O G20 e a crise na zona do euro: as implicações da atuação do Reino Unido

Márcia de Paiva Fernandes

Resumo

A crise financeira de 2008 trouxe vários problemas para a União Europeia, particularmente para a estabilidade do euro. As discussões no G20 sobre questões relacionadas à crise foram marcadas pela tentativa dos países europeus de recuperar suas economias e de “salvar” a moeda europeia. Neste sentido, a atuação do Reino Unido nas cúpulas do G20 merece destaque, principalmente devido às consequências de tal atuação para a União Europeia, tendo em vista que o governo britânico defende que os países europeus assumam suas responsabilidades para superar a crise e que defendam, sozinhos, a existência do euro.

Reino Unido é um dos membros da União Europeia[i] que não adotou o euro[ii]. A permanência da libra esterlina como moeda nacional gerou algumas críticas quando o Reino Unido ingressou no bloco europeu e havia a expectativa de que o euro acabaria sendo adotado pelo governo britânico. Porém, isso não se concretizou e a crise financeira de 2008, que ameaçou a estabilidade da moeda única europeia, foi uma grande oportunidade para o Reino Unido reafirmar seus motivos de não ter adotado o euro e também para defender as medidas que deveriam ser implementadas pelos países que o adotaram para conter os efeitos da crise.

A atuação britânica no G20[iii], um dos principais foros de discussão a respeito da crise de 2008, destaca que as questões defendidas pelo Reino Unido neste grupo são quase sempre contrárias às defendidas pela União Europeia e também pela França e pela Alemanha. Essas divergências têm gerado alguns conflitos de interesse entre tais membros do bloco europeu, mas, principalmente, têm gerado incertezas sobre as medidas que devem ser adotadas para a recuperação econômica da Europa.

O Reino Unido e a não adoção do euro

O Reino Unido é membro da União Europeia desde 1973 e é uma das principais economias do bloco. Contudo, não adotou o euro e não aderiu à zona Schengen[iv]. Antes de decidir se iria adotar o euro ou manter a libra esterlina como moeda nacional, o Reino Unido solicitou ao Tesouro inglês que realizasse um estudo sobre a viabilidade de trocar sua moeda. O estudo centralizou-se nas questões da convergência e da transmissão monetária da taxa de câmbio, do comércio e da opinião pública, entre outros pontos (PIRES, 2010).

A conclusão apresentada demonstrou que as políticas fiscal e monetária britânicas estavam equilibradas no período em que o estudo foi realizado e que a economia do Reino Unido apresentava um desempenho melhor quando comparada com a dos países da zona do euro, principalmente no que se referia à inflação e ao desemprego (PIRES, 2010). Assim, a adoção do euro pelo Reino Unido implicaria também na adoção de políticas planejadas para o conjunto dos países do euro, o que poderia comprometer o bom desempenho da economia britânica. Em outras palavras, o Reino Unido não teria mais a total independência na elaboração de políticas fiscais e econômicas específicas e teria que adotar as mesmas políticas dos países com menor desempenho econômico dentro do bloco europeu. O estudo também mostrou, por fim, que a opinião pública britânica não estava confiante em relação à substituição da libra esterlina por uma moeda europeia única (PIRES, 2010).

Ademais, o Reino Unido também se preocupava com mais duas outras questões. Uma delas era a possibilidade de que Londres perdesse definitivamente o status de centro econômico internacional para Nova Iorque caso a libra fosse substituída pelo euro devido à incerteza que esta mudança poderia gerar nos mercados internacionais, por exemplo. A segunda questão era a possibilidade de enfraquecer sua relação com os Estados Unidos, um de seus maiores aliados, caso adotasse o euro, pois isso levaria o governo britânico a adotar uma posição mais dinâmica e integrada na política europeia, o que poderia representar um distanciamento do governo estadunidense. (MENDONÇA, 2004).

Portanto, considerando todas essas questões, o governo britânico concluiu que a adoção do euro não seria viável para seus objetivos econômicos e políticos e, portanto, manteve a libra esterlina como moeda nacional.

