A atuação russa no G20: uma tentativa de solucionar seus problemas políticos?

Luciana Leal Resende Paiva

Márcia de Paiva Fernandes

Resumo

 A Rússia é um país importante no cenário internacional que participa de vários fóruns internacionais, como o G8 e o G20. A atuação do país nas últimas duas cúpulas deste grupo demonstra algumas contradições, em especial o interesse do país em fazer do grupo das vinte maiores economias mundiais uma oportunidade para lidar com seus próprios problemas políticos.

Introdução

Com o colapso da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e o surgimento da Federação Russa, a configuração internacional passou por grandes transformações, em especial na Europa e na Ásia. O fim da bipolaridade inaugurou uma nova fase no que se refere ao equilíbrio de poder em tais continentes, tendo em vista que a “nova Rússia” não se constituía mais como uma potência e passou a buscar uma inserção de forma coerente com sua nova capacidade e seu novo potencial. Consequentemente, a atuação da Rússia levou à sua aproximação de países que possuíam as mesmas condições, tais como Brasil, China e Índia, ou seja, dos chamados países emergentes (JULIÃO, 2009).

Assim sendo, a participação da Rússia no G20 financeiro[i] deve ser analisada à luz de tal realidade, especialmente após a crise financeira de 2008, que afetou o crescimento econômico russo. Embora a Rússia também esteja presente no G8, principalmente devido à preocupação dos membros do grupo com o arsenal atômico russo, sua atuação no G20 merece maior destaque, não só pela importância que este grupo adquiriu nos últimos anos, mas também para melhor compreender a inserção russa em um cenário onde os países emergentes possuem um destaque evidente (JULIÃO, 2009).

Cúpulas do G20: Cannes e Los Cabos

Enquanto país emergente, a Rússia defende no G20 a maior participação dessa categoria de países no que concerne às decisões sobre a economia internacional, bem como a democratização de instituições financeiras. Uma posição comum da Rússia com as demais economias emergentes está relacionada à flutuação cambial, às metas de regulação financeira e bancária e à maior inclusão dos países em desenvolvimento em relação aos desenvolvidos no Fundo Monetário Internacional (FMI) (PANOVA, 2011).

A cúpula de Cannes, em 2011, foi marcada pelas discussões acerca da crise europeia (G20 RESERCH CENTER, 2011) e teve em sua agenda questões como: a reforma do sistema monetário internacional; a dimensão social da globalização; a regulação financeira; o combate à volatilidade dos preços das comoditties, entre outras questões. Mas a maior preocupação tanto das economias emergentes quanto das desenvolvidas foi a possível ajuda financeira que seria realizada pelos países emergentes aos desenvolvidos, portanto a agenda definida acima ficou em segundo plano (G20-G8 FRANCE 2011).

Durante essa cúpula, alguns assuntos relevantes para a Rússia não constaram na agenda, tal como novos regulamentos para o acesso à internet. O governo russo considerava essa questão importante, pois afirmava que os atuais regulamentos foram elaborados em um contexto tecnológico diferente e, por isso, não poderiam mais ser utilizados. Medvedev defendeu a ideia de que o Estado deveria possuir uma nova responsabilidade de promover a inclusão de proteção jurídica na internet, mas todas essas questões não entraram na agenda de Cannes (PANOVA, 2011). Especula-se, porém, que a tentativa de incluir tal questão na agenda poderia ser uma estratégia para limitar a influência que os Estados Unidos possuem sobre a internet, bem como um meio para controlar o acesso à rede pelos cidadãos russos e, consequentemente, inibir a formação de oposição política através das redes sociais.

É evidente que as questões relacionadas à recuperação europeia também eram importantes para os interesses russos. Assim sendo, em resposta aos pedidos de ajuda financeira, que foram feitos pelos europeus não só à Rússia, mas também ao Brasil, à China e África do Sul, o governo russo afirmou que poderia contribuir com a recuperação europeia através do FMI e não do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira, o que foi uma posição comum entre tais países, exceto a China (PANOVA, 2011). Porém, a Rússia afirmou que algumas condições deveriam ser atendidas para que pudesse contribuir com o FMI, tal como a implementação dos acordos de reforma do fundo, definidos em cúpulas anteriores, e garantiu que forneceria U$10 bilhões ao fundo (BUSVINE, 2011). Pode-se considerar, por fim, que dois resultados foram mais favoráveis ao interesse russo em Cannes: a aquiescência dos membros do G20 para que o país sediasse uma cúpula em 2013, em Moscou, o que, por sua vez, impulsionou sua aceitação na Organização Mundial do Comércio (OMC), outro resultado favorável obtido na cúpula (PANOVA, 2011). Nesse sentido, o fato da Rússia ser a próxima anfitriã da cúpula do G20 pode ter sido interpretado pelos demais membros do grupo como uma manifestação de seu comprometimento com as questões econômicas internacionais e de sua disposição em estabelecer relações multilaterais nessa área, tendo sido, assim, um bom incentivo para sua entrada na OMC.

