O Toque Feminino Na Reconstrução De Ruanda Pós-Genocídio

Eliza Fiuza Ferreira Costa

Resumo

O genocídio em Ruanda, ocorrido em 1994, não foi o único caso de massacre na África, mas de certa forma pode ser considerado uma matança verdadeiramente inédita no continente, uma vez que fora destinada a liquidar milhares de pessoas que compartilhavam uma determinada e específica identidade – a etnia Tutsi (COOPER, 2002). A grande repercussão internacional que o incidente adquiriu na época pode ter origem, dentre outras precedências, na carnificina perpetrada durante o conflito que resultou na morte de cerca de um milhão de ruandeses e em uma situação de caos e miséria que permaneceu no país no período que sucedeu esta guerra civil. Atualmente, devido às numerosas mortes da população ruandesa masculina em consequência do conflito, as mulheres assumiram o compromisso de reerguer e reconstruir o país.

Breve Histórico

Inicialmente, pode-se considerar por genocídio um ato intencional – e nunca espontâneo – que promove assassinatos múltiplos, cujo objetivo é a destruição de um grupo específico vitimado. Os responsáveis por esses atos não respeitam aspectos como a idade e o gênero de suas vítimas, visando apenas o aniquilamento das mesmas (RWANDA, 2012). Para se entender o genocídio de 1994 deve-se recorrer à história da região.

Assim como ocorreu em todo o continente africano, a região onde atualmente encontra-se Ruanda apresentava uma ampla quantidade de etnias. Diante dessa diversidade étnica, destacavam-se na região dois grandes grupos: os Tutsis e os Hutus. Por séculos, o território que corresponde atualmente a Ruanda foi governado por uma monarquia na qual os reis pertenciam à etnia Tutsi, perdurando no poder por várias gerações, apesar de os Tutsis serem minoria se comparados à população Hutu. O rei Tutsi governava todas as etnias e o convívio entre as mesmas era de relativa harmonia.

O processo de industrialização na Europa, que teve início no século XVIII com a Revolução Industrial na Inglaterra, tornou necessária a busca de novas fontes de matérias-primas para abastecer o mercado europeu. Dessa forma, durante o século XIX, as potências industriais europeias se lançaram em uma corrida imperialista, estabelecendo colônias nos continentes asiático e africano, processo que ficou conhecido como neocolonialismo. Em 1899, em função deste imperialismo[i] europeu, Ruanda se tornou colônia da Alemanha. Após a Primeira Guerra Mundial, com a derrota dessa última, o mandatário da região passou a ser a Bélgica por decisão da Liga das Nações[ii]. Ruanda, então, teve seu território anexado a Burundi. Em 1962, houve a separação de Ruanda e de Burundi e ambos tornaram-se Estados independentes.

No período em que Ruanda esteve sob o controle belga, a etnia Tutsi, apesar de ser minoria, foi escolhida para governar.  Os Hutus sentiram-se discriminados por representar a maioria da população do país e por, de certa forma, serem excluídos dos processos político e socioeconômico, passando então a liderar uma série de revoltas que culminaram na ascensão da etnia Hutu ao poder em 1959. A partir de então, os Tutsis e Hutus moderados passaram a ser perseguidos e massacrados. (RWANDA, 2012). Centenas deles morreram e cerca de dois milhões foram mandados para o exílio[iii].

Apesar da Constituição ruandesa elaborada em 1962, com maior participação belga que ruandesa, prever um sistema multipartidário que garantisse direitos políticos e humanos a todos (RWANDA, 1962), o que se viu, na prática, foi substancialmente diferente desse ideal de igualdade e de harmonia. Os conflitos que, anteriormente ao processo de neocolonialismo eram ocasionais, acentuaram-se e acabaram resultando em uma rivalidade étnica vigorosa. A contenda entre as duas principais etnias de Ruanda se tornou tão intensa que as duas primeiras repúblicas instituídas no país institucionalizaram a discriminação contra os Tutsis e os submeteram a massacres periódicos.

