Paz ou Trégua?: uma breve análise do cessar fogo Israel-Hamas

Felipe Madureira Simoni – PUC Minas

Renato Henrique de Gaspi – Facamp

Resumo

Este artigo tem como objetivo realizar um questionamento sobre a durabilidade do primeiro[i] cessar-fogo assinado entre Israel e o Hamas, em Novembro de 2012, e como isto afeta a possibilidade de concretização da solução considerada como a mais desejada, qual seja, a “Solução de dois Estados”[ii]. Além disso, o artigo levanta uma série de atitudes não condizentes com a assinatura do acordo de cessar fogo por ambas as partes envolvidas. Também é objetivo deste trabalho investigar, ainda que de forma preliminar, a possibilidade de estabilização da região em questão a médio prazo.

Introdução

O mês de Novembro de 2012 tem algo de histórico para o povo Palestino; a assinatura de um cessar-fogo, negociado entre o Hamas e o governo de Israel, mediado pelo aliado árabe Egito, trouxe um pouco mais de estabilidade à região após oito dias de conflitos ininterruptos que deixaram 167 mortos. Uma semana depois, na Assembleia Geral das Nações Unidas, o reconhecimento implícito de um Estado soberano palestino reavivou a esperança de uma Solução de Dois Estados, tida por muitos como a melhor opção para viabilizar o fim dos conflitos intermitentes entre as duas partes que vem ocorrendo desde a criação do Estado israelense em 1948.

O Confronto

Essa nova onda de hostilidades entre as partes teria se iniciado após a morte de Ja’abari[iii], um dos chefes das forças militares do Hamas pelas mãos da IDF[iv]. O grupo retaliou o ataque e a violência se acirrou, alarmando a mídia internacional. Os ataques só recuaram com o cessar-fogo que incluiu “o fim de toda e qualquer atividade hostil na Faixa de Gaza” (CNN, 2012.), o que significa o fim de incursões israelenses incluindo também o fim da violência contra israelenses por parte dos palestinos em Gaza e dos lançamentos de mísseis, bem como ataques às fronteiras(idem).

A importância estratégica da morte de Ja’abari foi questionada pelo especialista do Centro para Pesquisa e Informação Israel-Palestina, Gershon Baskin (2012), colocando que Ahmaed Ja’abari, apesar de estar longe de ser um entusiasta pela paz, era um dos membros do Hamas que se colocavam a favor de um cessar-fogo duradouro, com a percepção de que o conflito estava sendo bem mais prejudicial para a Palestina do que para Israel.

Contudo, é necessário levar em consideração que a morte de Ja’abari pode se tornar um fator prejudicial para o cessar-fogo, visto que, o comandante da ala armada do Hamas se mostrava inclinado a um cessar-fogo a longo prazo e era um dos homens fortes na negociação mediada pelo Egito. O que Israel não levou em conta ao assassinar Ja’abari é quem irá substituí-lo e se essa nova liderança será favorável a este tipo de negociação (BASKIN, 2013)

Estes eventos reavivaram o debate sobre o assunto e trouxeram alguns questionamentos, sejam eles sobre ganhos e perdas depois do cessar-fogo; sobre a balança de poder no Oriente Médio; a respeito da durabilidade do acordo assinado ou do novo papel dos recém-democratizados países árabes, tendo em vista a participação do presidente egípcio Mohamed Morsy. Seja qual for a pergunta, as opiniões divergem entre acadêmicos e militares. O Fato é que a IDF alega ter começado a ofensiva com o objetivo de incapacitar o complexo de mísseis do Hamas e assim defender o sul de Israel. Por outro lado, líderes políticos do Hamas comemoram o cessar-fogo como uma vitória, com rajadas de tiros e declarações como “A IDF está falida“ ou “Eles dizem que destruíram nossa infraestrutura, mas nosso mísseis os explodiram até o último minuto“.

As Contradições Israelenses

O renomado acadêmico John J. Mearsheimer (2012) coloca que o governo do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu vem sendo avesso à proposta da “Solução de Dois Estados”, pois, o governo do Primeiro-Ministro representa uma guinada significativa à direita. Esta afirmação é cabível se considerarmos que Netanyahu é membro do Likud, partido direitista israelense fundado em 1973 para fazer oposição ao Partido Trabalhista daquele país, o Avoda (Encyclopaedia Britannica).

