Acordo Econômico entre EUA e UE: O Plano Marshall do século XXI?

Emilene Kareline Marciano dos Santos

Resumo

Após 20 anos de conversações, Estados Unidos (EUA) e União Europeia (UE) sinalizaram que um acordo de cooperação econômica entre eles está cada vez mais perto de acontecer. As partes estimam que no prazo entre dezoito e vinte e quatro meses já existam condições para que um texto final seja assinado.Se esta intenção for efetivada, norte-americanos e europeus irão controlar, juntos, metade da produção econômica do mundo e um terço das transações comerciais internacionais realizadas, tornando-se a maior aliança de livre comércio do globo. Diante do avanço das negociações desse acordo entre EUA e UE, devemos considerar a influência que outros atores poderão ter no processo. 

Introdução

No ano de 2008, o mundo foi acometido por uma grave crise do mercado financeiro. A desventura iniciada pela compra de ativos de crédito[i] imobiliário nos EUA estendeu-se pelo globo através das relações de interdependência comercial. Sendo assim, quando os devedores viram-se incapazes de pagar seus empréstimos, a bolha do crédito imobiliário estourou, e todos os envolvidos experimentaram os efeitos da derrocada financeira.

Estados Unidos e União Europeia estão entre aqueles atores que se encontram em dificuldade diante dessa nova conjuntura financeira. Na tentativa de conter os impactos da crise de 2008, os governos injetaram dinheiro para salvar bancos privados e “acabaram comprando o problema para si” (ENTENDA…, 2011), e, a partir de então, iniciou-se a crise atual, chamada de “crise da dívida”. Como consequência, muitos Estados viram suas moedas desvalorizarem-se, suas dívidas públicas aumentarem, e então surgir a desconfiança sobre a capacidade de honrar seus compromissos junto aos credores. Medidas de austeridade[ii] foram propostas pelo FMI (Fundo Monetário Internacional) e pelo BCE (Banco Central Europeu), e a população de países como Portugal, Grécia e Espanha tem vivido os desdobramentos da crise de 2008 de maneira pesada (SALVAR O EURO…, 2011).

Nos últimos dias vimos os esforços dos EUA e UE para resolverem os problemas da atual conjuntura econômica. Mas, embora a proposta de um acordo entre as partes citadas esteja apenas no domínio discursivo, especialistas tem afirmado que a parceria entre Estados Unidos e União Europeia poderá aumentar o crescimento econômico de ambos, e também levar à redução de preços nos seus mercados internos. Contudo, acredita-se que venham a surgir dificuldades nas negociações acerca de setores protegidos da agricultura e da indústria, pois esbarram nas políticas domésticas de subsídios[iii] (OBAMA…, 2013). Estas últimas são, inclusive, motivo de controvérsias nas negociações[iv] da Organização Mundial do Comércio.

Para além do contexto da crise econômica, estudiosos tendem a considerar que a implantação de uma zona de livre comércio entre EUA e UE tem também como objetivo o fortalecimento das partes frente à concorrência chinesa no mercado mundial (OBAMA…, 2013). A China emerge no cenário internacional como um Estado que tem se destacado no âmbito do comércio internacional. Este país apresenta um PIB (Produto Interno Bruto)[v] elevado e em constante crescimento, e consolida-se na região asiática por meio de acordos comerciais. No último ano, o produto interno bruto chinês superou, sozinho, o da União Europeia (PIB CHINÊS…, 2012).

Nossa habilidade de estabelecer padrões decisivos deve determinar nosso sucesso econômico. […] se nós não o fizermos, outros no mundo o farão, seguindo suas condições de trabalho e produção, as quais são, em alguns casos, bastante diferentes de nossos próprios valores” (MERKEL…, 2013).

Essa fala da chanceler alemã Angela Merkel parece corroborar o entendimento dos especialistas a respeito da relação que possa haver entre o acordo econômico e a China.

 OMC

Por serem partes que desenvolvem atividades comerciais junto a inúmeros Estados, e tem como objetivo estabelecer novos padrões globais de comércio, como ficou claro na fala de Merkel, EUA e UE abrirão, neste sentido, concorrência às discussões de regulações comerciais da Organização Mundial do Comércio.

Pensando em termos de oligopólios comerciais, podemos considerar que a OMC ficaria marginalizada num possível cenário de acordo entre estadunidenses e europeus. Tal organismo internacional tem por objetivo regulamentar o comércio mundial através de normativas que orientem os países em suas políticas para o setor. (OMC, 2013). Porém, quando há a expectativa de que os atores detentores de metade do fluxo econômico mundial fechem uma parceria entre si, é plausível considerarmos um possível esvaziamento da instituição.

A Organização Mundial do Comércio tem suas raízes no pós-guerra, em 1947, com a criação do Acordo Geral de Tarifas e Comércio, o GATT. E este, bem como o Plano Marshall, como veremos a seguir, foi um regime estabelecido em um momento de crise. Crise que, apesar de ter causa e natureza diferentes da crise atual, se assemelha a ela no que tange ao seu desenvolvimento não apenas no campo da economia, mas também nos campos social e político.