A ameaça ao euro e a atuação do Reino Unido no G20

A estabilidade do euro sofreu uma das maiores ameaças desde sua criação com a crise de 2008 que, combinada com a grave recessão de países como Grécia, Itália, Espanha e Portugal, desestabilizou a economia dos países da zona do euro e evidenciou as próprias fraquezas institucionais da União Europeia, como a ausência de fiscalização do nível de endividamento dos países, por exemplo. Assim sendo, os líderes dos países da União Europeia dedicaram suas reuniões para discutir questões relacionadas à crise a fim de solucioná-la e evitar a perda de confiança no euro. Porém, os debates sobre a crise europeia também se estenderam ao G20, cuja última cúpula, em Cannes, foi marcada exclusivamente pela tentativa de conter a crise no continente e pela ajuda financeira que os países do grupo e também o Fundo Monetário Internacional (FMI) poderiam fornecer para a recuperação econômica da zona do euro (FERNANDES, 2012).

É interessante, portanto, observar a atuação do Reino Unido no G20 em relação às discussões sobre a crise europeia já que ele não adotou o euro e, por isso, defende interesses muitas vezes divergentes de outros países da União Europeia.

Uma das questões que mais diferencia o Reino Unido dos outros representantes europeus no G20 é sua afirmação de que quem deve realizar esforços para salvar a moeda europeia são os próprios países que a adotaram, e não o mundo inteiro ou as vinte maiores economias mundiais. O governo britânico defende que os países da zona do euro não devem fugir de suas responsabilidades com a crise, embora não tenha descartado a necessidade de existir uma coordenação mundial para solucioná-la, mesmo porque a crise financeira de 2008 não iniciou na Europa, mas atingiu proporções mundiais.

Ademais, o Reino Unido sempre afirmou no G20 que seu interesse prioritário é a salvaguarda da economia britânica e tem mostrado interesse também na atuação econômica dos países do grupo, principalmente após 2008. O primeiro-ministro britânico, David Cameron, chegou a apresentar para o G20 um plano para a direção econômica mundial que destacasse a importância do grupo e o crescimento econômico de todos os seus membros[v].

O Reino Unido também defende o reforço da Organização Mundial do Comércio (OMC) perante o G20. Para ele, a OMC deve atuar como protetora de todo o sistema do comércio mundial, deve possuir maiores poderes de fiscalização contra o protecionismo, deve solucionar os mecanismos de disputa comercial e atualizar suas regras a fim de promover a liberalização econômica[vi]. Em outras palavras, o Reino Unido defende que a OMC deve voltar a exercer suas funções básicas e, consequentemente, que o G20 não deve ampliar sua área de atuação a ponto de incorporar as funções de outras organizações internacionais.

Em relação a outros organismos internacionais de maior relevância, o Reino Unido defende que o Conselho Europeu de Estabilidade Financeira deve ser uma entidade independente do G20 e que deve adequar suas funções à situação atual da Europa[vii]. Em relação ao FMI, o governo britânico se mostra disposto a aumentar sua participação nos empréstimos realizados pelo fundo aos países com dificuldades financeiras, porém não concorda com o investimento nos fundos de resgate específicos de países que precisam de ajuda financeira. Em outras palavras, o Reino Unido é contra o investimento do FMI em um fundo de resgate do euro[viii], o que vai contra os objetivos dos representantes europeus na Cúpula do G20 em Cannes.

Considerações Finais

Embora não exista uma convergência total entre os países da zona do euro, pode-se afirmar que, ao menos na última cúpula do G20, todos eles possuíam um único objetivo: salvar suas economias e o próprio euro, mas com a ajuda de países não europeus, em especial os emergentes.

Assim sendo, o fato de as questões defendidas pelo Reino Unido no G20 divergirem das questões defendidas pelos representantes europeus neste grupo pode dificultar a elaboração de recomendações que possam solucionar a crise europeia e evitar que outras crises como esta ocorram novamente. Ademais, os EUA, geralmente defendem as mesmas questões que o Reino Unido no G20, destacando-as nas cúpulas do grupo.