Já em 2012, antes mesmo do início da cúpula em Los Cabos, a Rússia criticou a iniciativa do país anfitrião, o México, em convocar uma reunião com os Ministros de Relações Exteriores do G20, o que também foi criticado pela China. O governo russo afirmou que o G20 deve ser um foro para discutir questões econômicas e financeiras, e não políticas. Porém, alguns analistas afirmaram que tal posição refletia o medo de um possível isolamento russo também no G20, devido ao seu veto à proposta de resolução de condenação da Síria[ii] na Assembleia Geral (ROSSI, 2012).

Nessa cúpula, a agenda abordava questões como: a estabilização econômica e estrutural para possibilitar o desenvolvimento; o fortalecimento do sistema financeiro; o aumento da inclusão financeira, a fim de impulsionar o crescimento econômico; segurança alimentar e a promoção de desenvolvimento sustentável. Porém, a principal questão discutida foi, novamente, a quantia de dinheiro que seria destinada ao FMI para ajudar aos países da zona do euro, garantindo que suas economias fossem reestabelecidas (G2012 MÉXICO, 2012).

Assim sendo, a Rússia e os demais membros do BRICS concordaram em aumentar ainda mais suas contribuições ao fundo, mas afirmaram que pensariam na possibilidade de conduzir swaps cambiais[iii] para tentar alcançar a estabilidade financeira. Porém, os BRICS destacaram que o aumento de suas contribuições seria feito em antecipação às reformas prometidas nas instituições financeiras internacionais, que devem ser implementadas em tempo oportuno e que os recursos adicionais devem ser utilizados apenas quando todos os outros estiverem esgotados (WROUGHTON, 2012).

Considerações Finais

A atuação russa no G20 não tem apresentado grandes diferenças em relação à atuação dos países do BRICS e os resultados obtidos nas últimas duas cúpulas também são favoráveis, em certa medida, aos interesses russos, principalmente devido às relações comerciais que o país possui com a União Europeia.

Porém, algumas das questões levantadas pela Rússia não receberam a atenção dos demais membros do G20, como pôde ser observado em Cannes. No entanto, a proposta do país em introduzir discussões relacionadas ao acesso à internet entra em contradição com sua crítica à proposta mexicana de realizar uma reunião com Ministros de Relações Exteriores, uma vez que a Rússia afirmou que o G20 deve ser um grupo de discussões econômicas e financeiras, mas propôs um tema para agenda que não correspondia a esse critério.

Desse modo, a Rússia busca no G20 – e também nas cúpulas do BRICS – uma oportunidade de se aproximar dos países emergentes a fim de alcançar objetivos que lhe interessam agora, tendo em vista que o país não é mais uma potência e, com isso, pressionar os países desenvolvidos a fim de demonstrar a eles que possui várias coalizões alternativas. Em outras palavras, o governo russo busca demonstrar às economias desenvolvidas ocidentais que sua atuação no G8 não irá pautar seu posicionamento no G20, o que não significa um descomprometimento total com aquele grupo. Por fim, a Rússia também se insere no G20 buscando atenuar seus problemas políticos, externos e internos, e, portanto, tal grupo representa para o governo russo mais uma alternativa para a solução de seus novos desafios do que uma instância de coordenação em prol da economia internacional.

Referências

BUSVINE, Douglas. Russia sees IMF as conduit for euro aid. Reuters, Moscou, 07 nov. 2011. Disponível em: <http://www.reuters.com/article/2011/11/07/us-russia-imf-idUSTRE7A61FB20111107&gt;. Acesso em: 31 ago. 2012.

CAMARGO, Sophia. Entenda os fundos e os swaps cambiais. UOL Economia, 17 abr. 2008. Disponível em: <http://economia.uol.com.br/financas/investimentos/2008/04/17/ult5346u52.jhtm>. Acesso em: 14 set. 2012.

