Amazonas modernas: movimentos feministas e seu novo protagonismo

Ricardo Bezerra Requião

Sílvia Azevedo Rosa

Resumo

Ultrapassando a conquista de direitos políticos, movimentos feministas modernos buscam o estabelecimento da igualdade entre gêneros no sentido pleno. A busca é resultado de episódios individuais, que uma vez reunidos, dão forma a uma desigualdade estrutural frente à mulher, num contexto em que ainda se espera que o corpo, a sexualidade e o comportamento femininos, sigam a lógica masculina. Tudo isso acaba por perdurar, de alguma maneira, a limitação do acesso de mulheres às estruturas de poder. Frente a isso, nota-se o (re-) fortalecimento de movimentos de caráter feminista, que intentam – com diferentes graus de radicalismo – tornar visíveis a mulher e a violência que ela sofre.

Introdução

Ante ao debate de luta de classes ou de gênero, é importante uma clara conceituação do que seriam de fato os movimentos feministas e suas pretensões contemporâneas. Tal conceituação poderá contribuir para a análise da dimensão objetiva do movimento, abrangendo os aspectos culturais e sociais que enfatizam a dimensão subjetiva que envolve a identidade e a cultura dos movimentos, e, portanto de sua contemporaneidade.

Tendo como foco o movimento feminista e a utilização do paradigma europeu de identidade coletiva para os movimentos das camadas médias da sociedade, a atualidade dos movimentos aponta a busca por compreender o distanciamento ou a inexistência de relação da luta social do movimento feminista com a luta de classes, bem como, as consequências para o próprio movimento (GOHN, 2000). Para tanto, se conceitua os movimento feministas como:

“[Surgido] com raízes no movimento liberal e na defesa da igualdade no campo na civilidade, pautado no direito ao voto. Em suas ondas, surge forte no discurso desses a denúncia a opressão masculina, sendo a bandeira a busca por igualdade. A contemporaneidade do movimento se concentra na análise das diferenças sociais e da alteridade. A tantas bandeiras – quase que temporais –, surge a necessidade de valorizar a existência de várias frentes ao movimento” (DIFIORI; SANTOS, 2007, p. 7).

O aparente anacronismo de se falar em feminismo na atualidade é, numa primeira análise, descartado quando se percebe que a busca pelo “empoderamento”[i] feminino, próximo da noção de autonomia, se refere à capacidade de os indivíduos e grupos poderem decidir sobre as questões que lhes dizem respeito mesmo em sociedades exemplares, na garantia de direitos civis e políticos, como os países da Europa e da América do Norte, é permanente e tem, nas últimas décadas, se fortalecido, essencialmente com sua presença em movimentos populares.

Ainda que frente à quadros jurídicos reconhecedores da igualdade formal entre homens e mulheres, o que se percebe é que padrões de desigualdade entre os gêneros persistem a medidas normativas dos governos europeus. Como deixa claro o Gender Working Group da FYEG (Federation of Young European Greens), os problemas gerados por esse quadro de desigualdade vivenciada na prática são agravados por sua invisibilidade, onde injustiças são particularizadas caso a caso, dificultando a compreensão do quadro geral.

Esse quadro geral corresponde, em sua maior parte, a demandas dos movimentos sociais que poderiam ser chamados de “clássicos”, dados por diferenças salariais para cargos semelhantes, menor poder de decisão tanto no âmbito doméstico como no ambiente laboral, menor representatividade política e em cargos de chefia, ou ainda o mais recorrente – segundo dados da Center for Women’s Global Leadership, de Nova York, ligado a ONU Mulher (2012) -, a vulnerabilidade ao assédio e violência sexuais.

“Para nós não basta o mero destaque das questões femininas, nem a promoção feminina por simplesmente ‘adicionar mulheres ao mundo masculino’. Nós pleiteamos um maior entendimento de como a desigualdade está ligada à reconstrução de papeis heteronormativos de gêneros, de acordo com os quais nosso corpo, nossa sexualidade e nosso comportamento devem seguir as regras e estruturas postas pelos homens”. (FYEG, 2012; destaque no original).

Disso tudo, o marcante é que, num contexto – não só regional, mas global –, onde a participação feminina cresce quantitativamente, inclusive quanto à chefia de lares, a qualidade dessa participação ainda se mantenha aquém da potencialidade esperada pelos movimentos feministas, dentro de um quadro de igualdade.

Protagonismo feminista na atualidade

O espectro de movimentos feministas – bem como de produções teóricas na área – na atualidade é amplo, atingindo, como mostra o Center for Digital Discourse and Culture, da Universidade Virgina Tech, EUA (2012), os cinco continentes, ainda que sejam mais marcantes na Europa e nas Américas – diante a própria naturalidade do surgimento dos grupos, mas principalmente pela influência teórica de Foucault e Simone de Beauvoir na Europa, e pelos regimes estadistas liberais e machistas, próprios da América (OLIVEIRA, 2008, p. 32).