Para o G20, então, existe um desafio em relação à solução da crise europeia: conciliar os interesses entre os representantes europeus que adotaram o euro e que foram mais afetados pela crise e os interesses britânicos, que não adotaram o euro, mas que não podem ser desconsiderados, tendo em vista o peso econômico e político que o Reino Unido representa no continente.

Na próxima cúpula do G20, que ocorrerá em junho, no México, os líderes dos países do grupo devem empreender esforços para encontrar soluções para a crise financeira e para a economia europeia, embora a situação esteja mais estável do que na cúpula de Cannes. Porém, conforme os próprios líderes do G20 reconheceram, será difícil encontrar as soluções mais adequadas em um encontro de poucos dias, principalmente para a complexa situação entre os países da União Europeia.

Referências

Expresso

http://expresso.sapo.pt/g20-reino-unido-esta-disponivel-para-aumentar-capacidade-financeira-do-fmi-david-cameron=f685143

FERNANDES, Márcia de Paiva. Um questionamento da centralidade dos emergentes: Brasil e China no G20. Artigo apresentado no III CENÁRIOS, Belo Horizonte, 2012.

Folha de São Paulo

http://www1.folha.uol.com.br/mundo/1001484-no-g20-premie-britanico-apresenta-plano-para-incentivar-crescimento.shtml

http://www.g20.org/en/g20/members

MENDONÇA, António. A integração monetária na Europa: da União Europeia de Pagamentos ao euro. Lisboa, 2004. Disponível em: <http://www.iseg.utl.pt/aula/cad319/6%20-%20Textos%20de%20apoio/Texto%20de%20apoio%20ao%20ponto%209%20do%20programa/integracao_monetaria_europa.pdf>. Acesso em: 31 mar. 2012.

 O Estado de São Paulo

http://economia.estadao.com.br/noticias/economia%20internacional,no-g-20-brasil-passa-a-apoiar-cpmf-global-,90981,0.htm

PIRES, Maria dos Anjos Ribeiro. Custos e benefícios da não participação do Reino Unido no sistema euro. Lisboa, 2010. Disponível em: <https://www.repository.utl.pt/bitstream/10400.5/1681/1/7TESE%20rev7%20%C3%BAltima.pdf>. Acesso em: 31 mar. 2012.

TAVARES, Vinícius. Os símbolos de uma integração: Schengen em perigo? Conjuntura Internacional, Belo Horizonte, 2011. Disponível em: <http://www.pucminas.br/imagedb/conjuntura/CNO_ARQ_NOTIC20110927101720.pdf>. Acesso em: 10 mai. 2012.

UK in Brazil

http://ukinbrazil.fco.gov.uk/pt/news/?view=News&id=581317782

União Europeia

http://europa.eu/about-eu/countries/index_pt.htm

[i] Os membros da União Europeia são: Áustria, Bélgica, Bulgária, Chipre, República Checa, Dinamarca, Estônia, Finlândia, França, Alemanha, Grécia, Hungria, Irlanda, Itália, Letônia, Lituânia, Luxemburgo, Malta, Países Baixos, Polônia, Portugal, Romênia, Eslováquia, Eslovênia, Espanha, Suécia e Reino Unido (UNIÃO EUROPEIA, 2012).

[ii] Dinamarca e Suécia também não aderiram ao euro (PIRES, 2010).

[iii] Os membros do G20 são: África do Sul, Alemanha, Arábia Saudita, Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, China, Coreia do Sul, Estados Unidos, França, Índia, Indonésia, Itália, Japão, México, Reino Unido, Rússia, União Europeia e Turquia.

[iv] A zona Schengen refere-se à área de livre circulação de pessoas na Europa, estabelecida através de tratados e acordos específicos (TAVARES, 2011).

[v] FOLHA DE SÃO PAULO, 2012.

[vi] FOLHA DE SÃO PAULO, 2012.

[vii] FOLHA DE SÃO PAULO, 2012.

[viii] EXPRESSO, 2012.

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