François Hollande: Novas perspectivas para a França

Luiza Santana de Oliveira

Rafaella de Oliveira Carnevali 

Resumo

A vitória de François Hollande é vista por muitos como um novo começo para a política francesa, deixando as velhas práticas de austeridade para trás. Porém, o novo presidente irá encontrar desafios ao longo dos próximos 5 anos, os quais irão medir sua capacidade de gerir uma França que, embora seja um dos líderes do continente europeu, encontra-se mergulhada em uma crise financeira.

Introdução

As eleições francesas deram inicio a uma nova conjuntura para a Europa Continental. Temas como a atual condição francesa, as mudanças nas suas relações com a Alemanha e as questões levantadas durante a campanha eleitoral, são pontos chave para a compreensão da presente situação da União Europeia (EU), uma vez que todo o continente europeu vive momentos de tensão, especialmente no que se refere à sua economia.

Esses movimentos sociais, políticos e econômicos, podem ser percebidos nos países mais afetados pela chamada “crise do euro”, originada a partir da crise estadunidense de 2008. A crise europeia, que repercutiu com maior intensidade na Espanha, Portugal, Itália, Irlanda e Grécia, faz com que a vitória de François Hollande gere muitas especulações sobre o futuro do bloco europeu e dos seus membros.

A França, uma das mais fortes economias do continente europeu, elegeu pela primeira vez em 24 anos, um candidato do partido socialista, François Hollande, como seu novo presidente. A eleição de Hollande surge como fonte de grandes expectativas, principalmente para a população francesa. Sua primeira demanda como Presidente foi nomear um Primeiro Ministro, tarefa que se recusou a fazer durante sua campanha. A disputa pelo cargo ocorreu entre o líder do grupo parlamentar socialista, Jean-Marc Ayrault, e Martine Aubry, prefeita de Lille. Foi Ayrault escolhido para exercer o cargo de Primeiro Ministro.

Como novo Presidente, Hollande encontrará grandes desafios ao longo do seu mandato. A atual e crescente dívida francesa, o aumento da taxa de desemprego e a baixa taxa de crescimento do PIB são bons exemplos. Outra preocupação presente – e crescente – é a busca de um bom relacionamento político-econômico com a Alemanha, tendo em vista o impasse entre seus planos de crescimento para Europa e os atuais planos de austeridade defendidos pela Alemanha frente a atual condição econômica europeia.

Questões Econômicas

A questão de maior urgência a ser tratada refere-se ao atual quadro econômico francês. Enquanto a França atualmente se encontra com uma dívida equivalente a 89% do seu PIB um valor que gira em torno de €1808.1 bilhões, o desemprego, por sua vez, atinge 7,05 milhões de trabalhadores, o que representa um aumento de 3% em relação aos últimos 4 anos[i]. Sua balança comercial (saldo resultante da diferença entre importações e exportações) encontrava-se com um saldo negativo de, aproximadamente, 70 bilhões de euros em 2011, no mesmo momento em que o crescimento de seu PIB encontra-se abaixo de 0,5%[ii]. Essas questões são preocupantes, dado que a condição econômica de um país influencia diretamente seus aspectos sociais e políticos, os quais são de extrema importância não somente para França, como também para a Comunidade Europeia.

O povo francês vive um momento delicado, pois, apesar de a França ser um dos países mais importantes da União Europeia, foi despojada de sua classificação AAA[iii] caindo para AA na agência de classificação financeira Standard & Poors, em janeiro de 2012[iv]. A estagnação da economia francesa foi uma importante razão para a derrota de Sarkozy nas eleições, acrescidas às medidas de austeridade econômica[v], firmadas no último encontro do ex-presidente com a chanceler alemã, Angela Merkel.

Hollande tem intenções de implementar projetos que visam interligar a infraestrutura financeira europeia e incentivar maiores investimentos por meio do Banco de Investimento Europeu. Dessa maneira, no longo prazo, espera que o Banco Central Europeu seja capaz de auxiliar financeiramente cada Estado.

Como já explicitado durante sua campanha, François Hollande pretende fixar o alvo de redução do déficit francês em 3% no próximo ano e equilibrar o orçamento até 2017. Segundo o Presidente, os planos para os gastos públicos ao longo dos próximos 5 anos representam um montante de €20 bilhões, aproximadamente. No entanto, o FMI afirma que a taxa de crescimento do déficit da França no próximo ano estará em torno de 3,9%, fazendo com que os gastos do Estado francês em 2013, somente para diminuição desta dívida, sejam de €18 bilhões.

