Principais Desafios da Primeira Presidente Sul-coreana

João Paulo Pereira Costa

Resumo

No dia 25 de fevereiro de 2013, a primeira presidente da Coreia do Sul, Park Geun-Hye, foi eleita e garantiu manter a segurança de seu povo quanto às provocações da vizinha Coreia do Norte. Segundo compromisso, estabeleceu tolerância zero quanto às ações norte-coreanas em relação às suas ambições nucleares, que põem em risco a vida dos sul-coreanos, além de se defrontar com o desafio do declínio econômico vivido no país nos últimos anos. Dessa forma, o presente artigo busca estabelecer uma análise acerca dos desafios a serem enfrentados tanto na política quanto na economia sul-coreanas. Pretende-se, também, enfocar as relações intercoreanas no que se refere às suas desavenças políticas e o impacto destas no sistema internacional, analisando até que ponto tais divergências podem vir a se tornar uma questão de segurança internacional.

Breve histórico

Park Chung-Hee, pai de Park Geun-Hye e impetuoso ditador, comandou a Coreia do Sul durante quase vinte anos, entre 1961 e 1979, ano em que foi assassinado pelo seu chefe de espionagem. Quando se estabeleceu no poder após um golpe de Estado[i], Chung-Hee governou a Coreia do Sul com mãos de ferro e limitou liberdades de expressão e imprensa, além de perseguir e torturar opositores ao seu governo. Apesar da concepção negativa acerca do seu legado, é considerado uma personalidade política de destaque na história recente da Coreia do Sul, uma vez que suas ações foram apontadas como um mal necessário para o desenvolvimento econômico daquele país, que tão somente foi avaliado como positivo após a democratização do país no final da década de 1980 e começo dos anos 1990, durante a presidência de Kim Young Sam (1993-1998) (ARMSTRONG, 2011).

Deste modo que, atualmente, o papel de Park Geun-Hye na política pode ser visto como fruto das funções desempenhadas por ela durante o mandato de seu pai, em consequência do assassinato de sua mãe por um cidadão norte-coreano em 1974, quando passou a exercer o papel de primeira-dama (FILHA DE DITADOR SUL-COREANO…,2012). O seu efetivo engajamento na vida política sul-coreana, no entanto, iniciou-se em 1998 quando foi eleita para servir durante cinco anos como representante na Assembleia Nacional da Coreia do Sul[ii]. Em sua primeira disputa eleitoral, em 2007, Geun-Hye concorreu pelo partido conservador e perdeu as eleições. Em 2012, quando se elegeu pelo mesmo partido, ganhou por uma pequena porcentagem de votos, fruto do apoio de um eleitorado conservador e de idosos, o que é explicável em um país com uma população majoritariamente envelhecida (SOUTH KOREA’S PARK…, 2012).

Dificuldades políticas e econômicas

A presidente sul-coreana, Geun-Hye tem o desafio de representar a quarta maior economia da Ásia, que, apesar disto, tem sido caracterizada por apresentar um baixo crescimento econômico nos últimos anos, além de ter que enfrentar também eventuais impasses envolvendo a Coreia do Norte, como o teste nuclear realizado no dia 12 de fevereiro deste ano, dois dias após ter assumido o cargo. Diante desta conjuntura a governante definiu como prioridades o combate à estagnação da economia nacional e a oposição às ações do governo comunista que põe em xeque a sobrevivência do seu povo (BACK TO THE BLUE HOUSE…, 2013). Esta última prioridade leva em consideração o discurso belicoso e as ações militares do atual líder comunista e o impacto destes sobre a sociedade internacional, traduzindo esta ação numa questão de segurança internacional.

