Diversificar para Desenvolver: o objetivo econômico do Azerbaijão


Márcia de Paiva Fernandes

Resumo

A República do Azerbaijão, um dos países mais ricos do Cáucaso, está diante de um dilema em seu desenvolvimento econômico. O petróleo e o gás natural, duas das maiores riquezas azerbaijanas, constituem a principal fonte de renda do país, porém alguns fatores têm levado o governo a buscar investimentos em novos setores que possam diversificar a economia e tornar o Azerbaijão menos sensível às oscilações do mercado internacional, bem como capaz de promover seu desenvolvimento com base em uma economia diversificada.

Introdução

O desenvolvimento econômico do Azerbaijão sempre esteve associado à exploração de suas reservas de petróleo e também de gás natural. Representando cerca de metade do Produto Interno Bruto (PIB) do país – o qual alcançou aproximadamente 98 bilhões de dólares em 2012 – (CENTRAL INTELLIGENCE AGENCY, 2013), o setor energético é de crucial importância para a economia do Azerbaijão, pois mais de 90% das receitas de exportação são provenientes de tal setor (ESPÍRITO SANTO RESEARCH, 2012). Tendo sido considerado o vigésimo primeiro maior produtor de petróleo no mundo (KHANNA, 2008), o país utiliza a exploração de gás natural e principalmente a de petróleo para atrair investimentos estrangeiros e continuar direcionando parte da renda obtida para o desenvolvimento econômico nacional.

De meados da última década até o ano de 2010, o Azerbaijão apresentou um grande crescimento econômico que foi atribuído, principalmente, ao elevado número das exportações de petróleo (ESPÍRITO SANTO RESEARCH, 2012). Os oleodutos que passam por Baku, a capital do país, e que contornam o sul do Mar Cáspio são responsáveis pela maior parte do escoamento da produção petrolífera nacional que, por sua vez, emprega 12% da população azerbaijana, mas também muito empregados do principal destino das exportações de petróleo, a saber, o setor energético europeu. Projetos para expandir a produção de gás natural no Azerbaijão estão sendo desenvolvidos, o que contribuirá para o aumento da renda proveniente desse setor, e também terão a Europa como principal destino (CENTRAL INTELLIGENCE AGENCY, 2013; KHANNA, 2008).

Uma das maiores empresas do país, a State Oil Company of the Azerbaijan Republic (SOCAR), é responsável por todos os processos da exploração tanto do gás natural quanto do petróleo naquele país. A SOCAR possui um contrato assinado com grandes empresas petrolíferas no mundo por um prazo de 30 anos, o chamado “Contrato do Século”, sendo que tais empresas investirão 60 milhões de dólares no Azerbaijão para a exploração de petróleo e de gás natural (ESPÍRITO SANTO RESEARCH, 2012).

A busca pela diversificação

Mesmo possuindo uma vasta quantidade de reservas de petróleo e de gás natural e obtendo grande parte da renda nacional a partir da exploração destes dois recursos, alguns setores que não estão ligados à exportação cresceram no Azerbaijão nos últimos anos, com destaque para os setores imobiliário, financeiro e da construção. O crescimento de tais setores está relacionado à queda do crescimento do PIB em 2011 devido à crise econômica internacional que gerou uma grande volatilidade nos preços do petróleo, diminuindo significativamente o volume das exportações deste e de gás natural pelo Azerbaijão, tendo apresentado uma redução de 6,9% na composição do PIB. Por outro lado, outros setores aumentaram sua participação na economia nacional em 10,3%, sendo que o comércio apresentou um crescimento de 9%, a comunicação 16,7%, o transporte 2,1%, a construção 27,3% e a agricultura 6,3% (ESPÍRITO SANTO RESEARCH, 2012).

