Iraque: onde estavam as armas?

Marilia Aquino Ferreira

Resumo

Há dez anos, precisamente no dia 20 de março de 2003, os Estados Unidos invadiram o Iraque. A guerra oficialmente durou oito anos, tendo fim no dia 18 de dezembro de 2011. Entretanto, os ganhos da guerra ficaram muito aquém dos custos, tanto aqueles mensuráveis por moeda, quanto em vidas humanas.

Breve Histórico

À época da invasão, em 2002, o governo de George W. Bush utilizou de alguns argumentos como forma de validar a ação no Iraque. Saddam Hussein[i], então ditador iraquiano, foi conectado à rede terrorista Al-Qaeda, argumento que foi tido como fraco e exagerado pela opinião pública estadunidense quando da invasão[ii]. Outro argumento utilizado foi a necessidade de levar a democracia ao Oriente Médio, derrubando o regime ditatorial de Saddam Husseim, que no discurso estadunidense oprimia a população iraquiana, o que favoreceria a transformação política da região.  Também foi colocado o fato que o país possuía armas químicas e biológicas, se constituindo desta forma como uma ameaça para toda a sociedade internacional. O governo de Saddam Hussein era acusado de manter ativo e em expansão um programa de produção armas químicas e biológicas. Armas estas que nunca foram encontradas (THE IRAQ WAR…, 2013).

O Conselho de Segurança da ONU sofreu forte pressão em 2003, quando Bush iniciou sua campanha contra o Iraque. A crise do Iraque testou a credibilidade do Conselho. A Resolução 1441 citava o Iraque e a Coreia do Norte como países que buscavam desenvolver armas de destruição em massa e como uma ameaça a todas as nações. Assim, pressionou estes países a se desarmarem e cooperarem com os inspetores enviados por aquela organização. O presidente americano obteve do Congresso a autorização para fazer uso das forças militares, com o objetivo de forçar o Iraque atender às resoluções da ONU. Estados Unidos e Grã Bretanha afirmaram, assim, que a Resolução permitia uma ação militar, porém, França e Rússia, também membros permanentes do Conselho de Segurança, discordaram dessa opinião. Como os Estados Unidos não conseguiram aprovação do Conselho de Segurança, a decisão de iniciar a guerra foi tomada sem a sua autorização. O Conselho foi duramente criticado, principalmente por não tomar medidas enérgicas para tentar evitar o conflito (CS FOI CRIADO…, 2005). Para os Estados Unidos o apoio da ONU seria importante devido à legitimidade internacional que este conferiria ao conflito e a possibilidade de divisão dos custos militares com os aliados, além de facilitar a colaboração com os países árabes.

Os efeitos da guerra

“Pela primeira vez em nove anos não há nenhum americano lutando no Iraque. Depois de uma década de guerra, que nos custou milhares de vidas e mais de um trilhão de dólares, a nação que precisamos reconstruir é a nossa mesma”. Essas foram as palavras do Presidente Barack Obama, em discurso proferido em janeiro de 2012. Passados dez anos da invasão os impactos negativos daquela ação militar se sobrepõem aos positivos. Detalhados, os gastos estadunidenses com a guerra chegam a ultrapassar em muito a cifra de um trilhão de dólares, podendo ter chegado a cerca de três trilhões de dólares no total.

Por sua vez a situação atual do Iraque é no mínimo desastrosa. George W. Bush prometeu aos iraquianos que a invasão levaria a eles uma vida melhor, que seriam feitas melhorias na infraestrutura do país, severamente debilitada por treze anos de sanções econômicas[iii]. Prometeu também que haveria mais empregos, disponibilidade de água de qualidade, energia elétrica confiável e reabilitação da estrutura médica (IRAQ: A COUNTRY…, 2013). Bush chegou a prometer um Iraque livre e pacífico, que seria um modelo de democracia e estabilidade para o mundo árabe. Porém, os iraquianos reclamam que ainda não tem acesso a serviços públicos básicos. Segundo a ONU, cerca de sete milhões de iraquianos vivem na pobreza. Relatórios recentes da organização indicam que o fornecimento de energia é complicado e precário, quatro em cada dez pessoas não tem acesso a água limpa e estima-se ainda que até metade dos médicos deixaram o país. Apesar de pertencer ao Iraque uma das maiores reservas de petróleo do mundo e a sua economia ter apresentado algum crescimento, tais números não superam as perdas geradas pela guerra.