Essa questão de segurança pode ser percebida tanto no discurso proferido na posse de Park quanto no anúncio feito pela Coreia do Norte no dia 08 de março passado, menos de um mês da posse da atual líder sul-coreana. Segundo a presidente: “Não tolerarei nenhuma ação que ameace as vidas de nosso povo e a segurança de nossa nação” (PRIMEIRA MULHER ASSUME…, 2013). Diante dessa situação, a declaração dos norte-coreanos colocando fim aos acordos de não agressão[iii] e as ameaças dos mesmos fizeram com que sanções fossem unanimemente aprovadas pelo Conselho de Segurança da ONU. Tais sanções impostas são produto das ameaças do líder norte-coreano, Kim Jong-Un, de ataques nucleares preventivos contra Washington e Seul, além do Japão que é considerado um relevante alvo político do país (SANG-HUN e GLADSTONE, 2013 apud MIGLIACCI, 2013).

Quanto às ameaças de ataque norte-coreano aos estadunidenses, este discurso é relevante no que se refere à questão da segurança, uma vez que falar de segurança é necessariamente falar de discurso. Sendo assim, o papel dos Estados Unidos como uma potência nuclear mundial o torna capaz de agir no sistema internacional como um securitizing actor, ou seja, aquele que indica o que está sendo ameaçado. Além da capacidade norte-americana em realizar discursos persuasivos que fazem com que uma determinada questão de segurança, antes não tida como tal, seja legitimada pelos outros países (BUZAN; WEAVER; WILDE,1998).

De acordo com os três elementos levantados por Buzan, Weaver e Wilde (1998) para a classificação de uma questão de segurança, uma situação é considerada como tal quando leva: à uma ameaça existencial, à uma situação de emergência e à possibilidade de quebra de regras. O primeiro caso diz respeito à ameaça colocada aos sul-coreanos, visto que o possível ataque nuclear preventivo iria colocar em risco a sobrevivência dos cidadãos daquele país. O segundo enfatiza a segurança como prioridade política no governo de Park, uma vez que as pressões norte-coreanas fazem com que a líder ressalte e destaque formas de poder fungíveis contra tais ameaças de Kim Joung-Un. O terceiro elemento possibilita, em última instância, a quebra de regras[iv], colocando a salvo a existência de quem está sendo ameaçado, ou seja, da população sul-coreana (BUZAN; WÆVER; WILDE, 1998). Assim, compreendida a resposta da Coreia do Sul à ameaça de Pionguiangue[v], a mesma expressa tal repulsa pelos atos norte-coreanos e indica que, se um ataque nuclear fosse efetivamente realizado contra algum dos países ameaçados, a própria Coreia do Norte seria direta e brutalmente afetada pela imediata retaliação dos seus inimigos (EURONEWS, 2013).

Sendo assim, é mister ressaltar a importância da manutenção da segurança internacional, uma vez que, em um ambiente de insegurança, devido à atuação da Coreia do Norte envolvendo atividades nuclear, os países no sistema internacional reafirmam a relevância da estabilidade na região asiática (COREIA DO NORTE DESAFIA…, 2013; EUA VEEM “SÉRIA AMEAÇA”…, 2013). Desse modo, a aplicação de sanções pelo Conselho de Segurança da ONU é uma forma de manifestar o receio dos Estados diante das ações e declarações hostis da Coreia do Norte (COREIA DO NORTE REJEITA…, 2013).

Do ponto de vista econômico, apesar da percepção errônea a respeito do sucesso sul-coreano, o país é marcado por uma significante desigualdade econômica – “envelhecimento da população, perda de competitividade, declínio do mercado interno, declínio na construção civil, uma estrutura produtiva cara, comparada com outros países asiáticos, e um grande endividamento público.” (MORI, 2013). É neste contexto que, durante seus cinco anos de governo, a nova presidente sul-coreana, terá de desempenhar seu papel político. Tal cenário foi agudizado pela crise econômica mundial de 2008[vi], que provocou uma desaceleração no crescimento sul-coreano. Dessa maneira, Geun-Hye terá como desafio consumar, tal como seu pai Park Chung-Hee havia realizado antes, um segundo “milagre do rio Han”[vii] (PARK GAUN-HYE TOMA…, 2013).