Estes setores, a princípio, estão sendo estimulados com investimentos públicos, investimentos estes que, por sua vez, encontram-se ligados diretamente à exploração de petróleo, visto que, a principal fonte de receita do governo azerbaijano vem da exportação deste recurso natural. Consequentemente, se a exportação de petróleo não aumentar, o governo terá menos recursos para direcionar para aqueles setores. Dessa forma, o poder público precisa demonstrar aos investidores estrangeiros que é seguro e atraente investir nos setores não ligados ao petróleo na economia azerbaijana (KHANNA, 2008).

Em relação ao setor de construção, por exemplo, o governo do Azerbaijão vem realizando esforços com o objetivo de privatizar tal segmento. Tais esforços contribuíram para o crescimento do referido setor e foram conduzidos em parceria com as áreas petrolíferas e de gás natural através de projetos assinados entre o governo e importantes entidades ligadas a estas áreas. Organizações internacionais, como o Banco Mundial, também estão colaborando com tal objetivo do Azerbaijão, principalmente para a construção de estradas e de infraestrutura, o que contribui para atrair mais investimentos estrangeiros, sendo que 18% destes foram destinados ao setor de construção (CIVIL?) em 2011. Baku é a cidade onde o setor imobiliário e de construção mais se expandiu, apresentando um crescimento de 37%, o que também está relacionado ao aumento do poder aquisitivo das famílias no país (ESPÍRITO SANTO RESEARCH, 2012).

Iniciativas como essa permitem aumentar a competitividade dos setores que não são ligados ao petróleo ou ao gás natural e atrair grandes empresas para o Azerbaijão que atuam no país de acordo com padrões internacionais. Tal situação colabora para que a entrada de empresas de setores diversos aumente no Azerbaijão, atraindo, cada vez mais, investimentos estrangeiros e permitindo que o país se enquadre nos modelos de investimentos internacionais através da própria atuação destas empresas (ESPÍRITO SANTO RESEARCH, 2012).

Outro setor também muito importante para o desenvolvimento econômico do Azerbaijão é o agrícola. Devido ao fato de o país possuir zonas climáticas diversas e conseguir produzir diferentes produtos a agricultura azerbaijana possui grandes chances de crescimento, sendo apta para competir cada vez mais no mercado internacional, possibilitando o aumento de sua participação nas receitas provenientes das exportações. Compondo 5,7% do PIB azerbaijano e empregando cerca de 40% da população, os principais produtos agrícolas do Azerbaijão são algodão, grãos, frutas, legumes, chá, caviar, nozes, vinho e tabaco, além de também atuar no segmento pecuário com importantes rebanhos bovinos, suínos, ovinos e caprinos. Toda essa gama de produtos não é exportada apenas para mercados regionais, tais como Irã, Turquia, Geórgia e Rússia, mas também para os mercados europeus, americanos e asiáticos (CIA INTELLIGENCE AGENCY, 2013; ESPÍRITO SANTO RESEARCH, 2012).

Tendo em vista que quase metade da população azerbaijana está empregada no setor agrícola, uma das prioridades econômicas nacionais é direcionar os investimentos para o desenvolvimento e o fortalecimento deste setor. Nesse sentido, o governo, em parceria com várias organizações, notadamente com a colaboração do Banco Mundial, está trabalhando no desenvolvimento de programas que permitam a recuperação de redes de irrigação, apoiem as atividades do setor privado na agricultura, melhorem a produtividade, aumentem o financiamento e criem centros de pesquisa exclusivos para o setor (ESPÍRITO SANTO RESEARCH, 2012).

Os setores menos desenvolvidos no Azerbaijão são aqueles que necessitam de mais tecnologia, cujos produtos são importados dos centros tecnológicos mundiais, tais como aparelhos eletrônicos, automóveis, veículos aéreos com propulsão a motor e espaciais que constam na lista dos dez produtos que mais foram importados pelo país recentemente. Nesta lista também constam produtos como medicamentos, charutos e açúcar de cana e de beterraba. Enquanto os maiores parceiros de exportação do Azerbaijão recentemente foram Itália, França, Estados Unidos, Alemanha, Indonésia e República Tcheca, os de importação foram Turquia, Rússia, China, Alemanha, Reino Unido, Ucrânia e Itália, em ordem decrescente do volume das transações efetuadas (ESPÍRITO SANTO RESEARCH, 2012).