O Premier Israelense tem nomeado ministros como Avigdor Lieberman, que é considerado, até por comentaristas mais conservadores, como “neofascista”(MEARSHEIMER, 2012).

Além disso, existe a questão do Sionismo[v] (MOTYL, 2001), fator importante a ser considerado. É notável que este movimento visa o estabelecimento de um Estado que controlaria toda a região da Palestina (Mearsheimer, 2012), desta feita, na visão Sionista de Israel, não existe lugar para um Estado palestino.

Apesar da visão de Mearsheimer ter méritos, o que vimos na recente eleição em Israel foi que Netanyahu conseguiu se manter no poder, a duras penas. É importante colocar que, para que pudesse ganhar legitimidade, o Primeiro-Ministro se dispôs a formar uma coalizão com o partido centrista de Israel, o qual conseguiu metade dos assentos no parlamento. Desta forma, o Primeiro-Ministro se viu forçado a criar relações com Yair Lapid, líder do partido de centro Yesh Atid[vi]. Lapid se demonstrou cético quanto à coalizão, declarando que só poderia se unir a um governo que estivesse inclinado a mudanças econômicas e que visasse a continuação das negociações pela paz com os palestinos (Al-Jazeera, 2012).

O descompromisso do Hamas

O posicionamento israelense não é o único obstáculo para uma paz positiva[vii]. Em seu discurso de celebração do vigésimo quinto aniversário do Hamas, Khaled Meshaal, um dos líderes do grupo, discursou de forma contundente à frente de um modelo de míssil com as inscrições “Feito em Gaza“, o que pode ser interpretado como uma afronta aos Israelenses. Nessa posição o líder alegou que jamais haverá aceitação de qualquer direito israelense à existência e reafirmou seu comprometimento com o uso da força (BBC, 2012).

O comprometimento com a paz parece ter sido fruto de uma pressão externa, tendo em vista as declarações de Meshaal de que “Não iremos ceder nem um milímetro da palestina“ e, para além disso, ressaltou o seu desejo de que a região “se manterá islâmica e árabe“. Sempre destacando argumentos extremamente nacionalistas pedindo a união da Palestina e levantando a necessidade de uma reconciliação Hamas-Fatah[viii]. De fato, desde 2006, quando o Hamas ganhou as eleições, este foi o primeiro evento político desse partido com líderes locais do Fatah presentes (BBC, 2012).

A reconciliação palestina, para Meshaal, envolveria “uma plataforma política, uma autoridade, um presidente e um parlamento“. A pesar de a população palestina ter acolhido bem a mensagem, a reafirmação da necessidade da ação violenta significa um afastamento discursivo entre o Hamas e o Presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, que se mostrou um ator a favor da paz com Israel e o ocidente.

Considerações Finais

Com todos estes fatores, a pergunta que deve ser feita é se o cessar-fogo tem a capacidade de gerar condições para que negociações possam ser feitas na direção da paz positiva. Avaliar os resultados de um conflito é sempre uma análise complicada, ao passo que nunca se pode ter uma conclusão verdadeira sobre a identidade do ganhador. Contudo, podemos entender que se há alguma possibilidade paz entre Hamas e Israel, com certeza não vai muito além de uma paz negativa[ix]. O cessar-fogo assinado apenas almeja um interregno na violência direta, longe de se propor como uma solução de longo prazo. Quaisquer projeções de Paz mais definitiva devem levar em conta ações que possibilitem negociações entre as partes, abrindo espaço para o estabelecimento de um relacionamento menos hostil entre elas com algum nível de confiança, para que futuras tensões possam ser negociadas.

Como ambos os lados do conflito não se mostram realmente prontos para se tolerarem mutuamente, o cessar-fogo é frágil. Apesar de, depois de dois meses, o acordo ter se mostrado eficaz em evitar a luta armada, não impediu discursos de ódio e desconfiança mútua (WIRED, 2012).

Um projeto de paz duradoura deve levar em conta os fatores que causam os conflitos e, com ajuda dos atores envolvidos, superar esses empecilhos. O maior problema que é colocado então, é que, para tanto, os atores devem estar politicamente inclinados para tal. Em outras palavras, é louvável que a violência tenha cessado na faixa de Gaza, contudo, isso não passa de uma solução imediata que não deve ser compreendida como definitiva, já que as questões vividas pelos palestinos e israelenses se mostram muito além que apenas questões religiosas ou fronteiriças. O que podemos entender é que a Paz Negativa é um primeiro passo em direção à Paz Positiva desejada e é essencial para que mortes sejam evitadas, porém, este avanço só será alcançado através da continuidade das negociações entre as partes, o que, no momento, parece improvável.