Os Estados Unidos implantaram uma política de statebulding[iv] no Iraque pós-conflito, tendo sido gastos cerca de 60 bilhões de dólares na reconstrução e desenvolvimento do país. Para o primeiro ministro do país, Hussein al-Shahrastani, “os regimes anteriores negligenciaram a infraestrutura e os danos da guerra são enormes. Há uma necessidade de reconstruir tudo, o que requer mais de 200 bilhões de dólares” (IRAQ: TEN YEARS…, 2013). Algumas empresas norte-americanas firmaram contratos bilionários com o governo estadunidense para obras de infraestrutura e são acusadas de corrupção e desvio de dinheiro, deixando a obra final mal feita ou inconclusa. Em alguns casos, a pretensão de lucro dessas empresas é maior do que sua responsabilidade em cumprir com os contratos. O Iraque é considerado o oitavo país mais corrupto do mundo. Um exemplo é o caso do grupo Halliburton, que atua na área de infraestrutura voltada para o setor petrolífero, mas também em áreas como logística para operações militares. Em 2003, a receita da empresa registrou um aumento de 30%, que chegou a US$ 16 bilhões, com os contratos militares obtidos para atuar no Oriente Médio. Já no primeiro trimestre de 2004, a empresa faturou 80% a mais que no mesmo período de 2003 e suas ações dispararam. Acusada de superfaturar preços no Iraque, a Halliburton já foi condenada a devolver US$ 36 milhões ao governo dos EUA. Mesmo com a investigação, em 2005 o Pentágono concedeu um contrato de logística de cerca de US$ 5 bilhões à Halliburton no Iraque (SAIBA MAIS SOBRE…, 2008). Cabe destacar que, Dick Cheney, vice-presidente do governo de George W. Bush, foi presidente da Halliburton até o ano 2000.

Hazem Sika, correspondente da rede Al Jazeera, descreve que esta foi uma guerra concebida pelos Estados Unidos como uma resposta rápida para a ameaça terrorista chamada Saddam Hussein. Mas dez anos depois os efeitos da guerra ainda são sentidos pelo Iraque. São mais de cem mil pessoas mortas e uma geração de iraquianos que terão que lidar com o legado da guerra. Para Sika, “o fato de não terem sido encontradas armas no país deixa desacreditado o argumento principal do então presidente George W. Bush para a guerra” (AL JAZEERA, 2012).

Analistas apontam que a economia registrou um crescimento de 9% ao ano, com as exportações petrolíferas superando níveis anteriores à guerra. Há ainda os que acreditam que, com a guerra, o Iraque foi retirado de um período de estagnação que durou pelo menos duas gerações. Após a guerra do Iraque, os Estados Unidos tomaram maiores precauções em decisões de política externa, principalmente com relação ao seu envolvimento nas questões referentes ao Oriente Médio. Essa mudança pode ter ocorrido em decorrência da profunda crise de legitimidade, a qual o país teve que enfrentar após decidir pela invasão. É importante ressalvar também a mudança de governo pelo qual passou os Estados Unidos e as alterações em sua política externa advindas dessa mudança. Ademais, levando em consideração a crise econômica que o país enfrenta, soluções diplomáticas são bem vistas (TEN YEARS AFTER…, 2013).

A política iraquiana após a invasão

Apesar de alguns analistas apontarem como positivo a queda de um governo ditador e a criação de um governo eleito, a instabilidade política no país gera um clima de total insegurança. A violência é diária e ainda é a maior preocupação dos iraquianos (AL JAZEERA, 2013). As tropas estadunidenses começaram a ser retiradas em 2011, tendo o processo terminado em 2012, ficando somente homens para manter a segurança de missões diplomáticas. Uma crítica à retirada é que as forças locais não são consideradas como capazes de lidar com os conflitos e crises internas que se instalaram no país. O país sofre constantes ataques terroristas e o fraco governo de coalizão[v] se mostra incapaz de administrar crises (ESTADÃO, 2011).