Em 1979, a Aliança Ruandesa para a Unidade Nacional foi formada por refugiados ruandeses que estavam no exílio. Sua mobilização tinha como alvo as políticas segregacionistas e discriminatórias, a ideologia genocida, a impotência do Estado, os massacres e a falta de uma política pacificadora efetiva na Ruanda da época, governada pela etnia Hutu. Em 1987, a Aliança Ruandesa para a Unidade Nacional se transformou na Frente Patriótica Ruandesa, iniciando em 1990 uma luta armada que visava à libertação do país do controle dos Hutus.

Teve início, então, a um conflito armado que cresceu e ganhou grandes proporções rapidamente, reforçando o genocídio que, no caso de Ruanda, materializou-se em uma violência generalizada, conduzido tanto por Hutus quanto por Tutsis, atingindo toda a população ruandesa e responsável por matar cerca de um milhão de pessoas, cuja maioria pertencia à etnia Tutsi, mas que também perseguiu Hutus contrários ao massacre (RWANDA, 2012).

Liderança feminina na reconstrução de Ruanda

Tem-se o século XIX como a origem das primeiras manifestações do movimento feminista. Tal movimento social, cujo objetivo é a ampliação dos direitos da mulher, tem sido fortalecido, principalmente na atualidade, pelas conquistas obtidas pelas mulheres nas sociedades modernas. Apesar dos diferentes graus de aceitação e incorporação de tais mudanças por diferentes sociedades, elas são significantes. Percebem-se alterações no papel desempenhado pelas mulheres na vida política, econômica e social dos grupos nos quais vivem, além do estabelecimento de novas relações, funções e atividades exercidas pelas mesmas.

Em Ruanda a situação não é diferente. A luta pelos direitos das mulheres contou com uma força não tão comum às demais sociedades, o genocídio, garantindo que elas se tornassem cruciais para a reconstrução do país. Após o genocídio de 1994, responsável por ter dizimado milhares de homens, recaiu sobre as mulheres a responsabilidade de assumir a tarefa de reerguer o país. Após o extermínio, elas passaram a compor cerca de setenta por cento da população e, desde então, passaram a liderar a reconstrução de Ruanda.

Não tem sido fácil a luta por maior participação da mulher nas sociedades de forma geral, mas principalmente nas africanas por terem um forte cunho tradicional, reforçando os papéis clássicos das mesmas (atividades domésticas e ligadas ao campo). O preconceito imbuído no corpo social é forte e difícil de ser rompido.

Atualmente em Ruanda, as mulheres permanecem sendo vítimas da violência doméstica, mas significativas mudanças já podem ser percebidas. O país conta com a presença de organizações não governamentais cujo objetivo é garantir maior autonomia feminina e que seus direitos das mulheres sejam assegurados. A Rwanda Women’s Network é um exemplo disso. Trata-se de uma organização não governamental que se dedica à promoção e à melhoria das condições sociais e econômicas das ruandesas, dedicando-se a obtenção de ganhos estratégicos naquilo que se refere à manutenção da participação das mulheres nas atividades sociais, subsidiando-as a desempenhar novas funções, mesmo diante da resistência das comunidades nas quais vivem.

Além disso, as taxas de crianças do sexo feminino nas escolas cresceram consideravelmente, as mulheres passaram a ter o direito de possuir terras e propriedades e métodos contraceptivos passaram a ser largamente disponíveis e utilizados por elas. O engajamento na luta pelos direitos femininos em Ruanda também conta com a ajuda da ONU Mulheres, instituição criada por aquela organização, consistindo em uma nova agência global que atua em prol de mulheres e meninas, ajudando a promover o papel das mesmas no continente africano e em todo o mundo:

A ONU Mulheres trabalha com as premissas fundamentais de que as mulheres e meninas ao redor do mundo têm o direito a uma vida livre de discriminação, violência e pobreza, e de que a igualdade de gênero é um requisito central para se alcançar o desenvolvimento (ONU, 2013).