 O Plano Marshall

Ao término da Segunda Guerra Mundial os Estados Unidos e a Europa uniram-se para reestruturar a economia europeia que se encontrava fragilizada em função dos anos de conflito. A saída foi a implantação de um plano que consistia na injeção de recursos financeiros norte-americanos no continente europeu ocidental, com vistas à retomada do crescimento econômico daquela região. Isso porque os EUA precisavam assegurar um fluxo de trocas equilibradas com Europa e o retorno aos antigos fluxos comerciais intraeuropeus. Para isto, era necessário primeiro possibilitar a recuperação econômica da Europa Ocidental, visto que, tal façanha seria muito difícil sem ajuda norte-americana. Por outro lado, era igualmente importante conter aquele que se tornara a nova ameaça ideológica ao liberalismo: o comunismo soviético. Dessa forma, a URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) parou de receber ajuda estadunidense no pós-guerra e os recursos partiram prioritariamente para a Europa ocidental.

Nessa conjuntura, no ano de 1947, nasceu o Plano Marshall. Nesse período até mesmo o continente americano ficou à margem da ajuda dos EUA. “O interesse norte-americano agora estava voltado para a Europa que se reconstruía, tornando-se palco da disputa pela hegemonia mundial”. (VIZENTINI, 2004, p. 21). E o resultado foi o esperado: o crescimento econômico europeu ocorreu por meio dos ideais liberais difundidos através das políticas econômicas, barrando o avanço do comunismo na Europa ocidental.

Considerações Finais: O Século XX no Século XXI

Não há hoje uma situação de guerra, mas o mundo tem experimentado mais uma crise da economia. Continuamos a ter Estados Unidos e Europa como principais agentes econômicos e, por isso, as atenções voltam-se tanto para eles.

Os objetivos do Plano Marshall eram dois, talvez não com mesma prioridade: reerguimento econômico e contenção do comunismo. Feitos os levantamentos acima sobre a atual discussão de um acordo entre EUA e UE, podemos dizer que tal aliança pode ser vista como um novo Plano Marshall. Mas, desta vez, o que se pretende é o reerguimento econômico e financeiro da UE, e a contenção comercial e, até certo ponto, ideológica (em concordância com a fala de Angela Merkel) da China, salvas as proporções destas considerações hoje e nas futuras negociações. O Acordo entre estadunidenses e europeus caminha, também, no sentido da estabilização de suas economias, bem como o que fora feito no Plano Marshall.

A questão ainda é a mesma, e encontram razão aqueles que reafirmam a história cíclica do capitalismo: as crises são recorrentes e o recurso é, inevitavelmente, reforçar os pressupostos ideológicos do sistema (ora ortodoxos[vi], ora heterodoxos[vii]), e evitar que valores diferentes ocupem os espaços que podem aparecer e se tornar palco de disputa (não pensada em termos de hegemonia), como houve no pós-guerra, de acordo com Vizentini (2004).

O fato é que os EUA e a Europa se beneficiarão com o acordo comercial feito entre eles. Porém, diferentemente de 1947, temos hoje uma organização consolidada que regula o comércio internacional, a OMC. Porém, a fragilidade dos Estados europeus mostra-nos que ocorre um descrédito por parte da população com relação às instituições de maneira geral. Isto porque a crise permeia não apenas a área econômica, mas também as áreas social e política.

Como então restaurar a confiança da população europeia, em especial junto às instituições internacionais? Visto que o FMI atua exigindo que sejam postas em prática as medidas de austeridade; e a própria UE passa por uma reflexão sobre a viabilidade da continuidade de seu processo de integração. Há críticas sobre uma Europa que procura homogeneizar políticas macroeconômicas, mas não define uma política social completa e igual para seus membros.

Segundo os institucionalistas, a racionalidade dos atores internacionais faz com que eles permaneçam em uma cooperação se ali eles puderem obter algum ganho. Talvez seja essa uma das razões para que EUA e UE não tenham levado, até agora, a discussão sobre o acordo entre eles para organizações como a já citada OMC. Mas, resta-nos saber se, apesar da pressão transatlântica, os países emergentes, outros blocos econômicos e organizações internacionais irão querer e, conseguir, fazer frente à parceria norte-americana e europeia. O que será difícil, mas não impossível em um mundo cada vez mais interdependente.

REFERÊNCIAS

Academia Econômica. Ortodoxos vs Heterodoxos. Disponível em: <http://www.academiaeconomica.com/2008/04/ortodoxos-vs-hetrodoxos.html>. Acesso em: 06 mar. 2013.

CONSIDERA, Claudio Monteiro. Macroeconomia I – Guia para os estudantes e Exercícios para o Laboratório. UFF – Faculdade de Economia Curso de Ciências Econômicas. Disponível em: <http://www.professores.uff.br/claudioconsidera/guia/Guia%20para%20os%20alunos%20Blanchard%20MII.pdf >. Acesso em: 06 mar. 2013.

BRUNO, Flávio Marcelo Rodrigues; AZEVEDO, André Filipe Zago de; MASSUQUETTI, Angélica. Os subsídios à agricultura no comércio internacional: as políticas da União Europeia e dos Estados Unidos da América. Ciência Rural. Disponível em:< http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-84782012000400030&script=sci_arttext>. Acesso em: 13 mar. 2013.