Outra meta estabelecida é a execução de um plano que visa à “democratização econômica”, isto é, redução das desigualdades sociais e garantia de igualdade de oportunidades, a fim de ampliar a classe média e beneficiar empresas de pequeno e médio porte diante das grandes corporações, no propósito de também torná-las competitivas no comércio internacional (CONSERVADORA TOMA POSSE…, 2013). Assim sendo, o nacionalismo econômico sul-coreano tem o papel fundamental de, a partir da intervenção estatal, estabelecer regras e normas para que o sistema financeiro seja regulado e que as companhias que atuam tanto no cenário doméstico quanto no internacional obtenham um grau de competitividade capaz de reverter a atual realidade econômica, além da inclusão de mais indivíduos no mercado.

Considerações Finais

Diante do entusiasmo observado atualmente na Coreia do Sul, mesmo tendo ciência da desigualdade de gênero[viii] na mesma, a figura feminina de Park Geun-Hye, primeira mulher a assumir o mais alto cargo do governo sul-coreano, parece despertar um otimismo que há muito tempo não era visto na população. É a partir deste mesmo otimismo que Geu-Hye prometeu e já declarou dar respostas aos problemas existentes entre as duas Coreias, mesmo tendo ciência de que eventuais ameaças podem ser vistas apenas como uma capacidade da Coreia do Norte em criar manchetes, visto que esta não possui potencial econômico para desenvolver armamentos de tamanho potencial. Por outro lado, a real existência da questão da segurança manifestada pelos sul-coreanos desde a Guerra das Coreias se perpetua até os dias atuais.

O mesmo entusiasmo é visto no aspecto econômico, sendo acalentado pelas propostas de reestruturação das relações de mercado e de inclusão social, numa sociedade caracterizada fundamentalmente pela desigualdade. É dessa maneira que Geun-Hye é considerada como a continuadora do trabalho de seu pai e das ações atribuídas a ele, levando a população da Coreia do Sul ansiar pelo seu governo.

REFERÊNCIAS

ARMSTRONG, Charles K. The Man Who Made Modern Korea.Global Asia.East Asia Foundation.Seul, 2011. Disponível em: <http://www.globalasia.org/V6N4_Winter_2011/Charles_K_Armstrong.html?PHPSESSID=17d1779923b6da5b20ac5a9c73e5811d>. Acesso em 03 mar. 2013.

BACK to the Blue House.Economist, 2013. Disponível em: <http://www.economist.com/blogs/banyan/2013/02/south-koreas-new-president>. Acesso em: 02 mar. 2013.

BOBBIO, Norberto; MATTEUCI, Nicolas; PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de política. 12. ed. Brasília: UNB, 2004.

BUZAN, Barry; WAEVER, Ole; WILDE, de Jaap.Security: a new framework for analysis. Colorado: Lynne Rienner Publishers, 1998.

COREIA do Norte cancela pacto de não-agressão com Seul. Euro News, 2013. Disponível em: <http://pt.euronews.com/2013/03/08/coreia-do-norte-cancela-pacto-de-nao-agressao-com-seul/>. Acesso em: 13 mar. 2013.

COREIA do Sul exige que norte abandone ambições nucleares. Exame, 2013. Disponível em: <http://exame.abril.com.br/mundo/noticias/coreia-do-sul-exige-que-norte-abandone-ambicoes-nucleares>. Acesso em: 02 mar. 2013.

FILHA de  ditador sul-coreano pede desculpas por atos do pai. VEJA, 2012. Disponível em: <http://veja.abril.com.br/noticia/internacional/filha-de-ditador-sul-corano-pede-desculpas-por-atos-do-pai>. Acesso em 02 mar. 2013.

MORI, Tomi. COREIA do Sul: o tigre patina. Coreia do Sul: o tigre patina. Esquerda, 2013. Disponível em: <http://www.esquerda.net/artigo/coreia-do-sul-o-tigre-atina/26368>. Acessoem: 03 mar. 2013

PRIMEIRA mulher assume presidência da Coreia do Sul. Carta Capital, 2013. Disponível em: <http://www.cartacapital.com.br/politica/primeira-mulher-assume-presidencia-da-coreia-do-sul/>. Acesso em: 02 mar. 2013.

