Transnationalism – Steven Vertovec

Resenha
Ricardo Bezerra Requião

A obra

Ao enfocar a ideia de “transnacionalismo”, Steven Vertovec[i] inicia a obra com a conceituação básica do fenômeno transnacional, da mesma forma que apresenta as visões e construções teóricas existentes. Há, logo de início, o reconhecimento do crescente interesse sobre o tema nas mais amplas esferas, transpassando as barreiras econômicas, sociais e políticas que ligam pessoas e instituições através de fronteiras. As fronteiras, aliás, se tornam um dos elementos centrais do livro, ao passo que Vertovec relaciona seu recente caráter permeável. Segundo Held et al (1999), a “crescente extensão, intensidade, velocidade e impacto das interconexões globais no quadro amplo dos domínios humanos” (VERTOVEC, 2009, p. 2)[ii]. Dessa forma, a principal maneira de pensar a “globalização”[iii] – como fonte per se do fenômeno do “transnacionalismo” – seria como

O desenvolvimento de mercados e cadeias de oferta interconectadas, o crescimento e a expansão de Organizações Não-Governamentais e movimentos sociais, e os cambiantes papeis e capacidades dos Estados-nação, acordos multilaterais e políticas internacionais. (VERTOVEC, 2009, p. 2).

São esses – entre outros – fenômenos que apresentam implicações nas formas transnacionais de ação de instituições não-governamentais, de indivíduos e comunidades, enquanto atores das Relações Internacionais. O “transnacional” deve ser diferenciado do “internacional” ao se considerar o primeiro como fruto – e mesmo característica – das ações de atores não-estatais, como empresas multinacionais e grupos de indivíduos que partilhem interesses (por exemplo, com base em critérios étnico-religiosos).

Considera-se, por oposição, o “internacional” como as relações existentes dentro de um contexto estatal, a citar os movimentos de pessoas e bens através das fronteiras. Isto é, segundo Vertovec, antes de se limitar as análises às relações eminentemente interestatais, é necessário ter em mente a existência de outros atores no Sistema Internacional. Logo, pode-se concluir que o “transnacional” é precedente a e mais amplo que o “internacional”, que seria um subconjunto daquele:

O transnacionalismo descreve a condição na qual, a despeito de grandes distâncias e não obstante a presença de fronteiras internacionais (e todas as leis, regulações e narrativas nacionais que elas representam), certos tipos de relações tenham sido globalmente intensificadas e agora tenham lugar, paradoxalmente, numa arena de atividade planetária comum, ainda que virtual. (VERTOVEC, 2009, p. 3).

A partir destas conceituações básicas, o autor desenvolve as formas pelas quais o fenômeno do “transnacionalismo” pode ser compreendido[iv], bem como a subcategoria do “transcionalismo migratório”, ao abordar a noção de redes sociais – cara às teorias das Migrações Internacionais – construídas pelos migrantes em seus deslocamentos internacionais, apresentando como se dá a construção metodológica e as dificuldades postas para os cientistas sociais nesse tema em específico.

Esses fenômenos terminam por desencadear, nos termos de Rosenau (2003), uma “transformação”, i. e., um movimento mais abrangente que mudanças localizadas, e que seria “a compressão, se não o colapso, do tempo e da distância, bem como das concepções alteradas de hierarquia, território, soberania e Estado” (ROSENAU, 2003 apud VERTOVEC, 2009, p. 22). Este fenômeno representaria a relação entre mudanças no nível micro dos indivíduos e alterações no nível macro das coletividades, constituindo mudanças estruturais e sistêmicas.

Depois de apresentar as ideias básicas norteadoras da obra, Vertovec adentra a especificação de outras ferramentas conceituais essenciais ao tema, a partir de relações com as ideias de níveis de análise distintos, porém interconectados –semelhante aos “Jogos de Dois Níveis” de Robert Putnam, em que o processo decisório é trabalhado a partir dos níveis de análise doméstico e internacional. Mais adiante, aborda as transformações sócio-culturais e sobre a vida dos indivíduos por meio das conexões transfronteiriças entre os migrantes internacionais, que, em seguida, dá origem a: um capítulo específico sobre as transformações ocorridas na “tríade analítica” de “identidades-fronteiras-ordens”, através de uma análise focada em mudanças políticas; um capítulo sobre alterações econômicas, levadas a cabo pelas receitas transacionadas pelos migrantes, bem como pelas iniciativas empreendedoras surgidas nas comunidades de migrantes e nas comunidades de diáspora; e, finalmente, a um capítulo sobre as interações e mudanças culturais e religiosas resultantes dos fluxos migratórios, com potenciais transformativos no que diz respeito a tradições, credos e instituições.

Por fim, Vertovec intenta executar um apanhado geral sobre os efeitos do “transnacionalismo”. Aborda, em especial, o fenômeno migratório internacional, intensificado nas últimas décadas pelos mais variados produtos da chamada “globalização” – sobre as sociedades locais diretamente envolvidas (sociedades de origem dos migrantes, sociedades receptoras e regiões de trânsito) e a sociedade global como um todo, se é que se pode realmente considerar sua existência de forma prática.