A violência sectária aumentou depois da invasão. Ataques entre sunitas, xiitas e curdos levaram à morte de milhares de civis. Segundo Raed Jarrar, blogueiro árabe-americano, “as divisões sectárias tornaram-se componente essencial da nova identidade do Iraque e constituem uma ameaça à sua integridade territorial e unidade nacional” (DEPOIS DE TUDO…, 2013). Insurgentes sunitas tem buscado desestabilizar o governo do premiê xiita, Nuri al-Maliki, através de atentados. O vice-presidente Tariq al-Hashemi, sunita, fugiu do país em 2011 acusado de comandar esquadrões assassinos. Após estes episódios os sunitas tem se articulado melhor, protestando contra o governo em diversas cidades (APÓS 10 ANOS…, 2013). Em março de 2013 o governo iraquiano decidiu adiar as eleições por no máximo seis meses, a situação de insegurança impera, diversos candidatos foram ameaçados e outros foram mortos. O governo do Iraque precisa criar formas efetivas de oferecer representatividade para os três grupos principais, do contrário há o risco de insurreição de rebeldes e até mesmo de uma guerra civil (THE NEW YORK TIMES, 2013).

Desde a queda do ditador já foram realizadas três eleições, todas elas conturbadas. Em 2005 as eleições terminaram com a vitória de uma coalizão partidária xiita e a eleição, em 06 de abril, do líder curdo Jalal Talabani para a presidência. Durante o governo de Husseim os sunitas estavam no poder, e reprimiam fortemente os xiitas e curdos (ESTADÃO, 2010). As eleições de 2010 foram ainda mais conturbadas, porém, o vencedor Ayad Allawid, demonstrou interesse no diálogo e formação de alianças. Como o presidente Allawid e o primeiro ministro al-Maliki não conseguiram o número necessário de cadeiras do parlamento para governarem sozinhos, foi formado um governo de coalização entre eles (FOLHA DE SÃO PAULO, 2010).

Considerações finais

Dez anos ainda é pouco tempo para uma análise dos resultados de uma guerra no longo prazo. O ex-presidente George W Bush chegou a dizer que o tempo o iria redimir, e que todos iriam perceber que ele estava certo. No entanto, o que a história mostrou até agora foi uma guerra que não alcançou os seus supostos objetivos iniciais, como de reconstrução social e econômica do Iraque. Foi criado um governo com bases democráticas, no entanto este modelo de democracia não é o que melhor se encaixa na realidade dos países islâmicos. O Iraque é atualmente um Estado muito próximo da falência, com sérios problemas sociais, econômicos e políticos, sua reconstrução irá demandar ainda muito tempo e dinheiro. Há ainda os que acreditem que a guerra seja um bom caminho para alcançar os interesses de uma nação, mas é certo que os EUA terão que enfrentar muitas consequências negativas em razão dessa decisão, que oneram o país, já fragilizado pela crise econômica de 2008. Positivamente, as ações dos EUA em relação ao Oriente Médio foram alteradas, o país passa a medir mais suas ações, procurando formas de solução de problemas pela via do diálogo e da diplomacia, não somente como a busca de uma resposta mais humana, mas também economicamente mais viável.

REFERÊNCIAS

RAMINA, Larissa. A doutrina Bush e a Resolução 1441 do Conselho de Segurança na ótica do direito internacional. Disponível em: http://www.estig.ipbeja.pt/~ac_direito/dbush.pdf Acesso em 05 de abril de 2013

A War, Before and After, Part 4. Disponível em:     http://opinionator.blogs.nytimes.com/2013/03/19/a-war-before-and-after-part-4/?nl=opinion&emc=edit_ty_20130320. Acesso em 31.03.2013

Após 10 anos da invasão, Iraque vive ódio sectário. Disponível em: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,apos-10-anos-da-invasao-iraque-vive-odio-sectario-,1009715,0.htm. Acesso em 05 de abril de 2013

CS foi criado para assegurar paz e segurança no mundo. Disponível em: http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2005/09/050909_cshistoriaaw.shtml Acesso em 05 de abril de 2013

Espiões sabiam que Saddam não tinha armas químicas. Disponível em http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,espioes-sabiam-que-saddam-nao-tinha-armas-quimicas-,1010405,0.htm. Acesso em 05 de abril de 2013

Foreign Affairs Report: The Iraq War. Disponível em:  http://www.foreignaffairs.com/features/collections/foreign-affairs-report-the-iraq-war. Acesso em 31.03.2013

Iraq 10 years on: In numbers. Disponivel em:  http://www.bbc.co.uk/news/world-middle-east-21752819. Acesso em 30.03.2013

Iraq: A country in shambles. Disponível em: http://www.aljazeera.com/indepth/features/2012/01/20121411519385348.html. Acesso em 05 de abril de 2013

Iraq’s Fragile Future. Disponível em:      http://www.nytimes.com/2013/03/20/opinion/iraqs-fragile-future.html?nl=opinion&emc=edit_ty_20130320&_r=0. Acesso em 31.03.2013

KOWALSKI, Mateus. O Estado em reconstrução e a sua constituição. A intervenção no Iraque. Relações Internacionais,  n.26, Lisboa, 2010.