PROFILE of president Park Geun-Hye.Korea, 2013. Disponível em: http://www.korea.net/Government/Administration/President-Park-Geun-hye. Acesso em: 02 mar. 2013.

PARK Geun-Hye becomes South Korea’s first female president. CNN, 2013. Disponível em: http://edition.cnn.com/2013/02/24/world/asia/south-korea-female-president. Acessoem: 02 mar. 2013.

PARK Geun-Hye: South Korea’s president-elect with history.Channel News Asia, 2013. Disponível em: <http://www.channelnewsasia.com/stories/afp_asiapacific/view/1243724/1/.html>. Acesso em: 03 mar. 2013.

PROFILE: South Korea’s Park Geun-hye.Aljazeera,2012. Disponível em:<http://www.aljazeera.com/news/asia-pacific/2012/12/2012121971544876848.html>. Acessoem: 03 mar. 2013.

SHADBOLT, Peter.South Korea’s president-elect faces tough challenges. CNN, 2013. Disponível em: http://edition.cnn.com/2013/02/22/world/asia/south-korea-park-inauguration/index.html?iref=allsearch. Acesso em: 03 mar. 2013.

SIZA, Rita. Presidente sul-coreana avisa Pyonyang de que não vai “tolerar” novos ensaios nucleares. Publico, 2013. Disponível em: <http://www.publico.pt/mundo/noticia/park-geunhye-alerta-para-o-perigo-dos-testes-nucleares-de-pyonyang-para-o-futuro-do-povo-coreano-1585682>. Acessoem: 02 mar. 2013.

WILLIAMSON, Lucy. Anxiety in South as N Korea rhetoric escalates. BBC,  2013. Disponível em: http://www.bbc.co.uk/news/world-asia-21738115. Acesso em: 13 mar. 2013.


[i]Consultar Dicionário de Políticade Norberto Bobbio na página 545 através do link: <http://pt.scribd.com/doc/23439680/DICIONARIO-DE-POLITICA-NORBERTO-BOBBIO&gt;

[ii]Localizada na capital, Seul, a Assembleia Nacional da Coreia do Sul é unicameral e é constituída de 299 membros, sendo que 245 são eleitos pelo voto regional e os outros 54 são alocados pelos votos proporcionais.

[iii]Um pacto firmado em 1991 fixava que os dois países iriam procurar soluções pacíficas para as disputas e iriam evitar conflitos acidentais (NOBLAT, 2013).

[iv]Sejam instituições, direito internacional, etc. Uma regra não pode prever sua excessão. A partir do momento que a regra prevê sua própria excessão, aquela excessão que está prevista em regra, imediatamente deixa de ser excessão e passa a ser parte da regra.

[v] Capital e maior cidade da Coreia do Norte.

[vii]This “miracle on the river Han” is commonly attributed to Park’s policies, although South Korea’s economic success did not gain the world’s attention until the 1980s, during the rule of Park’s successor Chun Doo Hwan (who, by contrast, is usually considered the least popular former president) (ARMSTRONG, 2011). The phrase ‘Miracle on the Han River’ has become part of the development history of South Korea. It refers to the period of highly accelerated economic growth from the ashes of the Korean War to the world’s 13th largest economy, something considered to be impossible by many at the time (PARK, 2011).

[viii]Segundo o Fórum Econômico Mundial (WEF) a Coreia do Sul aparece em 108º lugarno ranking global de desigualdades de gênero.

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2 respostas para Principais Desafios da Primeira Presidente Sul-coreana

  1. Sheila disse:

    Excelente análise, parabéns. Gostaria de contatar-me de modo mais ‘direto’ com o grupo. Existe algum e-mail disponível da Conjuntura para darmos continuidade ao diálogo?
    Obg.

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