Análise crítica

O certo é que não há como negar ou subestimar a presença dos vínculos transnacionais, que perpassam a existência – ou poderia se dizer, permanência – do Estado-nação nos moldes weberianos[v] e dos indivíduos e comunidades. Estes últimos, uma vez expostos ao fenômeno da “globalização”, vêem seus modos de vida modificados – para melhor ou para pior, não cabendo nesta análise valorações –, tanto pela inclusão dos novos grupos étnicos diaspóricos quanto pela passagem a uma cibercultura que desconsidera fronteiras em seus conjuntos de ação.

As transformações sociais, sócio-culturais, políticas, econômicas e religiosas – ressaltadas uma a uma ao longo da obra – constituem, destarte, metonímias do fenômeno transnacional, o qual pode ser caracterizado como símbolo de uma “modernidade líquida”, como apresentado por Bauman[vi], onde a solidez de culturas e instituições dá lugar a uma fluidez incerta, em que “as estruturas sociais seriam dissolvidas e não teríamos mais diferenciações políticas, de classe ou de qualquer outro gênero” (BAZZAN, 2012, p. 9).

Vai-se, assim, de encontro, conforme Bazzan (2012), à ideia de “fim da história” de Fukuyama, por se constatar que alterações sociais seguem ocorrendo. O “transnacionalismo” representa, retomando Vertovec, a conquista de uma arena – não só teórica, como vivenciada pelos indivíduos de diversos grupos culturais – que intensifica relações globais a despeito das características particulares presentes na constituição de cada um dos seus membros. Não que essas características cessem de existir, mas sim, que elas dão espaço a elementos sistêmicos de ampla influência e difusão.

A obra, como um todo, tem mérito por constituir uma visão ampla do fenômeno transnacional, apresentando vertentes e variáveis importantes para uma mais abrangente compreensão do tema. Dessa forma, o livro deve ser pensado como uma primeira base bibliográfica para os interessados na temática sociológica da “globalização”. É, contudo, imprescindível que uma possível pesquisa sobre o tema não se resuma a tal obra, devido ao fato de esta abordar apenas superficialmente os aspectos políticos, econômicos e culturais. Estes, ainda que não sejam negligenciados, constituem, no livro de Vertovec, parâmetros de análise acrescidos meramente de forma marginal ao foco analítico da obra na ideia de “transformação” – conforme conceituado anteriormente.

Por fim, pode-se considerar que a obra trabalhada se situa num campo teórico ainda em construção, apresentando contribuições relevantes, mas de forma alguma consubstanciando a base única para pesquisa sobre a temática. O estilo conciso do autor é destacado pela coerência na apresentação do tema e dos conceitos, o que constitui, talvez, a maior contribuição da obra, em termos epistemológicos.

Referências:

BAZZAN, Alexandre. Marcas dos Tempos – “O sonho da razão produz monstros”. In: Caros Amigos, ano XVI, Edição Especial Males do Mundo Atual. São Paulo: Editora Casa Amarela, julho de 2012, p. 9.

 OXFORD DIVERSITY PROJECT. Steven Vertovec. Disponível em: <diversity.psy.ox.ac.uk/research-team/steven-vertovec/>. Acesso em 5 de Agosto de 2012.

PRADO, Adriana. Istoé Entrevista Zygmunt Bauman, 24 de setembro de 2010. In: Istoé Online. Disponível em: <www.istoe.com.br/assuntos/entrevista/detalhe/102755_VIVEMOS+TEMPOS+LIQUIDOS+NADA+E+PARA+DURAR+>. Acesso em 5 de Agosto de 2012.

VERTOVEC, Steven. Transnationalism. London/New York: Routlegde, 2009.

 

[i] Diretor do Instituto Max-Planck para o Estudo de Diversidade Religiosa e Étnica e Membro Honorário da Cátedra de Sociologia e Etnologia da Universidade de Göttingen, Alemanha.

[ii] Todas as traduções de citações diretas são de responsabilidade do autor.

[iii] Na obra, o autor faz um apanhado geral das construções teóricas existentes sobre a ideia de globalização, porém, para os princípios desta resenha, considera-se esta a principal descrição do processo de globalização.

[iv] O autor examina o “transnacionalismo” como: morfologia social, tipologia de consciência, modo de reprodução cultural, fluxo de capital, lócus de engajamento político e (re)construção de lugares e localidades.

[v] Por Estado-nação nos moldes weberianos se quer dizer a existência de uma autoridade soberana sobre um dado território e sobre uma dada população, independente das demais – que apresentam pressupostos idênticos – no Sistema Internacional.

[vi] É importante deixar claro que referências a outros autores são de responsabilidade do autor desta resenha, integrando a interpretação dada ao texto original; não tendo sido, portanto, citados originalmente por Vertovec (2009).

 

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