Os desafios à política externa da Coreia do Sul: A solução pode estar no G20?

Luciana Leal Resende Paiva

Márcia de Paiva Fernandes

Resumo

As relações de cooperação realizadas pela Coreia do Sul são, em sua maioria, bilaterais. Elas ocorrem, principalmente, com os EUA pelas questões de segurança regional, pois o país ainda possui tensões com as ameaças da Coreia do Norte, e com a China no que concerne às questões relativas ao desenvolvimento econômico. Porém, o governo sul-coreano busca outras parcerias para suprir suas demais necessidades. Sendo assim, o G20 demonstra ser uma alternativa, mas os indicadores demonstram que ele não está sendo uma solução efetiva para essa busca de novas parcerias.

Introdução

Caracterizada por ter alcançado um rápido e destacado desenvolvimento econômico, a Coreia do Sul é uma das maiores economias asiáticas, sendo um mercado atraente para os países da região, especialmente para a China. Contudo, o país enfrenta algumas dificuldades relacionadas ao equilíbrio de poder na região, o que faz com que suas alianças e parcerias econômicas oscilem entre seus parceiros tradicionais e as potências emergentes asiáticas.

Uma das maneiras adotada pela Coreia do Sul para tentar solucionar tais questões e, consequentemente, poder adotar uma política externa mais autônoma, é através de sua atuação no G20. O país atua nesse grupo com o objetivo de se projetar de forma mais contundente na Ásia e também para buscar ser um mediador entre os países desenvolvidos e os países em desenvolvimento.

Os desafios à política externa sul-coreana

A Coreia do Sul é um país que sofreu forte influência com as disputas da Guerra Fria, mas esse período também proporcionou um grande desenvolvimento econômico para o país. As políticas econômicas e sociais adotadas pelo governo sul-coreano permitiram que o país conseguisse se industrializar de uma forma que acelerou seu desenvolvimento, diminuindo a importância do setor agrícola na economia nacional. Tal desenvolvimento causou um significativo avanço social e de infraestrutura (BICHARA; CUNHA, 2009).

O atual cenário internacional, marcado por relações multilaterais, desafia a Coreia do Sul a conciliar seus interesses com seus possíveis aliados. A ascensão econômica da China e da Índia faz com que os EUA temam que sua influência na região seja afetada e, por isso, o continente asiático enfrenta atualmente um conflito de interesses entre tais países, principalmente em questões de segurança e de liderança econômica. Portanto, a atuação externa da Coreia do Sul é limitada pelas tensões geradas pelo relacionamento conflituoso entre as potências emergentes asiáticas e seu tradicional aliado, os EUA, o que dificulta sua inserção “de forma competitiva no plano econômico e assertiva no plano político” (BICHARA; CUNHA, 2009, p.287).

A histórica rivalidade da Coreia do Sul com sua vizinha do norte faz com que a diplomacia sul-coreana se divida entre duas correntes, a saber: uma que defende o distanciamento com a Coreia do Norte apoiado por uma aliança estratégica com os EUA, e outra que defende a manutenção do diálogo com tal país a fim de resolver as pendências entre ambos.

Assim sendo, os principais objetivos da política externa sul-coreana são:

[…] a resolução pacífica da questão nuclear da Coréia do Norte; a construção de uma aliança Coréia-EUA […]; o estabelecimento de um regime pacífico e durável na península coreana; a construção de uma base diplomática para o desenvolvimento asiático; o desenvolvimento de uma futura diplomacia com orientação global, o que inclui a consolidação das relações diplomáticas com os países vizinhos, a expansão dos esforços; e os esforços diplomáticos com o intuito de promover o desenvolvimento econômico do país (BICHARA; CUNHA, 2009, p. 293).

Uma das condições para o país alcançar tais objetivos é possuir uma economia forte que permita uma atuação externa de forma mais independente. Contudo, a rivalidade entre China e EUA, principalmente, impõe desafios à tais pretensões sul-coreanas e o G20 tem sido um dos foros onde a Coreia do Sul busca superar tais obstáculos.

A atuação da Coreia do Sul no G20

O governo sul-coreano vê no G20 uma oportunidade para superar as históricas dificuldades de sua política externa, que são resultado de questões geopolíticas e também econômicas (DONG-HWI, 2009). O país também defende que os membros do G20 devem construir uma ligação entre as recomendações propostas pelo grupo e a implementação em nível nacional. Ele se apresenta como capaz de superar as diferenças entre os países em desenvolvimento e os desenvolvidos, defendendo o crescimento sustentável (DONG-HWI, 2009).