Abaixo, alguns dos movimentos atuantes nos últimos dez anos, com maiores repercussões na mídia e papeis internacionais:

FEMEN:

Grupo com base na Ucrânia conhecido pelas manifestantes de topless, presentes em protestos – como o referente ao suposto crime de abuso sexual perpetrado pelo ex-diretor do FMI, Dominique Strauss-Khan –, surgiu em 2008, com o objetivo de modificar o caráter machista da sociedade ucraniana.

As ativistas se consideram moral e fisicamente, conforme a própria apresentação no site oficial do grupo, “soldados” da causa, novas Amazonas[ii], “capazes de derrubar as fundações do mundo patriarcal com seu intelecto, sexo, agilidade, capacidade de fazer desordem, trazer neurose e pânico ao mundo masculino” (FEMEN, 2012), reconhecendo os problemas do mundo, enfrentando-os com “seios a mostra, cabeças conscientes e mãos limpas”, dando origem ao que chamam de sextremism (em tradução livre, “extremismo sexual”), o que fica claro em seu slogan “saiam, tirem a roupa e vençam” (FEMEN, 2012).

Marcha Mundial das Mulheres (MMM):

Mobilização surgida em 2000, constituindo uma campanha contra a pobreza e a violência, tendo inspiração em movimento anterior semelhante, ocorrido em 1995, em Montréal, Canadá.Entre os princípios da MMM estão a organização das mulheres urbanas e rurais a partir da base e as alianças com movimentos sociais, na tentativa de superar “o sistema capitalista patriarcal, racista, homofóbico e destruidor do meio ambiente” (MMM, 2012), afirmando o direito à autodeterminação feminina e igualdade entre gêneros.

Em 2000, as integrantes da Marcha produziram um documento com cinco milhões de assinaturas, entregue à ONU, com dezessete pontos de reinvindicação, sendo reforçado o combate à problemática da violência sexual. Em 2005, foi produzida a Carta Mundial das Mulheres para a Humanidade, com princípios políticos, econômicos, sociais e culturais para o estabelecimento da igualdade de gêneros.

SlutWalk (no Brasil, “Marcha das Vadias”):

Movimento surgido no Canadá, em 2011, quando – após uma série de estupros na Universidade de Toronto – um dos policiais responsáveis pela investigação atribuiu os abusos sexuais às vítimas estarem vestidas como prostitutas (sluts, em inglês) (AGÊNCIA BRASIL, 2011). O movimento se internacionalizou, com foco principal no combate ao preconceito de gênero.

O movimento busca também alertar para a violência e abusos sofridos pelas mulheres, lutar contra o machismo e levantar a bandeira da igualdade entre homens e mulheres. As Marchas são sempre executadas de forma bem-humorada – porém não menos engajada, como fica expresso no seu slogan “Nem santa, Nem puta: Mulher!” (MV, 2012) – e com grande visibilidade e apoio das sociedades circundantes, sendo a principal forma de protesto os cartazes levados durante o evento, com dizeres como “Não me digam o que vestir, digam aos homens para não violarem” e “Não é fácil ser fácil” (DNPORTUGAL, 2012).

Pussy Riot:

Não é efetivamente um movimento feminista como os anteriores, mas um grupo musical russo composto por três cantoras que, a partir de performances feministas e contrárias ao governo do Presidente Putin[iii], deram voz à luta por direitos básicos – a exemplo da democracia, da liberdade de gêneros e da liberdade de expressão, como a própria repercussão do caso deixou claro – ameaçados pelo governo russo (FREE PUSSY RIOT, 2012).

Considerações Finais

Em breve análise do que internacionalmente aglutina os grupos expostos, em uma mesma causa feminista, se destaca a solidariedade progressista, principalmente no eixo europeu, levantada por Difiori e Santos (2007). Tal sentimento fortalece a identidade contemporânea das Amazonas, de luta em defesa da mulher que é vítima da violência social – seja sexual, hierárquica, psicológica ou puramente física –, tendo como pauta frequente, o aborto, por exemplo.

Os grupos expostos, bem como outros que compartilham da identidade feminista e se caracterizam, então, como “empoderadores de mulheres” (OLIVEIRA, 2007, p. 33) podem ser aproximados, principalmente no âmbito das Américas, pela luta anti-capitalista, como é o caso do MMM (GOHN, 2000, p. 256). Sendo assim, o princípio articulatório dos movimentos latinos e europeus encontra-se, atualmente, na dispersão ideológica e fragmentação dos mesmos, com muitas mulheres ou lideranças feministas ocupando cargos de governo, tais como: Angela Merkel (Premiê da Alemanha), Hillary Clinton (Secretária de Estado dos Estados Unidos da América), Dilma Rousseff (Presidente do Brasil), Melinda Gates (grande empresária e gestora de organização filantrópica) e Michelle Obama (Primeira-Dama dos Estados Unidos).

