBLICA DEL PARAGUAY, 1992. Disponível em: http://www.constitution.org/cons/paraguay.htm. Acesso: em 22 de abril de 2013

 ESPÓSITO NETO, Tomaz. As eleições gerais no Paraguai e suas implicações internacionais. O Mundorama. 2013.  Disponível em: http://mundorama.net/2013/04/18/as-eleicoes-gerais-no-paraguai-e-suas-implicacoes-internacionais-por-tomaz-esposito-neto/ Acesso: em 23 de abril de 2013

 Fracasa cumbre Lugo-Franco y hay olor a ruptura en la Alianza. Disponível em: http://www.ultimahora.com/notas/217296-fracasa—cumbre–lugo-franco-y-hay-olor-a-ruptura-en-la-alianza Acesso: em 23 de abril de 2013

 Esquerda, do ex-presidente Lugo, está alijada da disputa. Disponível em: http://www.valor.com.br/internacional/3093064/esquerda-do-ex-presidente-lugo-esta-alijada-da-disputa. Acesso: em 24 de abril de 2013

Horacio Cartes é eleito presidente do Paraguai com 46% dos votos. Disponível em: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/28488/horacio+cartes+e+eleito+presidente+do+paraguai+.shtml Acesso: em 22 de abril de 2013

Paraguaios escolhem entre “empresário de sucesso” e promessa de ética na política. Disponível em: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/28478/paraguaios+escolhem+entre+empresario+de+sucesso+e+promessa+de+etica+na+politica.shtml. Acesso: em 23 de abril de 2013

Senado paraguaio destitui Lugo e golpe relâmpago é consolidado. Disponível em: http://www.cartacapital.com.br/internacional/senado-paraguaio-destitui-lugo-e-golpe-relampago-e-consolidado/ Acesso: em 23 de abril de 2013

[iii] Vale ressaltar que, de acordo com a Constituição paraguaia e a lei eleitoral, o mandato do presidente tem duração de cinco anos e não há possibilidade de reeleição, e caso o vice-presidente pretenda concorrer às eleições seguintes, ele deve sair do cargo seis meses antes do dia da pleito (CONSTITUCION DE LA REPUBLICA DEL PARAGUAY, 1992).

 

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