A cúpula do G20 que ocorreu nos dias 11 e 12 de novembro de 2010 foi presidida pela Coreia do Sul, tendo ocorrido na capital Seul (G20 SEOUL SUMMIT, 2010). Uma das questões levantadas pelo país anfitrião foi o reconhecimento de que o início da recuperação econômica internacional foi devido ao elevado nível de cooperação entre os países do G20. A Coreia do Sul afirmou que continuaria a trabalhar para superar os efeitos da crise financeira internacional e defendeu que o G20 deveria definir a agenda do pós-crise, bem como elaborar medidas que proporcionariam o crescimento sustentado e equilibrado a nível global (MYUNG-BAK, 2010).

O governo sul-coreano afirmou que direcionaria seus esforços para alcançar um consenso entre os membros do G20 a fim de conseguir implementar um quadro forte para o crescimento sustentável e equilibrado. Afirmou também que trabalharia no sentido de construir um sistema mais eficaz para alertar sobre a ocorrência de crises e para monitorar os países sobre esta questão (MYUNG-BAK, 2010).

Embora busque no G20 um espaço para conciliar os interesses divergentes das potências asiáticas e dos EUA, as relações sul-coreanas têm se resumido a acordos militares com os últimos. As questões referentes aos problemas de segurança em relação à Coreia do Norte assumem um papel muito importante para a Coreia do Sul, o que incentiva essa relação bilateral com os EUA. Portanto, apesar de estar caminhando para uma cooperação multilateral e transformações políticas, a Coreia do Sul ainda possui impedimentos que dificultam a efetividade de sua atuação no G20 (MYUNG-BAK, 2012).

Considerações Finais

As relações entre a Coreia do Sul e os Estados Unidos são voltadas para questões militares, que representam a maior preocupação da política externa sul-coreana. Por outro lado, a China tem se tornado um dos maiores parceiros econômicos do país, tanto no mercado de exportação quanto no de importação. No G20, portanto, embora a Coreia do Sul busque a cooperação multilateral, procurando parceiros alternativos, ainda é complicado para o país desvincular-se de suas parcerias bilaterais, pois a relação com os EUA é necessária pelo receio que o país possui das ameaças feitas pela Coreia do Norte.

O impasse enfrentado pela Coreia do Sul em sua delicada política externa, fazendo com que o país privilegie suas alianças militares com os EUA, e sua forte parceria econômica com a China faz com que os demais objetivos que busca em sua atuação no G20 fiquem comprometidos. Assim sendo, torna-se difícil para a Coreia do Sul exercer um papel de apaziguadora das diferenças entre países desenvolvidos e em desenvolvimento no G20, por exemplo, e, consequentemente, outros países asiáticos adquirem maior relevância no grupo, como a China e a Índia.

Referências bibliográficas 

BICHARA, Julimar da Silva; CUNHA, André Moreira. A Coreia do Sul e o desafio da integração econômica da região da Ásia-Pacífico. PESQUISA & DEBATE, São Paulo, v. 20, n. 2 (36), p. 275-298, 2009. Disponível em: <http://revistas.pucsp.br/index.php/rpe/article/view/7444/5434>. Acesso em: 16 jun. 2012.

DONG-HWI, Lee. The G20 in Korea’s Diplomacy. G20 Research Group, 2009. Disponível em: < http://www.g20.utoronto.ca/events/lee-091106.html>. Acesso em: 04 abr. 2012.

G20 SEOUL SUMMIT. Disponível em: < http://www.g20.utoronto.ca/summits/2010seoul.html>. Acesso em: 04 abr. 2012.

MYUNG-BAK, Lee. Seoul G20 Summit: Priorities and Challenges. Davos Forum Special Address, 2010. Disponível em: < http://www.g20.utoronto.ca/summits/2010seoul.html>. Acesso em: 04 abr. 2012.

Anúncios
Esse post foi publicado em Ásia, G-20, Uncategorized e marcado , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para Os desafios à política externa da Coreia do Sul: A solução pode estar no G20?

  1. Pingback: Os desafios à política externa da Coreia do Sul: A solução pode estar no G20? – Conjuntura Internacional « Grupo de Pesquisa dos Países Emergentes

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s