Direitos Humanos: Fuga de dissidente chinês causa tensão na relação entre China e EUA

Luciana Leal Resende Paiva

Resumo

As vésperas de uma visita da Secretária de Estado, Hillary Cliton, à China ocorreu à fuga de um dissidente chinês de sua prisão domiciliar. O ativista foi até a embaixada estadunidense em Pequim pedir proteção, sendo esse mais um problema que o país asiático enfrenta com relação aos Direitos Humanos. Essa situação criou um clima de tensão entre os dois países que precisaram de vários dias de negociação para conseguirem um acordo sobre qual atitude tomar sem que a relação dos países ficasse estremecida. Além disso, é ano de eleições nos EUA e mudança de cúpula na China, esse fato pode ser prejudicial tanto ao presidente Obama quanto ao líder chinês Hu Jintao.

Introdução
O relacionamento entre EUA e China ocorre de forma estável, porém não se pode negar a existência de alguns picos de tensão. Essa semana um fato interessante chamou atenção de alguns analistas. Todavia, não foi a visita de Hillary Clinton ao país para discutir questões pertinentes às negociações estratégicas e econômicas entre eles, mas sim o fato de um dissidente chinês, cego, ter fugido de sua prisão domiciliar e buscado ajuda em uma Embaixada estadunidense localizada em Pequim. Para agravar a situação é um período de transição política tanto para a cúpula chinesa quanto para as eleições nos EUA.

A fuga e a reação de China e EUA

O dissidente chinês, Chen Guangcheng, é um advogado de 40 anos, que após ter contraído uma doença na infância ficou cego. É um ativista que luta contra o abuso contra pessoas deficientes e a esterilização forçada de mulheres após terem um filho e o aborto tardio – essa é uma ação política do governo chinês que só permite um filho por casal.
No ano de 2006, ele foi condenado a quatro anos e quatro meses de prisão, nesse período foi torturado e passou fome, por exemplo. Sua pena foi cumprida até 2010; após esse período Chen foi submetido à prisão domiciliar. Porém, sua família passou a ser espancada pela polícia chinesa. Há uma semana, ele conseguiu fugir de sua prisão domiciliar em um vilarejo rural. Guangcheng procurou proteção em uma Embaixada dos EUA localizada em Pequim. Essa fuga gerou uma tensão entre as relações chinesas e estadunidenses.
Barack Obama, presidente dos EUA, preferiu não se pronunciar oficialmente sobre o tema. Segundo ele, essas questões só seriam discutidas com as autoridades chinesas. E a Secretária de Estado Hillary Clinton anunciou que, na sua viagem, ocorrida alguns dias após o incidente, seriam tratados vários assuntos dentre os quais Direitos Humanos. O governo chinês, que normalmente não libera informações sobre suas ações, preferiu não se pronunciar sobre o caso.
Logo após o incidente, o governo estadunidense enviou o secretário de Estado assistente, Kurt Campbell e uma delegação para encontrar-se com o vice- chanceler Cui Tianki. A intenção era a negociação de atitudes que poderiam ser tomadas em conjunto com o governo chinês para que se chegasse a um acordo pacífico e favorável aos dois Estados .
Durante as negociações entre os países para tomarem uma decisão que fosse favorável aos dois, foi permitida a retirada do dissidente chinês da Embaixada. Ele precisou ser internado em um hospital, pois durante a fuga Chen machucou-se e quase quebrou a perna. A intenção inicial de Guangcheng era continuar morando em seu país de origem com sua esposa e os dois filhos, mas não como um criminoso e sim, uma pessoa livre. Porém, após alguns dias no hospital ele e sua família foram privados de liberdade. Sendo assim, Chen mudou de ideia e pediu asilo político aos Estados Unidos. A Casa Branca passou a ser pressionada por vários políticos e pessoas próximas a Chen, além de órgãos como a ChinaAid, que possui uma sede no Texas.

Questões políticas e a relação entre os países

Para alguns analistas, esse mal-estar causado pela fuga do ativista pode ter consequências desfavoráveis tanto à política estadunidense quanto a chinesa.
Para o governo chinês, o desrespeito aos Direitos Humanos abala a legitimidade do sistema político do país. Ainda, Chen é um famoso ativista e algumas autoridades internacionais por várias vezes pediram a sua libertação, dentre elas Hillary Clinton.
Além disso, a divisão entre as lideranças chinesas chama cada vez mais atenção, pois enquanto, o presidente Hu Jintao juntamente com seu grupo buscava uma solução em conjunto para a resolução do problema, outras lideranças do país pensavam em medidas coercitivas com relação ao ativista.
Segundo o analista Huang Jing , a China encontra-se em uma situação complicada, pois, “está em uma encruzilhada de reforma política; a repercussão geral e os protestos da população chinesa sobre o caso Chen mostram que esta pode ser uma oportunidade de virada no desenvolvimento político da nação” .
Enfim, tal situação expôs uma parte da política chinesa – que é feita com poucas informações liberadas, ou seja, é restrita a um pequeno grupo e a participação popular é reprimida.
Para os EUA, a questão também é muito complicada. A situação econômica do país ainda está estremecida devido à crise econômica mundial de 2008. A China é um de seus principais parceiros econômicos e, caso a sua relação ficasse estremecida, poderiam ocorrer perdas para a economia dos dois Estados.
Internamente, Obama está sendo pressionado tanto por democratas quanto por republicanos. O pré-candidato a presidência Mitt Romney, por exemplo, disse que a Embaixada de seu país não garantiu os direitos do dissidente chinês e nem proteção a sua família.
Neste sentido toda essa situação demonstrou um desafio às relações entre os países pois foram dias de negociações para chegar a uma resolução favorável aos dois sem que o relacionamento entre tais países ficasse estremecido.