 REFERÊNCIAS

ACKERMAN, Spencer & MCMILLAN, Robert. Despite Ceasefire, Israel-Gaza War Continues Online. Wired.com, 29 nov. 2012. Disponível em: http://www.wired.com/dangerroom/2012/11/israel-gaza-ddos/. Acesso em: 22/01/2013.

AL-JAZEERA. Gaza ceasefire goes into effect. Al Jazeera, Doha, 22 nov. 2012. Disponível em: http://www.aljazeera.com/news/middleeast/2012/11/2012112117122494611.html. Acesso em: 22/01/2013.

AL-JAZEERA. Israel’s Netanyahu wins narrow victory. Al Jazeera, Doha, 23 jan. 2013. Disponível em: http://www.aljazeera.com/news/middleeast/2013/01/2013122214950510525.html. Acesso em: 23/01/2013.

BASKIN, Gershon. Israel’s Shortsighted Assassination. New York Times, Jerusalem, 16 nov. 2012. Disponível em: http://www.nytimes.com/2012/11/17/opinion/israels-shortsighted-assassination.html?pagewanted=1&_r=1&. Acesso em: 23 jan. 2013.

CNN Wire Staff. Cease fire appears to be holding in Gaza. CNN, Estados Unidos, 22 nov. 2012. Disponível em: http://www.cnn.com/2012/11/21/world/meast/gaza-israel-strike/index.html.  Acesso em: 19 jan. 2013.

Encyclopædia Britannica. Disponível em: http://global.britannica.com

KNELL, Yyolande. Hamas displays United front at Gaza rally. BBC, Gaza City, 9 dec. 2012. Disponível em: http://www.bbc.co.uk/news/world-middle-east-20656364. Acesso em: 19 jan. 2013.

MEARSHEIMER, John J. The Future of Palestine: Righteous Jews vs. the New Afrikaners, in Antony Loewenstein and Ahmed Moor, eds., After Zionism: One State for Israel and Palestine, (London: Saqi Books, 2012), pp. 135-153. Disponível em: http://mearsheimer.uchicago.edu/pdfs/PalestineFuture.pdf. Acesso em: 20/01/2013.

VICENZINO, Marco. Can cease-fire between Israel and Hamas result in real change?. CNN, Washington. 22 nov. 2012. Disponível em: http://edition.cnn.com/2012/11/21/opinion/vicenzino-israel-hamas-cease-fire/index.html. Acesso em: 21/01/2013.

GALTUNG, Johan. Journal of Peace Research, Vol. 6, No. 3 (1969), pp.167-191. Sage Publications.

GERWAL, baljit singh. Johan Galtung: Positive and Negative Peace, Auckland University of Technology, 2003.

MOTYL, Alexander J. (2001). Encyclopedia of Nationalism, Volume II. Academic Press. ISBN 0-12-227230-7.

 

[i] O Governo Israelense se recusava a negociar com o Hamas por considera-lo um grupo terrorista.

[ii] A chamada “Two State Solution” é uma proposta para solucionar o conflito entre Israel e Palestina e visa criar “Dois Estados para Dois Povos”, deste modo, judeus e árabes teriam cada um seu próprio Estado na região. Esta solução foi discutida e questionada diversas vezes desde 1937.
Essa solução tem apoio de acadêmicos como John J. Mearsheimer (2010).

[iii] Ahmed Al Ja’abari.

[iv] Forças de Defesa Israelense (Israeli Defence Forces).

[v] Sionismo é uma forma de nacionalismo judeu que entende a existência de um Estado-Nação judaico no território defendido como Israel. O Sionismo prega a necessidade de que judeus assumam sua identidade judaica, se opõe à assimilação do judaísmo em outras sociedades e tem buscado o retorno do povo Judeu para Israel a fim de se tornarem maioria em sua nação e se libertarem do antissemitismo, perseguição e exclusão que historicamente ocorreram durante a diáspora (tradução nossa).

[vi] Tradução: “Há um Futuro”

[vii] Paz positiva: paz atingida por meio de uma integração estrutural das partes, otimista, preventiva e realizada por meios pacíficos (GREWAL, 2003).

[ix] Paz negativa: fim ou ausência da violência, não necessariamente por meios pacíficos (GREWAL, 2003).

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