CPFL Energia. Austeridade. Disponível em: <http://www.cpfl.com.br/ComitecircdeEacutetica/DocumentosOrientativos/ReferecircnciasdeCondutaInstitucional/Austeridade/tabid/945/Default.aspx>. Acesso em 06 mar. 2013.

ENTENDA a crise da dívida da Grécia. BBC Brasil. Disponível em:<http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/02/120224_grecia_entendas_rp.shtml >. Acesso em: 13 mar. 2013.

ENTENDA as diferenças entre a crise global atual e a de 2008. UOL Notícias. Disponível em:<http://economia.uol.com.br/ultimas-noticias/redacao/2011/09/15/entenda-as-diferencas-entre-a-crise-atual-e-a-de-2008.jhtm>. Acesso em: 27 fev. 2013.

EUA E UE abrem negociações para acordo comercial bilateral até o fim de 2014. O Globo. Disponível em: <http://oglobo.globo.com/economia/eua-ue-abrem-negociacoes-para-acordo-comercial-bilateral-ate-fim-de-2014-7567757>. Acesso em: 27 fev. 2013.

JÚNIOR, Djalma Moreira Corsino. Demonstrativos Financeiros e Noções de Contabilidade. Belo Horizonte: SEBRAE/MG, 2007.

MERKEL diz que se EUA e UE não estabelecerem padrões, outros farão. Estadão. Disponível em: <http://www.estadao.com.br/noticias/geral,merkel-diz-que-se-eua-e-ue-nao-estabelecerem-padroes-outros-farao,999669,0.htm>. Acesso em: 27 fev. 2013.

OBAMA Bid for Europe Trade Pact Stirs Hope on Both Sides. The New York Times. Disponível em: <http://www.nytimes.com/2013/02/14/world/europe/obama-bid-for-trade-pact-with-europe-stirs-hope.html?nl=todaysheadlines&emc=edit_th_20130214&_r=3&>. Acesso em: 27 fev. 2013.

OMC. Quiénes Somos. Disponível em: <http://www.wto.org/spanish/thewto_s/whatis_s/who_we_are_s.htm>. Acesso em 01 mar. 2013.

PIB CHINÊS será superior ao da zona do euro em 2012. Exame. Disponível em: <http://exame.abril.com.br/economia/noticias/pib-chines-sera-superior-ao-da-zona-do-euro-em-2012>. Acesso em 28 fev. 2013.

SALVAR O EURO ou evitar a crise social. Jornal de Angola. Disponível em: <http://jornaldeangola.sapo.ao/19/49/salvar_o_euro_ou_evitar_a_crise_social>. Acesso em: 27 fev. 2013.

VIZENTINI, Paulo A. Relações Exteriores do Brasil (1945-1964). Rio de Janeiro: Vozes, 2004.

 

[i] “Ativos de Crédito” é o termo contábil que caracteriza os títulos de crédito. “Ativos” referem-se aos bens e direitos do ente. Entre os quais estão títulos e contas a receber. “Crédito”, por sua vez, é tudo o que se tem a receber. Comprar ativos de crédito é financiar dívidas esperando que se receba o valor futuramente.

[ii] A rigor, “medidas de austeridade” é um termo usado pelos economistas para designar ações macroeconômicas mais duras e severas em combate às situações de déficit público.

 [iii] Os subsídios podem ser definidos como uma forma de intervenção governamental na atividade econômica, caracterizada por transferências de recursos a produtores e consumidores, cujo objetivo é garantir ou suplementar suas rendas, ou a reduzir os custos de produção. Por serem tidos como um tipo de estratégia de protecionismo econômico, países que querem exportar produtos da mesma linha dos produtos subsidiados ficam em desvantagem competitiva, pois os subsidiados tem menor custo. Isso inviabiliza parte do comércio internacional.

 [iv] A principal negociação da OMC que evidenciou a dificuldade de um acordo sobre subsídios, foi a Rodada de Doha. Tal rodada de negociação teve início em 2001, na cidade de Doha, no Qatar, com a proposta de discussão sobre subsídios. Houve clara divisão entre os negociadores de países desenvolvidos e países em desenvolvimento a respeito da temática de subsídios agrícolas, levando a um impasse na negociação e à impossibilidade de consenso sobre um texto final.

 [v] O Produto Interno Bruto equivale ao valor dos bens e serviços finais produzidos em uma economia durante um dado período.

 [vi] Os pensadores ortodoxos da economia, de maneira geral, tendem a ser classificados como aqueles que defendem as leis de livre mercado e a autorregulação do mesmo. Deixando assim que ele encontre espontaneamente o equilíbrio. Um dos principais autores da corrente é o liberal Adam Smith.

[vii] Os economistas heterodoxos são os autores posteriores à corrente ortodoxa. Segundo eles, é necessária a presença do Estado na condução das políticas econômicas. Sendo assim, é papel do governo levar à economia do país ao crescimento. Dentre os autores conhecidos, o que se destaca é John Maynard Keynes.

 

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