Considerações Finais

Após dias de intensas negociações o governo chinês permitiu a saída de Chen com sua família do país. A China vai conceder ao dissidente toda a documentação necessária para a sua viagem. A informação foi dada pela agência oficial de notícias da China. Segundo, Victoria Nuland, porta voz dos EUA, o visto permitido a família de Chen, é para que o mesmo possa estudar nos Estados Unidos. O ativista, porém, não sabe se ficará no país de forma definitiva.
Hillary Clinton demonstrou satisfação com relação à atitude chinesa. Porém, ativistas de Direitos Humanos não acreditam que Chen sairá da China de forma rápida, e ainda pode sofrer com amaças do governo de seu país.
Essa situação não é fácil de ser analisada, mas destaca-se a necessidade de manter a parceria econômica e o fato de que se os EUA não tomassem nenhuma atitude, poderia ser prejudicial à reeleição de Obama. E na China, caso as ações fossem muito brandas poderiam encorajar outras pessoas a tomarem a mesma atitude, demonstram que as negociações não foram por preocupações com os Direitos Humanos.
Esse caso de Chen não é isolado, sendo constantes as reclamações pela falta de respeito aos Direitos Humanos no país. Como, por exemplo, um caso ocorrido em 2009, com o escritor Liu Xiaobo. Ele é um militante dos Direitos Humanos e foi condenado à prisão durante 11 anos, por ter escrito uma carta fazendo um apelo por reformas políticas no país. Apesar das manifestações da ONU para que ele fosse solto Xiaobo continua preso. E nenhuma atitude foi tomada até hoje.
A situação enfrentada pelos dois Estados foi delicada, e exigiu uma negociação feita com cautela em que foi possível chegar a um resultado positivo para os dois. Porém, ainda é cedo para tomarmos conclusões sobre o assunto, pois não sabemos como será a política chinesa para liberar o dissidente.

Referência

BBC.
<http://www.bbc.co.uk/portuguese/ultimas_noticias/2012/05/120501_obama_disidente_pai_rn.shtml&gt;
<http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/05/120504_china_chen_lk.shtml&gt;
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ÉPOCA.
<http://colunas.revistaepoca.globo.com/ofiltro/2012/04/30/fuga-de-dissidente-cego-ganhara-discussao-diplomatica-entre-eua-e-china/&gt;

GLOBO.
<http://g1.globo.com/videos/v/dissidente-chines-causa-crise-nas-relacoes-diplomaticas-entre-estados-unidos-e-china/1926906/
<http://g1.globo.com/mundo/noticia/2012/05/obama-e-pressionado-a-dar-asilo-a-dissidente-chines-3.html&gt;
<http://g1.globo.com/mundo/noticia/2012/05/hillary-elogia-china-por-deixar-chen-pleitear-estudo-no-exterior-1.html&gt;
<http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2012/05/china-permite-que-ativista-cego-va-estudar-nos-estados-unidos.html&gt;

THE INDEPENDENT.
<http://www.independent.co.uk/news/world/asia/mystery-of-dissidents-fate-casts-shadow-over-clintons-visit-to-beijing-7704335.html&gt;
<http://www.independent.co.uk/news/world/americas/activist-chen-guangcheng-wants-to-leave-china-7711624.html?origin=internalSearch&gt;

OPERA MUNDI.
<http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/21614/china+cede+e+autoriza+dissidente+a+deixar+o+pais+eua+concederao+visto.shtml&gt;

REUTERS BRASIL.
<http://br.reuters.com/article/worldNews/idBRSPE84208M20120503?pageNumber=1&virtualBrandChannel=0&gt;
<http://br.reuters.com/article/topNews/idBRSPE69701P20101008&gt;

TERRA
<http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI5753985-EI294,00-China+cogita+autorizar+Chen+Guangcheng+a+estudar+no+exterior.html>

ÚLTIMO SEGUNDO
<http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2012-05-01/fuga-de-ativista-chines-ofusca-visita-de-hillary-a-china.html&gt;

UNRIC.
<http://www.unric.org/pt/trabalho-e-estagio-na-onu/27048-onu-preocupada-com-condenacao-do-dissidente-chines-liu-xiaobo&gt;

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