Com a crise que afetou a Zona do Euro, o Azerbaijão buscou oportunidades de aumentar seus investimentos no continente, o que contribui com a diversificação de sua renda e aumenta seu escopo de atuação. Como exemplo, o país manifestou seu interesse em participar dos processos de privatização que ocorrem em Portugal, uma vez que o governo apoia a participação de investidores locais em negócios estrangeiros, já que tal empreitada pode contribuir para a atração de investimentos para a própria economia azerbaijana. O Ministério de Desenvolvimento Econômico do Azerbaijão participa ativamente de tal processo, fornecendo informações importantes aos investidores azerbaijanos e acredita que a participação bem sucedida do país em projetos internacionais voltados para o setor de energia e de transportes é um bom indicador de seu potencial econômico (RIBEIRO, 2012).

Considerações Finais

O desenvolvimento econômico do Azerbaijão ainda está fortemente ligado à exploração de gás natural e de petróleo, principalmente, tendo em vista que tal setor já se encontra bem desenvolvido no país e possui um grande mercado consumidor. Porém, a grande dependência azerbaijana da receita proveniente destes recursos naturais demonstrou que é necessário diversificar a economia a fim de não ser tão sensível às oscilações dos preços destes produtos no mercado internacional.

Desse modo, atualmente o grande objetivo do governo é promover o desenvolvimento econômico nacional também através de setores que não estão ligados à exportação de petróleo e de gás natural. Para tanto, é necessário demonstrar aos investidores estrangeiros as vantagens de investir nos referidos setores, para que, desse modo, o governo possa equilibrar seus investimentos nos múltiplos segmentos econômicos nacionais. Eliminar a imagem de uma administração corrupta ou de dependência devido ao fato de ter pertencido à União Soviética também contribui fortemente para tal objetivo.

A busca pela diversificação econômica no Azerbaijão faz-se, portanto, necessária para o alcance de um maior desenvolvimento econômico no país ao permitir que atue em múltiplos setores, atendendo a vários tipos de mercado consumidor e aumentando o número de seus parceiros comerciais, além de contribuir para a entrada de empresas e de investidores estrangeiros. Além de gerar ganhos no mercado internacional, o desenvolvimento econômico também produz ganhos internos, uma vez que o número de empregos deverá aumentar, elevando o poder aquisitivo e o bem-estar da população azerbaijana.

As estratégias até agora conduzidas pelo governo em busca da referida diversificação econômica estão apresentando resultados graduais que, a médio e longo prazo, permitirão aumentar o desenvolvimento econômico do Azerbaijão e atenderão às suas principais necessidades econômicas. Desse modo, é possível afirmar que o desenvolvimento econômico do Azerbaijão está sendo conduzido no rumo certo em parceria com o setor de exportação de petróleo e de gás natural e com o uso dos recursos provenientes de tal exportação na promoção da imagem e do crescimento dos setores não relacionados aos recursos energéticos.

REFERÊNCIAS

CIA INTELLIGENCE AGENCY. The World Factbook, 2013. Disponível em: <https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/geos/aj.html>. Acesso em: 27 mar. 2013.

ESPÍRITO SANTO RESEARCH. Azerbaijão, 2012. Disponível em: <http://www.bes.pt/sitebes/cms.aspx?plg=d9e6e00f-816e-4d00-90b5-9afa14ddabed>. Acesso em: 27 mar. 2013.

KHANNA, Parag. O Corredor Caucasiano. . In: KHANNA, Parag. O Segundo Mundo: impérios e influência na nova ordem global. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2008. Cap. 6, p. 87-101.

RIBEIRO, Eudora. Azerbaijão atento às privatizações portuguesas. Económico, 2012. Disponível em: <http://economico.sapo.pt/noticias/azerbaijao-atento-as-privatizacoes-portuguesas_149508.html>. Acesso em: 27 mar. 2013

 

 

 

 

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