Considerações Finais     

Tal engajamento na formação de uma nova e feminina liderança em Ruanda pode ser vista como materializada na Constituição elaborada após o genocídio. A mesma garante que trinta por cento dos congressistas sejam do sexo feminino, determinando também que haja igualdade de gênero em relação a questões como educação e economia. Apesar das dificuldades impostas a essas mulheres, como o preconceito, a violência e as dificuldades apresentadas por um país destruído pela guerra civil, elas estão conduzindo bem tal processo, buscando o desenvolvimento da região e a fundação de uma nação cada vez mais estável, como se pode ver no relativo crescimento econômico do país quando comparado com períodos anteriores.

Atualmente, cerca de cinquenta e seis por cento dos parlamentares de Ruanda são mulheres, a maior taxa de parlamentares do sexo feminino do mundo, o que mostra que elas podem sim assumir altos postos no governo e conduzir a recuperação do seu país. Vitórias essas que também podem ser verificadas em outras partes do mundo, como no Brasil e na Coreia do Sul, que já têm suas primeiras presidentes.

Ruanda se tornou um exemplo, tanto para a África como os demais continentes, na luta pela igualdade de gênero e na participação feminina nos processos políticos (BOSELEY, 2010). As ruandesas resolveram abrir mão de suas tradicionais ocupações domésticas, passaram a ser verdadeiras tomadoras de decisão e partiram para liderar e escrever a história de seu país, lutando para deixar sua marca e garantir que serão donas de seus próprios destinos.

REFERÊNCIAS  

BOSELEY, Sarah. Rwanda: A revolution in rights for women. The guardian. 2010. Disponível em: <http://www.guardian.co.uk/world/2010/may/28/womens-rights-rwanda>. Acesso em 20 mar. 2013.

COOPER, Frederick. Africa since 1940. New York: Cambridge University Press, 2002.

ONU. ONU Mulheres. 2012. Disponível em: <http://www.onu.org.br/onu-no-brasil/onu-mulheres/&gt;. Acesso em: 27 fev. 2013.

ONU PROMOVE PAPEL da mulher na sociedade africana. Voz da América. 2013. Disponível em: <http://www.voaportugues.com/content/article/1581528.html>. Acesso em: 27 fev. 2013.

OUTHWAITE, William. Dicionário do pensamento social do século XX. 1. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996.

RWANDA. Constitution de La République Rwandaise. 1.ed. Kigali: l’Imprimerie du Rwanda, 1962.

RWANDA. Government of the Republic of Rwanda. Genocide. 2012. Disponível em: <http://www.gov.rw/Genocide?lang=en>. Acesso em: 27 fev. 2013.

RWANDA. Government of the Republic of Rwanda. History. 2012. Disponível em: <http://www.gov.rw/History?lang=en>. Acesso em 27 fev. 2013.

RWANDA. Rwanda Women’s Network. Disponível em: <http://www.rwandawomennetwork.org/>. Acesso em 20 mar. 2013.

SKARLATOS, Theopi. Mulheres lideram reconstrução de Ruanda pós-genocídio. BBC Ruanda, Kigali. 2012. Disponível em: <http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/12/121227_mulheres_ruanda_pai.shtml>. Acesso em: 27 fev. 2013.


[i]  Por Imperialismo considera-se: “O imperialismo foi, assim, concebido como ‘a expressão política da acumulação de capital em sua luta competitiva pelo que ainda resta disponível no meio ambiente não-capitalista’”. (LUXEMBURGO, 1913. apud OUTHWAITE, 1996, pg. 337).

[ii]  Liga das Nações foi uma organização internacional criada em 1919, após o fim da Primeira Guerra Mundial, com a finalidade de preservar a paz e resolver de forma pacífica conflitos internacionais.

[iii]  Exílio político.

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Uma resposta para O Toque Feminino Na Reconstrução De Ruanda Pós-Genocídio

  1. Bárbara Cavalcante disse:

    Muito bom esse texto! A autora está de parabéns!

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