Líder da coalizão vencedora na eleição do Iraque quer “governo forte”. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u712855.shtml Acesso em 05 de abril de 2013

Resolution 1441 (2002). Disponível em http://www.un.org/Depts/unmovic/documents/1441.pdf . Acesso em 01.04.2013

Retrospectiva 2011: A retirada das tropas americanas do Iraque. Disponível em: http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,retrospectiva-2011-a-retirada-das-tropas-americanas-do-iraque,813575,0.htm. Acesso em 05 de abril de 2013

Saddam Hussein had no direct ties to al-Qaida, says Pentagon study. Disponível em: http://www.guardian.co.uk/world/2008/mar/13/iraq.usa. Acesso em 31.03.2013

Saddam Hussein. Disponível em: http://www.infoescola.com/biografias/saddam-hussein/. Acesso em 31.03.2013

Saiba mais sobre a Halliburton. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u372387.shtml. Acesso em 12.04.2013

Seculares e xiitas negociam aliança para formar governo de coalizão no Iraque. Disponível em: http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,seculares-e-xiitas-negociam-alianca-para-formar-governo-de-coalizao-no-iraque,596904,0.htm Acesso em 05 de abril de 2013

Série de erros levou governo Bush a optar pela invasão. Disponível em: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,serie-de-erros-levou-governo-bush-a–optar-pela-invasao-,1009633,0.htm. Acesso em 05 de abril de 2013

Ten Years After. Disponível em: http://www.nytimes.com/2013/03/20/opinion/ten-years-after-the-iraq-war-began.html?nl=opinion&emc=edit_ty_20130320. Acesso em 31.03.2013

The Iraq War Ten Years Later. Disponível em: http://www.social-europe.eu/2013/03/the-iraq-war-ten-years-later/?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+social-europe%2FwmyH+%28Social+Europe+Journal%29&utm_content=Yahoo%21+Mail. Acesso em 31.03.2003

What America Learned in Iraq. Disponível em: http://www.nytimes.com/2013/03/20/opinion/the-silver-linings-of-iraq.html?nl=opinion&emc=edit_ty_20130320&_r=0. Acesso em 31.03.2013

 


[i] Saddam Hussein Abd al-Majid al-Tikriti, governou o Iraque de 1979 a 2003.  Em 2003 o ditador foi capturado e em 05 de novembro de 2006 foi condenado a morte por enforcamento por uma corte iraquiana, acusado de genocídio. A execução ocorreu em 30 de dezembro daquele ano, no norte de Bagdá.

[ii] Estudo oficial publicado pelo Pentágono em 2008 afirma que Saddam não teve nenhum envolvimento com a Al-Qaeda. Tal conclusão foi resultado da análise de mais de 600 mil documentos, recuperados depois que as tropas dos Estados Unidos e Reino Unido derrubaram Husseim, em 2003 (SADDAM HUSSSEIN HAD… THE GUARDIAN, 2003).

[iii] As sanções econômicas foram feitas ao governo de Saddam Husseim por infringir diversas recomendações da ONU.

[iv] As operações de statebuilding são implementadas na sequência de um conflito interno. No caso especifico do Iraque a necessidade advém de uma intervenção militar externa. O statebuilding dá ênfase à reconstrução de um Estado pós-conflito em fase de transição, designadamente no que diz respeito a sua capacidade governativa. Segundo Kowalski, “O statebuilding assenta na ideia de que a segurança e o desenvolvimento em sociedades pós-conflito dependem da existência de instituições governativas legítimas, autônomas e eficazes”.

[v] O governo de coalização foi formado para que os três grupos principais, sunitas, xiitas e curdos, pudessem ter uma representação o mais igualitária possível no novo governo.

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