Diante do apresentado, afirma-se com cautela que, enquanto o conceito de luta de classes contribui para a análise da dimensão objetiva do movimento – segundo a perspectiva dos movimentos americanos –, a noção de lutas sociais dos europeus contribui para ampliar a análise dos movimentos, abrangendo os aspectos sociais e culturais que enfatizam a dimensão subjetiva que envolve a identidade e cultura dos movimentos.

Referências Bibliográficas

AGÊNCIA BRASIL, 2011. Mais de 800 pessoas participam de marcha para reivindicar igualdade de gênero. Disponível em: <http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2011-06-18/mais-de-800-pessoas-participam-de-marcha-para-reivindicar-igualdade-de-genero&gt;. Acesso em: 1 de nov. de 2012.

DNPORTUGAL, 2012. “Marcha das Galdérias” junta dezenas em Lisboa. Disponível em: <http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=2642 264&seccao=Sul>. Acesso em: 1 de nov. de 2012.

DI FIORI, Gecira; SANTOS, Júlio Ricardo Quevedo dos. O que muda e o que permanece no movimento feminista. Florianópolis/UFSC: Anais do II Seminário Nacional de Movimentos Sociais, Participação e Democracia, Abril de 2007. Disponível em: <http://www.sociologia.ufsc.br/npms/gecira_di_fiori.pdf&gt;. Acesso em 2 de nov. de 2012

 FEMEN. FEMEN. Disponível em: <http://femen.org/en/about&gt;. Acesso em: 1 de nov. de 2012

FREE PUSSY RIOT. About. Disponível em: <http://freepussyriot.org/about&gt;. Acesso em: 1 de nov. de 2012.

 FYEG (Federation of Young European Greens). Feminism is still important in 2012!. Disponível em: <http://www.fyeg.org/main/index.php/get-involved/working-groups/15-gender-working-group/324-feminism-is-still-important-in-2012&gt;. Acesso em 1 de nov. de 2012.

HOROCHOVSKI, Rodrigo Rossi; MEIRELLES, Giselle. Problematizando o conceito de Empoderamento. Florianópolis/UFSC: Anais do II Seminário Nacional de Movimentos Sociais, Participação e Democracia, Abril de 2007. Disponível em: < http://www.sociologia.ufsc.br/npms/rodrigo_horochovski_meirelles.pdf >. Acesso em 2 de nov. de 2012

MARCHA DAS VADIAS. Marcha das Vadias. Disponível em: <http://www.marchadasvadias.org&gt;. Acesso em: 1 de nov. de 2012.

MARCHA MUNDIAL DAS MULHERES (MMM). O que é a Marcha Mundial das Mulheres?. Disponível em: <http://sof.org.br/marcha/?pagina=aMarcha&gt;. Acesso em: 1 de nov. de 2012.

OLIVEIRA, Tamara da Cruz. A Violência Sexual contra a Mulher na atualidade. Tese de Especialização em Ciências Criminais em Processo Penal da Faculdade São Luís. São Paulo, 2008.

PEREIRA, Ferdinand Cavalcante. O que é empoderamento (empowerment). In: SaPIência – Informativo Científico da FAPEPI, n. 8, ano III. Teresina: FAPEPI, 2006.

VIRGINIA TECH – CENTER FOR DIGITAL DISCOURSE AND CULTURE. Feminist Theory Website. Disponível em: <http://www.cddc.vt.edu/feminism/index. html>. Acesso em 1 de nov. de 2012.

 


[i] De acordo com Pereira (2006), “emporamento” significa, em geral, a ação coletiva desenvolvida pelos indivíduos quando participam de espaços privilegiados de decisões, de consciência social dos direitos sociais [ultrapassando] a tomada de iniciativa individual de conhecimento […] até atingir a compreensão de teias complexas de relações sociais que informam contextos econômicos e políticos mais abrangentes”. Para o educador, Paulo Freire, precursor, no Brasil, do conceito de “empoderamento”, o mesmo, seria de que a pessoa, instituição ou grupo empoderado é aquele que realiza, por si mesma, as mudanças e ações que que a levam a evoluir e se fortalecer.

[ii]Em referência, assim como no título da presente análise, à mitológica tribo exclusivamente feminina de guerreiras, supostas habitantes de uma das ilhas do arquipélago grego. Lembrando, que, assim como no próprio FEMEN, o termo “amazona” faz referência aos seios femininos – “amazona” seria uma derivação dos gregos “a” (sem) e “mazòs” (peito; seio) –, já que segundo o mito, essas guerreiras teriam o hábito de mutilar um dos seios para melhor manejarem arcos e flechas.

 

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