A fim de impulsionar a competitividade entre as empresas francesas, planeja-se reduzir a carga tributária sobre pequenas e médias empresas, além de buscar maiores recursos para pesquisa e desenvolvimento (P&D). No entanto, os planos para indexação do salário mínimo à inflação e ao crescimento econômico demonstram uma lógica contraria, pois podem levar a uma elevação nos custos trabalhistas. Tal análise é agravada se considerarmos que os atuais gastos públicos franceses correspondem a 56% de seu PIB, deixando exposta a dificuldade de implementação dessas políticas propostas pelo novo Presidente.

Questões Políticas

Durante o governo de Nicolas Sarkozy foi muito discutida a questão dos imigrantes ilegais frente à vulnerabilidade das fronteiras francesas, a partir do questionamento da Zona Schengen, e sua repercussão nos movimentos migratórios – fazendo com que a França ameaçasse sair do acordo se não fosse permitido um maior controle das fronteiras –, pois, conforme a afirmação do ex-presidente, “sem fronteiras não há nação, não há republica, não há civilização”[vi].

Além disso, foi dado um grande enfoque quanto ao tamanho da população islâmica na França. Sarkozy tratou da “ameaça” que a presença muçulmana representa para a cultura francesa, defendendo a proibição do uso de véus pelas mulheres muçulmanas. Essa posição do ex-presidente agradou a maioria da população, pois veem no estrangeiro a causa da difícil situação que a França se encontra. Esse apoio da população incentivou Sarkozy a defender durante sua campanha uma redução na imigração legal em 50%.

Hollande em seu discurso politico, explicitou a necessidade de um combate à imigração econômica, principalmente em tempos de crise, reforçando a necessidade de criação de quotas anuais para o número de imigrantes na França, numa tentativa de reduzi-la ao máximo. A força da candidatura de Hollande estava principalmente nos pontos mais críticos da de Nicolas Sarkozy, ao apoiar as identidades linguísticas minoritárias na França e a necessidade de um apoio, a partir da ratificação da Carta Europeia para Línguas Regionais ou Minoritárias, apoiou o direito de casamento de pessoas do mesmo sexo e o direito de voto em eleições locais para residentes estrangeiros. Essas questões devem ser consideradas importantes na medida em que parte da população francesa é oriunda de colônias francesas, e outros países, principalmente do Leste Europeu. No que tange ao seu estilo de governo, Hollande demonstra claramente, principalmente pela sua atitude durante sua posse e em seus recentes encontros com os principais lideres mundiais, que sua intenção é delimitar claras diferenças entre seu governo o de Sarkozy.

Relações Franco-Alemãs

Durante sua campanha eleitoral, Sarkozy foi apoiado explicitamente pelo Primeiro Ministro inglês David Cameron e por Angela Merkel. Porém, com a vitória da oposição, cabe à Hollande se preocupar com a construção de uma relação de confiança com a Alemanha. Considera-se construir, e não consolidar, pois, tanto Merkel quanto Hollande, são herdeiros de partidos essencialmente opostos. Sendo Merkel de tendências liberais (membro do Partido cristão-democrata alemão, CDU), enquanto Hollande é componente do Partido socialista francês.

A confluência de seus interesses encontra, dessa maneira, certos impasses, pois enquanto Merkel reitera sua crença nas medidas de restrição dos gastos estatais para recuperação europeia, Hollande afirma que tal inflexibilidade é exagerada. Essa característica faz com que uma possível aliança tenda a ser conflituosa, uma vez que o novo Presidente francês manifesta intenções de reformar a economia tanto francesa quanto europeia, visando principalmente o crescimento e a solidariedade entre os países europeus. Já Merkel, entende que a melhor política para a atual situação econômica europeia seria marcada pela austeridade, caracterizada pelo arrocho dos gastos públicos,

Além da discussão econômica, outras questões se colocam entre os dois frente à reformulação das políticas europeias. Tem-se, por exemplo, a problemática quanto à saída da França do Afeganistão, prometida nas eleições por François Hollande para ocorrer ainda em 2012. Essa atitude iria contra o acordo firmado junto à OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), que especificava a retirada das tropas em 2014. Merkel e David Cameron pedem o respeito, por parte dos países signatários do acordo, ao calendário previamente estipulado.