G20-G8 FRANCE 2011. G20 CANNES SUMMIT: DECLARATIONS AND REPORT Disponível em: <http://www.g20-g8.com/g8-g20/g20/english/the-2011-summit/declarations-and-reports/g20-cannes-summit-declarations-and-reports.1553.html&gt;. Acesso em:5 set..2012

G2012 MÉXICO. Mexican presidency of G20. Disponível em: <http://www.g20.org/index.php/en/mexican-presidency-of-the-g20&gt;. Acesso em: 9 set. 2012.

G20 RESERCH CENTER. The G20 Cannes Summit Commitments. Disponível em: <http://www.g20.utoronto.ca/analysis/commitments-11-cannes.html#greengrowth>. Acesso em: 09 set. 2012.

G20 summit has taken place in Toronto. Disponível em: < http://eng.kremlin.ru/news/515>. Acesso em: 31 ago. 2012.

JULIÃO, Taís Sandrim. Rússia e as estratégias de um país emergente. Meridiano 47, n. 108, jul. 2009, p. 8-10. Disponível em: < http://works.bepress.com/cgi/viewcontent.cgi?article=1139&context=eloi&sei-redir=1&referer=http%3A%2F%2Fscholar.google.com.br%2Fscholar%3Fhl%3DptR%26q%3DR%25C3%25BAssia%2Bno%2BG8%2Be%2Bno%2BG20%26btnG%3D%26lr%3D#search=%22R%C3%BAssia%20no%20G8%20e%20no%20G20%22>. Acesso em: 14 set. 2012.

On the G20 summit meeting, June 26-27, 2010, Toronto, Canada. Disponível em: <http://eng.news.kremlin.ru/ref_notes/31>. Acesso em: 31 ago. 2012.

PAIVA, L. L. R.; FERNANDES, M. P. Os vetos de China e Rússia no caso da Síria: Interesses humanitários ou políticos? Conjuntura Internacional, Belo Horizonte, ano 9, n.º 3, 31 mar. 2012. Disponível em: <http://www.pucminas.br/imagedb/conjuntura/CNO_ARQ_NOTIC20120416170740.pdf>. Acesso em: 19 set. 2012.

PANOVA, Victoria V. Russia at the G20 Cannes Summit. Universidade de Toronto, 2011. Disponível em: < http://www.g20.utoronto.ca/analysis/111107-panova.html>. Acesso em: 31 ago. 2012.

ROSSI, Clóvis. G20 vive sua primeira crise. Folha de São Paulo, São Paulo, 19 fev. 2012. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/26737-g20-vive-sua-primeira-crise.shtml&gt;. Acesso em: 31 ago. 2012.

WROUGHTON, Lesley. Brics aumentarão fundos do FMI e estudam swaps cambiais. Reuters, Los Cabos, 5 set. 2012. Disponível em: <http://br.reuters.com/article/businessNews/idBRSPE85H06020120618>. Acesso em: 31 ago. 2012.

WROUGHTON, Lesley. FMI terá US$ 456 bilhões em recursos contra a crise europeia. O Estado de São Paulo, São Paulo, 19 jun. 2012. Disponível em: <http://economia.estadao.com.br/noticias/economia%20internacional,fmi-tera-us-456-bilhoes-em-recursos-contra-a-crise-europeia,116461,0.htm&gt;. Acesso em: 31 ago. 2012.


[i]  Há dois grupos com o nome de G20, sendo que um deles é o financeiro e o outro é o comercial. Para mais informações a respeito desses dois grupos, sugerimos a consulta das seguintes fontes: http://www.itamaraty.gov.br/temas/balanco-de-politica-externa-2003-2010/4.1.1-negociacoes-comerciais-g20-comercial e http://www.pucminas.br/imagedb/conjuntura/CNO_ARQ_NOTIC20111031113907.pdf.

[ii] A Rússia, juntamente com a China, foram contrárias à votação da ONU em fevereiro de 2012 que permitiria uma intervenção nos confrontos armados que estão ocorrendo na Síria entre os opositores e os apoiadores do presidente Bashar Al-Assad, sendo que os primeiros reivindicam sua deposição (PAIVA; FERNANDES, 2012).

 [iii] Swaps cambiais são “(…) um processo de crédito recíproco ou empréstimos recíprocos entre bancos, em moedas diferentes e com taxas de câmbio idênticas.” (CAMARGO, 2008).

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