A ação chinesa em Angola

Raysa Kie Takahasi

Resumo

A China tem um grande programa de cooperação voltado para a África devido a sua necessidade de obter fontes de matéria-prima para sustentar o seu crescimento econômico. O modelo de cooperação que a China adota para os países africanos varia de acordo com as especificidades de cada país. Angola é um grande parceiro da China, pois o país africano é o segundo maior produtor de petróleo do continente, ficando atrás apenas da Nigéria.

Introdução

A China possui interesse na cooperação com a Angola devido à necessidade de obtenção de petróleo localizado em seu território. O país é o segundo produtor deste óleo mineral e possui reservas offshore, localizadas no fundo do mar. A cooperação entre esses dois países traz benefícios para ambos, e seu objetivo é a obtenção do desenvolvimento mútuo. Porém, apesar dos pontos positivos, pode-se observar uma assimetria na relação entre esses dois países, em que um lado recebe mais benefícios que outro.

As relações sino-africanas

China e Angola estabeleceram oficialmente suas relações diplomáticas em 12 de janeiro de 1983, e desde então, têm firmado diversos acordos de cooperação econômica . A principal ação chinesa em Angola é por meio de investimento na infra-estrutura, principalmente na construção de linhas ferroviárias para a extração de minérios.
O Modelo de ação chinês para Angola é o Infraestructure-for-oil. Este modelo consiste na oferta de empréstimos com taxas de juros baixas que são subsidiadas pelo governo chinês. O dinheiro deste empréstimo deve ser destinado à infra-estrutura do país, por meio da contratação de serviço de empresas de construção chinesas. Vale ressaltar que os investimentos em infra-estrutura não precisam ser necessariamente em setores que beneficiem a extração do petróleo. Os maiores investimentos foram feitos para a melhoria de distribuição de água e energia elétrica no país. Após um prazo previamente estipulado, o empréstimo é pago por meio da exportação de barris de petróleo que é extraído das reservas angolanas.
Segundo o jornal angolano O País, em março de 2012 Angola tornou-se o segundo maior fornecedor de petróleo para a China, ficando atrás apenas da Arábia Saudita. No mês citado, o país exportou em média 860 mil barris de petróleo diariamente, o que equivale a cerca de 50% da produção nacional.

Aspectos positivos para Angola

O investimento chinês possibilitou a reestruturação da infra-estrutura angolana. Um exemplo que ilustra bem essa situação é a obtenção de investimentos para a reconstrução de Angola após o término da guerra civil em 2002.
Os recursos financeiros emprestados pela China são eficazes, porque são pouco passíveis de serem desviados para outros fins. Todo empréstimo tem que passar pelo Banco Chinês, e é transferido diretamente para as empresas de construção chinesas. Tais empréstimos chineses contam com a vantagem de serem atraentes para os países africanos pois outras fontes de empréstimos, como o Banco Mundial ou o Fundo Monetário Internacional impõem condicionalidades para a concessão de empréstimos.
A relação com a China também possibilitou que Angola adquirisse uma margem de negociação maior em relação aos parceiros tradicionais. A China se mostra como uma alternativa às imposições dos parceiros tradicionais, pois esta se dispõe a uma parceria estritamente comercial, e que, portanto, não se importa com aspectos acerca do desrespeito aos direitos humanos ou modelos governamentais adotados pelos países com que faz parcerias. Isso é uma vantagem para Angola na esfera econômica, porém, pode trazer implicações negativas à sua população.

Aspectos negativos

Apesar de seus benefícios, a relações sino-angolanas ainda apresentam alguns desafios que necessitam ser superados pelo país africano. O país necessita promover um aumento na parcela da mão-de-obra e matéria-prima angolana que são empregadas nas obras de infra-estrutura, já que 70% dos trabalhadores são provenientes da China. Com a diminuição dos serviços e materiais chineses, poder-se-ia aumentar as oportunidades de emprego para sua população local, além de possibilitar uma maior dinamização da economia angolana.
Outro problema a ser enfrentado é a qualidade questionável das construções feitas pelas empresas de construção chinesas. Um exemplo é o caso do Hospital Geral de Luanda, que foi o primeiro hospital público a ser construído no país depois de sua independência em 1975. A construção do hospital custou 8 milhões de dólares e suas obras foram realizadas pela construtora China Overseas Engineering Group Company (COVEC) . O prédio do hospital, porém, após quatro anos de sua inauguração, desabou por conta da má qualidade de sua construção.
Além da qualidade duvidosa do trabalho de infra-estrutura chinês, Angola também tem que se preocupar com a manutenção da infra-estrutura após sua conclusão, visto que muitas obras necessitam de reparos ou melhorias para o seu bom funcionamento.

Considerações finais

É possível afirmar que as relações sino-africanas trazem benefícios a ambas as partes. Por um lado, a China obtém o petróleo necessário para a sustentação de seu crescimento econômico. Por outro, Angola recebe empréstimos que são aplicados para a melhora de sua infra-estrutura.
Porém, cabe aqui ressaltar que apesar de benéfico, esse relacionamento é assimétrico, uma vez que os desafios enfrentados por Angola para o seu desenvolvimento são muito maiores que os da China.
O modelo de cooperação adotado no país africano beneficia muito mais a economia chinesa. Este modelo também fornece as condições para que as empresas construtoras chinesas se instalem na Angola, resultando em uma maior empregabilidade da mão-de-obra e matéria-prima chinesa em detrimento da angolana.
Portanto, para uma maior simetria na relação entre esses dois países, é necessário que Angola adote uma postura mais firme diante do seu relacionamento com a China. No entanto, a atraente oferta chinesa de empréstimos sem condicionalidades e com juros baixos, torna difícil essa mudança de posição por parte do país africano.

Referências

ALVES, Ana Cristina. A presença do Brasil e da China em Moçambique. Palestra promovida pela PUC-MG, realizada em 14 de maio de 2012, em Belo Horizonte.

BLACK PAST
http://www.blackpast.org/?q=gah/angolan-civil-war-1975-2002

CHINA.ORG
http://www.china.org.cn/english/features/focac/183584.htm

O PAÍS
http://www.opais.net/pt/opais/?det=26820&id=1551&mid=293

WORLD AFFAIRS JOURNAL
http://www.worldaffairsjournal.org/article/new-imperialism-china-angola

Cooperação Sul-Sul: África e China em busca do desenvolvimento:

http://www.pucminas.br/imagedb/conjuntura/CNO_ARQ_NOTIC20120319142135.pdf?PHPSESSID=27b16fb39ac59dff1289e6d81f13f3a3

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2 respostas para A ação chinesa em Angola

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