Assim, François Hollande encontra-se em uma Europa caracterizada pelo conservadorismo, visto principalmente em Merkel, na Alemanha, e em Cameron na Inglaterra. Isso faz com que suas propostas, tanto politicas quanto econômicas, sejam recebidas não somente pelo continente europeu, como também pelo mundo, com um maior receio.

Considerações Finais

Até o presente momento pode-se dizer que, por ser portador de um novo discurso, Hollande ganhou a simpatia da maioria do eleitorado francês. Podemos afirmar, a partir das recentes colocações franco alemãs, que chega-se ao fim a união entre a Alemanha e a França – conhecida como “Merkozy” – que existia desde 2009, e era marcada por medidas contracionistas. Hollande afirma a pretensão de um novo direcionamento para a economia do continente europeu, definida a partir de medidas de incentivos, tanto no nível estatal quanto no nível do bloco como um todo, ao crescimento econômico e à solidariedade entre os Estados, indo contra a logica anterior.

Enquanto isso, Merkel reitera sua crença nas medidas de restrição dos gastos estatais, enfatizando que Hollande terá dificuldades ao buscar incentivar políticas de crescimento, e um crescimento baseado no crédito. Consequentemente, o país que nos últimos anos foi o principal aliado da França, no primeiro momento, tende a se afastar dessa perspectiva.

Devido à potência e força da Alemanha, tudo leva a crer que, no longo prazo, Hollande terá que ceder: a flexibilidade se vê como necessária para os dois atores, já que ambos têm ciência do benefício de andarem juntos. Certamente, não apenas França e Alemanha perdem com essas divergências, já que, como líderes dentro da Comunidade Europeia, acabam afetando toda ela. Não obstante, cada repercussão fora do país altera também seus cenários internos, de forma que se espera não apenas pressão por parte de suas populações e governos, como da sociedade internacional.

Quanto ao resultado das eleições em si, podemos dizer que a vitória eleitoral de Hollande pode ser percebida como uma rejeição à Nicolas Sarkozy e seu estilo de governo conservador. Basta esperarmos para ver se, após a inspiradora onda dos novos ideais e paradigmas trazidos pelo novo Presidente, sua população ou o próprio Hollande verão de fato as melhorias almejadas.

 

Referências

 BBC.

http://www.bbc.co.uk/news/world-europe-17930695

http://www.bbc.co.uk/news/world-europe-15311645

THE ECONOMIST

http://www.economist.com/blogs/elysee/2012/05/frances-election

http://www.economist.com/blogs/elysee/2012/05/frances-new- president

http://www.economist.com/blogs/buttonwood/2012/05/european-markets

THE NEW YORK TIMES.

http://www.nytimes.com/2012/05/08/world/europe/francois-hollandes-victory-sharpens-european-austerity-debate.html?ref=france

http://www.nytimes.com/2012/05/07/opinion/krugman-those-revolting-europeans.html?ref=france

THE DAILY MAIL

http://www.dailymail.co.uk/news/article-2140427/Germany-collision-course-anti-austerity-president-sour-faced-Sarko-breaks-cover-official-duties.html#ixzz1uCpZL8r4

REUTERS REINO UNIDO.

http://uk.reuters.com/subjects/euro-zone

http://mediacdn.reuters.com/media/uk/editorial/frenchelection2012/data/index.html

REUTERS

http://www.reuters.com/article/2012/05/07/us-france-election-projections-idUSBRE8450AR20120507

 

INTERNATIONAL EXPATRIATES

http://www.expat-friendly.com/?+Sarkozy-says-Without-borders-there+

 RFI

http://www.portugues.rfi.fr/geral/20120516-posse-de-hollande-foi-marcada-por-ruptura-com-estilode-sarkozy

DN GLOBO

http://www.dn.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=2454898&seccao=Europa


[iii]Maior gradação atribuída a um país por agencias de classificação financeira baseada na estabilidade econômica.

[iv]Ao todo nove países europeus apresentaram quedas em suas classificações.

[v]Medidas de austeridade econômica são medidas que visam basicamente o corte de gastos públicos, através da diminuição dos salários dos servidores e de investimentos públicos em infraestrutura, além de buscar aumentar os impostos. Esse tipo de atitude conservadora é tomada quando o déficit publico é considerado insustentável.

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